Muito antes de o sobrenome Wizard se transformar em uma das marcas mais conhecidas do ensino de idiomas no Brasil, Carlos Martins dava aulas de inglês à noite para colegas de trabalho. A atividade começou como complemento de renda, mas acabou rendendo mais que o emprego formal. Foi dessa inversão aparentemente simples — ganhar mais ensinando inglês do que trabalhando como analista de sistemas — que nasceu um negócio que décadas depois seria vendido por cifras bilionárias.
Carlos Wizard Martins construiu sua trajetória empresarial a partir de um modelo que combinava ensino de idiomas, expansão por franquias e aquisição de marcas concorrentes. A Wizard deixou de ser uma pequena escola para se transformar no núcleo de um grupo educacional com centenas de milhares de alunos. Em 2013, o Grupo Multi foi vendido à britânica Pearson, encerrando um dos ciclos empresariais mais conhecidos do setor de educação privada brasileiro.
A operação ajuda a dimensionar o tamanho alcançado pelo negócio. A Pearson acertou o pagamento de aproximadamente £ 440 milhões em dinheiro pela companhia e assumiu cerca de £ 65 milhões em dívidas. Considerados os dois componentes, o valor econômico envolvido alcançava aproximadamente £ 505 milhões. Na conversão divulgada à época, o pagamento em dinheiro correspondia a cerca de R$ 1,7 bilhão, enquanto a dívida assumida representava aproximadamente R$ 250 milhões.
Isso significa que a dívida representava perto de 13% do valor total da operação, uma distinção importante para entender por que diferentes registros históricos atribuem valores distintos à venda do Grupo Multi. Alguns consideram apenas o montante pago aos acionistas; outros somam a dívida assumida pela compradora.
O inglês aprendido ainda jovem virou negócio
Nascido em 1956, Carlos Martins teve contato com o inglês ainda na adolescência. O aprendizado esteve ligado à convivência com missionários de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, religião à qual sua família se converteu quando ele ainda era jovem. Posteriormente, Martins viveu nos Estados Unidos e também realizou trabalho missionário em Portugal.
A experiência internacional acabaria interferindo diretamente em sua carreira profissional. Martins estudou na Brigham Young University, nos Estados Unidos, onde se formou em 1985 nas áreas de ciência da computação e estatística. Durante o período universitário, também ensinou português no centro de treinamento missionário ligado à universidade.
Depois da graduação, trabalhou com análise de sistemas. Foi justamente no ambiente corporativo que surgiu a oportunidade que mudaria sua trajetória. Colegas que sabiam de sua experiência nos Estados Unidos começaram a pedir aulas de inglês. Martins passou a ensiná-los fora do horário de trabalho.
A atividade cresceu rapidamente. Segundo relato publicado pela própria Brigham Young University, em menos de um ano a renda obtida com as aulas de inglês já superava o salário de sua ocupação principal. Martins deixou então o emprego para se dedicar integralmente ao ensino do idioma.
O episódio revela uma característica que mais tarde seria central para a Wizard: o negócio nasceu atendendo uma demanda muito específica. Não se tratava inicialmente de reproduzir o modelo tradicional de uma escola de idiomas, mas de ensinar adultos que queriam usar o inglês no ambiente profissional.
Da sala de aula para as franquias
A decisão seguinte foi a que permitiu transformar uma atividade local em uma empresa nacional. Em vez de depender exclusivamente da abertura de unidades próprias, Martins adotou o sistema de franquias.
A primeira escola deu origem à Wizard Language Institute. Pouco depois, o negócio passou a ser replicado por franqueados. O modelo reduzia a necessidade de capital próprio para financiar cada nova unidade e permitia uma expansão geográfica muito mais rápida do que seria possível com escolas pertencentes integralmente ao fundador.
Esse mecanismo ajuda a explicar a escala alcançada pela empresa. Em publicação de 2009, a Brigham Young University registrava que a Wizard já possuía aproximadamente 1.200 unidades franqueadas e atendia cerca de 500 mil alunos. A rede também havia expandido suas atividades para outros países.
A expansão não ocorreu apenas pela multiplicação de escolas. Martins trabalhou também na diferenciação do método de ensino. Em entrevista ao projeto Creating Emerging Markets, da Harvard Business School, o empresário relatou a estratégia de segmentar o mercado de ensino de inglês e desenvolver uma metodologia direcionada a diferentes perfis de estudantes, incluindo profissionais e executivos.
Essa combinação entre produto padronizado e adaptação ao público é uma das chaves econômicas do modelo de franquias. O conteúdo, os materiais e a marca podem ser replicados em grande escala, enquanto a operação das escolas fica distribuída entre centenas de empresários locais.
Para a franqueadora, o resultado é a possibilidade de crescer sem financiar diretamente toda a estrutura física necessária para acompanhar a expansão.
Wizard deixa de ser apenas uma escola
Com o crescimento, a estratégia empresarial passou para uma segunda etapa. O negócio deixou de depender exclusivamente da marca Wizard e começou a reunir diferentes redes educacionais.
Foi desse processo que surgiu o Grupo Multi. Quando a Pearson anunciou a compra da companhia, em dezembro de 2013, o grupo atendia mais de 800 mil estudantes no Brasil e reunia marcas como Wizard, Yázigi, Microlins e Skill.
A transformação é relevante porque alterou o perfil da companhia. O que havia começado como uma escola de inglês criada por um professor tornou-se uma plataforma de educação baseada essencialmente em franquias.
O aumento de escala também tornou o grupo mais atraente para compradores internacionais. Para uma empresa estrangeira interessada no mercado brasileiro, adquirir uma organização com centenas de milhares de alunos e uma rede já estabelecida era uma alternativa muito mais rápida do que construir uma operação semelhante do zero.
Foi exatamente essa lógica que apareceu na aquisição pela Pearson.
Por que a Pearson comprou o Grupo Multi
A Pearson já era uma das grandes empresas internacionais de educação quando decidiu ampliar sua presença no Brasil. Em dezembro de 2013, anunciou a aquisição integral do Grupo Multi.
A família Martins possuía naquele momento 78% da companhia. A outra participação relevante estava com a gestora de investimentos Kinea. A Pearson pagaria aproximadamente £ 440 milhões em dinheiro aos acionistas e assumiria £ 65 milhões em dívida.
Para a companhia britânica, a compra entregava imediatamente uma posição relevante no mercado brasileiro de ensino de idiomas. O Grupo Multi tinha mais de 800 mil estudantes e milhares de unidades franqueadas, enquanto suas marcas permitiam atuar em diferentes segmentos da educação.
O negócio também mostra a valorização alcançada por um ativo cujo crescimento havia sido construído principalmente por meio de franquias. O comprador não estava adquirindo apenas prédios, escolas ou carteiras de alunos. Estava comprando marcas, metodologia, material didático, contratos com franqueados e uma estrutura comercial capaz de continuar abrindo unidades.
Essa é uma diferença fundamental para compreender a trajetória de Carlos Wizard. O principal ativo criado pelo empresário não foi uma grande quantidade de imóveis educacionais, mas um sistema replicável.
Uma construção de quase três décadas
Considerando a abertura da Wizard em meados dos anos 1980 e a venda do Grupo Multi em 2013, foram aproximadamente 26 anos entre a criação do negócio e sua transferência para a Pearson.
Nesse período, a companhia atravessou diferentes fases da economia brasileira, da inflação elevada dos anos 1980 e início dos anos 1990 à estabilização econômica e à expansão do consumo das décadas seguintes.
A trajetória também coincidiu com a consolidação das franquias como instrumento de expansão empresarial no país. Para serviços como educação, academias, alimentação e varejo especializado, o franchising permitiu que marcas nacionais avançassem para cidades nas quais dificilmente instalariam filiais próprias na mesma velocidade.
No caso da Wizard, o modelo encontrou outro vetor de crescimento: a valorização profissional do domínio do inglês. Com a internacionalização das empresas brasileiras e o aumento da integração econômica, aprender o idioma passou a ser associado a oportunidades de carreira e aumento de renda.
A escola criada a partir de aulas para colegas de trabalho estava, portanto, posicionada justamente em um mercado que se expandiria nas décadas seguintes.
Formação técnica e capacidade comercial
A graduação de Martins em ciência da computação e estatística também torna sua trajetória menos convencional do que a imagem de um professor que simplesmente decidiu abrir uma escola.
Ele não se formou originalmente para trabalhar na indústria de idiomas. Sua entrada no setor ocorreu depois de perceber uma oportunidade econômica a partir de uma habilidade paralela.
A história oferece uma leitura empresarial clara: a decisão mais importante não foi apenas ensinar inglês, mas identificar que havia disposição dos consumidores para pagar por uma metodologia específica e, posteriormente, criar um sistema capaz de ser reproduzido por terceiros.
A franquia multiplicou o negócio. A criação do Grupo Multi diversificou as marcas. A escala tornou a empresa um ativo estratégico. E a venda para a Pearson converteu décadas de construção empresarial em liquidez para seus acionistas.
O empresário depois da Wizard
A venda de 2013 encerrou o controle de Carlos Martins sobre a companhia que havia criado, mas não sua atuação empresarial. Nos anos seguintes, ele voltou a investir em diferentes negócios e passou a desenvolver também projetos filantrópicos. Entre 2018 e 2020, Carlos e a mulher, Vânia, participaram de uma missão humanitária voltada a refugiados venezuelanos no Norte do Brasil.
Sua história, no entanto, permanece fortemente associada à empresa cujo nome incorporou ao próprio nome pelo qual se tornou conhecido publicamente.
Carlos Martins virou Carlos Wizard Martins.
E o que começou como algumas aulas de inglês ministradas depois do expediente terminou como um dos casos mais conhecidos de criação de valor no mercado brasileiro de educação: uma pequena operação transformada em rede nacional, depois em grupo multimarcas e finalmente em uma companhia negociada por aproximadamente meio bilhão de libras.
Mais do que o tamanho da venda, o percurso ajuda a explicar por que a Wizard se tornou um caso relevante do franchising brasileiro. A escala não foi construída multiplicando capital próprio, mas multiplicando operadores capazes de reproduzir o mesmo modelo de negócio.
Foi essa capacidade de transformar uma aula em método, o método em franquia e a franquia em plataforma que levou Carlos Wizard de professor de inglês a fundador de um grupo educacional bilionário.
Fontes: Harvard Business School, projeto Creating Emerging Markets; Brigham Young University e BYU Marriott School of Business; Reuters; Church News.










