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Anfavea prevê venda de 3 milhões de veículos em 2026, mas importados avançam no Brasil

Entidade revisou para cima as estimativas do setor automotivo após o melhor primeiro semestre desde 2019; alta das vendas contrasta com queda nas exportações e déficit na balança comercial de veículos

por João Souza
07/07/2026 às 15h43
em Economia
Anfavea Prevê Venda De 3 Milhões De Veículos Em 2026, Mas Importados Avançam No Brasil - Gazeta Mercantil

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) revisou para cima suas projeções para o mercado automotivo brasileiro em 2026 e passou a estimar que o país voltará a superar a marca de 3 milhões de veículos vendidos neste ano. Se confirmada, será a primeira vez desde 2014 que o setor alcança esse patamar.

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A nova estimativa representa uma alta próxima de 12% sobre 2025, quando foram emplacados 2,69 milhões de veículos novos no país. Em janeiro, a projeção da Anfavea era bem mais conservadora: crescimento de 2,7% nos emplacamentos, para 2,762 milhões de unidades.

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A revisão reflete a força do mercado interno, principalmente nos segmentos de automóveis e comerciais leves. Mas o avanço das vendas vem acompanhado de um alerta: parte crescente da recuperação está sendo capturada por veículos importados, enquanto as exportações brasileiras seguem em queda.

No primeiro semestre, o Brasil emplacou 1,420 milhão de veículos, alta de 18,5% em relação ao mesmo período de 2025. A produção somou 1,372 milhão de unidades, crescimento de 8,8%, no melhor desempenho para o período desde 2019, segundo dados da Carta da Anfavea de julho.

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Vendas devem voltar ao patamar de 2014

A projeção de mais de 3 milhões de veículos vendidos marca uma virada importante para o setor automotivo. Desde 2014, o mercado brasileiro não alcança esse nível de emplacamentos, em razão de uma sequência de crises econômicas, restrição de crédito, pandemia, falta de componentes e juros elevados.

Agora, a Anfavea vê um cenário mais favorável para veículos leves. Segundo cobertura da Reuters, a entidade estima crescimento de 13% nas vendas de automóveis e comerciais leves em 2026. Já o mercado de pesados, que inclui caminhões e ônibus, deve encerrar o ano em queda de 6%.

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O contraste mostra que a recuperação do setor não é homogênea. Enquanto o consumidor voltou às concessionárias em maior volume, empresas de transporte, logística e renovação de frotas ainda enfrentam custo de crédito elevado, incerteza de demanda e pressão sobre margens.

Produção também sobe, mas menos que as vendas

A Anfavea também elevou a previsão para a produção nacional de veículos. A estimativa passou de alta de 3,7%, divulgada em janeiro, para crescimento de 5,8% em 2026. Com isso, o Brasil deve fabricar quase 2,8 milhões de veículos no ano, acima dos 2,644 milhões produzidos em 2025.

Apesar da melhora, a diferença entre o ritmo de vendas e o de produção mostra que a indústria local não captura integralmente o aquecimento da demanda. No acumulado de janeiro a junho, os emplacamentos cresceram 18,5%, enquanto a produção avançou 8,8%.

Essa diferença é o ponto central da leitura da Anfavea. O mercado brasileiro está maior, mas a fatia atendida por veículos vindos do exterior também aumentou.

Importações superam exportações no semestre

O avanço dos importados levou o setor automotivo brasileiro a registrar déficit em unidades no primeiro semestre. Entre janeiro e junho, foram emplacados 280,6 mil veículos importados, acima das 216,6 mil unidades exportadas pelo país no mesmo período.

Na prática, entraram no Brasil cerca de 64 mil veículos a mais do que saíram. A China respondeu por aproximadamente metade dos importados, com forte presença em modelos eletrificados e híbridos.

Em apenas um ano, o volume de automóveis chineses vendidos no Brasil dobrou, passando de cerca de 70 mil para 140 mil unidades, segundo dados divulgados pela Anfavea e repercutidos por veículos do setor.

Eletrificados ganham participação recorde

A expansão dos veículos eletrificados é outro fator decisivo para a revisão das projeções. No primeiro semestre, os modelos eletrificados somaram mais de 130 mil unidades vendidas, incluindo veículos produzidos no Brasil e importados. Em junho, a participação desses modelos nas vendas de veículos leves atingiu 20,9%, nível recorde.

O avanço mostra uma mudança estrutural no consumo automotivo brasileiro. Híbridos, híbridos plug-in e elétricos puros passaram a disputar espaço em segmentos antes dominados por veículos flex tradicionais.

Para a indústria instalada no país, porém, o crescimento dos eletrificados traz uma disputa adicional. Parte relevante desses modelos ainda chega importada, especialmente da China, o que reforça a pressão sobre montadoras locais e fornecedores nacionais.

Carro Sustentável ajuda veículos de entrada

Além dos eletrificados, a Anfavea atribui parte do crescimento das vendas ao programa Carro Sustentável, voltado a modelos de entrada. Segundo a entidade, cerca de 73 mil unidades comercializadas no semestre tiveram impulso do programa.

A política ajudou a estimular a demanda por veículos mais acessíveis, em um mercado que vinha sofrendo com a elevação dos preços dos carros novos nos últimos anos. Ainda assim, o segmento de entrada segue limitado por juros altos e renda comprimida das famílias.

Esse ponto é relevante porque o retorno do Brasil ao patamar de 3 milhões de veículos vendidos depende não apenas da alta renda e dos eletrificados, mas também da recuperação do consumidor médio.

Exportações caem com Argentina mais fraca

Na outra ponta, as exportações seguem pressionadas. Em junho, os embarques de veículos recuaram 26,7% em relação ao mesmo mês de 2025. No acumulado do primeiro semestre, o Brasil exportou 216,6 mil veículos, queda de 21,2%.

A Anfavea atribui o desempenho fraco à redução da demanda da Argentina, principal destino externo da indústria automotiva brasileira, e ao aumento da concorrência de veículos produzidos na China e no México.

Diante desse cenário, a entidade passou a projetar queda de 12,8% nas exportações em 2026, revertendo a estimativa anterior de crescimento. Em janeiro, a previsão da Anfavea indicava exportações de 536 mil veículos no ano, alta de 1,3%.

O que o novo cenário mostra

A revisão da Anfavea confirma que o mercado automotivo brasileiro voltou a ganhar escala, mas também expõe um desequilíbrio crescente. O consumidor compra mais, a produção nacional cresce, mas as importações avançam em velocidade maior e as exportações perdem força.

Para as montadoras instaladas no Brasil, o desafio será transformar o aquecimento do mercado em produção local, emprego, conteúdo nacional e novos investimentos. Para o governo, a questão central passa por calibrar a política industrial para eletrificados sem reduzir a competitividade das fábricas brasileiras.

Se a projeção se confirmar, 2026 será o melhor ano em vendas de veículos desde 2014. Mas o dado mais importante para o setor talvez não seja apenas o retorno aos 3 milhões de emplacamentos. Será saber quanto dessa retomada ficará com a indústria nacional — e quanto será absorvido por importados.

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