O TEMPOCAMPO, sistema desenvolvido pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), completa dez anos em 2026 com uma mudança de escala e de função: criado para transformar dados meteorológicos em projeções de produtividade agrícola, o projeto passou a combinar modelagem agroclimática, pesquisa científica e comunicação direta com produtores de soja, milho e cana-de-açúcar.
Coordenado pelo professor Fábio Marin, do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Esalq, o sistema começou a oferecer suporte a produtores e empresas em 2016. Documentos técnicos dos primeiros anos mostram uma infraestrutura baseada em bancos de dados meteorológicos de regiões produtoras brasileiras e modelos calibrados para diferentes ambientes de produção. A proposta era calcular como a variabilidade climática poderia alterar o desempenho das lavouras antes da colheita.
Uma década depois, o projeto soma 10 dissertações de mestrado, nove teses de doutorado e 29 artigos científicos com revisão por pares relacionados às pesquisas desenvolvidas a partir da plataforma. São, portanto, 48 trabalhos acadêmicos entre artigos, dissertações e teses, além da aplicação operacional dos modelos e da produção de conteúdo de extensão rural.
A expansão ocorre em um momento especialmente sensível para a agricultura brasileira. Nesta sexta-feira, 14 de agosto, o Instituto Nacional de Meteorologia informou que novas projeções indicam probabilidade igual ou superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte nos próximos trimestres. Segundo o INMET, há ainda 69% de probabilidade de o episódio se tornar o mais intenso registrado desde 1950.
De previsão meteorológica a impacto sobre a produtividade
O diferencial do TEMPOCAMPO está em não limitar a informação ao prognóstico de chuva ou temperatura. O sistema procura traduzir variáveis meteorológicas em efeito potencial sobre o desenvolvimento das culturas, permitindo que o produtor avalie o impacto climático dentro do planejamento agrícola.
Nos boletins técnicos publicados nos primeiros anos, a plataforma descrevia o processamento diário de dados climáticos de diferentes regiões produtoras e o uso de modelos mecanísticos calibrados para ambientes específicos. A metodologia reuniu variáveis meteorológicas em um indicador denominado Coeficiente de Produtividade Climática, ou CPC.
O indicador foi estruturado para representar a variação de produtividade associada ao clima entre uma safra e outra. Em vez de exigir que o usuário interprete isoladamente chuva, temperatura, radiação, umidade e outros componentes, o modelo procura estimar como o conjunto das condições meteorológicas pode afetar a cultura.
Um boletim de cana-de-açúcar publicado em julho de 2017 mostra como a ferramenta era aplicada. Naquele momento, as simulações apontavam possibilidade de aumento de produtividade em partes de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo e perdas em áreas do Mato Grosso do Sul, Paraná e oeste paulista. Não se tratava simplesmente de prever se choveria, mas de transformar as condições observadas e projetadas em cenários de desempenho agrícola.
A lógica permanece no centro da plataforma em 2026. Segundo Marin, o objetivo é transformar dados complexos em informações que possam ser incorporadas ao cotidiano das propriedades. A aplicação pode alcançar decisões sobre manejo, planejamento da produção, avaliação de risco e preparação para eventos climáticos adversos.
El Niño aumenta importância da informação climática
O aniversário de dez anos coincide com uma mudança relevante no Pacífico Equatorial. O El Niño voltou a se estabelecer em junho e avançou rapidamente. A atualização divulgada pelo INMET nesta sexta-feira aponta probabilidade de pelo menos 90% de um episódio muito forte nos trimestres setembro-outubro-novembro, outubro-novembro-dezembro e novembro-dezembro-janeiro.
O instituto informa que os primeiros efeitos já apareceram no Sul do Brasil, onde as chuvas de julho ficaram entre 30% e 90% acima da média, dependendo da localidade. A expectativa é de permanência do fenômeno pelo menos até março de 2027, com tendência de continuidade de volumes elevados de chuva no Sul e maior irregularidade, com totais abaixo da média, nas regiões Norte e Nordeste a partir de outubro.
Esse tipo de assimetria regional ajuda a explicar por que uma previsão nacional é insuficiente para a tomada de decisão agrícola. O mesmo fenômeno oceânico pode elevar o risco de excesso hídrico em determinada região e aumentar a possibilidade de deficiência de água em outra. O impacto também varia conforme cultura, estágio fenológico, tipo de solo, época de plantio e capacidade de manejo.
O TEMPOCAMPO vem incorporando justamente essa discussão às atividades de extensão. O boletim de agosto, produzido conjuntamente pela TV USP Piracicaba e pelo sistema da Esalq, apresenta previsões para agosto, setembro e outubro, além de um balanço das condições meteorológicas observadas em julho.
A plataforma também passou a tratar do El Niño em conteúdos específicos. Em maio, Marin participou de uma produção da Esalq dedicada aos possíveis impactos do fenômeno sobre o agronegócio brasileiro. A estratégia aproxima o projeto de uma função que vai além da construção de modelos: explicar ao produtor o grau de incerteza das projeções e os caminhos de adaptação possíveis.
Safra recorde aumenta valor econômico da previsão
O contexto produtivo amplia a relevância desse tipo de tecnologia. A Companhia Nacional de Abastecimento estima que o Brasil colherá 360,8 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26, volume 2,4% superior ao ciclo anterior e equivalente a um acréscimo de 8,5 milhões de toneladas. A área cultivada alcança 83,5 milhões de hectares.
A soja, uma das culturas cobertas pelo TEMPOCAMPO, deve atingir 180,5 milhões de toneladas. Para o milho, também atendido pelo sistema, a projeção é de 143 milhões de toneladas considerando as diferentes safras do cereal. A dimensão desses números significa que pequenas diferenças de produtividade provocadas pelo clima podem se transformar em milhões de toneladas de variação na oferta.
A própria Conab identificou nesta temporada impactos negativos das condições climáticas sobre lavouras em partes do Nordeste. Esse quadro evidencia uma característica central do risco agropecuário: a produção nacional pode atingir recordes enquanto determinadas regiões ou culturas enfrentam perdas localizadas.
Para o produtor, antecipar esse risco pode influenciar decisões de plantio, contratação de insumos, irrigação, manejo, comercialização e proteção financeira. Para cooperativas, tradings, indústrias e instituições financeiras, projeções de produtividade também podem alterar avaliações sobre oferta, logística, necessidade de crédito e exposição regional.
Os modelos não eliminam a incerteza. Previsões climáticas e agrícolas trabalham com probabilidades e cenários, e mudanças nas condições meteorológicas durante o ciclo podem alterar o resultado inicialmente projetado. O valor da ferramenta está justamente em substituir uma decisão baseada apenas na percepção por outra apoiada em dados e hipóteses mensuráveis.
Projeto amplia presença fora do ambiente acadêmico
Se os primeiros anos do TEMPOCAMPO foram marcados por boletins técnicos e desenvolvimento dos modelos, a segunda metade da década trouxe maior ênfase à comunicação. A Esalq informa que os vídeos relacionados ao sistema acumulam mais de 130 mil visualizações quando considerados os conteúdos publicados no canal de Marin e na TV USP Piracicaba.
Desde maio, o projeto também passou a integrar mensalmente o programa AGROCULTURA, da TV Cultura, em quadro produzido pela TV USP Piracicaba. A participação apresenta perspectivas para o mês seguinte e cenários climáticos destinados a orientar decisões no campo. O projeto mantém ainda o TEMPOCAMPO Responde, voltado ao contato com produtores.
A evolução revela uma mudança na própria forma de transferência de tecnologia. Em 2017, os documentos do sistema eram predominantemente boletins técnicos com mapas, tabelas e cenários de produtividade. Em 2026, a mesma base científica passa a circular também em vídeos, televisão e redes digitais, numa tentativa de reduzir a distância entre o conhecimento produzido na universidade e quem decide diariamente na propriedade rural.
A produção acadêmica associada ao projeto reforça essa dupla função. As 10 dissertações, nove teses e 29 artigos representam a vertente de pesquisa, enquanto os boletins e canais de comunicação cumprem a função de extensão — uma combinação particularmente relevante em agrometeorologia, área em que o dado científico somente produz efeito econômico quando chega a tempo de influenciar uma decisão.
Dez anos mostram mudança na gestão do risco agrícola
A trajetória do TEMPOCAMPO coincide com a incorporação crescente do risco climático à gestão das propriedades. Solo, genética, fertilização e manejo continuam determinantes da produtividade, mas eventos de seca, excesso de chuva, calor e irregularidade das precipitações podem alterar significativamente o resultado de uma safra mesmo quando os demais fatores estão controlados.
Marin avalia que o clima historicamente recebeu atenção menor do que outros componentes do sistema produtivo. A proposta do projeto é justamente tornar essa variável mais operacional, de modo que a informação meteorológica deixe de ser apenas um dado externo e passe a integrar o processo de planejamento.
A intensificação do El Niño em 2026 dá dimensão prática a esse desafio. O episódio pode produzir consequências diferentes entre regiões brasileiras e continuará sendo monitorado ao longo dos próximos meses. Para uma agricultura que deve colher mais de 360 milhões de toneladas de grãos nesta temporada, entender onde e como o clima pode modificar a produtividade passa a ter impacto não apenas agronômico, mas também financeiro e logístico.
Depois de uma década, o TEMPOCAMPO chega a esse cenário com uma estrutura que combina simulação, acompanhamento agrometeorológico, pesquisa e comunicação. O teste para os próximos anos será ampliar a capacidade de converter previsões cada vez mais complexas em decisões específicas, regionalizadas e tomadas antes que o risco climático se transforme em perda efetiva no campo.










