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Assaí (ASAI3) paga R$ 7 milhões em juros por dia e reduz expansão para conter dívida

CEO Belmiro Gomes afirma que a alta da Selic mudou a conta da compra dos pontos do Extra e obrigou a rede a desacelerar investimentos.

por João Souza
23/06/2026 às 09h21
em Empresas
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O Assaí (ASAI3) desembolsa aproximadamente R$ 7 milhões por dia com despesas financeiras, incluindo fins de semana e feriados, em consequência do endividamento assumido durante sua expansão e da permanência dos juros brasileiros em níveis elevados. O custo chega a cerca de R$ 2,3 bilhões por ano e obrigou a rede de atacarejo a reduzir investimentos, desacelerar a abertura de lojas e concentrar esforços na geração de caixa e na diminuição da dívida.

Os números foram apresentados pelo presidente do Assaí, Belmiro Gomes, ao explicar os efeitos da política monetária sobre a companhia. Segundo o executivo, o aumento da Selic mudou de forma significativa a equação financeira da aquisição de 66 imóveis comerciais anteriormente ocupados por unidades do Extra, operação anunciada em 2021.

O Assaí desembolsou aproximadamente R$ 7 bilhões entre a compra dos pontos e as reformas necessárias para convertê-los ao modelo de atacarejo. Na época da decisão, a taxa básica de juros estava em 2% ao ano, e as projeções econômicas indicavam que a Selic poderia se estabilizar perto de 7%.

O cenário não se confirmou. Os juros subiram muito além das expectativas utilizadas pela administração para avaliar o investimento, elevando o custo da dívida e reduzindo os recursos disponíveis para novas lojas.

Apesar da pressão financeira, Gomes afirma que repetiria a aquisição dos pontos do Extra. O executivo reconhece, contudo, que teria negociado condições diferentes para a correção dos valores e o financiamento da operação caso soubesse que a taxa real de juros permaneceria tão elevada.

Compra do Extra transformou a presença do Assaí

A aquisição dos imóveis do Extra foi uma das maiores decisões estratégicas da história do Assaí.

A operação permitiu à rede ocupar endereços consolidados em áreas centrais de grandes cidades, locais nos quais a escassez de terrenos e as restrições de licenciamento dificultavam a construção de novas unidades.

Antes da compra, muitas lojas do Assaí estavam concentradas em regiões periféricas ou próximas a grandes corredores rodoviários, onde havia maior disponibilidade de áreas para instalações de grande porte.

Os antigos hipermercados do Extra ofereceram acesso a bairros densamente povoados e consumidores de diferentes faixas de renda.

A estratégia também buscava mudar a percepção de que o atacarejo seria um formato destinado apenas às famílias de menor renda ou aos pequenos comerciantes.

Com lojas maiores, estacionamentos e localização urbana privilegiada, o Assaí passou a disputar consumidores que anteriormente realizavam compras em supermercados convencionais.

Segundo Belmiro Gomes, alguns dos pontos adquiridos dificilmente poderiam ser replicados por concorrentes, tanto pelo valor dos terrenos quanto pelas limitações urbanísticas.

Os imóveis continuam sendo considerados ativos estratégicos, mesmo com o aumento do custo financeiro da operação.

Selic mudou a equação financeira da aquisição

Quando o Assaí aprovou a compra, o Brasil atravessava um período de juros historicamente baixos.

A Selic estava em 2% ao ano, e as expectativas do mercado apontavam para uma elevação gradual, sem a manutenção da taxa em patamares de dois dígitos durante vários anos.

A aquisição foi estruturada com base nesse ambiente. Parte do pagamento e dos investimentos nas reformas foi financiada por dívida, uma decisão comum em projetos de expansão quando o custo do capital é reduzido.

O problema surgiu quando a inflação aumentou e o Banco Central iniciou um ciclo de aperto monetário significativamente mais intenso do que o previsto.

Com a alta da Selic, empréstimos, debêntures e outras obrigações passaram a gerar despesas maiores. A companhia também precisou refinanciar parcelas da dívida em um mercado mais caro.

O impacto não ficou restrito ao Assaí. Empresas de varejo, construção, educação e outros segmentos dependentes de crédito enfrentaram aumento das despesas financeiras.

No caso do atacadista, porém, o efeito ganhou dimensão maior devido ao volume de recursos empregado na conversão das lojas do Extra.

Despesa financeira chega a R$ 2,3 bilhões por ano

O pagamento médio de R$ 7 milhões por dia representa aproximadamente R$ 210 milhões por mês e cerca de R$ 2,3 bilhões por ano, considerando as oscilações dos encargos ao longo do período.

Esse dinheiro deixa de ser utilizado em novas lojas, reformas, tecnologia, aquisições ou distribuição aos acionistas.

A despesa financeira também pressiona o lucro líquido, mesmo quando as operações comerciais apresentam crescimento.

Uma rede varejista pode aumentar vendas e resultado operacional, mas registrar lucro reduzido caso grande parte do caixa seja consumida por juros.

O desafio da companhia é ampliar a geração operacional em ritmo suficiente para pagar encargos e ainda reduzir o principal da dívida.

Segundo o CEO, o Assaí conseguiu diminuir a dívida líquida em R$ 1,2 bilhão no último ano, apesar da conta financeira elevada.

O resultado é apresentado pela administração como demonstração da capacidade de geração de caixa da companhia.

Para o mercado, a velocidade da desalavancagem será um dos principais indicadores acompanhados nos próximos balanços.

Companhia reduz ritmo de abertura de lojas

O cenário de juros levou o Assaí a rever seu plano de expansão.

A companhia chegou a trabalhar com a abertura de aproximadamente 15 lojas por ano, mas passou a adotar uma estratégia mais conservadora.

Para 2026, o plano corporativo prevê cerca de dez inaugurações e investimentos próximos de R$ 700 milhões.

Belmiro Gomes afirmou que cinco novas unidades deverão ser abertas no estado de São Paulo.

A redução dos investimentos permite preservar caixa e direcionar recursos à amortização de dívida.

O movimento não significa que a empresa tenha abandonado sua expansão, mas indica que projetos menos urgentes foram adiados.

Cada nova loja exige gastos com terrenos ou imóveis, obras, equipamentos, estoques, contratação de funcionários e marketing.

A unidade também precisa de um período para atingir maturidade e gerar retorno suficiente sobre o capital investido.

Com o custo financeiro elevado, o prazo de retorno aumenta e torna alguns projetos menos atraentes.

Dívida passa a ser prioridade sobre crescimento acelerado

A administração estabeleceu a redução da alavancagem como uma das prioridades estratégicas do Assaí.

A decisão busca recuperar flexibilidade financeira e diminuir a exposição da companhia às oscilações da Selic.

Uma empresa menos endividada consegue atravessar períodos de consumo fraco com maior segurança e dispõe de mais recursos para aproveitar oportunidades.

A desalavancagem também pode melhorar a percepção de risco dos credores e reduzir as taxas exigidas em futuras captações.

Para os acionistas de ASAI3, uma queda consistente da dívida pode permitir que o crescimento das vendas e da geração operacional seja refletido de forma mais direta no lucro líquido.

Enquanto os encargos permanecerem elevados, parte relevante dos ganhos operacionais continuará sendo transferida aos credores na forma de juros.

A estratégia atual envolve limitar investimentos, aumentar a produtividade das lojas existentes e utilizar o caixa para amortizar obrigações.

Assaí não abandona novos negócios

A desaceleração das inaugurações não interrompe a busca por novas fontes de receita.

O Assaí estuda ou desenvolve iniciativas em farmácias, marcas próprias, serviços financeiros, comércio eletrônico e postos de combustíveis.

A companhia também mantém parcerias com plataformas como iFood e Mercado Livre para ampliar as opções de compra e entrega.

Esses projetos permitem crescer sem exigir o mesmo volume de capital necessário para construir dezenas de lojas.

As marcas próprias podem aumentar margens e fortalecer a fidelização dos clientes, enquanto serviços financeiros podem gerar receitas adicionais a partir da base de consumidores.

As farmácias e os postos de combustíveis funcionariam como complementos ao fluxo já existente nos grandes terrenos ocupados pelas unidades.

O desafio será desenvolver essas atividades sem aumentar excessivamente a complexidade operacional ou comprometer a prioridade de redução da dívida.

Atacarejo disputa consumidor de diferentes rendas

O modelo de atacarejo ganhou participação no varejo alimentar brasileiro ao combinar preços baixos, embalagens de maior volume e uma estrutura de custos mais enxuta do que a dos supermercados tradicionais.

Inicialmente associado a pequenos comerciantes e consumidores de baixa renda, o formato passou a atrair famílias de diferentes classes sociais.

Inflação de alimentos, perda de poder de compra e busca por economia ampliaram o número de clientes.

O Assaí procurou aproveitar essa transformação ao adquirir lojas do Extra em bairros centrais e regiões de renda mais alta.

As unidades convertidas oferecem variedade e serviços mais próximos dos encontrados em supermercados, mas mantêm a estratégia de preços do atacarejo.

Essa combinação ajudou a empresa a ampliar seu faturamento e alcançar públicos que antes não frequentavam o formato.

A companhia recebe aproximadamente 40 milhões de clientes por mês em suas mais de 300 lojas espalhadas pelo país.

Faturamento cresceu sob comando de Belmiro Gomes

Belmiro Gomes assumiu a liderança do Assaí em 2011, quando a rede ainda representava uma operação menor dentro do antigo Grupo Pão de Açúcar.

Desde então, a companhia expandiu sua presença nacional, aumentou o número de lojas e tornou-se uma empresa independente listada na Bolsa.

O faturamento cresceu de cerca de R$ 3 bilhões para R$ 84,7 bilhões no período citado pelo executivo.

A rede possui mais de 90 mil funcionários e está presente em quase todos os estados brasileiros.

A expansão acelerada consolidou o Assaí como um dos principais grupos do varejo alimentar do país.

A compra das lojas do Extra representou o ponto mais agressivo desse ciclo.

Agora, a administração precisa provar que os ativos adquiridos conseguem gerar retorno suficiente para compensar o custo da dívida.

Imóveis permanecem como ativos estratégicos

Apesar da pressão dos juros, Belmiro Gomes sustenta que a aquisição continua fazendo sentido sob uma perspectiva de longo prazo.

As lojas ocupam endereços considerados escassos e de difícil reprodução.

Em grandes metrópoles, encontrar terrenos amplos, com estacionamento e acesso viário adequado, tornou-se um obstáculo relevante para redes varejistas.

O licenciamento de novos empreendimentos também pode levar anos e enfrentar restrições ambientais, urbanísticas e de trânsito.

Os antigos imóveis do Extra já possuíam parte dessa infraestrutura e reconhecimento comercial.

A reforma permitiu ao Assaí entrar rapidamente em regiões nas quais uma expansão orgânica seria mais lenta ou inviável.

A tese da administração é que a dívida será reduzida ao longo dos anos, enquanto os pontos comerciais continuarão gerando vendas e fortalecendo a presença da marca.

Juros elevados afetam investimento e consumo

O presidente do Assaí também criticou os efeitos mais amplos da política monetária sobre a economia brasileira.

Segundo o executivo, a taxa real de juros do país está entre as maiores do mundo.

Para as empresas, o custo elevado reduz investimentos, encarece estoques e aumenta a dificuldade para financiar expansão.

Para as famílias, juros altos tornam mais caros o cartão de crédito, o financiamento de veículos e outras modalidades de consumo.

O efeito pode reduzir a atividade econômica e aprofundar desigualdades, especialmente quando o aperto monetário permanece por um período prolongado.

No varejo alimentar, a demanda é relativamente defensiva porque as famílias continuam comprando produtos essenciais.

Ainda assim, consumidores podem trocar marcas, reduzir volumes e priorizar itens mais baratos.

Esse comportamento beneficia parcialmente o atacarejo, mas não elimina o impacto financeiro da Selic sobre a dívida corporativa.

Corte de juros pode acelerar desalavancagem

Uma redução consistente da Selic diminuiria gradualmente a pressão sobre as despesas financeiras do Assaí.

O impacto não seria necessariamente imediato, porque parte das dívidas possui taxas e vencimentos contratados anteriormente.

Com o tempo, porém, obrigações vinculadas ao CDI ficariam mais baratas e novas captações poderiam ocorrer em condições melhores.

Uma economia de apenas R$ 1 milhão por dia em despesas financeiras representaria aproximadamente R$ 365 milhões por ano.

Esse recurso poderia ser direcionado à redução adicional da dívida, investimentos ou lucro dos acionistas.

A companhia, no entanto, não pode basear sua estratégia apenas na expectativa de queda dos juros.

A administração mantém o foco em medidas que estão sob seu controle, como produtividade, margens, estoques, capital de giro e disciplina de investimentos.

ASAI3 depende de queda da dívida e melhora do lucro

Para os investidores, o caso do Assaí (ASAI3) envolve uma combinação de ativos operacionais fortes e pressão financeira elevada.

A rede possui escala nacional, marca consolidada, grande fluxo de clientes e lojas localizadas em regiões estratégicas.

Ao mesmo tempo, a dívida e os juros reduzem o lucro disponível para os acionistas.

A avaliação das ações dependerá da capacidade de transformar crescimento de vendas em caixa livre e redução de alavancagem.

O mercado deverá acompanhar o desempenho das lojas convertidas, as margens operacionais, o ritmo de investimentos e a evolução das despesas financeiras.

Uma queda da Selic poderia atuar como catalisador, mas a execução interna continuará sendo determinante.

Estratégia será julgada no longo prazo

Belmiro Gomes avalia que a compra dos pontos do Extra deve ser analisada em um horizonte de dez anos, e não apenas pelo custo atual da dívida.

Segundo essa visão, as obrigações financeiras serão gradualmente amortizadas, enquanto os imóveis e as operações permanecerão no portfólio.

A tese depende de as lojas continuarem gerando vendas, margens e retornos superiores ao custo de capital ao longo do tempo.

Também pressupõe que a companhia mantenha disciplina e evite um novo ciclo de expansão financiado por dívida antes de concluir a desalavancagem.

O pagamento de R$ 7 milhões em juros por dia mostra a dimensão do desafio.

A redução de R$ 1,2 bilhão na dívida líquida, por outro lado, indica que a empresa ainda possui capacidade de reagir.

O Assaí entra agora em uma fase menos orientada à abertura acelerada de lojas e mais concentrada na produtividade dos ativos adquiridos.

O resultado dessa estratégia determinará se a compra do Extra será lembrada como um investimento realizado no momento errado ou como uma decisão que assegurou posições comerciais difíceis de replicar.

Tags: abertura de lojasASAI3AssaíatacarejoBelmiro Gomesdesalavancagemdespesas financeirasdívida do AssaíEmpresasextrajurosSelicvarejo alimentar

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