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PCC: operador financeiro teria movimentado US$ 13,6 milhões na Baixada Santista

Wagner Rodrigo dos Santos, conhecido como “Branquinho” ou “Peixeiro”, é apontado pelo Ministério Público como responsável por movimentações milionárias ligadas ao tráfico na Baixada Santista.

por Álvaro Lima
17/08/2026 às 16h58
em Brasil
Pcc: Operador Financeiro Teria Movimentado Us$ 13,6 Milhões Na Baixada Santista - Gazeta Mercantil - Brasil

Apontado pelo Ministério Público de São Paulo como integrante da estrutura financeira do Primeiro Comando da Capital (PCC), Wagner Rodrigo dos Santos, conhecido como “Branquinho” ou “Peixeiro”, teria movimentado cerca de US$ 13,6 milhões entre outubro de 2018 e julho de 2019 em operações relacionadas ao dinheiro obtido com o tráfico de drogas na Baixada Santista. Parte das transações, segundo a acusação, teria sido determinada quando ele já estava preso.

O volume financeiro atribuído a Wagner integra uma investigação mais ampla sobre os mecanismos usados pela facção para arrecadar, concentrar, ocultar e redistribuir recursos. Planilhas apreendidas durante as investigações registrariam as remessas e associariam diferentes apelidos ao acusado, além de indicar a participação de operadores responsáveis pela intermediação entre o dinheiro arrecadado no litoral paulista e o setor financeiro clandestino.

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Documentos da investigação atribuem a Wagner posição relevante no chamado “Setor do Arame”, estrutura encarregada de fazer chegar recursos aos cofres da organização. O Ministério Público também o relacionou à operação financeira do tráfico internacional de drogas da Baixada Santista, atividade identificada internamente pelo termo “tomate”.

Registros publicados a partir da investigação indicam que Wagner teria autorizado cerca de US$ 6,8 milhões em nove operações entre outubro de 2018 e janeiro de 2019, quando ainda estava em liberdade. Depois de sua prisão, outras remessas teriam sido registradas. Entre março e junho de 2019, já recolhido à Penitenciária II de Presidente Venceslau, a acusação atribuiu a ele 22 movimentações que somariam aproximadamente US$ 5,5 milhões.

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Investigação descreve circuito entre tráfico, dinheiro vivo e doleiros

A estrutura investigada não se limitava à transferência contábil dos valores. Segundo a acusação, recursos provenientes da venda de drogas na Baixada Santista eram recolhidos em espécie e posteriormente encaminhados a operadores financeiros, incluindo doleiros, que fariam a conversão de grandes quantias em moeda estrangeira e movimentações destinadas a dificultar o rastreamento da origem do dinheiro.

Wagner é apontado como um dos responsáveis pela articulação desse circuito. Em uma das comunicações atribuídas a integrantes do grupo, aparece a referência ao envio de aproximadamente US$ 325 mil para um doleiro identificado pelo apelido de “Veia”. As mensagens fazem parte do conjunto de elementos utilizado pela acusação para sustentar que o investigado exercia funções financeiras que iam além da atuação local no tráfico.

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Outra frente da investigação identificou discussões sobre a criação de uma base fixa na zona leste da cidade de São Paulo. O imóvel serviria, de acordo com a acusação, para receber, conferir, contar e preparar valores antes que o dinheiro fosse entregue aos operadores do mercado clandestino de câmbio.

Até então, segundo os investigadores, parte das entregas era realizada em estacionamentos e outros pontos de encontro. A dinâmica criava dificuldades para a conferência das quantias e aumentava os riscos operacionais. Por isso, integrantes do grupo teriam discutido a necessidade de uma instalação permanente.

A localização pretendida também teria sido escolhida com critérios logísticos. As mensagens indicavam preferência por uma área distante de “quebradas”, mas próxima a estação de metrô e ponto de táxi, de maneira a permitir, nas palavras atribuídas aos envolvidos, o “acesso de vários lugares”.

Prisão não teria interrompido movimentações atribuídas ao acusado

Wagner foi preso em fevereiro de 2019 e, em 1º de março daquele ano, transferido para a Penitenciária II de Presidente Venceslau. A cronologia das movimentações financeiras tornou-se um dos pontos centrais da investigação porque parte das ordens atribuídas a ele teria ocorrido depois do encarceramento.

Segundo registros da apuração, uma movimentação de US$ 1,3 milhão teria sido autorizada no dia seguinte à prisão. O Ministério Público sustentou ainda que dezenas de remessas posteriores teriam sido ordenadas durante o período em que Wagner estava sob custódia do Estado.

As suspeitas levaram a Secretaria da Administração Penitenciária a instaurar procedimento disciplinar para apurar eventual atuação criminosa a partir do presídio. À época, a defesa contestou as acusações e sustentou que Wagner não integrava o PCC, não utilizava o apelido “Peixeiro” e não teria condições de comandar movimentações financeiras a partir de uma unidade de segurança máxima.

Os advogados argumentaram também que o sistema penitenciário possuía restrições e monitoramento das comunicações, além de bloqueadores de sinal de telefonia. A defesa afirmava que não havia prova de contato de Wagner com integrantes da organização em outras unidades prisionais.

A controvérsia sobre a identificação do acusado teve peso no processo judicial. Em primeira instância, Wagner chegou a ser absolvido das imputações relacionadas à organização criminosa e à lavagem de dinheiro porque o juízo considerou insuficientes os elementos que o associavam de maneira segura aos apelidos encontrados nas investigações.

Absolvição foi revertida em segunda instância

A identificação dos integrantes era uma das dificuldades do processo. Um levantamento citado na decisão de primeira instância apontou a existência de centenas de registros de pessoas ligadas ao sistema criminal com apelidos semelhantes a “Peixeiro”, “França” e “Branquinho”, termos que apareciam no material apreendido.

O Ministério Público recorreu da absolvição. Em segunda instância, a decisão foi reformada e Wagner acabou condenado a 13 anos e sete meses de reclusão por crimes relacionados à participação em organização criminosa e lavagem de dinheiro. A condenação considerou elementos adicionais usados para sustentar sua identificação e sua participação na estrutura financeira investigada. Registros públicos sobre o julgamento confirmam a pena e a reversão da absolvição.

O processo integra uma investigação de dimensão financeira significativamente maior. Outros réus foram denunciados no mesmo contexto, no qual o Ministério Público atribuiu ao conjunto dos investigados a ocultação e circulação de valores que alcançariam aproximadamente R$ 1 bilhão entre 2018 e 2019.

As cifras ajudam a dimensionar uma característica das investigações mais recentes contra organizações criminosas: o foco não se restringe aos responsáveis pelo transporte ou pela comercialização das drogas. O rastreamento das receitas, dos operadores financeiros, das casas de câmbio clandestinas e das estruturas destinadas à lavagem tornou-se uma das principais frentes para identificar a cadeia econômica que sustenta a atividade criminosa.

No caso atribuído a Wagner, a acusação descreve justamente essa conexão entre a arrecadação originada no tráfico, a concentração de dinheiro vivo, a entrega a doleiros e a transformação dos recursos em ativos com maior capacidade de circulação.

Nome voltou a aparecer em investigação sobre sequestro de advogado

Anos depois das movimentações financeiras investigadas, o nome de Wagner voltou a aparecer em uma apuração relacionada à atuação do PCC na Baixada Santista. Ele foi apontado por um advogado criminalista como um dos envolvidos em um episódio de sequestro ocorrido em 11 de junho de 2026.

A vítima, Rafaell Câmara Roque, relatou ter sido atraída para um encontro sob o pretexto de discutir uma questão profissional relacionada a uma disputa empresarial envolvendo pontos comerciais de venda de pescado no Guarujá. Segundo o advogado, o conflito envolvia seu cliente e pessoas ligadas à empresa objeto da disputa.

Rafaell afirmou que havia ingressado com uma ação judicial depois que as negociações entre as partes fracassaram. A controvérsia teria se agravado após um acordo estimado em R$ 2 milhões que, segundo o relato da vítima, não teria sido cumprido.

O advogado sustenta que foi conduzido inicialmente a uma empresa e, posteriormente, levado para outro imóvel, onde teria sido mantido durante aproximadamente seis horas. Ele relatou ainda ter presenciado conversas relacionadas ao tráfico internacional de drogas e estima que dezenas de pessoas tenham participado presencialmente ou acompanhado o episódio por chamadas de vídeo.

As alegações sobre a participação individual de Wagner nesse episódio integram uma investigação distinta e devem ser tratadas como acusações ainda sujeitas à apuração das autoridades e ao exercício do direito de defesa.

Operação Patrocínio Fiel mira grupo na Baixada Santista

O caso do advogado levou o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, e a Polícia Militar a deflagrarem, em 12 de agosto de 2026, a Operação Patrocínio Fiel.

A ação foi direcionada a investigados por sequestro, extorsão, tortura e ameaça. Foram expedidos sete mandados de prisão temporária e 19 mandados de busca e apreensão, com diligências em Guarujá, São Vicente, Praia Grande e Cubatão, no litoral paulista, além de Florianópolis, em Santa Catarina. O Ministério Público informou que imóveis residenciais, estabelecimentos comerciais relacionados aos investigados e o local apontado como possível cativeiro estavam entre os endereços das buscas.

Segundo o MPSP, a operação teve como objetivos interromper a atuação do grupo investigado, preservar a integridade da vítima e obter elementos necessários para o avanço das investigações. A apuração relacionada ao sequestro permanece sob sigilo.

A conexão entre a investigação atual e os registros financeiros anteriores coloca novamente em evidência a estrutura atribuída aos integrantes do PCC na Baixada Santista. No caso de Wagner, os diferentes procedimentos abrangem períodos, crimes e conjuntos probatórios distintos. A condenação decorrente da investigação financeira não comprova, por si só, participação nos fatos investigados em 2026, que dependem de apuração própria.

Até a publicação das informações disponíveis sobre o caso, não havia sido apresentada uma manifestação atual da defesa de Wagner sobre as acusações relacionadas ao sequestro. O direito ao contraditório permanece preservado.

Fontes:

Ministério Público do Estado de São Paulo — comunicação institucional sobre a Operação Patrocínio Fiel e as diligências relacionadas ao sequestro, extorsão, tortura e ameaça contra advogado na Baixada Santista.

Registros públicos e reportagens anteriores baseadas na investigação do Ministério Público de São Paulo — dados sobre as movimentações financeiras atribuídas a Wagner Rodrigo dos Santos, cronologia das remessas e argumentos apresentados pela defesa.

Registros judiciais sobre o processo criminal — informações relativas à absolvição em primeira instância, ao recurso do Ministério Público e à condenação posterior a 13 anos e sete meses de reclusão.

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