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Qual é a faculdade para ser empresário? Diploma não é obrigatório, mas formação pode fazer diferença

Administração é o curso mais diretamente ligado à gestão, mas Contabilidade, Economia, Marketing, Direito e formações específicas do setor também podem preparar quem pretende abrir o próprio negócio

por Ana Luiza Farias
19/08/2026 às 11h59
em Negócios
Qual É A Faculdade Para Ser Empresário? Veja Os Cursos Que Mais Ajudam Na Gestão - Gazeta Mercantil

Existe uma pergunta que costuma aparecer antes mesmo da abertura do primeiro CNPJ: qual é a faculdade para ser empresário? A resposta curta é que não existe uma. No Brasil, ninguém precisa apresentar diploma de Administração, Economia ou qualquer outro curso superior simplesmente para ser dono de uma empresa. A legislação estabelece requisitos para o exercício da atividade empresarial e para o registro do negócio, mas não cria uma graduação obrigatória para quem deseja empreender.

Isso não torna a formação acadêmica dispensável. Apenas coloca a discussão no lugar correto. Uma coisa é estar legalmente autorizado a abrir uma empresa; outra, bastante diferente, é saber administrá-la. O empresário passa a lidar com formação de preços, fluxo de caixa, impostos, contratação de pessoas, negociação com fornecedores, crédito, marketing, vendas, concorrência e decisões de investimento. É possível aprender tudo isso fora da universidade, mas também é possível reduzir parte da curva de aprendizado escolhendo uma formação que dialogue com o negócio que se pretende construir. Leia também: Vendas da Amazon nos EUA sobem 6% nas primeiras 24 horas do Prime Day.

O próprio Código Civil ajuda a esclarecer a diferença. A legislação considera empresário aquele que exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou serviços e determina, entre outras condições, o registro antes do início da atividade. A definição legal não pergunta onde o empreendedor estudou nem exige um diploma universitário.

Na prática, portanto, a pergunta mais útil talvez não seja “qual faculdade preciso fazer para ser empresário?”, mas “o que preciso saber para administrar bem uma empresa?”. E, nesse ponto, algumas graduações oferecem vantagens bastante concretas.

Administração é o caminho mais direto, mas não o único

Se fosse necessário apontar o curso superior mais próximo da rotina de quem comanda uma companhia, Administração seria a escolha mais evidente. A graduação foi estruturada justamente para formar profissionais capazes de compreender organizações, tomar decisões, analisar recursos e lidar com diferentes áreas de uma empresa. As diretrizes curriculares nacionais do curso abrangem competências relacionadas à gestão, análise de problemas organizacionais e tomada de decisão.

Essa visão geral tem valor porque uma empresa não funciona em compartimentos isolados. Uma decisão comercial pode aumentar as vendas e, ao mesmo tempo, comprometer o caixa. Uma contratação pode resolver um problema operacional e criar uma despesa fixa que a companhia ainda não consegue sustentar. A redução de preços pode atrair clientes, mas destruir a margem de lucro. Crescer rapidamente também pode ser perigoso quando a empresa precisa financiar estoques ou conceder prazos longos para receber.

Administração ajuda justamente a enxergar essas conexões. O aluno passa por finanças, marketing, gestão de pessoas, estratégia, operações e outras disciplinas que formam uma espécie de mapa da empresa. Isso não transforma automaticamente um recém-formado em bom empresário, mas permite que ele reconheça os problemas com os quais provavelmente terá de lidar.

A experiência continua sendo indispensável. Nenhuma faculdade consegue reproduzir integralmente a pressão de decidir se é hora de contratar, aumentar preços, interromper um produto, negociar uma dívida ou colocar dinheiro próprio em um negócio que ainda não deu retorno. A universidade oferece ferramentas; a vida empresarial testa se o empreendedor sabe utilizá-las.

Contabilidade pode ser ainda mais útil para alguns negócios

Para determinados perfis de empreendedor, Ciências Contábeis pode ter uma utilidade prática tão grande quanto Administração. Um dos erros mais comuns na vida empresarial é confundir dinheiro entrando na conta com resultado econômico. Faturamento, lucro e caixa são coisas diferentes, embora frequentemente sejam tratados como se fossem sinônimos.

Uma empresa pode faturar milhões e ter problemas para pagar suas contas. Basta que compre à vista, venda parcelado, mantenha estoque elevado ou opere com margens muito pequenas. Também pode apresentar lucro e, ainda assim, precisar buscar dinheiro no banco para financiar o crescimento. À medida que a empresa aumenta de tamanho, essas diferenças deixam de ser detalhes técnicos e passam a determinar sua sobrevivência.

O empreendedor não precisa fazer pessoalmente a contabilidade da própria companhia, da mesma maneira que não precisa ser advogado para assinar um contrato empresarial. Mas compreender balanço, demonstração de resultado, custos, margem, endividamento, capital de giro e geração de caixa melhora a qualidade das decisões.

Há uma razão para empresas aparentemente saudáveis quebrarem mesmo quando continuam vendendo. Muitas vezes, o problema não está na falta de clientes, mas na falta de caixa. Quem compreende os números percebe o problema antes de ele chegar ao banco.

Economia ajuda a entender o mundo em volta da empresa

Economia oferece outra perspectiva. Enquanto Administração se concentra muito no funcionamento da organização, a formação econômica permite compreender com maior profundidade o ambiente em que ela precisa sobreviver.

Juros, inflação, câmbio, emprego e renda não são conceitos distantes da realidade de um pequeno empresário. Uma elevação das taxas de juros pode reduzir o consumo financiado, encarecer empréstimos e alterar a viabilidade de uma expansão. Uma desvalorização do real pode aumentar o custo de matéria-prima importada. Uma queda na renda das famílias pode obrigar uma loja a rever preços, produtos e estoques.

O empreendedor não precisa prever o próximo movimento da taxa Selic ou acertar a cotação do dólar. Precisa entender de que maneira mudanças na economia chegam ao seu negócio e preparar a empresa para diferentes cenários.

Por isso, Economia tende a ser particularmente útil em atividades ligadas a investimentos, mercado financeiro, comércio exterior, indústria e setores fortemente dependentes de crédito ou commodities. É uma formação menos voltada à administração cotidiana de pessoas e processos, mas bastante útil para interpretar os sinais que vêm de fora da companhia.

Marketing e vendas resolvem um problema que todo empresário terá

Existe também uma verdade desconfortável para quem abre uma empresa apaixonado pelo produto: não basta fazer algo bom; alguém precisa comprá-lo.

É aí que Marketing ganha importância. Conhecer posicionamento de marca, comportamento do consumidor, pesquisa de mercado, canais de distribuição, comunicação e aquisição de clientes pode ser decisivo para transformar uma ideia em receita.

Esse conhecimento ficou ainda mais relevante com a expansão do comércio eletrônico, das redes sociais, dos mecanismos de busca e das plataformas digitais. Uma empresa pequena pode hoje alcançar consumidores em praticamente todo o país, mas também disputa atenção com milhares de concorrentes. Ter acesso ao mercado não significa necessariamente conseguir vender nele.

Um empresário deveria ser capaz de responder a perguntas aparentemente simples: quem é seu cliente, por que ele compra, quanto custa conquistá-lo, qual margem sobra depois da venda e por que ele escolheria aquela empresa em vez de um concorrente?

Quando essas respostas não existem, publicidade pode virar apenas gasto. Quando existem, marketing deixa de ser entendido como “fazer postagem” e passa a funcionar como parte da estratégia do negócio.

Às vezes, a melhor faculdade é a do próprio setor

Há ainda uma possibilidade frequentemente ignorada: a melhor formação para um futuro empresário pode não ser Administração.

Quem pretende criar uma empresa de tecnologia pode ganhar enorme vantagem estudando Ciência da Computação. Um engenheiro pode conhecer profundamente o produto ou o processo industrial que pretende transformar em negócio. Um arquiteto pode construir uma empresa dentro de um mercado que já conhece tecnicamente. O mesmo raciocínio vale para diversos outros setores.

Nesses casos, o empreendedor domina primeiro aquilo que vende e aprende gestão paralelamente. Pode fazer cursos de finanças, contratar profissionais especializados, estudar vendas e complementar a formação à medida que a empresa cresce.

Em muitos negócios, essa combinação funciona particularmente bem porque conhecimento técnico do setor cria uma barreira que não é simples de reproduzir. Aprender noções de fluxo de caixa pode ser mais rápido do que adquirir anos de formação técnica em determinado segmento.

O erro estaria em acreditar que domínio do produto substitui conhecimento empresarial. Um excelente profissional pode administrar mal uma empresa criada em torno da própria especialidade. Saber executar o serviço e saber transformar aquele serviço em uma organização sustentável são competências diferentes.

Abrir empresa também envolve burocracia, mas não diploma

O processo formal de abertura reforça essa distinção. A Redesim organiza atualmente etapas como consulta de viabilidade, inscrição e registro do CNPJ e obtenção das licenças exigidas para o funcionamento. Não há uma etapa geral chamada “comprovação de diploma do proprietário”.

Isso não significa que qualquer atividade possa ser exercida sem requisitos específicos. O licenciamento existe justamente porque determinados negócios estão sujeitos a regras sanitárias, ambientais, municipais, estaduais ou profissionais próprias. A exigência pode estar ligada à atividade da empresa ou à necessidade de profissional habilitado, mas isso é diferente de afirmar que todo empresário precisa ter uma determinada graduação.

Até mesmo o Microempreendedor Individual está inserido nessa lógica de formalização empresarial. A legislação enquadra o MEI a partir da figura do empresário individual e estabelece regras próprias para enquadramento, tributação e atividades permitidas, sem instituir uma faculdade obrigatória para alguém começar a empreender.

O diploma, portanto, pode ser uma ferramenta competitiva. Não é, como regra, uma autorização para empreender.

O que um empresário deveria aprender antes de abrir o negócio

Mais importante do que colecionar diplomas é não chegar ao mercado desconhecendo os fundamentos que comandarão a empresa. O primeiro deles é dinheiro. O empreendedor precisa saber quanto custa sua operação, quanto realmente ganha em cada venda e por quanto tempo consegue sobreviver se o faturamento cair.

Depois vêm os clientes. É necessário entender quem compra, por que compra, quanto está disposto a pagar e como a empresa chegará até essa pessoa. Em seguida aparecem as pessoas que trabalham no negócio. Uma companhia que cresce deixa de depender apenas da capacidade individual do fundador e passa a depender da qualidade da equipe que ele consegue montar.

Também existe a dimensão estratégica. Talvez uma das habilidades mais difíceis de aprender seja dizer não. Empresas jovens frequentemente tentam atender todos os públicos, lançar produtos demais e aceitar qualquer oportunidade comercial. O resultado pode ser uma organização ocupada, mas sem direção.

Esse conjunto explica por que não existe uma única faculdade capaz de “formar um empresário”. O trabalho exige um repertório que atravessa várias áreas e continua sendo construído depois que qualquer curso termina.

Diploma ajuda, mas não substitui execução

É tentador transformar a discussão em uma disputa entre faculdade e experiência, como se uma anulasse a outra. Na prática, a oposição faz pouco sentido. Formação acadêmica organiza conhecimento e pode impedir que o empreendedor precise descobrir sozinho erros que já foram estudados durante décadas. Experiência ensina aquilo que dificilmente cabe inteiro em um livro.

O empresário trabalha em condições de incerteza. Muitas decisões precisam ser tomadas antes que todas as informações estejam disponíveis. Não há como saber com absoluta segurança se uma nova loja terá clientes suficientes, se uma contratação dará certo ou se um concorrente reduzirá preços depois de uma expansão.

A experiência desenvolve julgamento. A formação oferece ferramentas para que esse julgamento seja menos dependente de intuição.

É possível construir essa base sem uma graduação tradicional. Cursos livres, livros, programas de capacitação e aprendizado dentro do próprio mercado podem formar empreendedores competentes. O problema começa quando “não preciso de faculdade” passa a ser interpretado como “não preciso estudar”.

São afirmações completamente diferentes.

Uma frase conhecida de Steve Jobs resume a dimensão pessoal do empreendedorismo ao defender que não há razão para deixar de seguir o próprio coração. A disposição para assumir riscos, porém, funciona melhor quando acompanhada pela capacidade de entendê-los.

Afinal, qual faculdade fazer para ser empresário?

Para quem quer uma resposta objetiva, Administração é provavelmente a graduação mais abrangente para quem pretende administrar uma empresa, porque aproxima o estudante das diversas áreas presentes na rotina de uma organização. Ciências Contábeis pode ser uma excelente escolha para quem deseja forte domínio financeiro; Economia oferece compreensão dos mercados; Marketing aprofunda o conhecimento sobre clientes e vendas; e cursos técnicos ligados ao setor podem fornecer a especialização que dará origem ao próprio negócio.

Mas nenhuma dessas formações é um pré-requisito universal.

O empresário brasileiro não nasce juridicamente quando recebe um diploma. A legislação o define pela atividade econômica que exerce e pelas condições estabelecidas para sua formalização. O que a universidade pode fazer é prepará-lo melhor para o que vem depois da abertura.

E é justamente depois da abertura que começa a parte difícil. Obter um CNPJ transforma uma ideia em uma empresa registrada. Transformar essa empresa em um negócio que vende, paga suas contas, gera caixa, emprega pessoas e consegue atravessar crises é outra história. Para isso, não existe diploma obrigatório — mas conhecimento dificilmente será opcional.

Fontes:

Presidência da República — Código Civil Brasileiro, Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002.

Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte — Redesim, orientações oficiais para abertura, registro e licenciamento de empresas.

Ministério da Educação e Conselho Nacional de Educação — Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Administração.

Presidência da República — Lei Complementar nº 123, que disciplina, entre outros temas, o Microempreendedor Individual.

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