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Alpargatas (ALPA4) dispara 11% após 2T26; XP vê surpresa operacional e JPMorgan mantém cautela

Ações da dona da Havaianas avançam após resultado superar projeções de analistas, com expansão de margens no Brasil e melhora das operações internacionais; JPMorgan mantém recomendação neutra.

por João Souza
08/08/2026 às 11h16
em Empresas
Alpargatas (Alp4) - Gazeta Mercantil

As ações da Alpargatas (ALPA4) chegaram a subir cerca de 11% nesta sexta-feira (7), figurando entre as maiores altas do Ibovespa após a divulgação de um segundo trimestre de 2026 que superou as expectativas do mercado. Por volta das 11h50, os papéis eram negociados perto de R$ 13,61, em uma reação positiva a números que reforçaram a recuperação operacional da dona da Havaianas no Brasil e, principalmente, mostraram avanços mais consistentes nas operações internacionais.

A surpresa veio sobretudo do desempenho operacional. Segundo avaliações da XP Investimentos e do JPMorgan, o Ebitda ajustado ficou acima das projeções das duas instituições: a XP calcula uma superação de aproximadamente 16%, enquanto o JPMorgan aponta resultado cerca de 22% superior ao que esperava para o período.

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A combinação de margens melhores no mercado brasileiro, recuperação internacional e disciplina financeira fortaleceu a percepção de que a reestruturação conduzida pela companhia começa a produzir resultados mais visíveis. O avanço ocorreu mesmo em um trimestre no qual a Alpargatas aumentou os gastos de marketing relacionados à Copa do Mundo, um fator que poderia ter pressionado a rentabilidade.

A reação das ações, entretanto, não eliminou todas as dúvidas sobre a tese de investimento. Embora reconheça a melhora operacional, o JPMorgan manteve recomendação neutra para ALPA4 e preço-alvo de R$ 13,50, argumentando que parte da recuperação da empresa já vinha sendo incorporada às cotações.

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Resultado do 2T26 supera expectativas dos analistas

O segundo trimestre confirmou uma tendência que já vinha aparecendo nos números anteriores da Alpargatas: maior controle operacional no Brasil e recuperação gradual das operações internacionais.

Antes mesmo da divulgação do balanço, a XP apontava a companhia como um dos possíveis destaques positivos da temporada de resultados do varejo e consumo, principalmente pela expectativa de expansão de rentabilidade. A instituição vinha observando melhora na operação doméstica e sinais de que o negócio internacional começava a entrar em uma nova fase.

Os números divulgados pela companhia reforçaram essa leitura. A surpresa positiva não decorreu apenas de algum efeito financeiro ou evento extraordinário, mas principalmente da própria operação, fator considerado mais relevante pelo mercado por indicar capacidade de sustentação dos resultados.

Para a XP, o Ebitda ajustado ficou 16% acima de sua projeção. O JPMorgan calculou uma diferença ainda maior, de aproximadamente 22%.

Quando um indicador operacional supera as estimativas por uma margem dessa dimensão, investidores costumam revisar não apenas a avaliação do trimestre encerrado, mas também as projeções de lucro para os períodos seguintes, especialmente quando a diferença está associada a ganho de margem e eficiência.

Brasil consegue expandir margem mesmo com Copa do Mundo

A operação brasileira continuou sendo uma das principais fontes de resultado da companhia.

A Alpargatas conseguiu ampliar suas margens no país mesmo depois de intensificar os investimentos em marketing durante a Copa do Mundo, período em que a Havaianas aumentou sua exposição publicitária e promocional.

O comportamento das margens foi particularmente bem recebido porque maiores despesas comerciais poderiam ter consumido parte significativa do ganho operacional. O resultado indica que a empresa conseguiu absorver esse aumento de gastos sem comprometer a evolução da rentabilidade.

A XP também destacou a organização financeira e a geração de caixa apresentadas no período. A alavancagem permaneceu em aproximadamente 0,5 vez, mesmo diante das despesas extraordinárias relacionadas às iniciativas comerciais do trimestre.

Esse nível reduz a pressão financeira sobre a companhia e oferece maior flexibilidade para investimentos, distribuição de recursos aos acionistas ou eventuais iniciativas de expansão.

A situação é bastante diferente daquela observada durante etapas anteriores da reestruturação, quando estoques elevados, dificuldades internacionais e perda de eficiência operacional pesavam sobre a percepção dos investidores.

Internacional passa a reforçar resultado da Alpargatas

O principal sinal de mudança estrutural veio do exterior.

Durante anos, as operações internacionais estiveram entre os maiores desafios da Alpargatas, principalmente pela dificuldade de transformar a força global da marca Havaianas em rentabilidade consistente fora do Brasil.

No segundo trimestre de 2026, porém, o desempenho internacional ganhou importância na surpresa positiva apresentada ao mercado. A margem Ebitda da divisão atingiu aproximadamente 29%, enquanto o Ebitda mais do que dobrou em relação ao mesmo período do ano anterior.

A recuperação é relevante porque modifica uma das principais fragilidades da tese de investimento.

Enquanto o Brasil historicamente concentra elevada força de marca, distribuição e reconhecimento de produto, a operação internacional enfrentou problemas relacionados a modelo comercial, custos, canais de venda e eficiência da estrutura.

Se a melhora observada no trimestre se mostrar sustentável, a divisão internacional poderá deixar de funcionar como um fator de pressão sobre o resultado consolidado e passar a contribuir de maneira mais relevante para o crescimento da companhia.

Europa tem temporada forte

A Europa foi um dos elementos positivos destacados pelos analistas.

A companhia atravessou uma temporada considerada forte na região, beneficiando-se do período de maior demanda por produtos de verão e do avanço das iniciativas comerciais implementadas nos últimos trimestres.

A sazonalidade é particularmente importante para Havaianas porque as vendas de sandálias estão fortemente relacionadas às temperaturas e ao calendário de férias no Hemisfério Norte.

Uma temporada europeia bem executada permite combinar volumes maiores com melhor utilização da estrutura e maior diluição dos custos fixos.

Mais importante para os investidores, porém, será verificar se a melhora se mantém quando o efeito sazonal diminuir e se a companhia conseguirá preservar margens em bases comparáveis.

O próximo passo será transformar a recuperação observada em um resultado recorrente, reduzindo a volatilidade que historicamente marcou parte das operações internacionais.

Novo modelo comercial nos Estados Unidos começa a mostrar resultado

Os Estados Unidos também aparecem como uma das peças centrais da recuperação.

A Alpargatas vem alterando o modelo comercial da Havaianas no mercado norte-americano, buscando uma operação mais eficiente e adequada às características locais de distribuição.

Segundo as avaliações apresentadas após o balanço, os primeiros resultados dessa estratégia são encorajadores.

A importância dos Estados Unidos não está apenas no tamanho potencial do mercado consumidor. O país é também uma vitrine global para marcas de moda e lifestyle, o que significa que uma operação saudável pode produzir efeitos comerciais e de posicionamento que ultrapassam as vendas diretamente registradas na região.

O processo, contudo, ainda é considerado uma transição. Os próximos trimestres serão necessários para demonstrar se a melhora consegue permanecer consistente e se o modelo adotado produzirá crescimento com rentabilidade.

Rothy’s aparece como ponto de atenção

Nem todas as operações apresentaram a mesma evolução.

A Rothy’s, marca norte-americana de calçados produzidos a partir de materiais reciclados e na qual a Alpargatas mantém investimento, registrou redução de vendas e Ebitda, aparecendo entre os principais pontos de atenção mencionados pelos analistas.

A companhia investiu na Rothy’s como parte de uma estratégia de diversificação e expansão internacional, mas o desempenho do ativo continua sendo acompanhado pelo mercado devido à necessidade de demonstrar geração de valor consistente.

A queda nos indicadores da marca contrasta com a melhora da operação internacional de Havaianas e impede uma leitura totalmente uniforme do trimestre.

Para os investidores, a questão será avaliar até que ponto o desempenho mais fraco da Rothy’s representa uma dificuldade conjuntural ou exige novas medidas de ajuste.

Alta do petróleo também entra no radar

Outro risco levantado nas avaliações após o balanço é a recente valorização do petróleo, impulsionada pelas tensões geopolíticas internacionais.

A relação pode não ser imediata para quem observa uma fabricante de sandálias, mas parte das matérias-primas utilizadas pela indústria de calçados possui ligação com derivados petroquímicos.

Uma alta prolongada do petróleo pode elevar custos e pressionar margens caso a companhia não consiga compensar o movimento com produtividade, composição de produtos ou aumentos de preços.

O impacto dependerá da duração da valorização, da estrutura dos contratos de fornecimento, do câmbio e da capacidade de repasse ao consumidor.

Depois de um trimestre marcado justamente por expansão de rentabilidade, qualquer mudança relevante nos custos de matéria-prima passa a ser acompanhada com atenção.

XP já esperava Alpargatas entre os destaques positivos

A surpresa do segundo trimestre não surgiu completamente fora do radar.

Em sua prévia para a temporada de balanços, publicada em julho, a XP colocou a Alpargatas entre os destaques positivos esperados do segmento de consumo e varejo, ao lado de outras empresas que poderiam se beneficiar de dinâmicas específicas do período.

A casa já previa expansão de rentabilidade para a companhia, depois de observar sinais semelhantes no início de 2026.

No primeiro trimestre, a própria XP havia classificado os resultados da Alpargatas como fortes e destacado que o Ebitda ficara 17% acima de sua estimativa, principalmente pela performance brasileira e pelo início de um ciclo mais favorável nas operações internacionais.

O segundo trimestre, portanto, acrescentou evidências à tese de recuperação, em vez de representar uma mudança inteiramente nova de direção.

O ponto que surpreendeu foi a intensidade da execução: mesmo depois de expectativas mais favoráveis, o Ebitda voltou a superar significativamente as projeções.

JPMorgan vê espaço para revisão de lucros

O JPMorgan considera que o desempenho pode levar analistas a revisarem para cima as estimativas de lucro da Alpargatas para 2026 e 2027.

Esse tipo de revisão é particularmente relevante para o comportamento da ação porque altera os múltiplos de valuation.

Quando o lucro projetado aumenta e o preço da ação permanece constante, indicadores como preço sobre lucro tendem a ficar mais baixos, tornando o ativo aparentemente mais barato. O contrário acontece quando as projeções são reduzidas.

O resultado do segundo trimestre oferece, portanto, suporte para uma possível elevação das estimativas do mercado.

O banco norte-americano, entretanto, não transformou essa avaliação em uma recomendação mais otimista para o papel.

JPMorgan mantém recomendação neutra

Mesmo reconhecendo os avanços, o JPMorgan manteve recomendação neutra para as ações da Alpargatas. O preço-alvo informado é de R$ 13,50, o que representava aproximadamente 10% de potencial de valorização em relação ao fechamento da quinta-feira (6), antes de o mercado incorporar o resultado.

A reação desta sexta-feira reduz naturalmente essa distância. Com ALPA4 negociada perto de R$ 13,61 por volta das 11h50, a cotação intradiária chegou inclusive a superar o preço-alvo mencionado pelo banco. Essa dinâmica ajuda a explicar a cautela.

O mercado reagiu rapidamente à melhora dos fundamentos, elevando o valor atribuído à companhia e incorporando parte do potencial que anteriormente poderia justificar uma visão mais positiva.

Para que uma nova rodada consistente de valorização ocorra, investidores poderão exigir novas evidências de crescimento, recuperação internacional e expansão de rentabilidade.

Recuperação operacional muda debate sobre ALPA4

A discussão em torno da Alpargatas está gradualmente mudando de natureza.

Depois de um período em que investidores concentravam atenção na necessidade de corrigir estoques, reorganizar operações e recuperar margens, os números mais recentes começam a direcionar o debate para a sustentabilidade do crescimento.

O Brasil permanece como uma operação fundamental e rentável, mas a principal oportunidade de mudança no perfil da companhia está no exterior.

Uma operação internacional capaz de crescer com margens elevadas altera significativamente o potencial de geração de resultados da dona da Havaianas e reduz a dependência do mercado doméstico.

Ao mesmo tempo, riscos permanecem. Rothy’s ainda demanda atenção, matérias-primas podem sofrer pressão com o petróleo e a valorização recente das ações aumenta o nível de resultado necessário para surpreender novamente.

Nesta sexta-feira, porém, a leitura predominante do mercado foi positiva. O avanço de cerca de 11% de ALPA4 mostra que o segundo trimestre conseguiu entregar mais do que uma melhora já esperada: trouxe novos sinais de que a recuperação operacional da Alpargatas está ganhando consistência, especialmente fora do Brasil.

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