quarta-feira, 16 de setembro de 2026
contato@gazetamercantil.com
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
Home Agronegócio

Bayer é alvo de denúncia internacional por danos ligados a agrotóxicos na América Latina

Seis entidades da sociedade civil acusam multinacional de violações de direitos humanos e ambientais; mecanismo da OCDE propõe mediação rejeitada pelos denunciantes

por Daniel Wicker
25/06/2026 às 16h00
em Agronegócio
Bayer É Alvo De Denúncia Internacional Por Danos Ligados A Agrotóxicos Na América Latina-Gazeta Mercantil
Há mais de dois anos, organizações de quatro países da América Latina e entidades internacionais buscam responsabilizar a Bayer, uma das maiores produtoras mundiais de agrotóxicos e sementes, por impactos causados por seus produtos à base de glifosato em comunidades rurais e indígenas da região. A denúncia, apresentada em 2024 ao Ponto de Contato Nacional (PCN) da Alemanha, no âmbito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), aponta contaminação de água, solo e alimentos, além de doenças e perda de território, mas esbarra em limitações dos instrumentos internacionais.
A decisão mais recente do órgão, publicada em 9 de junho de 2026, rejeitou analisar diretamente as alegações de violações e sugeriu uma mediação restrita às políticas corporativas da empresa — medida que foi recusada pelos denunciantes, que consideram o procedimento insuficiente para reparar danos concretos.
joão

Base da denúncia reúne dados de quatro países

A ação é movida por seis instituições: o Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), da Argentina; a Terra de Direitos, do Brasil; a BASE-IS, do Paraguai; a Fundación TIERRA, da Bolívia; além das organizações internacionais Misereor e Centro Europeu para os Direitos Humanos e o Direito Constitucional (ECCHR).
O material entregue ao PCN alemão reúne estudos técnicos, registros laboratoriais, relatos de moradores e dados de expansão agrícola desde o início da década de 2010. Segundo as entidades, a multinacional tem se beneficiado do crescimento da monocultura de soja na América do Sul, mercado onde obtém receitas expressivas com a venda de defensivos agrícolas, ao mesmo tempo em que as populações vizinhas às lavouras enfrentam consequências diretas.
“As florestas são derrubadas para dar lugar às plantações, a biodiversidade é reduzida, o abastecimento de alimentos é ameaçado, a água potável é poluída e os conflitos fundiários se intensificam”, resume o documento apresentado à OCDE.
O glifosato, princípio ativo de diversos produtos comercializados pela Bayer, está no centro das alegações. Embora a empresa defenda a segurança do composto dentro das regras de uso, as organizações apontam exposição acima de limites recomendados em regiões onde a aplicação é feita de forma intensiva e contínua.

Mecanismo da OCDE propõe mediação, mas sem análise de danos

Ao invés de abrir uma investigação aprofundada sobre os casos relatados, o PCN alemão informou, no início deste mês, que considerou as alegações insuficientes para dar seguimento e propôs uma negociação apenas sobre as regras internas de “devida diligência” da Bayer.
Para os denunciantes, a decisão representa uma limitação estrutural dos mecanismos da OCDE, que não têm poder coercitivo e dependem da adesão voluntária das empresas. “Discutir políticas abstratas não resolve o problema quando as pessoas continuam adoecendo e perdendo seu modo de vida por causa da exposição aos agrotóxicos”, afirma Silvia Rojas Castro, consultora jurídica sênior do ECCHR.
Daisy Ribeiro, assessora jurídica da Terra de Direitos, explica que a regra da organização prevê, na fase inicial, apenas a demonstração de plausibilidade dos fatos, e não a comprovação definitiva de causalidade como em um processo judicial. Mesmo assim, o órgão exigiu provas individuais e diretas entre cada caso de contaminação e um produto específico da marca, exigência que as entidades classificam como desproporcional.
“O PCN deixou de aplicar a avaliação reforçada que é necessária em contextos de alto risco socioambiental, em que a simples presença do produto e o histórico de uso já configuram indícios suficientes para aprofundar a análise”, complementa Jaqueline Andrade, também assessora jurídica da organização brasileira.

Casos concretos ilustram impactos em diferentes regiões

A denúncia traz exemplos detalhados de ocorrências em cada um dos países envolvidos, com registros que remontam a 2011. Na província de Buenos Aires, Argentina, uma família da cidade de Pergamino relatou problemas de saúde graves, incluindo abortos espontâneos, distúrbios respiratórios e alterações em exames de sangue, após anos vivendo ao lado de lavouras pulverizadas com agrotóxicos. Análises laboratoriais encontraram resíduos de glifosato e seu metabólito principal, o ácido aminometilfosfônico, na urina dos moradores.
No Paraguai, na Colônia Yeruti Ñu, região de reforma agrária, o cercamento da área por plantações de soja resultou em internações por intoxicação química e uma morte confirmada em 2011. O caso chegou ao Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), que emitiu parecer favorável às vítimas, mas sem desdobramentos efetivos de responsabilização.
No Brasil, o foco das alegações recai sobre as aldeias indígenas Avá-Guarani, nos municípios de Guaíra e Terra Roxa, no Paraná, um dos principais estados produtores de soja do país. Com a expansão das lavouras, comunidades que dependem de rios e nascentes para consumo e plantio próprio passaram a registrar contaminação da água, diminuição de peixes e desaparecimento de espécies silvestres. Relatos incluem aumento de doenças respiratórias, dores de cabeça e interrupções de gestação, especialmente entre crianças e idosos.
Já na Bolívia, no departamento de Santa Cruz, o desmatamento associado ao cultivo de soja transgênica avançou cerca de 436 mil hectares entre 2011 e 2022, segundo dados compilados pelas entidades. Hoje, mais de 230 mil pessoas vivem em áreas a menos de 500 metros de lavouras, situação que, conforme a denúncia, compromete tanto a saúde quanto a segurança alimentar local.

Empresa mantém posicionamento e não reconhece responsabilidade

A Bayer não se manifestou diretamente sobre cada caso específico apresentado na denúncia. Em nota padrão divulgada ao longo do processo, a empresa afirma cumprir todas as normas regulatórias dos países onde atua e seguir as diretrizes internacionais da OCDE, com processos de avaliação de risco e medidas de segurança para uso de seus produtos.
A companhia também destaca que o glifosato é aprovado por agências reguladoras em mais de 160 países, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil, e que estudos científicos independentes confirmam sua segurança quando utilizado corretamente.
Para as organizações, porém, a postura reforça a necessidade de mecanismos mais eficazes para responsabilizar grandes corporações. “As regras existem, mas sem poder de fiscalização e sanção, acabam sendo apenas recomendações. O resultado é que as violações continuam e as comunidades não têm a quem recorrer de forma efetiva”, observa Ribeiro.

Caso coloca em xeque regulação global do agronegócio

A disputa ocorre em um momento em que o uso de agrotóxicos e a expansão da monocultura estão no centro de debates sobre sustentabilidade e segurança alimentar na América Latina. O Brasil é um dos maiores consumidores de defensivos agrícolas do mundo, e o glifosato segue sendo o princípio ativo mais comercializado, apesar de restrições ou proibições em alguns países da Europa e da América do Norte.
A decisão do PCN alemão deve servir de referência para outras ações semelhantes, já que mostra os limites de ferramentas criadas para conciliar a atuação empresarial com a proteção de direitos humanos. Se as entidades não aceitarem a mediação, a denúncia será arquivada no âmbito da OCDE, restando às comunidades recorrer a tribunais nacionais, caminho que costuma ser mais demorado e complexo.
Para o setor do agronegócio, o caso também levanta questões sobre a imagem das empresas que atuam na região. Enquanto produtores defendem a tecnologia como essencial para manter a produtividade e a competitividade internacional, organizações da sociedade civil cobram maior transparência e controle sobre a cadeia de insumos.

LEIA MAIS

Jpmorgan Corta Preço-Alvo Do Banco Do Brasil Para R$ 22 E Mantém Recomendação Neutra-Gazeta Mercantil
Empresas

Banco do Brasil (BBAS3): JPMorgan corta preço-alvo para R$ 22 e reduz projeções de lucro

O JPMorgan reduziu de R$ 24 para R$ 22 o preço-alvo das ações do Banco do Brasil (BBAS3) para dezembro de 2027 e manteve recomendação neutra para os...

Leia MaisDetails
Basf Prepara Ipo De Divisão Agrícola Com Quatro Bancos E Mira Bolsa De Frankfurt-Gazeta Mercantil
Agronegócio

BASF prepara IPO de divisão agrícola com quatro bancos e mira Bolsa de Frankfurt

A BASF iniciou uma nova etapa para separar e preparar sua divisão de soluções agrícolas para uma eventual abertura de capital ao contratar Citi, Deutsche Bank, Goldman Sachs...

Leia MaisDetails
Alta Da Inadimplência No Agro Perde Força Após Meses De Avanço
Agronegócio

Banco do Brasil (BBAS3), Bradesco (BBDC4) e Santander (SANB11) enfrentam calote de R$ 48 bi no agronegócio

A crise de endividamento do agronegócio brasileiro começou a transformar uma das relações mais tradicionais do sistema financeiro. Diante de aproximadamente R$ 48 bilhões em crédito rural inadimplente,...

Leia MaisDetails
Agronegócio - Gazeta Mercantil
Agronegócio

Blairo Maggi diz que Bolsonaro errou ao confrontar China e alerta para risco ao agro

Blairo Maggi, um dos empresários mais influentes da história recente do agronegócio brasileiro, fez nesta quinta-feira, 10 de setembro, um alerta que vai muito além das divergências partidárias....

Leia MaisDetails
Crédito Rural - Gazeta Mercantil
Agronegócio

Crédito rural: R$ 207,4 bilhões já estão em atraso, renegociação ou prorrogação

O volume de crédito rural em atraso, inadimplente, prorrogado ou renegociado atingiu R$ 207,4 bilhões em julho, o maior valor da série acompanhada desde agosto de 2020. O...

Leia MaisDetails

GAZETA MERCANTIL ENCERRADO

23:06:48
IBOV

IBOVESPA

B3
Consultando... buscando última cotação
$

DÓLAR

USD/BRL
Consultando... buscando última cotação
€

EURO

EUR/BRL
Consultando... buscando última cotação
₿

BITCOIN

BRL
Consultando... buscando última cotação
Gazeta Mercantil · dados de mercado
Sênior Sistemas Sênior Sistemas Sênior Sistemas
PUBLICIDADE

Veja Também

Copom Corta Selic Para 13,75% No Quinto Recuo Seguido Dos Juros - Gazeta Mercantil - Economia
Economia

Copom corta Selic para 13,75% no quinto recuo seguido dos juros

Leia MaisDetails
Lvmh Perde Mais De €250 Bilhões Em Valor De Mercado Desde 2023-Gazeta Mercantil
Empresas

LVMH perde mais de €250 bilhões em valor de mercado desde 2023

Leia MaisDetails
Brb Recebe R$ 376 Milhões Da Xp Por Créditos Ligados Ao Banco Master-Gazeta Mercantil
Empresas

BRB (BSLI3; BSLI4) recebe R$ 376 milhões da XP por ativos ligados ao Banco Master

Leia MaisDetails
Lula - Gazeta Mercantil
Política

Lula diz que Flávio Bolsonaro participou da aprovação de Kassio e Mendonça no STF

Leia MaisDetails
Jpmorgan Corta Preço-Alvo Do Banco Do Brasil Para R$ 22 E Mantém Recomendação Neutra-Gazeta Mercantil
Empresas

Banco do Brasil (BBAS3): JPMorgan corta preço-alvo para R$ 22 e reduz projeções de lucro

Leia MaisDetails

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco
Gazeta Mercantil Logo White

contato@gazetamercantil.com

Gazeta Mercantil — marca jornalística fundada em 1920, com continuidade editorial contemporânea no ambiente digital por meio do domínio oficial gazetamercantil.com.

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

Veja Também:

Copom corta Selic para 13,75% no quinto recuo seguido dos juros

LVMH perde mais de €250 bilhões em valor de mercado desde 2023

BRB (BSLI3; BSLI4) recebe R$ 376 milhões da XP por ativos ligados ao Banco Master

Lula diz que Flávio Bolsonaro participou da aprovação de Kassio e Mendonça no STF

Banco do Brasil (BBAS3): JPMorgan corta preço-alvo para R$ 22 e reduz projeções de lucro

Investimentos têm desempenhos diferentes nos governos Bolsonaro e Lula, aponta levantamento

  • Anuncie Conosco
  • Política de Correções
  • Política Editorial
  • Política de Privacidade
  • Termos de Uso
  • Sobre a Gazeta Mercantil
  • Expediente
  • Política de Conflitos de Interesse

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP