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Azzas 2154 (AZZA3) nega venda da Hering e diz que não há negociações em curso

Companhia responde à CVM após notícias sobre movimentação de acionistas ligados à família Hering e afasta negociação da marca.

por João Souza
25/06/2026 às 20h15
em Empresas
Azzas 2154 (Azza3) Nega Venda Da Hering E Diz Que Não Há Negociações Em Curso - Gazeta Mercantil

A Azzas 2154 (AZZA3) informou nesta quinta-feira, 25 de junho, que a Hering não está à venda e que não existem tratativas ou negociações em andamento envolvendo a marca, seus ativos ou negócios relacionados. O esclarecimento foi apresentado em resposta a um ofício da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), após a divulgação de informações segundo as quais acionistas ligados à família fundadora teriam contratado o BR Partners para avaliar uma possível separação da operação.

A manifestação procura afastar, ao menos no âmbito formal da companhia, a existência de uma negociação para alienar a Hering. O posicionamento não elimina a possibilidade de acionistas discutirem alternativas estratégicas por iniciativa própria, mas indica que nenhuma proposta, estrutura de transação ou processo de venda foi reconhecido pela administração da Azzas 2154.

A informação ganhou relevância diante do ambiente de incerteza que cerca o maior grupo de moda da América Latina. A companhia atravessa uma disputa entre acionistas de referência, mudanças na estrutura executiva e discussões sobre o futuro de algumas das principais marcas reunidas após a fusão entre Arezzo&Co e Grupo Soma, concluída em 2024.

Nesse contexto, qualquer possibilidade de venda, cisão ou reorganização envolvendo a Hering pode alterar a composição do portfólio da Azzas 2154, afetar a estratégia de integração do grupo e modificar a percepção dos investidores sobre o valor dos diferentes ativos controlados pela empresa.

Companhia diz que não há negociação envolvendo a Hering

Em sua resposta ao regulador, a Azzas 2154 afirmou que a Hering não está à venda e que não existem, dentro da companhia, negociações em curso relacionadas à marca ou aos negócios vinculados a ela.

O pronunciamento foi motivado por notícias de que um grupo de acionistas representando aproximadamente 11% do capital da Azzas 2154, liderado por integrantes da família Hering, teria contratado o banco de investimentos BR Partners para avaliar alternativas para a marca.

Entre as possibilidades atribuídas ao grupo estaria a recompra da Hering ou a obtenção de uma participação mais relevante no negócio em caso de eventual cisão da Azzas 2154. As informações foram publicadas inicialmente pela imprensa econômica e não foram confirmadas pela companhia.

A contratação de um assessor financeiro por acionistas, caso tenha ocorrido, não significa necessariamente que exista uma transação em andamento. Bancos de investimento podem ser procurados para avaliar ativos, estruturar cenários, estimar valores ou preparar estratégias de negociação sem que uma proposta formal seja apresentada.

A resposta da Azzas 2154 delimita justamente essa diferença. A companhia afirma que, em sua esfera administrativa e decisória, não há qualquer processo de venda da Hering nem tratativas relacionadas aos ativos da marca.

CVM cobra esclarecimentos para reduzir assimetria de informação

A atuação da CVM ocorre quando notícias ou rumores divulgados na imprensa podem influenciar a negociação de ações de uma companhia aberta. Nessas situações, o regulador ou a B3 pode solicitar esclarecimentos para verificar se existe informação relevante ainda não comunicada ao conjunto dos investidores.

Empresas listadas são obrigadas a divulgar de forma simultânea e ampla os fatos capazes de afetar a cotação de seus valores mobiliários ou a decisão de compra, venda e manutenção de ações.

Uma eventual venda da Hering teria potencial para ser considerada relevante pela dimensão histórica da marca, pela participação do negócio no faturamento do grupo e pelo possível impacto sobre a estratégia da Azzas 2154.

Ao responder que não existem tratativas, a companhia procura evitar que investidores tomem decisões baseadas na interpretação de que uma operação já estaria estruturada ou próxima de ser anunciada.

O esclarecimento também reduz, ao menos momentaneamente, a expectativa de que a Hering possa ser retirada do portfólio no curto prazo. O ambiente societário da Azzas, entretanto, mantém abertas discussões mais amplas sobre a configuração futura do conglomerado.

Família Hering deixou o controle da companhia em 2021

A história da Hering começou em 1880, em Blumenau, Santa Catarina, com os irmãos Hermann e Bruno Hering. A companhia tornou-se uma das empresas mais tradicionais da indústria têxtil brasileira e construiu uma rede nacional baseada em lojas próprias, franquias, comércio eletrônico e distribuição multimarcas.

Durante décadas, o controle permaneceu ligado à família fundadora. Essa relação mudou em 2021, quando o Grupo Soma adquiriu a Cia. Hering em uma operação avaliada, à época, em aproximadamente R$ 5 bilhões.

Antes da combinação com o Grupo Soma, a Arezzo&Co também havia demonstrado interesse na empresa. A proposta da companhia liderada por Alexandre Birman não avançou, e o conselho da Hering optou pela transação com o grupo responsável por marcas como Farm, Animale, Maria Filó e Fábula.

Com a aquisição, os antigos acionistas da Hering passaram a deter participação na estrutura do Grupo Soma. Três anos depois, a fusão entre Soma e Arezzo&Co deu origem à Azzas 2154, reunindo em uma única companhia marcas de calçados, bolsas, vestuário feminino, moda masculina e roupas básicas.

A Azzas 2154 passou a controlar, entre outras marcas, Arezzo, Schutz, Anacapri, Farm Rio, Animale, Reserva, Foxton, Hering e Maria Filó. A união criou uma plataforma com mais de 2 mil lojas e ampla presença em franquias e pontos de venda multimarcas.

Desempenho da Hering pressiona unidade Basic

A Hering integra a divisão Basic da Azzas 2154, que também reúne Hering Kids, Hering Sports, Hering Shoes e Hering Intimates. Os resultados recentes mostram que essa unidade atravessa um período de retração.

No primeiro trimestre de 2026, a receita bruta da divisão Basic somou R$ 502,3 milhões. O valor representou uma queda de 18,5% em comparação com os R$ 616,1 milhões registrados no mesmo período de 2025.

A redução foi mais intensa do que a observada nas demais unidades de negócios da companhia. A divisão Shoes & Bags, que inclui Arezzo e Schutz, teve queda de 6,9%, enquanto Fashion Men, responsável por marcas como Reserva e Foxton, recuou 3,2%.

A unidade Fashion Women, que concentra Farm Rio, Animale, NV, Maria Filó e outras marcas, foi a única a apresentar crescimento no período, com avanço de 4,5% na receita bruta.

No consolidado, a receita bruta recorrente das marcas continuadas da Azzas 2154 atingiu R$ 3,12 bilhões no primeiro trimestre, retração de 4,4%. A receita líquida caiu 8%, para R$ 2,48 bilhões.

O desempenho reforça a necessidade de recuperação da Hering e ajuda a explicar por que a marca voltou ao centro das discussões estratégicas. Apesar da queda recente, a empresa conserva reconhecimento nacional, uma extensa rede de franquias e presença consolidada no segmento de roupas básicas.

Reestruturação busca recuperar vendas e rentabilidade

A administração da Azzas 2154 vem promovendo mudanças na operação da Hering com o objetivo de ajustar estoques, melhorar margens e reconstruir a relação entre vendas ao consumidor e entregas aos franqueados e lojistas multimarcas.

Entre as iniciativas adotadas pelo grupo estão a redução de produtos vendidos com rentabilidade insuficiente, a revisão da cobertura de estoques e o encerramento de pontos de venda considerados pouco eficientes.

A estratégia busca evitar que o crescimento de receita ocorra à custa de descontos excessivos, acúmulo de mercadorias ou deterioração das margens. No varejo de moda, decisões equivocadas de produção e distribuição podem obrigar a empresa a realizar promoções agressivas, afetando o posicionamento da marca e a rentabilidade dos franqueados.

A Hering também enfrenta o desafio de preservar sua posição no mercado de roupas básicas enquanto consumidores passam a dividir gastos entre marcas nacionais, plataformas digitais e varejistas internacionais.

O cenário é especialmente complexo em um ambiente de juros elevados, crédito mais restrito e consumo seletivo. Produtos de vestuário competem com outras despesas das famílias e tendem a sofrer quando a renda disponível fica pressionada.

Para a Azzas 2154, a recuperação da Hering depende de combinar escala, eficiência industrial, disciplina comercial e renovação de produto sem descaracterizar uma marca associada historicamente a peças básicas e acessíveis.

Rumor surge em meio à disputa entre Birman e Jatahy

A discussão sobre o destino da Hering ocorre paralelamente ao conflito societário envolvendo Alexandre Birman e Roberto Jatahy, dois dos principais nomes da Azzas 2154.

Birman, ligado à trajetória da Arezzo&Co, assumiu a presidência executiva do grupo. Jatahy, um dos fundadores do Grupo Soma, permaneceu ligado às divisões de vestuário resultantes da combinação das empresas.

As divergências envolvem a estrutura de gestão, a autonomia das marcas e decisões relacionadas à reorganização das unidades de negócios. Parte da tensão tornou-se pública após mudanças na administração da área de moda masculina, que reúne a Reserva.

O caso foi levado ao Judiciário e a procedimento arbitral. Jatahy contestou alterações internas que poderiam modificar a estrutura sob sua responsabilidade, enquanto Birman defendeu as atribuições da presidência executiva na organização das operações.

A disputa ampliou a percepção de risco de governança da Azzas 2154. Investidores passaram a acompanhar não apenas os resultados financeiros, mas também a capacidade dos acionistas de referência de chegar a um acordo sobre o modelo de gestão e a destinação dos principais ativos.

Nesse ambiente, os relatos de que acionistas ligados à família Hering estariam avaliando alternativas para a marca ganharam maior peso. Uma eventual reorganização poderia funcionar como parte de uma solução mais ampla para acomodar diferentes grupos dentro da estrutura societária.

Avaliação de eventual transação enfrenta obstáculos

Mesmo que acionistas tenham interesse em recuperar a Hering, uma transação dependeria da concordância dos órgãos de administração da Azzas 2154, da definição de valor e de uma estrutura compatível com as obrigações societárias do grupo.

A marca está integrada às operações da companhia, compartilhando sistemas, canais de distribuição, contratos, estruturas administrativas e iniciativas comerciais. Separar esses ativos exigiria identificar quais recursos pertencem diretamente à Hering e quais são utilizados conjuntamente com outras áreas.

Também seria necessário definir o tratamento de fábricas, centros de distribuição, contratos de franquia, estoques, trabalhadores, propriedades intelectuais e obrigações financeiras.

Outro ponto central seria o preço. O valor atribuído à Cia. Hering na aquisição de 2021 refletia condições de mercado, expectativas de crescimento e uma estrutura societária diferentes das atuais.

Desde então, o desempenho operacional da marca perdeu força, enquanto as ações do conglomerado passaram por forte desvalorização. Esses fatores podem produzir uma distância significativa entre o valor esperado por vendedores e compradores.

Analistas também observam que a reestruturação em andamento pode recuperar parte do valor da Hering. Uma venda realizada antes da conclusão desse processo poderia transferir ao comprador o potencial de melhora futura, enquanto a Azzas receberia recursos imediatos e reduziria a complexidade operacional.

Hering permanece estratégica para o portfólio da Azzas

Embora a unidade Basic tenha apresentado queda relevante no início de 2026, a Hering continua sendo uma das marcas de maior reconhecimento do portfólio da Azzas 2154.

A companhia atua em uma faixa de mercado distinta das marcas mais associadas à moda premium ou de maior valor agregado. Essa característica amplia a cobertura do grupo e permite alcançar consumidores com diferentes níveis de renda e hábitos de compra.

A Hering também oferece uma rede estabelecida de franquias e pontos multimarcas, canais que podem gerar escala e presença territorial para a companhia.

Por outro lado, os resultados recentes mostram que o tamanho e a tradição da marca não garantem crescimento. A unidade precisa recuperar vendas, melhorar a produtividade das lojas e reforçar sua relevância diante de concorrentes nacionais e estrangeiros.

O comunicado divulgado nesta quinta-feira não encerra as discussões sobre o futuro da Hering, mas estabelece a posição oficial da Azzas 2154: não existe processo de venda ou negociação em curso envolvendo a marca.

Para os investidores, o foco permanece dividido entre três frentes: a recuperação operacional da unidade Basic, a resolução das disputas de governança e a definição da estratégia para os ativos do conglomerado. Até que esses pontos avancem, rumores sobre eventuais vendas, cisões ou reorganizações devem continuar influenciando a percepção de risco sobre a Azzas 2154 (AZZA3).

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