A Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (27) a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1 no Brasil, em uma votação que mobilizou governo, oposição, sindicatos e setores empresariais. O texto recebeu 461 votos favoráveis e apenas 19 contrários em segundo turno e agora segue para o Senado Federal, onde dependerá de nova aprovação para entrar em vigor.
A proposta altera de forma significativa a estrutura da jornada de trabalho no país ao estabelecer limite máximo de 40 horas semanais e adotar como modelo principal a escala 5×2, garantindo dois dias de descanso por semana aos trabalhadores.
A votação ocorre em um momento de forte debate sobre produtividade, qualidade de vida, saúde mental, relações de trabalho e custos operacionais para empresas. Nos bastidores de Brasília, o avanço da PEC já é tratado como uma das pautas trabalhistas de maior impacto político e econômico dos últimos anos.
De autoria dos deputados Reginaldo Lopes (PT-MG), Erika Hilton (Psol-SP) e Daiana Santos (PCdoB-RS), a proposta contou com apoio direto da base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que atuou para acelerar a tramitação na Câmara.
PEC do fim da escala 6×1 avança com ampla margem na Câmara
A aprovação da PEC do fim da escala 6×1 ocorreu em dois turnos no plenário da Câmara durante a noite desta quarta-feira. A margem expressiva de votos favoráveis demonstrou forte convergência política em torno da proposta, inclusive com apoio de parlamentares de partidos de centro e setores da oposição.
O texto estabelece que a jornada máxima semanal passe a ser de 40 horas, substituindo o atual modelo que permite escalas mais extensas em diferentes atividades econômicas.
Além disso, a proposta prevê período de transição de até 14 meses para adaptação das empresas e contratos de trabalho às novas regras.
A deputada Erika Hilton afirmou durante a votação que a escala 6×1 “é desumana” e afeta especialmente mulheres, mães e jovens trabalhadores.
Já o deputado Reginaldo Lopes classificou a proposta como “a maior conquista trabalhista desde a criação da CLT”, argumentando que o país reúne condições econômicas para reduzir a jornada sem comprometer a atividade produtiva.
Mudança na jornada de trabalho preocupa setores empresariais
A aprovação da PEC do fim da escala 6×1 gerou reação imediata entre representantes do setor produtivo, que acompanham com preocupação os possíveis impactos da mudança sobre custos operacionais e estrutura de funcionamento das empresas.
Segmentos como varejo, supermercados, restaurantes, logística, teleatendimento, segurança privada e serviços hospitalares aparecem entre os mais sensíveis à eventual implementação das novas regras.
Empresários argumentam que a redução da jornada pode elevar despesas com contratação de funcionários adicionais, pressionar margens e gerar aumento de custos em operações que funcionam de forma contínua.
Por outro lado, entidades sindicais defendem que jornadas menores tendem a melhorar produtividade, reduzir afastamentos médicos e ampliar qualidade de vida dos trabalhadores.
Economistas observam que os efeitos podem variar de acordo com o nível de automação e intensidade de mão de obra de cada setor.
Empresas mais digitalizadas tendem a absorver mudanças com menor impacto financeiro, enquanto negócios dependentes de operação presencial podem enfrentar necessidade de reorganização estrutural.
Texto mantém possibilidade de acordos e jornadas especiais
Apesar da criação da escala 5×2 como referência constitucional, a proposta aprovada pela Câmara mantém espaço para acordos coletivos e regimes especiais de trabalho.
A PEC preserva formatos como a jornada 12×36, comum em áreas consideradas essenciais, incluindo saúde, transporte, segurança e determinados segmentos industriais.
Essa flexibilização foi considerada estratégica pelos articuladores da proposta para reduzir resistência política e empresarial durante a tramitação no Congresso.
Mesmo assim, representantes de associações empresariais defendem que o Senado promova discussões mais aprofundadas sobre os impactos econômicos da medida antes de uma eventual aprovação definitiva.
Senado vira novo foco da disputa política em Brasília
Com a aprovação na Câmara, a pressão política agora se concentra sobre o Senado Federal.
Por se tratar de uma Proposta de Emenda à Constituição, o texto precisará ser aprovado em dois turnos pelos senadores, com apoio mínimo de três quintos da Casa — equivalente a 49 votos favoráveis.
Nos bastidores, lideranças governistas avaliam que o tema possui forte apelo popular e pode mobilizar trabalhadores urbanos em diferentes regiões do país.
Já parlamentares ligados ao setor empresarial indicam que pretendem ampliar o debate sobre impactos fiscais, produtividade e empregabilidade antes da votação no Senado.
A expectativa é de intensa articulação política nas próximas semanas, envolvendo governo, centrais sindicais, federações empresariais e representantes de diferentes setores econômicos.
Mercado de trabalho pode passar por transformação estrutural
Especialistas em relações trabalhistas afirmam que a eventual aprovação definitiva da PEC do fim da escala 6×1 poderá alterar de forma estrutural o funcionamento do mercado de trabalho brasileiro.
Além da redução da jornada, empresas podem acelerar investimentos em automação, inteligência artificial, digitalização de processos e reorganização operacional para compensar aumento de custos.
A discussão também recoloca em evidência o debate sobre produtividade no Brasil e o equilíbrio entre competitividade econômica e proteção social.
Defensores da proposta afirmam que economias desenvolvidas vêm reduzindo jornadas sem prejuízo ao crescimento econômico, enquanto críticos apontam diferenças estruturais entre o mercado brasileiro e países mais ricos.
No mercado financeiro, analistas acompanham potenciais impactos sobre empresas listadas na Bolsa que possuem grande dependência de mão de obra intensiva.
Setores de varejo, alimentação, serviços e logística aparecem entre os mais observados por investidores diante das discussões envolvendo custos trabalhistas e reorganização operacional.
Aprovação fortalece agenda social do governo Lula
A aprovação da PEC do fim da escala 6×1 representa também uma vitória política relevante para o governo Lula no Congresso Nacional.
A proposta se conecta diretamente ao discurso do Palácio do Planalto de fortalecimento de direitos trabalhistas, geração de renda e ampliação de proteção social.
Integrantes do governo avaliam que a pauta possui elevado potencial de mobilização popular e pode ampliar a aproximação da gestão federal com sindicatos e trabalhadores urbanos.
Ao mesmo tempo, o avanço da PEC tende a intensificar a disputa política entre setores favoráveis à ampliação de direitos trabalhistas e grupos empresariais preocupados com o impacto econômico da medida.
Com a chegada da proposta ao Senado, Brasília entra agora em uma nova fase de negociações políticas, pressão empresarial e mobilização sindical em torno de uma mudança que pode redefinir a jornada de trabalho no Brasil.









