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BlackRock: Brasil tem vantagem na nova economia global, mas precisa acelerar investimentos em infraestrutura

Maior gestora do mundo aponta posição estratégica em transição energética e IA, mas alerta para gargalos que limitam crescimento

por Antônio Lima
07/07/2026 às 12h34
em Economia
Blackrock L - Gazeta Mercantil

BlackRock / Divulgação

A BlackRock avalia que o Brasil reúne condições para ocupar posição central na reorganização da economia mundial, impulsionada pela inteligência artificial, pela transição energética e pela fragmentação geopolítica, mas alerta que o país precisa superar gargalos de infraestrutura para transformar suas vantagens naturais em crescimento, investimentos e maior participação nas cadeias globais. A leitura foi apresentada no lançamento do Mid-Year Outlook 2026, relatório semestral da maior gestora de recursos do mundo.

Segundo Axel Christensen, estrategista-chefe da BlackRock para a América Latina, o Brasil aparece no radar de investidores globais por combinar três atributos raros no atual ambiente internacional: produção de alimentos em escala, matriz energética com forte presença de fontes renováveis e oferta potencial de minerais críticos usados em baterias, eletrificação, semicondutores e infraestrutura digital.

Leia também: FMI Brasil: país está preparado para crise global, mas dívida preocupa e exige reformas.

A avaliação ocorre em um momento em que a BlackRock vê a economia mundial entrando em uma fase de “escassez estrutural”. O relatório da gestora afirma que a expansão da inteligência artificial pressiona a demanda por energia, data centers, chips, memória, redes elétricas, mão de obra especializada, capital e matérias-primas.

Nesse cenário, países capazes de entregar recursos estratégicos com segurança, previsibilidade e escala tendem a ganhar relevância. Para a BlackRock, o Brasil está entre os mercados que podem se beneficiar dessa mudança, desde que consiga reduzir entraves logísticos, ampliar transmissão de energia, modernizar portos e melhorar a conectividade.

Brasil entra na disputa global por recursos estratégicos

A tese da BlackRock parte de uma mudança estrutural na economia global. Durante décadas, empresas organizaram suas cadeias produtivas com foco em custo, eficiência e integração internacional. Agora, a fragmentação geopolítica, as tensões comerciais e a busca por segurança de abastecimento elevaram o valor de países capazes de fornecer insumos essenciais.

O Brasil se encaixa nessa leitura por sua base produtiva. O país é grande produtor e exportador de alimentos, tem uma das matrizes elétricas mais renováveis entre as maiores economias e conta com reservas relevantes de minerais necessários à transição energética.

Na nova economia, esses atributos deixam de ser apenas vantagens naturais e passam a ter valor estratégico. A expansão da inteligência artificial exige energia estável e abundante para abastecer data centers. A eletrificação depende de redes de transmissão, baterias e minerais. A transição energética demanda geração renovável, armazenamento e infraestrutura de distribuição.

Para investidores, a questão não é apenas onde estão os recursos. O ponto central é quais países conseguem transformar esses recursos em projetos financiáveis, com regulação previsível, licenciamento funcional, logística eficiente e capacidade de entrega.

É nesse ponto que a BlackRock identifica o maior desafio brasileiro. O país tem recursos, mas ainda precisa provar que consegue convertê-los em capacidade econômica de forma rápida e confiável.

Infraestrutura vira divisor entre potencial e resultado

A infraestrutura aparece como o principal gargalo do Brasil na análise da BlackRock. A gestora destaca que estradas, ferrovias, portos, linhas de transmissão, redes elétricas e conectividade digital são peças fundamentais para que o país capture a nova onda de investimentos globais.

Sem infraestrutura adequada, a vantagem natural perde força. Alimentos produzidos em escala podem ficar mais caros para exportar. Energia renovável pode ser desperdiçada por falta de transmissão. Minerais críticos podem permanecer subaproveitados por dificuldade logística, ambiental ou regulatória.

O problema já aparece em setores estratégicos. Projetos de energia renovável no Brasil enfrentam restrições de escoamento e cortes de geração em alguns períodos, quando a rede não consegue absorver toda a produção disponível. Esse tipo de limitação reduz a atratividade de novos investimentos, mesmo em um país com forte potencial solar, eólico e hídrico.

A mensagem para o mercado é direta: o Brasil não será beneficiário automático da reorganização global. Para atrair capital de longo prazo, precisará oferecer infraestrutura compatível com o tamanho da oportunidade.

Essa agenda envolve tanto investimento público quanto privado. Também depende de segurança jurídica, regras estáveis, coordenação entre União, estados, reguladores e empresas, além de planejamento integrado entre energia, transporte, mineração, tecnologia e indústria.

IA aumenta demanda por energia, data centers e minerais

A inteligência artificial é o principal motor da nova leitura da BlackRock para os mercados globais. O relatório afirma que a expansão da IA pode acelerar inovação e elevar produtividade, mas o caminho até esse ganho passa por uma fase de escassez.

Modelos de inteligência artificial exigem enorme capacidade computacional. Para operar, precisam de chips avançados, memória, data centers, sistemas de refrigeração, redes elétricas robustas e fornecimento contínuo de energia. Essa infraestrutura consome capital em escala bilionária e pressiona cadeias de suprimento já disputadas.

A BlackRock resume esse processo como uma tensão entre “escassez agora” e possível “abundância depois”. No curto prazo, a implantação da IA eleva a demanda por insumos escassos e pode manter custos mais altos. No longo prazo, se a tecnologia entregar ganhos de produtividade, a economia global poderia entrar em um ciclo de crescimento mais forte.

O Brasil entra nessa discussão de forma indireta, mas relevante. O país não está no centro da produção global de chips nem lidera a corrida dos grandes modelos de IA. Ainda assim, pode ganhar importância como fornecedor de energia limpa, minerais, alimentos e infraestrutura necessária para sustentar a expansão digital.

Essa é uma diferença importante. A oportunidade brasileira não depende apenas de criar empresas de tecnologia de ponta, mas de fornecer a base física para a nova economia.

América Latina ganha espaço seletivo entre emergentes

A BlackRock reduziu o otimismo geral com ações de mercados emergentes, mas passou a destacar oportunidades específicas na América Latina. A gestora vê a região como uma forma de exposição indireta à tese de inteligência artificial, especialmente por sua base de recursos naturais, matriz energética e posição relativamente menos exposta a algumas tensões geopolíticas globais.

Segundo a leitura da instituição, a América Latina não é grande o suficiente para sustentar sozinha uma recomendação ampla para emergentes, mas oferece bolsões de oportunidade. O Brasil aparece como principal foco regional por causa do tamanho da economia, profundidade dos mercados, presença de grandes empresas listadas e relevância em energia, alimentos, mineração e infraestrutura.

A gestora também vê valor em dívida de mercados emergentes em moeda local, com destaque para países como Brasil, México e Colômbia. O argumento é que esses ativos oferecem rendimento atrativo em relação à volatilidade, em um ambiente no qual os juros globais permanecem mais altos do que na década passada.

Para o investidor estrangeiro, essa combinação pode tornar a renda fixa latino-americana mais competitiva. No Brasil, os juros reais elevados aumentam o interesse por títulos locais, embora a alocação siga condicionada a risco fiscal, câmbio, inflação e cenário político.

A mensagem da BlackRock não é de otimismo irrestrito. A gestora trabalha com seletividade. Em vez de apostar genericamente em emergentes, busca países, setores e ativos conectados às grandes forças estruturais do mercado.

Juros altos mudam lógica de investimento global

O relatório da BlackRock também aponta que o mundo entrou em um regime de juros estruturalmente mais altos. A escassez de mão de obra, energia, capital, materiais e infraestrutura tende a manter a inflação mais persistente, reduzindo o espaço para cortes agressivos de juros nas principais economias.

Esse ambiente muda a forma como investidores alocam recursos. Na década anterior, juros baixos favoreciam ativos de crescimento, empresas de tecnologia e estratégias com maior tolerância a risco. Agora, renda, fluxo de caixa, proteção contra inflação e ativos reais voltaram a ganhar importância.

É nesse ponto que infraestrutura ganha destaque. Projetos de energia, transmissão, saneamento, logística, data centers e redes digitais podem oferecer receitas previsíveis, contratos de longo prazo e exposição direta a necessidades estruturais da economia.

Para o Brasil, o cenário cria uma oportunidade e uma cobrança. A oportunidade está em atrair capital privado para projetos de longo prazo. A cobrança está em oferecer ambiente regulatório capaz de reduzir o risco percebido pelos investidores.

Com juros domésticos ainda elevados, o custo de capital no Brasil continua sendo obstáculo para investimentos intensivos. A queda gradual da Selic, se confirmada nos próximos anos, poderia melhorar a viabilidade de projetos de infraestrutura. Mas a redução dos juros dependerá de inflação controlada, credibilidade fiscal e estabilidade institucional.

Energia renovável é vantagem, mas rede ainda limita expansão

A transição energética é uma das principais frentes em que o Brasil pode ganhar protagonismo. O país já possui matriz elétrica com forte participação de fontes renováveis, além de potencial adicional em solar, eólica, biomassa, hidrogênio de baixo carbono e biocombustíveis.

Esse perfil é relevante para empresas globais que buscam reduzir emissões e assegurar energia competitiva. Data centers, indústrias eletrointensivas e cadeias de exportação podem se beneficiar de eletricidade limpa, desde que haja capacidade de transmissão e confiabilidade no fornecimento.

O desafio é que a expansão renovável exige rede. Sem linhas de transmissão, sistemas de armazenamento e planejamento de demanda, parte da energia gerada pode não chegar aos centros de consumo. Isso compromete a rentabilidade de projetos e afeta a confiança de investidores.

O caso brasileiro mostra que abundância de recursos não basta. É necessário transformar potencial energético em infraestrutura operacional. Para a BlackRock, essa é a fronteira que separa o país que tem vantagens naturais do país capaz de capturar capital global em escala.

A mesma lógica vale para mineração. Minerais críticos só geram valor econômico amplo se houver licenciamento, logística, processamento, segurança jurídica e integração com cadeias industriais.

Setores ligados à nova economia entram no radar

A leitura da BlackRock favorece setores que servem de base para a transformação tecnológica e energética. Entre eles estão geração e transmissão de energia, infraestrutura digital, logística, mineração de insumos estratégicos, construção de data centers, armazenamento de energia e empresas com receitas protegidas por contratos de longo prazo.

No mercado global, a gestora ainda vê as empresas americanas como principais beneficiárias diretas da inteligência artificial, devido à liderança em chips, modelos, plataformas digitais, capital e profundidade de mercado. Mas o relatório recomenda olhar além das big techs.

Essa ampliação de foco beneficia ativos ligados aos gargalos da IA. Se a inteligência artificial precisa de energia, redes, data centers e materiais, empresas que fornecem esses elementos podem capturar parte do valor, mesmo sem desenvolver os modelos finais.

Para o Brasil, o efeito pode aparecer em infraestrutura, energia, mineração, agronegócio tecnológico, logística e serviços associados. A valorização não dependerá apenas de exportar commodities, mas de integrar essas cadeias a mercados de maior valor agregado.

Essa integração exige escala, previsibilidade e financiamento. Também exige capacidade de execução, ponto em que o país historicamente enfrenta atrasos, disputas regulatórias e gargalos de investimento.

Janela brasileira depende de previsibilidade

A BlackRock avalia que o Brasil tem uma janela de oportunidade importante, mas não permanente. Outros países também disputam capital, fornecimento de insumos, plantas industriais, projetos de energia e cadeias de tecnologia.

A diferença será definida por previsibilidade. Investidores globais tendem a priorizar mercados em que conseguem estimar retorno, risco regulatório, prazo de implantação e estabilidade contratual. Países com recursos naturais abundantes, mas regras instáveis, podem perder espaço para concorrentes mais organizados.

No caso brasileiro, o desafio envolve infraestrutura física e institucional. Não basta construir estradas, portos e redes elétricas. Também é necessário reduzir incerteza jurídica, acelerar licenciamento, melhorar governança de projetos, dar clareza a marcos regulatórios e manter disciplina fiscal.

A reorganização global abriu uma oportunidade rara para países com alimentos, energia e minerais. O Brasil está entre eles. Mas a conclusão da BlackRock é que o país precisa agir com rapidez para não deixar a vantagem se diluir.

Gargalo de infraestrutura define o tamanho da oportunidade brasileira

O Brasil aparece na leitura da BlackRock como um país bem posicionado para a nova economia, mas ainda incompleto para capturar todo o valor dessa mudança. A combinação de alimentos, energia renovável e minerais críticos coloca o país em posição favorável, enquanto a deficiência de infraestrutura limita a transformação desse potencial em crescimento sustentável.

A inteligência artificial, a transição energética e a fragmentação geopolítica estão redesenhando o mapa dos investimentos. Nesse novo mapa, recursos naturais voltaram a ser estratégicos, mas apenas quando acompanhados de logística, energia, conectividade e segurança institucional.

Para investidores, o Brasil oferece uma tese relevante. Para o país, o recado é mais exigente: a oportunidade existe, mas depende de execução. Se destravar infraestrutura, pode ganhar espaço nas cadeias globais. Se não avançar, continuará sendo visto como potência de recursos naturais com capacidade limitada de conversão econômica.

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