As ações do Grupo Casas Bahia (BHIA3) chegaram a despencar 36,36% nesta segunda-feira, 17 de agosto, após a varejista divulgar prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026 e protocolar pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo. Na mínima da manhã, os papéis chegaram a R$ 0,42.
A crise combina três frentes. A primeira é operacional: apesar do crescimento da receita e da melhora da margem bruta, as despesas aumentaram e o Ebitda ajustado recuou. A segunda é contábil: a revisão do plano de negócios provocou R$ 9,1 bilhões em efeitos não recorrentes, responsáveis pela maior parte do prejuízo reportado. A terceira, e mais relevante para a continuidade da companhia, é financeira: restrições de crédito, capital de giro negativo e necessidade adicional de liquidez levaram a administração a recorrer à recuperação judicial.
O Conselho de Administração aprovou no domingo, 16, o ajuizamento do pedido em conjunto com nove subsidiárias, entre elas Cnova Comércio Eletrônico, Casas Bahia Tecnologia e a fabricante de móveis Bartira. A companhia afirmou que pretende manter suas operações durante o processo e classificou a medida como necessária para buscar uma reestruturação financeira ordenada.
O episódio ocorre pouco mais de dois anos depois de o Grupo Casas Bahia ter recorrido a uma recuperação extrajudicial para alongar dívidas financeiras. A diferença agora é substancial: na recuperação judicial, a empresa busca proteção mais ampla perante seus credores enquanto tenta reorganizar sua estrutura de capital e preservar a operação.
Prejuízo de R$ 10,1 bilhões tem R$ 9,1 bilhões em efeitos não recorrentes
O prejuízo líquido reportado no segundo trimestre alcançou R$ 10,117 bilhões, ante perda de R$ 555 milhões um ano antes. O número é mais de 18 vezes o prejuízo registrado no mesmo período de 2025. A própria companhia, entretanto, separa desse resultado uma série de efeitos extraordinários decorrentes da revisão de suas operações e projeções financeiras.
Sem esses itens, o prejuízo líquido ajustado seria de R$ 978 milhões. Ainda assim, a perda recorrente permanece superior à observada no segundo trimestre do ano passado, demonstrando que os problemas da companhia não se restringem às baixas contábeis.
Dos efeitos extraordinários, aproximadamente R$ 3,5 bilhões foram registrados em outras receitas e despesas. O montante inclui R$ 502 milhões relacionados à reestruturação, R$ 210 milhões em baixas de imobilizado ligadas ao fechamento de lojas, cerca de R$ 970 milhões em baixa de ágio e aproximadamente R$ 1,8 bilhão em contingências decorrentes de revisões contratuais.
O maior impacto individual veio do Imposto de Renda diferido. A Casas Bahia baixou aproximadamente R$ 5,7 bilhões em ativos fiscais cuja realização dependia da geração de lucros tributáveis futuros. Após revisar suas projeções, a administração concluiu que parte desses créditos deixou de atender aos critérios contábeis para permanecer reconhecida no balanço.
A baixa não representa uma saída imediata de R$ 5,7 bilhões do caixa. Ela evidencia, porém, uma mudança importante nas expectativas da própria administração sobre a capacidade de gerar resultados tributáveis suficientes para aproveitar esses créditos no horizonte considerado.
Receita cresce, mas Ebitda e margem operacional recuam
A fotografia operacional do trimestre é menos extrema do que o prejuízo líquido sugere. A receita líquida cresceu 1,6%, para R$ 6,98 bilhões, enquanto o lucro bruto avançou 10,9%, alcançando R$ 2,29 bilhões. A margem bruta subiu de 30,1% para 32,9%, aumento de 2,8 pontos percentuais.
O problema aparece na linha de despesas. As despesas com vendas, gerais e administrativas aumentaram 17% na comparação anual, para R$ 1,83 bilhão. Com isso, o Ebitda ajustado caiu 9,4%, de R$ 572 milhões para R$ 518 milhões, e a margem Ebitda recuou de 8,3% para 7,4%.
O GMV total, que mede o volume bruto de mercadorias transacionadas, ficou em R$ 10,5 bilhões, crescimento de apenas 0,5%. O destaque positivo foi o comércio eletrônico próprio, com avanço de 15,3% no 1P online.
O resultado financeiro líquido permaneceu fortemente negativo, em R$ 1,28 bilhão no trimestre, contra R$ 1,15 bilhão um ano antes. A própria administração reconheceu que o elevado custo de capital brasileiro continua pressionando a operação.
A diferença entre a melhora da margem bruta e a piora do resultado final ajuda a explicar a situação da varejista. O negócio ainda produz margem comercial, mas o peso das despesas operacionais, do custo financeiro e da necessidade permanente de capital de giro consome grande parte desse resultado.
EY não expressa conclusão sobre as demonstrações
O relatório da Ernst & Young adicionou um elemento particularmente relevante para investidores e credores. A auditoria independente informou que não expressou conclusão sobre as informações financeiras intermediárias do Grupo Casas Bahia devido à relevância das incertezas relacionadas à continuidade operacional.
Em 30 de junho, o patrimônio líquido consolidado estava negativo em R$ 8,27 bilhões. O capital circulante líquido consolidado era negativo em R$ 7,84 bilhões, indicando que as obrigações de curto prazo superavam os ativos circulantes nesse montante.
A EY afirmou que esses fatores, combinados à necessidade de geração futura de caixa, pagamento de obrigações financeiras e operacionais, manutenção de capital de giro e recomposição patrimonial, criam uma incerteza relevante sobre a capacidade de continuidade operacional da companhia.
A ressalva não equivale a afirmar que a empresa necessariamente deixará de operar. Significa que o auditor não conseguiu obter segurança suficiente para concluir sobre as demonstrações diante da dependência da execução bem-sucedida das medidas de reestruturação.
É justamente nessa lacuna entre operação e liquidez que a recuperação judicial passa a exercer papel central.
Casas Bahia fecha 298 lojas na Fase 2 do plano
A companhia decidiu reduzir de forma drástica sua estrutura física. Até a autorização das demonstrações financeiras, 298 lojas haviam sido fechadas como parte da Fase 2 do Plano de Transformação. A seleção considerou desempenho operacional, quantidade de capital empregado e retorno econômico de cada unidade diante do custo atual de financiamento.
O número representa uma mudança significativa na estratégia que vinha sendo apresentada ao mercado. A prioridade deixa de ser preservar escala e passa a ser concentrar estoques, funcionários e capital nas unidades consideradas capazes de produzir caixa e retorno adequados.
A empresa também está revendo sua atuação digital, reduzindo a ênfase em crescimento de volume nas categorias que não apresentem retorno econômico suficiente. Estoques, compras, quadro de funcionários, contratos e despesas administrativas estão igualmente sob revisão.
As baixas relacionadas às lojas já aparecem no balanço. Foram reconhecidos R$ 210 milhões em provisões referentes ao imobilizado das unidades encerradas e outros R$ 89 milhões associados a compromissos remanescentes de contratos de arrendamento.
A lógica declarada pela administração é transformar uma companhia maior e dependente de capital de giro em uma estrutura menor, concentrada nas operações capazes de se financiar com a própria geração de caixa.
Liquidez se torna o problema central
Curiosamente, alguns indicadores de endividamento apresentados pela companhia melhoraram antes do pedido de recuperação judicial. A dívida líquida ajustada, considerando determinadas estruturas de financiamento e recebíveis, caiu para aproximadamente R$ 1,2 bilhão, ante R$ 4,95 bilhões no segundo trimestre de 2025. A alavancagem calculada pela empresa ficou em 0,5 vez o Ebitda ajustado.
O perfil dos vencimentos também foi alongado: 81% do endividamento bruto estava classificado como longo prazo, contra 63% um ano antes. A empresa ainda informou geração de R$ 798 milhões em fluxo de caixa livre da firma durante o trimestre.
Esses números, porém, não capturam integralmente o problema de liquidez apontado nas demonstrações financeiras. O balanço consolidado mostrava apenas R$ 960 milhões em caixa e equivalentes em 30 de junho e R$ 7,03 bilhões em empréstimos e financiamentos. Além disso, a operação depende de crédito comercial, financiamento de estoques e disponibilidade de capital de giro para funcionar normalmente.
A companhia reconheceu que os limites concedidos por seguradoras aos fornecedores não evoluíram como esperado e que fontes de crédito se tornaram mais restritas. A combinação reduziu a capacidade de compra de mercadorias e pressionou a necessidade de caixa.
Foi nesse contexto que a recuperação judicial passou de risco potencial para decisão concreta.
XP coloca recomendação em revisão
A deterioração levou a XP Investimentos a retirar temporariamente sua avaliação anterior para BHIA3. A corretora colocou tanto a recomendação quanto o preço-alvo em revisão, argumentando que a incerteza sobre liquidez e continuidade operacional tornou mais difícil estimar o valor econômico das ações.
“Diante da incerteza relevante sobre a continuidade operacional e da posição de liquidez restrita, estamos colocando nossa recomendação e preço-alvo em revisão”, afirmou a XP.
A instituição também chama atenção para um efeito indireto da recuperação: fornecedores podem reduzir limites, exigir pagamento antecipado ou encurtar prazos, justamente quando a varejista precisa manter mercadorias disponíveis para o período mais importante do calendário do setor, o quarto trimestre.
Esse risco cria um círculo difícil. Menos crédito comercial pode reduzir estoques; estoques insuficientes podem pressionar vendas; vendas menores reduzem caixa e tornam ainda mais difícil negociar condições com fornecedores.
Safra mantém venda e alerta para execução
O Banco Safra apresentou avaliação igualmente cautelosa. Segundo a instituição, a combinação entre queima de caixa, fechamento de lojas e recuperação judicial aumenta significativamente os riscos relacionados à execução da reestruturação, às negociações com credores e à liquidez.
“A posterior aprovação e apresentação do pedido de recuperação judicial confirma a gravidade da deterioração da liquidez”, avaliou o banco.
O Safra manteve recomendação de venda para BHIA3, com preço-alvo de R$ 1,20, embora a própria recuperação judicial torne as projeções mais dependentes de negociações que ainda não ocorreram.
Para o acionista, esse é o ponto decisivo. A recuperação judicial pode permitir à Casas Bahia reorganizar dívidas, renegociar contratos e preservar uma operação menor e potencialmente mais rentável. Mas o valor que permanecerá para os atuais acionistas dependerá dos termos da reestruturação, de eventuais conversões de dívida em capital, de novas captações e da capacidade de recuperar fornecedores e vendas.
A queda de até 36% das ações nesta segunda-feira traduz essa mudança de percepção. O mercado deixou de discutir apenas quando a Casas Bahia voltaria ao lucro e passou a tentar calcular qual será a estrutura financeira da companhia depois da recuperação judicial.
Fontes:
Grupo Casas Bahia — apresentação dos resultados do segundo trimestre de 2026
Grupo Casas Bahia — informações financeiras intermediárias referentes ao semestre encerrado em junho de 2026
Grupo Casas Bahia — fato relevante sobre o pedido de recuperação judicial
Ernst & Young — relatório dos auditores independentes sobre as informações financeiras intermediárias









