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Americanas avança na venda do Natural da Terra ao Oba após aprovação do Cade

Operação de R$ 69,3 milhões envolve dez lojas em São Paulo; três unidades já foram transferidas e parte dos recursos será usada para amortizar debêntures.

por João Souza
14/08/2026 às 10h12
em Empresas
Lojas Americanas - Gazeta Mercantil

A Americanas (AMER3) avançou na redução de ativos considerados não estratégicos ao concluir a primeira etapa da venda de dez lojas da Hortifruti Natural da Terra em São Paulo para o Grupo Fartura de Hortifrut, controlador do Oba Hortifruti. A operação, avaliada em R$ 69,3 milhões, recebeu aprovação concorrencial sem restrições e teve seu primeiro fechamento parcial realizado em 12 de agosto, com a transferência dos ativos vinculados a três unidades.

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O Oba pagou R$ 3.497.931,15 nessa primeira etapa, valor equivalente a 33,7% da parcela à vista prevista para o conjunto da transação. Depois da dedução dos custos associados ao processo de M&A, o saldo foi direcionado pela Americanas para a conta destinada à amortização extraordinária das debêntures de sua 22ª emissão, conectando diretamente o desinvestimento à reorganização financeira da varejista.

O negócio não corresponde à venda integral da Hortifruti Natural da Terra. O contrato firmado em maio abrange dez lojas deficitárias localizadas no Estado de São Paulo e prevê transferências graduais à medida que as condições necessárias para cada unidade sejam cumpridas. As três lojas do primeiro fechamento representam, portanto, apenas a primeira parcela operacional de uma transação maior.

O desenho da operação mostra como a Americanas passou a tratar alienações de ativos desde a reestruturação iniciada após a crise de 2023. Mais do que gerar caixa de forma imediata, a companhia busca retirar operações deficitárias do perímetro consolidado e utilizar os recursos recebidos para reduzir compromissos financeiros estabelecidos no plano de recuperação.

Venda de R$ 69,3 milhões será concluída em etapas

A Americanas assinou o contrato com o Grupo Fartura em 13 de maio. O acordo fixou em R$ 69,3 milhões o preço pelos ativos utilizados na operação das dez lojas paulistas, sujeito aos ajustes previstos contratualmente. Naquele momento, o fechamento dependia, entre outras condições, da aprovação concorrencial.

A estrutura de pagamento foi dividida entre uma parcela à vista e prestações futuras. O valor à vista previsto para a transação completa é de aproximadamente R$ 10,4 milhões. O restante será quitado em 24 parcelas mensais, iguais e consecutivas, corrigidas pela variação positiva do CDI desde a data do fechamento correspondente até o efetivo pagamento.

Como a transferência ocorrerá gradualmente, o pagamento inicial também acompanha o fechamento de cada conjunto de ativos. Foi essa mecânica que levou ao desembolso de aproximadamente R$ 3,5 milhões pelas três primeiras lojas, em vez do pagamento integral dos R$ 10,4 milhões previstos para a tranche à vista.

As prestações relativas aos ativos já transferidos começarão a vencer no dia 15 do mês seguinte ao respectivo fechamento. A correção pelo CDI preserva financeiramente o valor a receber pela Americanas ao longo dos dois anos previstos para quitação do saldo.

A conclusão parcial também significa que sete das dez lojas incluídas no contrato ainda precisam passar pelas etapas necessárias para a transferência. Até que esses fechamentos ocorram, parcela do preço de R$ 69,3 milhões continuará condicionada ao cronograma definido entre comprador e vendedor.

Cade retirou uma das principais condições do negócio

A autorização concorrencial elimina uma das condições que impediam o avanço da operação quando o acordo foi anunciado em maio. O negócio foi aprovado sem restrições e sem oposição capaz de impedir sua implementação, abrindo caminho para as transferências físicas e contratuais previstas.

A análise concorrencial era necessária porque a transação envolve a transferência de ativos de uma rede de varejo alimentar para outro operador do mesmo setor. Com a aprovação, deixou de existir impedimento antitruste para que o Grupo Fartura assuma as unidades incluídas no contrato.

O aval, contudo, não transforma automaticamente todas as lojas em ativos do comprador. O contrato estabelece fechamentos separados, permitindo que as transferências ocorram conforme as demais condições específicas sejam atendidas.

Essa característica dá à operação uma estrutura diferente de uma aquisição fechada integralmente em uma única data. Para a Americanas, o reconhecimento financeiro e a entrada dos recursos acompanham cada etapa. Para o Oba, a incorporação das lojas também ocorre progressivamente.

Dinheiro recebido reduz dívida prevista na recuperação

O destino do pagamento é uma das partes mais relevantes da transação para a estrutura financeira da Americanas. Depois de descontados os custos relacionados ao M&A, o valor líquido recebido no primeiro fechamento foi depositado na chamada Conta Pagamentos M&A.

Essa conta foi criada dentro da arquitetura financeira da recuperação judicial para receber recursos provenientes de determinados desinvestimentos. O dinheiro é utilizado na amortização extraordinária de obrigações previstas no plano, entre elas as debêntures da 22ª emissão.

Dessa forma, o efeito financeiro da venda não se limita à entrada de caixa no balanço. Parte dos recursos tem destinação definida e reduz diretamente dívida financeira.

O plano de recuperação aprovado pelos credores estabeleceu mecanismos específicos para alienações e utilização do dinheiro obtido com esses ativos. A estrutura procura assegurar que determinados recursos extraordinários sejam direcionados à redução das obrigações renegociadas, em vez de permanecer integralmente disponíveis para despesas correntes.

Embora R$ 69,3 milhões seja um valor limitado diante da dimensão histórica do passivo submetido à recuperação da companhia, o negócio combina três efeitos: gera recursos, reduz dívida e elimina lojas que a própria Americanas classificou como deficitárias.

Lojas paulistas vinham pressionando operação da HNT

A natureza das dez unidades é fundamental para compreender a decisão econômica da venda. Quando comunicou o acordo, a Americanas identificou as lojas negociadas como operações deficitárias em São Paulo.

Isso significa que manter esses pontos exigia recursos que poderiam ser direcionados ao negócio principal ou a outras operações do grupo. Ao transferir as lojas, a varejista não obtém apenas o preço de venda; elimina também resultados negativos futuros associados aos ativos, desde que a transferência seja concluída conforme o planejado.

Esse fator é particularmente relevante em uma empresa que atravessa um processo de reconstrução financeira. Depois de concentrar esforços na renegociação de obrigações, a Americanas passou a buscar uma estrutura operacional menor e mais aderente à capacidade de geração de caixa.

A Hortifruti Natural da Terra tem características diferentes do núcleo tradicional da Americanas. A operação está concentrada em alimentos frescos, com dinâmica de estoques, perdas, logística refrigerada e frequência de compras distinta do varejo de variedades.

A alienação das lojas paulistas reduz a exposição da companhia a uma parte dessa estrutura, sem representar, até aqui, uma retirada completa do segmento.

Natural da Terra entrou na Americanas em outro ciclo estratégico

A presença da Hortifruti Natural da Terra no grupo remonta a 2021, quando a Americanas adquiriu o negócio em uma estratégia de expansão para novas categorias de consumo. O cenário empresarial era radicalmente diferente daquele encontrado pela companhia após a crise financeira revelada em 2023.

Naquele momento, a lógica era ampliar presença em alimentos frescos e aproveitar recorrência de compra, base de clientes e integração com canais digitais. A reorganização posterior mudou a prioridade do capital.

Depois da entrada em recuperação judicial, preservação de caixa, redução de dívida e concentração em operações capazes de gerar retorno ganharam precedência sobre uma estratégia ampla de expansão por aquisições.

É nesse novo desenho que deve ser interpretada a venda das dez lojas ao Oba. A companhia não está simplesmente trocando um ativo por dinheiro: está desmontando parte de uma estratégia de diversificação executada antes da crise e redistribuindo recursos para um modelo operacional mais concentrado.

O processo ocorre paralelamente a outros desinvestimentos previstos ou permitidos pelo plano de recuperação, com análise individual sobre quais ativos permanecem dentro da estrutura e quais podem ser monetizados.

Americanas ainda opera com prejuízo no varejo

A venda também ocorre enquanto a varejista tenta reconstruir sua rentabilidade operacional. Os resultados do segundo trimestre de 2026 mostraram que a companhia continua enfrentando dificuldade para converter recuperação comercial em lucro líquido.

A Americanas registrou prejuízo no período, ao mesmo tempo em que manteve o foco declarado na produtividade das lojas físicas, integração entre estoque e canais digitais, redução de despesas e simplificação da estrutura corporativa. A empresa apresentou seus resultados do segundo trimestre em agosto e mantém a reestruturação do portfólio como uma das frentes de gestão.

Nesse contexto, operações deficitárias assumem peso maior. Uma loja que consome caixa reduz o efeito dos ganhos obtidos em unidades mais produtivas e exige capital de giro que poderia ser empregado na recuperação do negócio principal.

A saída gradual das dez unidades paulistas da HNT funciona, portanto, como uma medida operacional e financeira simultânea. O impacto não deve ser medido somente pelo valor de venda, mas pela combinação entre redução de perdas futuras e amortização de dívida.

Oba amplia presença em São Paulo

Para o Grupo Fartura, o acordo permite incorporar pontos já estruturados para o varejo de alimentos frescos em um mercado no qual o Oba Hortifruti possui presença relevante.

A aquisição de ativos existentes reduz parte do intervalo necessário para crescimento orgânico, porque envolve lojas que já possuem localização, instalações e infraestrutura dedicada ao segmento. A utilização efetiva de cada ponto dependerá das adaptações e decisões comerciais do comprador após a transferência.

O contrato, entretanto, é uma venda de ativos vinculados às operações das lojas e não uma aquisição integral da HNT. Essa diferença delimita o perímetro econômico da transação e preserva outras partes da rede fora do negócio firmado em maio.

Para a Americanas, a estrutura gradual também permite realizar a saída sem condicionar todo o negócio à transferência simultânea das dez unidades.

Sete lojas ainda precisam chegar ao fechamento

A primeira transferência de três unidades marca a passagem da operação da fase contratual para a execução, mas ainda deixa a maior parte dos ativos pendente.

O valor de R$ 3,497 milhões pago até agora representa somente a fração da tranche à vista correspondente ao primeiro fechamento. As parcelas futuras desses três ativos serão pagas de acordo com o calendário contratual, enquanto os outros sete pontos seguirão sujeitos aos respectivos fechamentos.

À medida que novas unidades forem transferidas, novas frações do pagamento à vista deverão ser desembolsadas e os saldos correspondentes passarão ao cronograma de 24 parcelas corrigidas pelo CDI.

Para a Americanas, cada etapa concluída significa retirada adicional de uma operação deficitária e geração de recursos vinculados à reorganização da dívida. O benefício financeiro completo só poderá ser medido quando todas as lojas previstas no contrato tiverem sido transferidas e o pagamento integral estiver reconhecido.

O próximo marco da transação será, portanto, a conclusão dos fechamentos das sete unidades restantes. Até lá, a Americanas já eliminou a condição concorrencial que pesava sobre o acordo, entregou os três primeiros ativos e iniciou a utilização dos recursos da venda para amortizar as debêntures previstas em sua estrutura de recuperação.

Fontes:

  • Americanas S.A. — Comunicado ao Mercado sobre alienação de ativos da Hortifruti Natural da Terra em São Paulo — 13 de maio de 2026 — https://www.rad.cvm.gov.br/ENET/frmDownloadDocumento.aspx?CodigoInstituicao=1&Tela=ext&descTipo=IPE&numProtocolo=1530466&numSequencia=1055172&numVersao=1
  • Americanas S.A. — Comunicados e Fatos Relevantes — atualização consultada em 14 de agosto de 2026 — https://ri.americanas.io/informacoes-aos-investidores/comunicados-e-fatos-relevantes/
  • Americanas S.A. — Central de Resultados, resultados do segundo trimestre de 2026 — 13 de agosto de 2026 — https://ri.americanas.io/informacoes-aos-investidores/central-de-resultados/
  • Americanas S.A. — Plano de Recuperação Judicial — https://ri.americanas.io/recuperacao-judicial/plano-de-recuperacao-judicial/

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