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Casas Bahia (BHIA3) busca reforço de caixa, mas nega DIP de R$ 1 bilhão

Varejista confirma negociações com agentes do mercado para obter dinheiro novo, mas afirma que valor, prazo e contraparte de eventual financiamento ainda não foram definidos.

por João Souza
19/08/2026 às 09h57
em Empresas
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O Grupo Casas Bahia (BHIA3) está procurando dinheiro novo para atravessar a recuperação judicial e sustentar a operação, mas afirma que não existe, até agora, um financiamento de R$ 1 bilhão contratado ou aprovado. A companhia confirmou que conversa com diferentes agentes do mercado e admitiu que uma das alternativas em análise é a obtenção de recursos por meio de financiamentos, sem reconhecer, porém, que um DIP de R$ 1 bilhão esteja fechado.

O esclarecimento foi prestado depois de questionamento da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre informações de que a varejista negociava um financiamento dessa magnitude. A resposta é importante porque estabelece uma diferença entre duas situações: a Casas Bahia efetivamente está buscando novas fontes de liquidez, mas o tamanho, o custo, o prazo e quem fornecerá esse dinheiro continuam em negociação.

A administração informou que “vem mantendo negociações com diversos agentes de mercado” e acrescentou que “ainda não há quaisquer definições relacionadas a eventuais operações dessa natureza”. O comunicado foi apresentado em resposta ao Ofício nº 173/2026/CVM/SEP/GEA-2, emitido em 17 de agosto.

A busca por recursos acontece poucos dias depois de o grupo protocolar, em 16 de agosto, pedido de recuperação judicial perante o Juízo de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo. A operação abrange a holding e nove subsidiárias, entre elas Cnova Comércio Eletrônico, Casas Bahia Tecnologia, empresas de logística e a fabricante de móveis Bartira.

DIP pode se tornar uma das principais peças da recuperação

O chamado DIP financing é uma modalidade de financiamento destinada a empresas que atravessam processos de recuperação judicial. Na prática, é dinheiro novo colocado na companhia quando o crédito convencional costuma estar mais restrito. O recurso pode ser utilizado para capital de giro, fornecedores, estoques, salários, logística e outras despesas necessárias à continuidade da atividade.

Para a Casas Bahia, essa discussão ganha dimensão maior porque a própria empresa reconheceu, no fato relevante que anunciou a recuperação judicial, que alternativas de liquidez que vinham sendo estruturadas não se concretizaram. A companhia relacionou o pedido à combinação de juros elevados, crédito restrito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo e o capital de giro.

Isso significa que a discussão sobre um eventual DIP não representa apenas mais uma operação financeira. O acesso a novo capital pode determinar quanto espaço a varejista terá para preservar estoques, negociar com fornecedores e executar sua reestruturação sem comprometer a atividade operacional.

A companhia também avalia outras formas de produzir liquidez, entre elas mecanismos de transação tributária e a liberação de recursos atualmente depositados em processos judiciais. Essas medidas ainda dependem de avaliações jurídicas e operacionais e, assim como o possível financiamento, não estão garantidas.

R$ 1 bilhão seria um reforço relevante para o caixa

Embora a Casas Bahia negue que haja definição sobre um DIP de R$ 1 bilhão, o tamanho mencionado permite dimensionar quanto uma operação dessa escala representaria para a empresa.

No segundo trimestre, o grupo informou saldo de liquidez, incluindo recebíveis, de aproximadamente R$ 2,9 bilhões. Um financiamento de R$ 1 bilhão corresponderia, portanto, a cerca de 34% desse montante. A comparação não significa que as duas cifras tenham a mesma natureza financeira, mas mostra a relevância que uma injeção desse porte teria na estrutura de liquidez.

A companhia também reportou geração de aproximadamente R$ 800 milhões de fluxo de caixa livre da firma entre abril e junho. Nesse caso, um eventual financiamento de R$ 1 bilhão equivaleria a aproximadamente 1,25 vez todo o fluxo de caixa livre produzido no trimestre.

Os números ajudam a explicar por que as negociações de financiamento são acompanhadas de perto. Mesmo depois de informar geração positiva de caixa, a Casas Bahia terminou o trimestre em uma situação na qual a estrutura de vencimentos, o capital de giro e a necessidade de manter fornecedores abastecendo a operação passaram a exigir uma solução mais ampla para o passivo.

Essa diferença entre geração de caixa e disponibilidade financeira é central para compreender a crise. Uma companhia pode produzir fluxo de caixa em determinado período e, simultaneamente, enfrentar obrigações acumuladas superiores à liquidez disponível ou dificuldade para refinanciar vencimentos.

Auditor levantou incerteza sobre continuidade operacional

O quadro ficou ainda mais evidente nas informações financeiras do segundo trimestre. A Ernst & Young, responsável pela revisão das demonstrações intermediárias, se absteve de expressar conclusão sobre as informações financeiras da Casas Bahia.

A auditoria chamou atenção para uma “incerteza relevante relacionada com a continuidade operacional”. No primeiro semestre, a companhia acumulou prejuízo de R$ 11,181 bilhões. Em 30 de junho, o passivo circulante superava o ativo circulante consolidado em R$ 7,837 bilhões e o patrimônio líquido estava negativo em R$ 8,270 bilhões.

A EY destacou que a continuidade da empresa dependia, entre outros fatores, de geração futura de caixa, manutenção adequada de capital de giro, liquidação de passivos operacionais vencidos e execução bem-sucedida das medidas financeiras e operacionais planejadas pela administração.

A ressalva é particularmente relevante porque o relatório foi datado de 15 de agosto. No dia seguinte, a Casas Bahia protocolou o pedido de recuperação judicial. A sequência mostra como a discussão sobre liquidez deixou de ser apenas uma questão de desempenho trimestral para se transformar em uma reestruturação formal de passivos.

Recuperação judicial envolve cerca de R$ 17,3 bilhões

O pedido apresentado pela Casas Bahia envolve aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas. Cerca de R$ 16,4 bilhões correspondem a créditos sem garantia, enquanto aproximadamente R$ 754 milhões são obrigações trabalhistas e R$ 154 milhões pertencem a micro e pequenas empresas.

A composição mostra o peso dos credores quirografários: os R$ 16,4 bilhões representam aproximadamente 94,8% de todo o passivo de R$ 17,3 bilhões informado no processo. Os créditos trabalhistas equivalem a cerca de 4,4%, e os de micro e pequenas empresas, a aproximadamente 0,9%.

Esse perfil aumenta a importância das futuras negociações do plano de recuperação. Grande parte da dívida dependerá das condições que serão propostas aos credores sem garantias específicas, incluindo possíveis alongamentos de prazo, descontos, conversões ou outros mecanismos de reestruturação.

A recuperação também ocorre apenas dois anos depois da reestruturação extrajudicial que envolveu cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas financeiras da companhia. O valor agora submetido à recuperação judicial é superior a quatro vezes o montante originalmente envolvido naquele processo. Em 2024, a empresa havia utilizado a recuperação extrajudicial para implementar o reperfilamento de aproximadamente R$ 4,1 bilhões em créditos financeiros.

Casas Bahia reduz drasticamente a rede física

O reforço de caixa é apenas um dos pilares do novo plano. A varejista iniciou uma redução significativa de sua estrutura, abandonando a estratégia de preservar escala a qualquer custo e concentrando capital em operações com maior capacidade de geração de caixa.

A empresa informou o fechamento de 298 lojas consideradas menos rentáveis. No fim de junho, o grupo operava 1.034 unidades físicas. Tomando essa base como referência, as 298 lojas correspondem a aproximadamente 28,8% da rede. Desconsiderados outros movimentos de abertura ou fechamento, a redução levaria o parque para algo próximo de 736 unidades.

Na apresentação da segunda fase do Plano de Transformação, a companhia definiu a estratégia de forma explícita: fechar lojas com pouca geração de caixa, redimensionar o quadro de funcionários e as despesas, reduzir investimentos, melhorar a qualidade dos estoques e privilegiar margem e caixa nos canais digitais em vez de participação de mercado.

A mudança é relevante porque altera uma característica histórica do varejo de grande escala. Em vez de utilizar o tamanho da rede como objetivo por si só, a Casas Bahia afirma que pretende operar uma estrutura menor, concentrada em lojas e canais que consigam sustentar economicamente o negócio.

Prejuízo de R$ 10,1 bilhões teve forte componente contábil

O segundo trimestre também produziu um prejuízo líquido contábil de R$ 10,117 bilhões. A cifra foi fortemente influenciada por aproximadamente R$ 9,1 bilhões em baixas de ativos, efeitos tributários, reestruturação e outros itens não recorrentes que, segundo a companhia, não tiveram impacto de caixa no período.

Excluídos esses efeitos, o prejuízo líquido ajustado ficou em R$ 978 milhões, ante R$ 555 milhões no segundo trimestre de 2025. Ao mesmo tempo, a receita líquida avançou 1,6%, para R$ 6,977 bilhões, e o EBITDA ajustado ficou em R$ 518 milhões, com margem de 7,4%.

O contraste entre crescimento de receita, EBITDA positivo, geração de fluxo de caixa e a entrada em recuperação judicial mostra que o problema da companhia não pode ser explicado apenas pelo desempenho das vendas. O principal desafio migrou para o balanço: disponibilidade de crédito, estrutura patrimonial, obrigações acumuladas e capacidade de financiar o capital de giro.

O próximo teste será conseguir dinheiro em condições viáveis

A Casas Bahia deixou claro que pretende continuar operando suas lojas físicas, comércio eletrônico e demais canais durante a recuperação judicial. No fato relevante que anunciou o processo, a empresa disse que a medida busca preservar a continuidade das atividades e construir uma solução ordenada para suas obrigações.

O desafio agora será transformar essa intenção em financiamento efetivo. Conseguir um DIP ou outra forma de capital novo poderia ampliar a margem de segurança da companhia, mas o resultado dependerá das condições impostas pelos financiadores, das garantias disponíveis e do custo da operação.

Por isso, a negativa sobre o suposto acordo de R$ 1 bilhão deve ser interpretada com precisão: a Casas Bahia não está dizendo que abandonou a busca por financiamento nem que um DIP está descartado. Está dizendo que não existe, neste momento, uma operação de R$ 1 bilhão definida e fechada.

A negociação por dinheiro novo, portanto, continua aberta. E, depois de uma recuperação extrajudicial de R$ 4,1 bilhões, de um prejuízo contábil trimestral superior a R$ 10 bilhões, do fechamento de quase 30% da rede física e da entrada em recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas, o custo e a disponibilidade desse capital deverão ser um dos indicadores mais importantes para medir se a nova fase da reestruturação conseguirá estabilizar a varejista.

Fontes: Grupo Casas Bahia — comunicado ao mercado em resposta ao Ofício nº 173/2026/CVM/SEP/GEA-2; Grupo Casas Bahia — Fato Relevante de 16 de agosto de 2026; Grupo Casas Bahia — Resultados e apresentação do segundo trimestre de 2026; Grupo Casas Bahia — documentos da recuperação extrajudicial de 2024; Ernst & Young — relatório de revisão das informações financeiras intermediárias do período encerrado em 30 de junho de 2026.

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