O chamado carro voador da Embraer deverá começar a transportar passageiros comercialmente até o fim de 2028, de acordo com o cronograma apresentado nesta segunda-feira (10) pela companhia. O projeto é desenvolvido pela Eve Air Mobility (EVEB31), empresa criada a partir da estrutura de inovação da fabricante brasileira de aeronaves e que avança na campanha de testes do eVTOL, veículo elétrico projetado para decolar e pousar verticalmente.
A previsão foi reforçada pelo presidente da Embraer (EMBJ3), Francisco Gomes Neto, durante a apresentação dos resultados do segundo trimestre de 2026. A empresa trabalha com a expectativa de que a certificação e as primeiras operações comerciais ocorram em 2028, embora o início efetivo do transporte de passageiros dependa da conclusão dos testes, da aprovação das autoridades aeronáuticas e da preparação da infraestrutura necessária para esse novo modelo de mobilidade.
O projeto entrou em uma etapa decisiva em 2026. Depois de realizar o primeiro voo do protótipo em escala real em dezembro de 2025, a Eve ampliou progressivamente o envelope de testes e concluiu dezenas de operações destinadas a avaliar estabilidade, sistemas de controle, propulsão elétrica, consumo de energia e comportamento aerodinâmico. Até maio, a companhia havia realizado 59 voos bem-sucedidos, acumulando mais de duas horas de testes.
Nas últimas semanas, os trabalhos passaram a se concentrar na transição entre o voo sustentado pelos rotores verticais e o deslocamento horizontal apoiado pelas asas, uma das etapas tecnicamente mais importantes do desenvolvimento. O objetivo é demonstrar que a aeronave consegue sair da decolagem vertical, ganhar velocidade e transferir gradualmente a sustentação para as asas antes de realizar o processo inverso durante a aproximação para o pouso.
Carro voador entra na fase de transição de voo
A arquitetura do eVTOL da Eve combina oito rotores destinados à sustentação vertical com uma hélice traseira responsável pela propulsão horizontal, configuração escolhida para simplificar o funcionamento dos sistemas e reduzir a quantidade de componentes móveis.
Durante os testes iniciais, a aeronave permaneceu concentrada em operações de pairado e deslocamentos em baixa velocidade, permitindo aos engenheiros comparar o comportamento real do protótipo com os modelos desenvolvidos em simuladores e bancos de ensaio.
Em maio, quando encerrou esse bloco da campanha, a Eve informou ter completado mais de 100 pontos específicos de teste e demonstrado recursos como pouso automático e uma modalidade simplificada de seu sistema eletrônico de comandos de voo, o chamado fly-by-wire. Os resultados permitiram à companhia iniciar a preparação para os ensaios de transição.
A empresa informou em julho, durante o Farnborough International Airshow, que o programa avançaria primeiro para transições parciais e, posteriormente, para a configuração completa de voo sustentado pelas asas. Essa fase é fundamental porque permitirá avaliar a sincronização entre os sistemas de sustentação vertical e a propulsão traseira, além de verificar o comportamento aerodinâmico em velocidades progressivamente maiores.
Segundo os dados apresentados nesta segunda-feira, o protótipo já ultrapassou a marca de 60 operações verticais e iniciou os primeiros testes dessa nova etapa, que deverá ocupar parte relevante do restante de 2026 e o início de 2027.
Transição é uma das etapas mais importantes para certificação
Diferentemente de um helicóptero convencional, que utiliza o mesmo rotor principal durante praticamente todo o voo, o projeto da Eve foi desenvolvido para aproveitar a eficiência aerodinâmica das asas durante o deslocamento horizontal.
Na decolagem, os oito rotores superiores elevam a aeronave verticalmente. À medida que o veículo começa a avançar, a hélice traseira passa a fornecer impulso para a frente e as asas assumem progressivamente a função de sustentação.
Esse desenho permite que os rotores destinados ao voo vertical sejam utilizados apenas nas etapas em que são necessários, enquanto o deslocamento de cruzeiro ocorre de maneira mais semelhante ao de uma aeronave convencional.
O desafio dos testes consiste justamente em comprovar que a transferência entre essas duas condições ocorre de forma previsível e segura em diferentes situações de voo, incluindo variações de velocidade, altitude, vento, peso e condições operacionais.
A conclusão dessa fase será um dos passos necessários antes de a companhia avançar para os protótipos que participarão diretamente do processo de certificação.
Seis aeronaves serão construídas para certificação
A Eve prevê a produção de seis protótipos conformes, aeronaves construídas de acordo com a configuração que deverá ser submetida às autoridades aeronáuticas para certificação.
Esses veículos terão papel diferente do protótipo de engenharia utilizado atualmente. Enquanto a aeronave que já está voando serve principalmente para validar conceitos, controles e modelos aerodinâmicos, os protótipos conformes precisarão representar com maior precisão o produto que a companhia pretende entregar aos futuros operadores.
A produção dessas seis unidades está prevista para começar ainda em 2026, permitindo que a campanha de ensaios seja ampliada e distribuída entre diferentes aeronaves.
No Brasil, a autoridade responsável pela certificação primária será a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Paralelamente, a Eve trabalha para obter validações em outros mercados, incluindo Estados Unidos e Europa.
Em julho, a Anac abriu uma consulta relacionada aos critérios atualizados de aeronavegabilidade do modelo, enquanto a Eve iniciou procedimentos para validação do certificado também perante a Agência Europeia para a Segurança da Aviação, a Easa.
Primeiros passageiros podem voar em 2028
A Eve trabalha com 2028 como horizonte para a comercialização de sua aeronave e dos serviços associados ao eVTOL, conforme documentação apresentada pela companhia aos investidores.
O cronograma significa que os próximos dois anos serão utilizados para desenvolvimento, ensaios, construção das aeronaves conformes, certificação, preparação industrial e criação da infraestrutura necessária para as primeiras operações.
A própria companhia classifica esse planejamento como uma projeção, sujeita à evolução do processo de certificação e às autorizações necessárias para que passageiros possam ser transportados comercialmente.
Essa ressalva é particularmente importante na indústria aeronáutica, em que certificações podem demandar alterações de projeto ou novos ciclos de testes conforme surgem dados durante o desenvolvimento.
Mesmo assim, a Embraer considera a Eve uma das plataformas capazes de contribuir para o crescimento do grupo a partir do final desta década, quando a produção estiver em ritmo mais elevado e os primeiros operadores começarem a incorporar as aeronaves às suas frotas.
Brasil deve estar entre os primeiros mercados
O Brasil está entre os mercados prioritários para as primeiras operações comerciais, aproveitando tanto a proximidade da estrutura industrial da Embraer quanto a participação da Anac como autoridade primária na certificação.
Os Estados Unidos também fazem parte da estratégia de entrada no mercado, enquanto a companhia trabalha paralelamente na preparação regulatória para outros países.
A proposta inicial é utilizar o eVTOL especialmente em deslocamentos urbanos e regionais de curta distância, incluindo ligações entre aeroportos, centros financeiros, regiões metropolitanas e pontos onde congestionamentos terrestres tornam o transporte convencional mais demorado.
O modelo foi projetado para transportar um piloto e quatro passageiros, totalizando cinco ocupantes, e possui alcance planejado de até aproximadamente 100 quilômetros, característica que direciona sua utilização principalmente para viagens curtas.
Na prática, a aeronave não pretende substituir aviões que conectam cidades distantes, mas criar uma nova camada de transporte capaz de reduzir o tempo gasto em trajetos congestionados dentro das regiões metropolitanas.
Fábrica do carro voador ficará em Taubaté
A produção inicial do eVTOL será realizada em Taubaté, no interior de São Paulo, onde a Eve está preparando sua primeira unidade industrial dedicada ao programa.
O projeto industrial foi estruturado para crescer de maneira modular. Quando estiver completamente desenvolvido, o complexo terá capacidade para produzir até 480 aeronaves por ano, distribuídas em quatro módulos de aproximadamente 120 unidades anuais cada.
A escolha de uma estrutura ligada à própria Embraer permite aproveitar parte do conhecimento industrial acumulado pela fabricante brasileira em desenvolvimento, certificação e montagem de aeronaves, evitando a necessidade de construir toda a infraestrutura produtiva a partir do zero.
O planejamento modular também permite que a Eve ajuste os investimentos de acordo com a evolução da demanda, acrescentando capacidade conforme os contratos sejam convertidos em entregas.
A empresa já vinha realizando investimentos em equipamentos, ferramentas especiais, adequações civis e instalações destinadas aos testes das aeronaves produzidas em Taubaté.
Eve acumula milhares de encomendas e intenções de compra
A carteira comercial constitui outro elemento relevante para determinar a escala que o projeto poderá alcançar depois da certificação.
A Eve informa possuir cerca de 2,8 mil pedidos globais, reunindo encomendas firmes e cartas de intenção, com valor potencial estimado pela companhia em aproximadamente US$ 14 bilhões.
Esses compromissos não devem ser interpretados como equivalentes a uma carteira inteiramente formada por contratos firmes de aeronaves tradicionais, já que parte corresponde a cartas de intenção que ainda dependem de conversão em pedidos definitivos.
Ainda assim, a quantidade de interessados fornece à empresa uma indicação sobre a demanda potencial para os primeiros anos do mercado de mobilidade aérea urbana.
Entre os possíveis clientes estão operadores de helicópteros, empresas de mobilidade aérea, companhias de leasing e outros grupos interessados em utilizar as aeronaves para transporte de passageiros em grandes centros urbanos.
Autonomia limitada faz parte da proposta do projeto
Embora sejam popularmente chamados de “carros voadores”, os eVTOLs são aeronaves e estarão submetidos às regras de segurança e certificação do setor aeronáutico.
Sua principal característica é a capacidade de decolar e pousar verticalmente, eliminando a necessidade das longas pistas utilizadas pelos aviões convencionais.
Isso abre a possibilidade de utilização de estruturas menores, conhecidas como vertiportos, que poderão ser instaladas em pontos estratégicos das cidades ou aproveitadas a partir de instalações aeronáuticas existentes, desde que atendam às exigências regulatórias.
O alcance de aproximadamente 100 quilômetros também faz parte da lógica do produto. A Eve pretende concentrar inicialmente o modelo em missões intraurbanas e regionais curtas, nas quais a redução do tempo de deslocamento possa compensar o custo do transporte aéreo.
Essa característica influencia inclusive a estratégia industrial. Como não se trata de uma aeronave concebida para grandes deslocamentos autônomos entre continentes ou regiões muito distantes, a companhia considera importante aproximar progressivamente a produção dos mercados nos quais houver maior demanda.
Infraestrutura será tão importante quanto a aeronave
A certificação do eVTOL é apenas uma das condições necessárias para que o transporte comercial de passageiros se torne realidade.
Também será preciso desenvolver ou adaptar vertiportos, estabelecer procedimentos para integração dessas aeronaves ao espaço aéreo, preparar pilotos, criar sistemas de manutenção e definir regras operacionais para voos em áreas urbanas.
A Eve trabalha paralelamente nesses diferentes pilares e desenvolve, além da própria aeronave, soluções de gerenciamento de tráfego aéreo urbano e serviços de manutenção e suporte.
Em março, o protótipo chegou a ser apresentado em voo para autoridades brasileiras na unidade de testes da Embraer em Gavião Peixoto, incluindo representantes da Anac e do governo federal, numa demonstração do avanço do programa e da necessidade de coordenação entre indústria e reguladores.
A estratégia da companhia é construir não apenas o veículo, mas um ecossistema capaz de permitir que operadores incorporem o eVTOL às suas atividades depois da certificação.
2026 será decisivo para o carro voador da Embraer
A campanha deste ano representa uma mudança importante para o projeto porque desloca o eVTOL do estágio de desenvolvimento predominantemente em laboratório para uma fase na qual seu comportamento precisa ser comprovado repetidamente em voo.
Depois de completar os testes de pairado e baixa velocidade, a Eve entra agora na etapa que deverá demonstrar a capacidade de realizar a transição progressiva até o voo sustentado pelas asas, aproximando o protótipo da forma como deverá operar comercialmente.
Se o cronograma avançar conforme planejado, a companhia deverá começar ainda neste ano a fabricação das seis aeronaves conformes e intensificar, em 2027, os trabalhos diretamente ligados à certificação.
O objetivo permanece iniciar a comercialização em 2028, transformando o projeto que atualmente realiza testes no interior de São Paulo em uma aeronave capaz de transportar passageiros em operações regulares.
Até lá, o calendário continuará condicionado ao resultado dos ensaios e à aprovação das autoridades aeronáuticas, mas os avanços registrados desde o primeiro voo em dezembro de 2025 mostram que o chamado carro voador da Embraer entrou definitivamente na fase de voo e começa a percorrer as etapas que definirão se poderá chegar ao passageiro dentro dos próximos dois anos.










