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Brasil entra na mira de segunda tarifa dos EUA, de 12,5%; anúncio pode sair na próxima semana

Medida integra investigação sobre o controle de importações ligadas ao trabalho forçado e poderá ampliar a pressão sobre exportadores já atingidos pela sobretaxa de 25%

por Maria Helena Costa - Repórter de Economia
17/07/2026 às 16h37
em Economia,Destaque,Notícias
Tarifa De Trump Contra O Brasil Vira Risco Para Tesla, Coca-Cola E Nestlé Nos Eua - Gazeta Mercantil

Os Estados Unidos poderão anunciar, na semana de 20 a 24 de julho, uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos brasileiros, ampliando a pressão comercial sobre o país poucos dias após a confirmação de uma sobretaxa de 25%. A expectativa foi apresentada nesta sexta-feira (17) pelo presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, Laudemir Müller, durante entrevista coletiva sobre os efeitos das medidas adotadas por Washington.

“Parece que haverá alguma manifestação do governo americano na semana que vem sobre esse assunto, vamos ver”, afirmou Müller.

A possível tarifa de 12,5% dos EUA faz parte de uma investigação aberta contra 60 economias sob a Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana. O processo avalia se esses países possuem mecanismos para impedir a importação de mercadorias produzidas, total ou parcialmente, com trabalho forçado.

O Brasil foi incluído no grupo de economias que, segundo o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, não teriam criado nem aplicado uma proibição específica e efetiva para esse tipo de importação.

A medida ainda não foi formalmente adotada. Até esta sexta-feira, a tarifa de 12,5% permanecia como uma proposta submetida a consultas e audiências públicas. O anúncio esperado para a próxima semana deverá esclarecer a alíquota final, a data de entrada em vigor, as exceções e as condições de aplicação.

Nova investigação é diferente da tarifa de 25%

A tarifa de 12,5% dos EUA não faz parte do mesmo processo que resultou na sobretaxa de 25% anunciada em 15 de julho.

As duas medidas utilizam a Seção 301, instrumento comercial que autoriza o governo norte-americano a reagir a práticas estrangeiras consideradas injustificáveis, não razoáveis ou discriminatórias e prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos.

A primeira investigação foi aberta especificamente contra o Brasil em julho de 2025. O processo analisou políticas relacionadas ao comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal.

Após quase um ano de consultas, o USTR decidiu impor uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, com uma lista de exceções. A cobrança começa em 22 de julho.

A segunda investigação possui caráter global. Ela alcança 60 economias e se concentra na ausência ou insuficiência de controles sobre a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.

Por isso, a eventual tarifa de 12,5% não representa uma acusação de que todos os produtos brasileiros sejam fabricados em condições irregulares. A crítica de Washington está direcionada à política adotada pelo Brasil para controlar as mercadorias que entram no país.

USTR propôs 12,5% para o grupo do Brasil

O governo norte-americano iniciou as investigações em 12 de março de 2026. Em junho, o USTR concluiu que as políticas das 60 economias analisadas poderiam ser enquadradas como práticas não razoáveis que oneram ou restringem o comércio dos Estados Unidos.

O órgão separou os países em diferentes grupos.

Economias que possuem alguma proibição de importação, assumiram compromissos específicos com Washington ou adotaram um regime parcial ficaram sujeitas a uma proposta de tarifa adicional de 10%.

Para os demais países, entre eles o Brasil, o USTR propôs a alíquota de 12,5%.

A justificativa norte-americana é que mercadorias produzidas com trabalho forçado podem chegar ao mercado a custos artificialmente baixos. A ausência de controles sobre a importação desses produtos, segundo o USTR, prejudicaria empresas e trabalhadores que operam sob regras regulares.

Washington sustenta que a proibição do trabalho forçado dentro do território nacional não é suficiente. Na avaliação do órgão, o país também precisa bloquear a entrada de bens estrangeiros que utilizem mão de obra forçada ou insumos associados a essa prática.

Tarifa poderá alcançar uma parcela ampla da pauta

A proposta norte-americana prevê a aplicação da tarifa de 12,5% dos EUA sobre todos os produtos originários das economias atingidas, com exceção dos itens relacionados em um anexo específico.

A estrutura cria uma exposição potencialmente ampla para as exportações brasileiras. O efeito real, porém, dependerá da lista definitiva de códigos tarifários.

O USTR propôs excluir mercadorias já submetidas a determinadas tarifas da Seção 232, além de matérias-primas cuja cobrança poderia provocar falta de oferta no mercado norte-americano.

Também poderão ficar de fora produtos cuja tributação causaria perturbações em toda a economia dos Estados Unidos e bens que o país não consegue produzir internamente em quantidade ou preço suficientes.

As exceções finais serão fundamentais para medir quais setores brasileiros enfrentarão maior impacto.

A lista poderá preservar produtos estratégicos para os compradores norte-americanos, enquanto mercadorias com fornecedores alternativos estarão mais expostas à perda de competitividade.

Sem o documento definitivo, empresas ainda não conseguem calcular com precisão o aumento de custos nem revisar suas projeções de exportação.

Duas tarifas podem ser cobradas sobre o mesmo produto

Uma das principais dúvidas é se a tarifa de 12,5% dos EUA será acumulada com a sobretaxa de 25% já confirmada contra o Brasil.

Em tese, uma mercadoria alcançada pelas duas investigações poderia enfrentar uma cobrança adicional nominal de 37,5%, além da tarifa de importação normalmente prevista para o produto.

A soma, contudo, não será automática para toda a pauta brasileira. Cada processo possui suas próprias exceções, códigos aduaneiros e regras de aplicação.

Um produto pode ser atingido pela tarifa de 25%, mas aparecer entre as exceções da nova medida. Também poderá ocorrer a situação inversa.

O ato final sobre os 12,5% precisará esclarecer como a nova cobrança se relacionará com outras tarifas aplicadas pelos Estados Unidos, incluindo medidas sobre aço, alumínio, cobre, veículos e determinados produtos industriais.

A possibilidade de sobreposição já foi discutida durante o processo da tarifa de 25%. Representantes do setor de etanol alertaram o USTR de que a combinação com outras medidas poderia levar a uma cobrança total adicional de até 37,5% sobre o produto brasileiro.

Para os exportadores, a diferença entre enfrentar uma ou duas tarifas poderá definir a manutenção ou a perda de contratos.

Importador norte-americano recolhe, mas custo chega ao Brasil

A tarifa é formalmente paga pelo importador no momento em que a mercadoria entra nos Estados Unidos. Isso não significa que o custo ficará restrito à empresa norte-americana.

O importador poderá exigir desconto do fornecedor brasileiro para compensar parte ou toda a sobretaxa. Também poderá repassar o custo ao consumidor ou procurar uma empresa de outro país.

A distribuição do impacto dependerá do poder de negociação de cada participante da cadeia.

Exportadores que oferecem produtos especializados, possuem contratos de longo prazo ou atendem a mercados com poucos fornecedores podem preservar uma parcela maior de suas margens.

Empresas que vendem mercadorias padronizadas e disputam clientes principalmente pelo preço tendem a enfrentar uma pressão mais intensa.

O efeito também dependerá das regras previstas nos contratos. Operações fechadas antes do anúncio podem não estabelecer claramente qual parte será responsável por uma mudança tarifária dessa dimensão.

Renegociações, atrasos em embarques e revisão de volumes deverão ganhar espaço caso a tarifa de 12,5% dos EUA seja confirmada.

Governo brasileiro classifica medidas como injustas

O governo brasileiro contesta as duas investigações conduzidas sob a Seção 301.

Em reunião com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, realizada em 14 de julho, equipes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, do Itamaraty e da Presidência classificaram como injustas tanto a tarifa de 25% quanto a recomendação de 12,5%.

Segundo o governo, nenhuma das razões apresentadas por Washington justificaria as sobretaxas.

Brasília também questiona a legitimidade do uso unilateral da Seção 301 fora dos mecanismos multilaterais de comércio.

O governo afirma ter mantido mais de 30 reuniões com autoridades norte-americanas desde julho de 2025, sem que as negociações fossem suficientes para impedir a primeira tarifa.

A defesa brasileira destaca ainda que os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 424,5 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil ao longo dos últimos 15 anos.

O argumento é utilizado para contestar a ideia de que a relação bilateral produza um desequilíbrio sistematicamente desfavorável aos norte-americanos.

ApexBrasil prepara empresas para buscar outros mercados

Diante do aumento das barreiras, a ApexBrasil pretende intensificar programas de diversificação de destinos.

“Nós não temos outra alternativa, pelo menos não como agência de promoção de exportações, a não ser seguir preparando as nossas empresas e buscando novos mercados”, declarou Laudemir Müller.

A atuação deverá incluir estudos sobre oportunidades comerciais, aproximação com compradores, missões empresariais, participação em feiras e apoio à adaptação de produtos.

A agência pretende dar atenção especial aos setores que perderem competitividade nos Estados Unidos, mas que passaram a contar com condições tarifárias mais favoráveis em outros destinos.

A diversificação, entretanto, não significa que o mercado norte-americano tenha perdido relevância.

“É importante para as empresas brasileiras e o Brasil é importante para as empresas americanas”, afirmou o presidente da ApexBrasil.

Os Estados Unidos continuam entre os principais compradores de produtos industrializados brasileiros, com peso relevante em máquinas, equipamentos, aeronaves, produtos químicos e alimentos processados.

A substituição desses clientes exige tempo, certificações, redes de distribuição e adaptação às características de cada mercado.

Acordo com União Europeia abre alternativa imediata

A União Europeia deverá ocupar uma posição prioritária na estratégia brasileira.

O acordo comercial provisório entre Mercosul e União Europeia começou a ser aplicado em 1º de maio de 2026, depois de ter sido assinado em janeiro.

O instrumento eliminou imediatamente algumas tarifas e estabeleceu cronogramas de redução para outras mercadorias.

A ApexBrasil pretende identificar produtos que enfrentarão maior tributação nos Estados Unidos, mas receberam acesso preferencial ao mercado europeu.

A oportunidade não elimina os desafios. A União Europeia possui regras rigorosas sobre origem, rastreabilidade, sustentabilidade, rotulagem e segurança.

Empresas brasileiras precisarão verificar se seus produtos atendem às condições para utilizar as tarifas preferenciais.

Em alguns casos, o custo para adequar processos e certificações poderá reduzir uma parcela da vantagem obtida com a diminuição dos impostos de importação.

Ainda assim, o acordo cria uma alternativa concreta em um momento no qual o acesso aos Estados Unidos se torna mais caro e menos previsível.

Canadá ganha espaço na estratégia de diversificação

O Canadá também aparece entre os mercados observados pela ApexBrasil.

Segundo Müller, empresas canadenses demonstram maior interesse em estabelecer relações diretas com fornecedores brasileiros, reduzindo a dependência de produtos adquiridos por intermédio dos Estados Unidos.

“Boa parte do suprimento do Canadá sempre foi via Estados Unidos, e agora a gente está fazendo isso direto”, afirmou.

A aproximação poderá beneficiar áreas como alimentos, mineração, energia e produtos industriais.

O modelo canadense de financiamento à mineração também desperta interesse do governo brasileiro, especialmente para projetos relacionados a minerais críticos.

Esses insumos são utilizados na fabricação de baterias, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e tecnologias de energia renovável.

O Brasil possui reservas relevantes, mas precisa ampliar investimentos em pesquisa, processamento e infraestrutura para elevar sua participação nas cadeias globais.

China e outros países também reposicionam cadeias

A busca por novos destinos ocorre em uma reorganização mais ampla do comércio mundial.

Segundo Müller, diferentes governos estão revendo fornecedores, acordos e estratégias de investimento em resposta à instabilidade tarifária.

A China, maior mercado das exportações brasileiras, também procura ajustar suas relações comerciais diante das restrições impostas aos produtos chineses nos Estados Unidos e em outras economias.

O Brasil permanece como um destino importante para investimentos chineses em energia, infraestrutura, mineração, veículos elétricos e tecnologia.

Ao mesmo tempo, a elevada concentração das vendas brasileiras em commodities mantém a economia exposta às oscilações da demanda chinesa.

A diversificação defendida pela ApexBrasil envolve, portanto, não apenas encontrar substitutos para os Estados Unidos, mas reduzir a dependência de poucos países e de um número limitado de produtos.

O objetivo é ampliar a presença de bens industriais, serviços e mercadorias com maior valor agregado na pauta exportadora.

Anúncio definirá dimensão da segunda frente tarifária

A manifestação esperada para a semana de 20 de julho deverá responder às principais dúvidas das empresas brasileiras.

O mercado aguardará a confirmação da alíquota, a lista de exceções, o início da cobrança e as regras para mercadorias que já estão em trânsito.

Também será necessário esclarecer se os 12,5% serão cumulativos com a tarifa de 25% em todos os casos ou apenas em determinados grupos de produtos.

Até a publicação do ato final, a medida permanece como uma proposta e não deve ser tratada como cobrança já vigente.

Isso não impede que empresas iniciem revisões de contratos, preços e rotas comerciais diante da possibilidade de uma nova barreira.

A tarifa de 25% já confirmada entrará em vigor em 22 de julho. A eventual adoção da tarifa de 12,5% abrirá uma segunda frente comercial e poderá levar alguns produtos brasileiros a uma tributação adicional de até 37,5%.

O anúncio mostrará se Washington pretende utilizar as investigações sobre trabalho forçado como instrumento de pressão global ou se aceitará compromissos negociados para reduzir as alíquotas.

Para o Brasil, a decisão poderá acelerar um movimento que já começou: preservar o acesso ao mercado norte-americano enquanto empresas buscam, com maior urgência, compradores na Europa, no Canadá e em outras regiões.

Tags: 5% dos EUAApexBrasilcomércio exteriorEconomiaEstados Unidosexportações brasileirasLaudemir MüllerMercosulSeção 301tarifa de 12tarifas dos EUAtrabalho forçado

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