O mercado de criptoativos inicia o mês de julho sob o impacto de uma correção expressiva no mês anterior, mas mantém direções claras entre especialistas: o bitcoin (BTC) e a solana (SOL) aparecem como as principais indicações em seis das oito carteiras recomendadas analisadas por bancos, corretoras e casas de análise consultadas. Apesar da volatilidade recente, o setor segue atraindo atenção de investidores que buscam posicionamento para o médio e longo prazo.
Em junho, o bitcoin registrou recuo de cerca de 20%, seu pior desempenho mensal em quatro anos. A pressão veio principalmente da manutenção de juros elevados nos Estados Unidos, das incertezas geopolíticas e da aversão geral a ativos de risco no
mercado global. Mesmo assim, o ativo segue consolidado como referência de liquidez e confiança para todo o segmento.
Bitcoin mantém posição de ativo âncora
Para André Franco, diretor da Boost Research, o papel do bitcoin vai além de uma simples opção de investimento. Ele funciona como indicador do comportamento do mercado como um todo.
“Em cenários de correção, tende a sofrer menos do que as chamadas altcoins. Quando há retomada, é o primeiro a recuperar o fluxo comprador e a confiança institucional. Trata-se da posição base de qualquer carteira que queira atravessar ciclos de alta e baixa”, explica.
Segundo Matias Part, analista da Bitget, o sentimento do mercado permanece em zona de “medo extremo”, conforme indicadores de apetite ao risco. Investidores aguardam a divulgação de dados de emprego e inflação nos Estados Unidos, que devem definir a trajetória da
política monetária americana e, por consequência, o rumo das criptomoedas.
Ainda assim, a faixa de negociação atual, próxima de US$ 61 mil, é vista como uma janela de entrada interessante para quem tem horizonte de longo prazo, sem expectativa de ganhos imediatos.
Solana ganha força por desempenho da rede
A solana divide a liderança nas listas de recomendação, mesmo em um ambiente de mercado mais restrito. O diferencial apontado por analistas está na capacidade técnica da rede e na ampliação de seu ecossistema de aplicações.
“Mesmo
com preços sob pressão, a Solana segue no centro das discussões sobre escalabilidade, custo baixo por transação e uso prático para o usuário final. A evolução contínua da infraestrutura mantém a tese de crescimento”, afirma André Sprone, responsável pela área de Ibero-América da MEXC.
Com valorização de 8,68% no início desta quinta-feira, negociada a US$ 81,56, a SOL tem mostrado resiliência maior do que outras redes concorrentes, sustentada pela entrada de novos projetos e pela adoção de contratos inteligentes mais complexos.
Hyperliquid se destaca entre plataformas de derivativos
A Hyperliquid, representada pelo token HYPE, aparece em cinco das oito carteiras analisadas e é um dos destaques do ano. Trata-se de uma exchange descentralizada que oferece negociação de contratos perpétuos e derivativos vinculados a ativos como ouro,
dólar e, mais recentemente, ao Ibovespa.
Para o Mercado Bitcoin, plataformas desse tipo costumam se beneficiar em momentos de maior volatilidade. “Com oscilações mais fortes, o volume negociado aumenta, assim como a atividade dos usuários e a receita proveniente de taxas de operação”, avalia a instituição.
A ampliação dos produtos disponíveis na rede tem ajudado a tornar o HYPE uma alternativa interessante para quem busca exposição ao setor de finanças descentralizadas.
Ethereum segue como base da tokenização
O ethereum (ETH) aparece em três listas, mantendo sua posição como principal infraestrutura para aplicações descentralizadas e tokenização de ativos reais. Dados da plataforma RWA.xyz mostram que a rede concentra cerca de metade dos US$ 31,5 bilhões movimentados em projetos de ativos digitais lastreados em bens físicos ou contratos financeiros.
“O crescimento das camadas secundárias, conhecidas como Layer 2, aliado ao uso cada vez maior de stablecoins, mantém o ETH como peça central da infraestrutura digital global. Sua maturidade reduz riscos em comparação a redes mais novas”, diz Marcelo Person, diretor de tesouraria e mercado cripto da Foxbit.
No início do dia, o ativo era negociado a US$ 1.643,56, com alta de 4,57% no pregão.
Chainlink conecta mercados tradicionais e digitais
A Chainlink (LINK) também foi citada em três das carteiras. A rede funciona como oráculo, ou seja, faz a ponte entre dados externos e contratos inteligentes nas blockchains. Essa função ganha importância conforme a tokenização de ativos reais avança.
“Com a integração cada vez maior entre o mercado tradicional e o ambiente digital, a confiabilidade dos dados recebidos pelas redes passa a ser essencial. O papel dos oráculos deixa de ser apenas técnico e se torna estrutural para novas operações”, destaca Julián Colombo, diretor de políticas públicas e estratégia para a América do Sul na Bitso.
Aave mantém liderança em empréstimos descentralizados
O protocolo Aave, com seu token nativo AAVE, fecha a lista das seis principais indicações. O projeto é referência em operações de empréstimo e depósito sem intermediação bancária, dentro do universo das finanças descentralizadas.
Segundo a equipe de análise do BTG Pactual, a plataforma segue consolidada. “Constrói sua reputação com base em segurança, liquidez e inovação. Permite que usuários negociem recursos diretamente entre si, sem passar por instituições financeiras convencionais”, aponta o relatório do banco.
Regulação e liquidez no radar do mercado
Além da análise dos ativos, o setor segue atento a questões regulatórias que podem alterar o ambiente de negociação no Brasil. Em audiência pública recente na Câmara dos Deputados, foi debatida a classificação das stablecoins — se devem ser tratadas como ativos virtuais ou como representação de dinheiro.
A definição não é apenas semântica: cada classificação traz regras diferentes de tributação, supervisão e garantia ao investidor. O Banco Central defende a abordagem mais próxima de moeda digital, enquanto a maior parte do mercado prefere manter o enquadramento como ativo de investimento.
Outro ponto observado é a redução de liquidez local após notificações do Banco Central a instituições financeiras, que levaram à revisão de operações de câmbio usadas por fundos para trazer recursos do exterior. Como consequência, as stablecoins passaram a ser negociadas com ágio de cerca de 2% no mercado brasileiro.
Investidores de longo prazo voltam a acumular
Por trás da recuperação do bitcoin para cima de US$ 60 mil, analistas da Glassnode apontam um movimento importante: investidores com horizonte de longo prazo retomaram a compra do ativo após meses de redução de posições.
Esse comportamento é considerado um sinal técnico relevante, pois historicamente indica que parte do mercado aproveita quedas expressivas para aumentar sua exposição, reforçando a visão de suporte em níveis mais baixos.
Embora o mês de julho ainda esteja sujeito a oscilações fortes, a tendência observada é de seletividade: ativos com fundamentos sólidos, rede consolidada e casos de uso claros devem seguir com demanda mais estável, enquanto projetos sem sustentação tendem a enfrentar maior pressão de venda.