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Boletim Focus: IPCA segue acima da meta do BC e Selic é mantida em 14% para 2026

Relatório divulgado nesta segunda-feira (29) mostra inflação estável após 15 semanas de alta; dólar tem leve ajuste e mercado eleva cautela com a guerra no Oriente Médio

por Camila Braga
29/06/2026 às 18h41
em Economia
Boleitim Focus -Gazeta Mercantil

O Banco Central divulgou nesta segunda-feira (29) o boletim Focus, pesquisa semanal que reúne as projeções de instituições financeiras para os principais indicadores econômicos do país. O levantamento mostrou que a mediana para o IPCA de 2026 permaneceu em 5,33%, depois de subir por 15 semanas consecutivas, ainda acima do teto da meta de inflação perseguida pelo Banco Central, de 4,50%. As expectativas para a taxa Selic seguiram estáveis em 14,00% ao fim deste ano, enquanto as projeções para o dólar tiveram ajuste pontual de alta, em um cenário de cautela diante das incertezas fiscais internas e da guerra no Oriente Médio.

O boletim Focus é construído a partir de consultas a dezenas de bancos, gestoras e consultorias que atualizam semanalmente suas estimativas para inflação, juros, câmbio e atividade econômica. O documento é um dos principais termômetros de expectativas de mercado e costuma orientar decisões de política monetária do Comitê de Política Monetária (Copom). A divulgação do Focus desta segunda-feira (29) chega em um momento de maior volatilidade nos mercados globais, o que aumenta o peso das estimativas reunidas no relatório.

IPCA de 2026 estabiliza em 5,33% após 15 semanas de alta

A mediana do Focus para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026 permaneceu em 5,33% nesta divulgação, repetindo o número da semana anterior depois de uma sequência de 15 semanas seguidas de revisões para cima. Um mês atrás, a estimativa estava em 5,09%, o que mostra a deterioração das expectativas de inflação ao longo das últimas semanas.

O número segue acima do teto da meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional, de 4,50% para o ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. A manutenção da mediana do IPCA em patamar elevado reforça a percepção de que o Banco Central terá de manter vigilância sobre o ritmo de queda dos preços ao longo do segundo semestre.

Projeções para 2027 e 2028 também avançam no Focus

A estimativa intermediária do mercado para o IPCA de 2027 subiu de 4,15% para 4,17% no boletim Focus desta semana. Um mês antes, a mediana estava em 4,02%. Ao considerar apenas as 57 projeções atualizadas nos últimos cinco dias úteis, mais sensíveis a notícias recentes, a estimativa passou de 4,18% para 4,20%.

Para 2028, a mediana do Focus para a inflação permaneceu em 3,70%, ante 3,66% um mês antes. Já a projeção para 2029 seguiu em 3,50% pela 43ª semana consecutiva, sinalizando que o mercado não vê, no horizonte mais distante, alteração relevante na trajetória de convergência da inflação rumo à meta.

Selic para 2026 é mantida em 14% após três cortes do Copom no ano

O boletim Focus manteve em 14,00% a mediana das projeções para a taxa Selic no fim de 2026, mesmo número da semana anterior. Um mês atrás, a estimativa estava em 13,25%, o que indica que o mercado vem revisando para cima a trajetória esperada de juros ao longo das últimas semanas. Considerando apenas as 76 estimativas atualizadas nos últimos cinco dias úteis, mais sensíveis a notícias recentes, a mediana para a Selic no fim deste ano também ficou em 14,00%.

O Copom promoveu cortes de 0,25 ponto percentual nas três primeiras reuniões de 2026, movimento que levou a Selic à taxa atual de 14,25% ao ano. O ritmo gradual de redução dos juros reflete a cautela do colegiado em meio à resiliência da inflação e ao aumento da incerteza global, especialmente após a escalada do conflito no Oriente Médio.

Para o fim de 2027, a estimativa intermediária do Focus para a Selic permaneceu em 12,00%, ante 11,25% um mês atrás. Levando em conta apenas as 73 estimativas mais recentes, a mediana subiu de 12,00% para 12,25%, em mais um sinal de que o mercado projeta um ciclo de afrouxamento monetário mais lento do que o esperado anteriormente.

Comunicado do Copom reforça cautela sobre ritmo de afrouxamento monetário

No comunicado da reunião de junho, publicado na última quarta-feira (17), o Copom voltou a enfatizar a incerteza do cenário macroeconômico. O colegiado afirmou que, em razão da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, a magnitude total do atual ciclo de calibração da Selic será estabelecida à luz de novas informações, com o objetivo de assegurar a convergência da inflação à meta.

A mensagem do Banco Central, somada à manutenção das projeções do Focus em níveis elevados, sugere que o mercado não espera uma aceleração no ritmo de cortes de juros no curto prazo. Para os investidores que acompanham renda fixa, o cenário reforça a atratividade de títulos públicos indexados à Selic e ao IPCA, ao mesmo tempo em que mantém o custo do crédito elevado para famílias e empresas.

A mediana do Focus para a Selic no fim de 2028 subiu de 10,25% para 10,50%, ante 10,00% um mês atrás. Já a estimativa para 2029 permaneceu em 10,00% pela oitava semana consecutiva, indicando que o mercado projeta juros reais ainda em patamar restritivo no horizonte de longo prazo.

Dólar tem leve alta nas projeções para 2026, em meio à guerra no Oriente Médio

O boletim Focus manteve em R$ 5,20 a mediana das projeções para a cotação do dólar no fim de 2026, repetindo o número da semana anterior. Um mês atrás, a estimativa estava em R$ 5,16. Ao considerar apenas as 43 estimativas atualizadas nos últimos cinco dias úteis, mais sensíveis a notícias recentes, a mediana subiu de R$ 5,20 para R$ 5,23, movimento que acompanha o aumento da aversão a risco global associado ao conflito no Oriente Médio.

A estabilidade nas projeções para o câmbio, mesmo em um contexto de tensão geopolítica, sugere que o mercado não vislumbra, por ora, uma depreciação abrupta do real frente ao dólar. Episódios anteriores de escalada de conflitos internacionais costumam pressionar moedas emergentes, mas o efeito sobre o real tem sido, até aqui, limitado segundo as estimativas do Focus.

Expectativas para câmbio em 2027, 2028 e 2029 seguem em ajuste gradual

Para o fim de 2027, a mediana do Focus para o dólar oscilou de R$ 5,27 para R$ 5,28. Quatro semanas atrás, a estimativa estava em R$ 5,25. Já a projeção para o fim de 2028 aumentou de R$ 5,30 para R$ 5,35, ante R$ 5,30 um mês antes, enquanto a estimativa para 2029 permaneceu em R$ 5,40 pela segunda semana consecutiva, mesmo valor de um mês atrás.

A projeção anual de câmbio publicada pelo Focus é calculada com base na média da taxa esperada para o mês de dezembro de cada ano, e não no valor projetado para o último dia útil do período, metodologia adotada pelo Banco Central a partir de 2021. Essa mudança torna as comparações entre boletins mais consistentes ao longo do tempo, ainda que dificulte comparações diretas com séries históricas anteriores a essa alteração.

Indicadores do Focus orientam decisões de investidores e de política monetária

O conjunto de projeções divulgado pelo Focus tem efeito direto sobre as decisões de alocação de investidores institucionais e sobre a comunicação do próprio Banco Central. Uma mediana de IPCA persistentemente acima da meta tende a reduzir o espaço para cortes mais agressivos de juros, enquanto uma Selic projetada em patamar elevado por mais tempo eleva o custo de financiamento para empresas e consumidores.

Para o mercado de renda variável, a manutenção de juros altos por um período mais longo tende a beneficiar setores menos sensíveis a crédito, como exportadoras e companhias com caixa líquido positivo, em detrimento de setores mais dependentes de financiamento, como construção civil e varejo. Já para o câmbio, a relativa estabilidade das projeções do Focus para o dólar reduz, por ora, a pressão por uma reação mais intensa do Banco Central no mercado cambial.

Analistas que acompanham o Focus semanalmente destacam que a combinação de inflação resistente, juros elevados e cautela fiscal tende a manter o Copom em compasso de espera nas próximas reuniões, priorizando a leitura de novos dados antes de qualquer sinalização sobre o fim do ciclo de afrouxamento monetário.

Guerra no Oriente Médio mantém Banco Central em alerta sobre ritmo dos cortes de juros

A escalada das tensões no Oriente Médio surge como fator adicional de cautela nas projeções captadas pelo Focus desta semana, tanto para a inflação quanto para o câmbio e os juros. Eventuais novos choques de preços de commodities, em especial petróleo, têm potencial para pressionar o IPCA nos próximos meses e complicar ainda mais a trajetória de convergência da inflação à meta perseguida pelo Banco Central.

Diante desse cenário, o mercado financeiro deve seguir monitorando de perto tanto o desenrolar do conflito no Oriente Médio quanto a evolução do quadro fiscal doméstico, dois fatores que devem continuar pautando as revisões do boletim Focus nas próximas semanas e, por consequência, as próprias decisões do Copom sobre o futuro da Selic. A próxima divulgação do Focus, na segunda-feira seguinte, deve mostrar se as projeções de inflação, juros e câmbio seguem na mesma direção ou se o cenário externo já começa a alterar de forma mais clara as estimativas do mercado.

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