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Brasil ameaça retaliar União Europeia após restrições que atingem US$ 1,84 bilhão em proteínas animais

Governo diz ter cumprido exigências sanitárias e admite recorrer à reciprocidade caso negociação com a União Europeia não produza solução

por Daniel Wicker
04/09/2026 às 02h24
em Agronegócio
Brasil X União Europeia - Gazeta Mercantil

O Brasil elevou o tom contra a União Europeia após a entrada em vigor de novas restrições à importação de produtos brasileiros de origem animal e passou a admitir formalmente a adoção de medidas de reciprocidade caso as negociações com o bloco não produzam uma solução considerada satisfatória. A mudança atinge um fluxo comercial estimado em US$ 1,84 bilhão em 2025, com impacto principalmente sobre carnes e outros produtos de proteína animal exportados ao mercado europeu.

Em nota conjunta, os ministérios da Agricultura e Pecuária e das Relações Exteriores afirmaram que o governo brasileiro vê com “profunda preocupação” as restrições implementadas a partir de 3 de setembro. Brasília sustenta que apresentou documentação e informações adicionais solicitadas pelos europeus e que vem mantendo negociações técnicas e políticas desde maio, quando os Estados-membros da União Europeia aprovaram a lista de países autorizados a continuar exportando determinados produtos dentro das novas regras.

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O impasse envolve exigências relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção animal. A União Europeia passou a exigir dos fornecedores externos garantias equivalentes às aplicadas aos produtores europeus, incluindo a proibição do uso de antimicrobianos para promover crescimento ou aumentar rendimento e restrições a substâncias reservadas ao tratamento de determinadas infecções em seres humanos.

O Brasil contesta não o princípio de controle sanitário, mas a forma como seu sistema de produção foi enquadrado pelo bloco. O governo afirma ter implementado as medidas necessárias, fornecido informações às autoridades europeias e aceitado inclusive uma auditoria em cadeias produtivas brasileiras.

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Se o diálogo fracassar, Brasília deixou explícita uma alternativa que pode transformar a questão sanitária em um conflito comercial mais amplo: recorrer a mecanismos de reciprocidade previstos na legislação brasileira, às disposições do acordo entre Mercosul e União Europeia e aos instrumentos disponíveis no sistema multilateral de comércio.

Restrição atinge carnes, pescados, ovos e mel

As novas regras europeias alcançam diferentes categorias de produtos de origem animal e não se limitam à carne bovina. Entre as cadeias tratadas pelo governo brasileiro nas negociações estão carne de aves, carne bovina, pescados, ovos e mel.

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Pelas normas europeias, países que pretendem vender determinados animais e produtos de origem animal para consumo humano precisam apresentar garantias de cumprimento das regras sobre antimicrobianos e integrar uma lista específica de exportadores autorizados.

A regulamentação abrange categorias como bovinos, suínos, aves, ovinos, caprinos, produtos de aquicultura, leite, ovos, carne de coelho, caça de criação, mel e envoltórios de origem animal. A autorização é concedida produto por produto, o que significa que um mesmo país pode ser considerado habilitado para determinada cadeia e não para outra.

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A Comissão Europeia afirma que as exigências fazem parte da política de combate à resistência antimicrobiana, problema de saúde pública associado à perda de eficácia de medicamentos utilizados no tratamento de infecções.

Para entrar no mercado europeu, os produtos precisam ainda estar acompanhados da certificação oficial exigida e permanecem sujeitos aos controles nas fronteiras do bloco. Esses procedimentos podem envolver conferência documental, inspeção de identidade, exame físico, coleta de amostras e testes laboratoriais.

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A mudança regulatória começou a produzir efeitos em 3 de setembro. Países ou produtos que não estejam devidamente incluídos na relação de autorizados podem ser impedidos de ingressar no mercado europeu até que as garantias consideradas necessárias sejam aceitas.

Brasil diz ter entregue garantias exigidas pela UE

O governo brasileiro afirma que trabalha desde maio para evitar a interrupção das exportações. Segundo a manifestação conjunta da Agricultura e do Itamaraty, o país apresentou documentação relativa às cadeias afetadas e realizou sucessivas gestões junto às autoridades europeias.

Brasília também critica o processo adotado pela União Europeia. Na avaliação do governo, não houve diálogo prévio compatível com a dimensão da parceria comercial entre as duas partes antes da decisão tomada pelos Estados-membros em 12 de maio.

A tensão aumentou porque o Brasil considera que possui um sistema de defesa agropecuária capaz de fornecer garantias sanitárias equivalentes às exigidas para entrada no mercado europeu. O país exporta alimentos e produtos agropecuários para mais de 150 mercados e está entre os maiores fornecedores mundiais de proteína animal.

O governo argumenta ainda que a aplicação das novas barreiras ocorre justamente quando Brasil e União Europeia avançam na implementação de uma relação comercial mais profunda construída no âmbito do acordo com o Mercosul.

A avaliação brasileira é que a questão precisa permanecer no campo técnico e científico e não pode ser influenciada por interesses protecionistas. Essa observação ganha peso diante da resistência histórica de segmentos agrícolas europeus ao aumento da concorrência de produtos agropecuários do Mercosul.

Por enquanto, entretanto, a justificativa formal apresentada pela Comissão Europeia é sanitária. O bloco sustenta que todos os parceiros externos precisam demonstrar atendimento às mesmas restrições sobre antimicrobianos exigidas dos produtores europeus.

Auditoria europeia termina nesta sexta-feira

Um dos principais elementos para o desenrolar do impasse será uma auditoria conduzida por técnicos europeus no Brasil. A missão começou em 24 de agosto e tem conclusão prevista para esta sexta-feira, 4 de setembro.

O trabalho concentra-se inicialmente nas cadeias de carne de aves e mel. Durante a auditoria, técnicos brasileiros estão apresentando os mecanismos oficiais de controle, rastreabilidade e fiscalização utilizados na produção destinada à exportação.

Brasília destacou que aceitou a auditoria mesmo considerando que outros parceiros comerciais do bloco não teriam sido submetidos ao mesmo procedimento. O governo utiliza esse ponto para questionar o tratamento recebido pelo Brasil durante o processo de habilitação.

O encerramento da missão não significa que as restrições serão automaticamente suspensas. Os auditores ainda precisarão consolidar suas conclusões e a Comissão Europeia deverá avaliar se as garantias apresentadas são suficientes para alterar o enquadramento brasileiro.

A própria União Europeia reconhece que países atualmente ausentes da lista podem ser incluídos posteriormente. Para isso, precisam apresentar as informações necessárias e demonstrar conformidade com os requisitos estabelecidos.

Esse mecanismo abre caminho para uma solução negociada sem necessidade de uma disputa comercial mais ampla. A velocidade do processo, porém, será determinante para os exportadores brasileiros, porque cada período de restrição pode significar contratos suspensos, mercadorias redirecionadas e necessidade de buscar outros destinos.

Comércio afetado chegou a US$ 1,84 bilhão

Os produtos alcançados pelas novas restrições representaram aproximadamente US$ 1,84 bilhão em exportações brasileiras para a União Europeia em 2025, segundo dados citados no material sobre o início das medidas. A maior exposição está associada às carnes, embora outras categorias de origem animal também façam parte do conjunto atingido.

O valor precisa ser colocado dentro de uma relação comercial muito maior. Em 2025, as exportações brasileiras totais para a União Europeia chegaram a aproximadamente US$ 49,8 bilhões. Apenas os produtos agrícolas movimentaram US$ 21,8 bilhões em vendas brasileiras para o bloco, alta de 12% sobre o ano anterior.

O agronegócio é particularmente importante porque o Brasil mantém superávit estrutural nessa parte do comércio bilateral. Café, farelo de soja, soja em grãos, carne bovina, milho, açúcar e suco de laranja aparecem entre os itens relevantes da pauta destinada aos europeus.

As restrições sobre proteína animal, portanto, não paralisam o comércio agrícola entre Brasil e União Europeia, mas atingem algumas das cadeias mais relevantes da produção nacional e podem afetar empresas, frigoríficos, cooperativas e produtores inseridos nas cadeias exportadoras.

Existe também um efeito indireto. Quando um grande mercado fecha ou restringe compras, os produtos anteriormente destinados a ele precisam ser absorvidos por outros compradores. Dependendo do volume e da duração da restrição, essa redistribuição pode alterar preços e condições comerciais.

O Brasil possui a vantagem de contar com uma rede ampla de destinos para suas carnes e vem expandindo mercados na Ásia, Oriente Médio, África e outras regiões. Ainda assim, a União Europeia permanece importante pela escala, pelo poder de compra e pelas condições comerciais negociadas ao longo dos últimos anos.

Impasse atinge acordo Mercosul-União Europeia

A reação brasileira ficou mais dura porque parte dos produtos agora restringidos recebeu tratamento específico nas negociações do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.

O governo afirma que essas mercadorias foram objeto de cotas e reduções tarifárias e que sua exclusão do mercado europeu esvazia parte dos benefícios negociados pelo Brasil. Na avaliação oficial, uma restrição prolongada pode até modificar o equilíbrio de concessões que permitiu a conclusão do acordo.

O tratado entre os dois blocos foi assinado em janeiro de 2026 e cria uma das maiores áreas comerciais do mundo, reunindo um mercado de aproximadamente 720 milhões de consumidores e um Produto Interno Bruto combinado superior a US$ 22 trilhões.

Para o agronegócio brasileiro, uma das principais vantagens esperadas é justamente a ampliação do acesso ao mercado europeu em produtos nos quais o Mercosul possui grande competitividade.

Por isso, uma restrição sanitária aplicada às mesmas categorias beneficiadas por concessões comerciais gera um problema que ultrapassa o cotidiano das inspeções agropecuárias. O Brasil passa a discutir se os ganhos negociados no tratado permanecerão efetivamente disponíveis para os exportadores.

Ao mesmo tempo, normas sanitárias são tratadas separadamente de tarifas comerciais. Um acordo de livre comércio não elimina o direito das partes de estabelecer requisitos de saúde animal e segurança dos alimentos, desde que essas exigências sejam justificadas, não discriminatórias e compatíveis com os compromissos internacionais.

Esse será um dos pontos centrais caso a controvérsia deixe a mesa técnica e avance para mecanismos formais de solução de disputas.

Lei da Reciprocidade entra no horizonte

A ameaça brasileira ganhou peso porque o país dispõe desde 2025 de uma legislação específica para reagir a medidas comerciais unilaterais adotadas por outros países ou blocos.

A Lei nº 15.122, conhecida como Lei da Reciprocidade Econômica, estabelece critérios para suspensão de concessões comerciais, investimentos e determinadas obrigações relacionadas a direitos de propriedade intelectual quando medidas estrangeiras prejudicam a competitividade internacional brasileira.

Isso não significa que o governo já tenha decidido aplicar uma retaliação contra produtos europeus. A nota oficial afirma que o Brasil se reserva esse direito caso as tratativas não conduzam tempestivamente a uma solução.

A prioridade ainda é a negociação.

Antes de qualquer resposta mais ampla, o governo terá de avaliar a natureza da medida europeia, os instrumentos jurídicos disponíveis e os possíveis efeitos econômicos de uma reação. A Câmara de Comércio Exterior pode desempenhar papel importante caso o processo avance para mecanismos formais de reciprocidade.

Também existe a possibilidade de utilização dos mecanismos previstos no próprio acordo Mercosul-União Europeia ou no sistema da Organização Mundial do Comércio.

A escolha dependerá sobretudo de como Bruxelas responderá às informações brasileiras e aos resultados da auditoria.

Disputa sanitária pode virar conflito comercial

No curto prazo, o cenário mais provável continua sendo de negociação técnica. A União Europeia mantém a possibilidade de atualizar a lista de países autorizados à medida que novas garantias sejam aceitas, enquanto o Brasil procura demonstrar que seu sistema atende às exigências europeias.

A conclusão da auditoria em carne de aves e mel será o primeiro teste concreto dessa estratégia. Se houver reconhecimento das garantias brasileiras e retomada gradual das autorizações, o episódio poderá permanecer restrito ao campo sanitário.

Se o bloqueio se prolongar, porém, cresce a probabilidade de escalada.

Brasília já vinculou publicamente as restrições ao equilíbrio do acordo Mercosul-União Europeia e colocou sobre a mesa medidas de reciprocidade. Ao fazer isso, sinalizou que considera o custo econômico suficientemente relevante para justificar uma resposta fora da esfera exclusivamente sanitária.

Para o setor produtivo, a velocidade da solução será decisiva. As exportações potencialmente atingidas somaram cerca de US$ 1,84 bilhão no ano passado e fazem parte de cadeias em que o Brasil ocupa posição relevante no comércio mundial.

O impasse começa, portanto, como uma divergência sobre garantias relacionadas ao uso de antimicrobianos, mas já possui elementos de uma disputa comercial muito maior.

A União Europeia argumenta que está aplicando requisitos sanitários que valem igualmente para seus produtores e para fornecedores externos. O Brasil afirma ter fornecido as garantias exigidas, questiona o processo adotado pelo bloco e alerta que os obstáculos podem neutralizar concessões negociadas no acordo comercial.

A próxima etapa será definida pelo resultado do diálogo técnico. Caso ele falhe, o governo brasileiro já deixou claro que a reciprocidade deixou de ser apenas uma possibilidade teórica.

Fontes:

Ministério da Agricultura e Pecuária e Ministério das Relações Exteriores – nota conjunta sobre as restrições europeias a produtos brasileiros de proteína animal

Comissão Europeia – Regulamento sobre medicamentos veterinários e regras de uso de antimicrobianos aplicáveis às importações

Comissão Europeia – lista de terceiros países autorizados a exportar animais e produtos de origem animal

Ministério da Agricultura e Pecuária – dados do comércio agrícola entre Brasil e União Europeia

Agrostat e Secex/MDIC – estatísticas de exportações brasileiras para o mercado europeu

Lei nº 15.122/2025 – Lei da Reciprocidade Econômica

Siscomex – informações sobre o Acordo Mercosul-União Europeia

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