As ações da Boa Safra (SOJA3) chegaram a avançar quase 20% nesta segunda-feira (17), na primeira reação da Bolsa ao balanço do segundo trimestre de 2026, depois de a companhia apresentar uma carteira de pedidos recorde de R$ 1,8 bilhão, forte expansão do Ebitda ajustado e uma dinâmica de caixa significativamente melhor que a esperada pelo mercado.
Por volta das 12h16, SOJA3 era negociada a R$ 5,89, em alta de 17,1%, depois de atingir máxima intradiária de R$ 6,04. O fechamento anterior havia ocorrido a R$ 5,03. A reação veio depois da divulgação dos resultados na sexta-feira (14), após o encerramento do pregão.
A Boa Safra encerrou o trimestre com receita líquida próxima de R$ 125 milhões, crescimento de 23% sobre o mesmo período de 2025. O Ebitda ajustado atingiu aproximadamente R$ 28 milhões, avanço de 504%, enquanto o lucro líquido ficou em cerca de R$ 3 milhões, revertendo o prejuízo registrado um ano antes.
Os números contábeis, porém, explicam apenas parte da valorização. O segundo trimestre é sazonalmente pouco representativo para a Boa Safra porque boa parte das sementes produzidas nessa etapa será entregue aos agricultores durante o segundo semestre. Por isso, investidores concentraram a atenção na carteira contratada, no capital de giro e na capacidade da empresa de converter a expansão realizada nos últimos anos em rentabilidade e caixa. Esse também era o principal foco apontado no material que motivou a pauta.
Carteira chega a R$ 1,8 bilhão, mas soja recua 12%
A carteira total de pedidos atingiu R$ 1,8 bilhão ao fim de junho, maior nível já registrado pela Boa Safra e 4% superior ao observado no mesmo período do ano passado. O crescimento, entretanto, apresenta uma composição diferente daquela que sustentou a expansão histórica da companhia.
Os pedidos de sementes de soja, principal negócio do grupo, recuaram 12% e ficaram próximos de R$ 1,47 bilhão. Segundo a empresa e analistas que acompanham o papel, produtores estão postergando decisões de compra para a safra 2026/27, reduzindo a velocidade de contratação em relação ao ciclo anterior.
O avanço da carteira total ocorreu porque outras culturas, serviços e negócios compensaram essa retração. Os pedidos fora do núcleo tradicional da soja saltaram de aproximadamente R$ 52 milhões para R$ 337 milhões em um ano.
Isso representa crescimento de cerca de 548%, ou uma multiplicação de quase 6,5 vezes.
Esses novos negócios já correspondem a aproximadamente 19% da carteira total, ante uma participação muito menor no ano anterior. A soja continua dominante, com mais de 80% dos pedidos, mas a expansão das demais linhas começa a reduzir a concentração econômica da companhia em uma única cultura.
Para o mercado, essa diversificação é um dos elementos positivos do resultado. Ela pode suavizar parte da volatilidade provocada pelos ciclos de compra da soja e ampliar a utilização da estrutura construída pela Boa Safra durante seu período de forte expansão.
A XP classificou o crescimento de 4% do backlog como modesto, mas coerente com a estratégia atual de preservar participação de mercado enquanto a companhia tenta capturar ganhos de escala e eficiência depois da expansão executada em 2025.
Ebitda cresce 504% e margem chega perto de 22%
A melhora operacional também chamou atenção.
O Ebitda ajustado passou de aproximadamente R$ 4,6 milhões no segundo trimestre de 2025 para R$ 27,7 milhões no 2T26, avanço de 504%. Com receita líquida de cerca de R$ 124,7 milhões, a margem Ebitda ajustada ficou próxima de 22%.
A expansão foi muito superior ao crescimento da receita, sinalizando melhora relevante na estrutura de custos e despesas.
Antes da divulgação, a XP projetava Ebitda de apenas R$ 14 milhões. O resultado efetivo ficou praticamente duas vezes acima da estimativa da corretora. A receita, por outro lado, ficou próxima do esperado: a casa projetava R$ 124 milhões.
Essa diferença ajuda a explicar por que o mercado reagiu mais ao resultado operacional do que ao lucro líquido relativamente pequeno.
A administração passou 2026 tentando capturar benefícios da escala conquistada no ano passado, quando a Boa Safra adotou estratégia agressiva para ganhar participação em um mercado no qual alguns concorrentes estavam retraindo operações. A expansão comercial elevou despesas e exigiu capital de giro, pressionando o caixa.
Agora, a tese depende de converter essa estrutura maior em margens mais altas.
Entre as iniciativas estão otimização do portfólio genético, redução de sobras de sementes e maior eficiência operacional. Sobras são particularmente importantes no setor porque sementes não comercializadas dentro do ciclo adequado podem gerar perdas de margem e necessidade de provisões.
Caixa surpreende mais que lucro do trimestre
O ponto que talvez tenha produzido a maior mudança de percepção foi o caixa.
Segundo os cálculos da XP, o fluxo de caixa livre ficou negativo em R$ 79 milhões. Ainda houve consumo de recursos, mas a corretora esperava uma queima de aproximadamente R$ 200 milhões.
A diferença favorável foi de R$ 121 milhões.
A XP também afirmou que a qualidade do crédito permaneceu sob controle, sem deterioração inesperada da inadimplência. Para os analistas, essa combinação pode contribuir para a redução da alavancagem nos próximos períodos.
O fluxo de caixa operacional apresentou uma mudança ainda mais expressiva. O indicador ficou positivo em aproximadamente R$ 304 milhões, ante consumo de R$ 213 milhões no mesmo trimestre do ano passado.
A virada entre os dois períodos é de cerca de R$ 517 milhões.
Boa parte dessa diferença veio do capital de giro. A companhia registrou liberação próxima de R$ 315 milhões, em contraste com a forte absorção observada anteriormente.
Um dos itens que mais mudaram foram os adiantamentos a fornecedores. Essa linha havia consumido aproximadamente R$ 552 milhões no segundo trimestre de 2025, principalmente por pagamentos antecipados ligados a royalties. No 2T26, o consumo ficou próximo de apenas R$ 10 milhões.
É uma melhora relevante, mas também está no centro das dúvidas do mercado.
O BTG Pactual considera a dinâmica positiva, mas avalia que ainda é necessário entender quanto da diferença reflete uma mudança estrutural do ciclo financeiro e quanto representa simplesmente deslocamento de pagamentos entre trimestres.
Se parte relevante do benefício for apenas timing, alguma necessidade de caixa poderá reaparecer nos próximos períodos.
Estoques de R$ 622 milhões antecipam trimestre mais importante
Outro indicador importante para entender a sazonalidade está nos estoques.
A Boa Safra encerrou junho com aproximadamente R$ 622 milhões em estoques de sementes de soja, montante que será gradualmente convertido em entregas e receita à medida que produtores avançarem no plantio da próxima safra.
Isso torna o segundo semestre muito mais importante que o resultado isolado apresentado agora.
O 2T26 funciona, em grande medida, como período de preparação operacional: a companhia produz, beneficia, armazena e vende antecipadamente sementes que serão entregues posteriormente.
É por isso que uma carteira de R$ 1,8 bilhão não pode ser comparada diretamente com a receita de apenas R$ 125 milhões registrada no trimestre.
O backlog representa vendas contratadas que ainda precisam cumprir condições operacionais e ser reconhecidas como receita.
Essa conversão será um dos principais indicadores observados pelo mercado no terceiro e no quarto trimestres.
2025 deixou um alerta sobre conversão da carteira
O tamanho da carteira, isoladamente, não elimina os riscos. A própria experiência recente da Boa Safra criou uma referência importante. Em 2025, uma carteira robusta não se converteu integralmente na performance esperada no terceiro trimestre, período em que problemas de execução e qualidade prejudicaram o desempenho.
A companhia entrou em 2026 justamente com o objetivo de corrigir essas deficiências. Por isso, analistas veem o backlog recorde como condição necessária para resultados melhores, mas não suficiente.
É necessário demonstrar capacidade de produzir, entregar e faturar a carteira mantendo margens, reduzindo sobras e evitando nova pressão de capital de giro.
A queda de 12% nos pedidos de soja adiciona uma segunda variável. Se os produtores estiverem apenas adiando compras, parte desse volume ainda pode entrar na carteira. Se houver efetivamente menor demanda ou pressão competitiva, o crescimento das outras atividades terá de compensar um núcleo muito maior do negócio.
Alavancagem impede BTG de adotar recomendação de compra
A diferença entre XP e BTG ajuda a mostrar como o balanço pode ser considerado positivo sem eliminar as preocupações estruturais.
A XP mantém recomendação de compra para SOJA3 e preço-alvo de R$ 11,80. O valor representa aproximadamente o dobro da cotação observada nesta segunda-feira.
O BTG Pactual também tem preço-alvo elevado em relação ao preço de mercado, de R$ 12, mas mantém recomendação neutra. A própria Boa Safra lista essas recomendações em sua página oficial de cobertura de analistas.
A cautela do banco está relacionada principalmente à execução e ao endividamento.
A relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado permanece elevada, em torno de 4,3 vezes segundo a análise divulgada após o balanço. Em um ambiente de juros ainda altos no Brasil, alavancagem elevada aumenta as despesas financeiras e reduz a margem para erros operacionais.
O lucro líquido baixo mesmo diante da forte recuperação do Ebitda mostra parte desse efeito.
A companhia gerou avanço operacional significativo, mas os custos financeiros absorvem parcela importante dessa melhora antes que ela chegue ao resultado final.
Alta de quase 20% antecipa parte da melhora
A valorização desta segunda-feira muda também a relação entre risco e retorno no curtíssimo prazo.
SOJA3 iniciou o pregão a R$ 5,31, atingiu R$ 6,04 e era negociada a R$ 5,89 por volta das 12h16. Mesmo depois do salto, o papel continua muito abaixo da máxima de 52 semanas, superior a R$ 10.
A reação mostra que parte do mercado estava posicionada para um resultado pior, especialmente em caixa e eficiência operacional.
Mas os próximos gatilhos serão menos dependentes do balanço já conhecido.
O primeiro será a teleconferência do 2T26, programada pela companhia para esta segunda-feira às 14h, quando executivos poderão detalhar carteira, capital de giro, demanda por soja e perspectivas para a safra.
Depois, o mercado precisará acompanhar a conversão dos R$ 1,8 bilhão de pedidos em receita e caixa.
A Boa Safra entregou no segundo trimestre três sinais que investidores buscavam: carteira recorde, melhora de eficiência e menor pressão de caixa. O desafio agora é provar que esses sinais são permanentes.
A valorização de SOJA3 mostra que a Bolsa passou a atribuir maior probabilidade a essa recuperação. A queda nos pedidos de soja, a alavancagem e a necessidade de transformar backlog em entregas, porém, significam que o segundo semestre continua sendo o teste decisivo da tese.
Fontes:
Boa Safra Sementes — release de resultados, demonstrações financeiras e informações operacionais do segundo trimestre de 2026.
Boa Safra Sementes — cobertura oficial de analistas e calendário de eventos corporativos.
Comissão de Valores Mobiliários — documentos do resultado do segundo trimestre de 2026 apresentados pela Boa Safra.
XP Investimentos — análise dos resultados do segundo trimestre de 2026, estimativas de caixa e avaliação da carteira de pedidos.
BTG Pactual — cobertura de Boa Safra, recomendação e preço-alvo para SOJA3.









