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China exporta mais de 1 milhão de veículos em um mês pela primeira vez

Embarques cresceram 75,1% em junho e colocaram o país a caminho de superar 10 milhões de unidades em 2026, ampliando a pressão sobre Europa e Brasil.

por Maria Helena Costa
14/07/2026 às 22h44
em Veículos
Alta Das Exportações Em Junho Fortalece Ofensiva Das Montadoras Chinesas E Pressiona Fabricantes Europeias.-Gazeta Mercantil

A China exportou 1,037 milhão de veículos em junho de 2026, superando pela primeira vez a marca de 1 milhão de unidades embarcadas em um único mês, segundo dados da Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis. O volume cresceu 75,1% em relação a junho do ano passado e consolidou o setor automotivo como um dos principais motores do comércio exterior chinês, em meio à fraqueza das vendas domésticas, à guerra de preços entre montadoras e à expansão internacional de fabricantes como BYD, Geely, Chery e SAIC.

O recorde ocorreu no mesmo mês em que as exportações totais da China avançaram 27% em dólares, para aproximadamente US$ 412,4 bilhões. As importações aumentaram 36%, para cerca de US$ 286,8 bilhões, e o superávit comercial alcançou US$ 125,62 bilhões, acima dos US$ 105,43 bilhões registrados em maio.

A combinação evidencia uma mudança na composição da presença chinesa no comércio mundial. O país continua exportando bens de consumo e produtos industriais intermediários, mas passou a ampliar sua participação em segmentos de maior valor agregado, como automóveis, baterias, equipamentos de informática e circuitos integrados.

No caso dos veículos, o crescimento deixou de ser explicado apenas por modelos baratos a combustão destinados a mercados emergentes. Elétricos e híbridos plug-in ganharam participação e passaram a disputar consumidores em países da Europa, América Latina, Sudeste Asiático, Oriente Médio e Oceania.

Exportações de veículos crescem 65,3% no semestre

Nos seis primeiros meses de 2026, as exportações de veículos da China chegaram a 5,096 milhões de unidades, crescimento de 65,3% ante igual período do ano anterior.

Os veículos de nova energia, categoria chinesa que reúne automóveis totalmente elétricos, híbridos plug-in e modelos com célula de combustível, somaram 2,355 milhões de unidades no semestre. O volume mais que dobrou em um ano e representou 46,2% de todos os embarques automotivos do país.

Somente em junho, foram exportados 523 mil veículos de nova energia. Pela primeira vez, esse grupo respondeu por mais da metade das exportações mensais da indústria automobilística chinesa.

Os elétricos puros alcançaram 309 mil unidades no mês. Os híbridos plug-in somaram 214 mil, com expansão mais acelerada do que a observada entre os modelos exclusivamente elétricos.

A mudança do mix possui relevância econômica. Veículos eletrificados costumam carregar maior conteúdo tecnológico, mais semicondutores, baterias de alta capacidade e sistemas avançados de assistência ao motorista. A exportação, portanto, envolve não apenas a montagem final, mas cadeias industriais em que a China construiu escala e integração vertical.

O avanço também reduz a dependência das montadoras chinesas do mercado doméstico. As vendas de automóveis de passageiros dentro do país recuaram pelo nono mês consecutivo em junho, pressionadas pela cautela dos consumidores, pela crise imobiliária e pela expectativa de novas reduções de preços.

Com fábricas dimensionadas para volumes elevados, exportar tornou-se uma forma de manter a utilização das linhas, diluir custos fixos e preservar participação de mercado.

China pode superar 10 milhões de veículos exportados em 2026

A Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis projeta que as exportações poderão ultrapassar 10 milhões de unidades em 2026.

A estimativa representa um salto sobre os cerca de 7,1 milhões de veículos exportados em 2025. Se confirmada, consolidará uma liderança que começou a ganhar forma em 2023, quando a China ultrapassou o Japão e se tornou a maior exportadora mundial de automóveis.

A vantagem atual não depende apenas de custo de mão de obra. As fabricantes chinesas reduziram o tempo de desenvolvimento, integraram fornecedores de baterias e eletrônica e passaram a lançar atualizações de software em ritmo superior ao das montadoras tradicionais.

Empresas como BYD, Geely, Chery e SAIC também investiram em navios próprios para transporte de veículos. A frota dedicada reduz a dependência de operadores marítimos, amplia a previsibilidade logística e permite direcionar rapidamente os automóveis para os mercados com maior demanda.

Outra frente é a produção no exterior. Fábricas e projetos industriais na Europa, Ásia e América Latina ajudam as montadoras chinesas a reduzir custos logísticos, contornar tarifas e adaptar produtos às exigências regulatórias locais.

A estratégia combina exportação direta com internacionalização produtiva. Em vez de permanecer apenas como fornecedoras da China, as empresas buscam construir redes globais de distribuição, financiamento, manutenção e peças.

Superávit de US$ 125 bilhões expõe dependência da demanda externa

O desempenho automotivo faz parte de uma expansão mais ampla das exportações chinesas. O crescimento de 27% em junho foi o maior em quatro meses e superou a previsão de 18,2% dos economistas consultados antes da divulgação.

As importações aumentaram 36%, maior avanço em cinco anos. Parte desse crescimento foi provocada pela compra de semicondutores, equipamentos e matérias-primas usados pela própria indústria exportadora, além da elevação dos preços internacionais de determinados insumos.

A China exportou aproximadamente 32 bilhões de circuitos integrados em junho. A demanda mundial por equipamentos associados à inteligência artificial impulsionou vendas de componentes, computadores, servidores e produtos eletrônicos.

Esse movimento criou uma ligação entre o ciclo de investimentos em inteligência artificial e o desempenho comercial chinês. Mesmo sem liderar todos os segmentos de chips avançados, o país possui escala relevante em montagem eletrônica, encapsulamento, componentes e semicondutores de média complexidade.

O aumento simultâneo das importações e exportações mostra que parte da indústria chinesa está recompondo insumos para atender pedidos externos. Não significa necessariamente uma recuperação ampla do consumo das famílias, que continua limitado pela crise imobiliária e pela confiança reduzida.

As exportações funcionam como amortecedor. Mantêm fábricas em operação, sustentam empregos industriais e compensam parcialmente a fraqueza da demanda doméstica.

Europa enfrenta pressão sobre preços e capacidade industrial

A Europa é um dos principais destinos da expansão chinesa e também a região em que a disputa produz maior impacto industrial.

A União Europeia aplica tarifas compensatórias adicionais aos automóveis elétricos a bateria fabricados na China. As alíquotas variam conforme o fabricante e chegam a 35,3%, além da tarifa comum de importação.

A medida abrange veículos movidos exclusivamente por motores elétricos, mas não alcança da mesma forma a maior parte dos híbridos plug-in. As montadoras chinesas passaram, por isso, a ampliar a oferta desses modelos no mercado europeu.

Os híbridos permitem reduzir o consumo de combustível sem depender integralmente da infraestrutura pública de recarga. Também oferecem às fabricantes uma rota comercial menos exposta às tarifas específicas aplicadas aos elétricos puros.

BYD, Chery, por meio das marcas Omoda e Jaecoo, e Geely estão entre as empresas que ampliaram concessionárias, campanhas e lançamentos na Europa.

A entrada pressiona o preço dos veículos eletrificados e obriga as montadoras tradicionais a conceder descontos, ampliar equipamentos e acelerar o desenvolvimento de modelos de entrada.

O problema é mais profundo do que uma disputa por vendas. A Europa possui fábricas, fornecedores e estruturas trabalhistas dimensionadas para volumes que não crescem no mesmo ritmo da capacidade disponível.

Volkswagen simboliza impacto do novo ciclo competitivo

A Volkswagen (VOW3), maior montadora europeia, passou a discutir um programa que pode reunir até 100 mil reduções de postos de trabalho no grupo.

A estimativa engloba aproximadamente 50 mil vagas já contempladas em planos anteriores e até 50 mil postos adicionais, caso a companhia não consiga fechar sua diferença de custos por outras medidas.

A montadora também colocou sob revisão o futuro das fábricas de Emden, Hannover e Zwickau, da Volkswagen, e Neckarsulm, da Audi. O fechamento dessas unidades não foi aprovado, e representantes dos trabalhadores bloquearam a versão mais dura da proposta.

O ajuste expõe o tamanho do desafio europeu. A Volkswagen precisa financiar motores a combustão, híbridos, elétricos, baterias e software ao mesmo tempo em que enfrenta queda de margens e perda de participação na China.

O grupo pretende reduzir sua capacidade produtiva anual de 10 milhões para 9 milhões de veículos, cortar até metade da gama de modelos e eliminar grande parte das configurações disponíveis.

Stellantis, Renault, Bosch, Continental e outros grupos europeus também anunciaram programas de redução de custos, reorganização de fábricas ou eliminação de empregos.

A pressão chinesa não é a única causa dessas medidas, mas acelera decisões que seriam necessárias diante da estagnação do mercado europeu e da transformação tecnológica do setor.

Brasil recebe 140 mil carros chineses no primeiro semestre

O Brasil tornou-se um dos principais destinos do excedente automotivo chinês.

No primeiro semestre de 2026, foram emplacados 280,6 mil veículos importados no país. Metade, ou aproximadamente 140 mil unidades, veio da China, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores.

O volume de automóveis chineses dobrou em apenas um ano. No primeiro semestre de 2025, haviam sido emplacadas cerca de 70 mil unidades de origem chinesa.

A participação crescente reflete a entrada de novas marcas, a ampliação da oferta de BYD e GWM e a chegada de modelos elétricos e híbridos com preços inferiores aos de produtos equivalentes de fabricantes tradicionais.

A China passou a competir não apenas nos nichos de veículos elétricos. Marcas chinesas avançam em SUVs compactos, híbridos plug-in, sedãs e automóveis destinados ao consumidor de renda média e alta.

O movimento pressiona montadoras instaladas no Brasil a rever preços, equipamentos, garantias e estratégias de eletrificação. Também altera as expectativas sobre valor de revenda e custo de manutenção, elementos importantes na decisão de compra.

Para o consumidor, o aumento da concorrência amplia a variedade e acelera a incorporação de tecnologias. Para a indústria, cria o risco de substituição da produção local por importações caso os investimentos anunciados não resultem em fábricas, fornecedores e engenharia no país.

Tarifa de 35% eleva custo dos eletrificados importados

Desde julho de 2026, automóveis elétricos, híbridos e híbridos plug-in importados integralmente passaram a pagar alíquota de 35%.

A recomposição começou em janeiro de 2024, após vários anos de isenção para os elétricos. O governo estabeleceu um cronograma gradual para evitar uma interrupção brusca das importações e, ao mesmo tempo, estimular a produção nacional.

Nos elétricos puros, a tarifa passou por 10%, 18% e 25% antes de chegar aos 35%. Nos híbridos plug-in, avançou de 12% para 20%, depois para 28% e, finalmente, 35%.

Os híbridos convencionais também atingiram a alíquota máxima em julho. Para veículos trazidos desmontados ou semidesmontados, utilizados em operações locais de montagem, existem regras transitórias específicas.

A tarifa reduz parte da vantagem dos modelos produzidos na China, mas não elimina sua competitividade. As montadoras chinesas operam com elevada escala, controle sobre baterias e capacidade de ajustar margens para ganhar participação.

Além disso, empresas como BYD e GWM avançaram em projetos de produção no Brasil. A fabricação local permite reduzir a exposição ao imposto de importação e disputar benefícios vinculados a investimento, eficiência energética e pesquisa.

Indústria brasileira disputa investimentos e transferência tecnológica

O desafio para o Brasil não é impedir a entrada de veículos chineses, mas converter o crescimento do mercado em capacidade produtiva local.

O Programa Mover concede créditos financeiros a empresas que investem em pesquisa, desenvolvimento, eficiência energética, reciclagem e descarbonização. O objetivo é estimular novas tecnologias sem abandonar a cadeia já instalada.

O país possui uma vantagem específica na combinação entre eletrificação e biocombustíveis. Veículos híbridos flex podem usar eletricidade, etanol e gasolina, criando uma trajetória diferente da adotada por Europa e China.

Essa característica pode atrair desenvolvimento de motores, sistemas eletrônicos e software adaptados à realidade brasileira. Também pode ampliar exportações para países que utilizam etanol ou buscam soluções intermediárias antes da eletrificação integral.

Para produzir ganhos duradouros, os investimentos precisam avançar além da montagem. Baterias, semicondutores de potência, motores elétricos, inversores e sistemas de gerenciamento representam parcelas crescentes do valor dos veículos.

Uma fábrica que depende majoritariamente de peças importadas reduz o efeito sobre fornecedores, empregos qualificados e balança comercial.

O governo terá de equilibrar três objetivos: oferecer veículos de menor emissão ao consumidor, proteger a competitividade das fábricas existentes e exigir contrapartidas de grupos que pretendem acessar o mercado brasileiro.

Recorde chinês redefine competição no setor automotivo

As exportações de veículos da China poderão manter ritmo elevado no segundo semestre, mas enfrentarão maior resistência comercial.

União Europeia, Estados Unidos, Canadá e outros mercados adotaram tarifas, cotas ou investigações sobre subsídios chineses. Novas barreiras podem redirecionar parte dos embarques para América Latina, Oriente Médio, África e Sudeste Asiático.

Esse desvio aumenta a pressão competitiva sobre países com mercados relevantes e tarifas mais baixas. O Brasil está entre os destinos mais expostos por reunir escala de vendas, demanda crescente por eletrificados e uma rede industrial já consolidada.

A China também precisa administrar riscos internos. A guerra de preços comprime as margens das montadoras, enquanto o excesso de capacidade aumenta a dependência das exportações. Caso a demanda mundial desacelere, os fabricantes podem intensificar descontos para manter fábricas em operação.

Para as montadoras tradicionais, a resposta envolverá menos modelos, plataformas compartilhadas, redução de custos e maior velocidade de desenvolvimento.

Para o Brasil, o recorde de 1,037 milhão de veículos exportados em junho funciona como sinal de uma transformação que já chegou ao mercado doméstico. A disputa não será definida apenas pelo preço do automóvel importado, mas pela capacidade de atrair fábricas, fornecedores, tecnologia e centros de engenharia.

Leia também: GWM recebe terreno de 1,74 milhão de m² em Aracruz e vai investir R$ 4,6 bilhões em fábrica de 200 mil carros no ES

A China deixou de ser apenas um mercado consumidor e uma base de componentes. Tornou-se o principal polo exportador de veículos do mundo e passou a definir a velocidade, o conteúdo tecnológico e a formação de preços da indústria automobilística global.

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