O Citi reduziu de R$ 12 para R$ 10 o preço-alvo das ações da Natura (NATU3), manteve a recomendação neutra e classificou o investimento como de alto risco em relatório divulgado nesta terça-feira, 28 de julho. A revisão ocorre antes da apresentação do balanço do segundo trimestre de 2026, marcada para 10 de agosto, e reflete o impacto mais intenso do que o previsto das falhas operacionais no Brasil, da demanda enfraquecida e da baixa visibilidade sobre o ritmo de recuperação das receitas.
O novo preço-alvo indica potencial de valorização de 17,8% sobre a cotação considerada pelo banco. A distância entre o valor projetado e o preço de mercado, porém, não foi suficiente para justificar uma recomendação de compra. Para o Citi, a Natura ainda precisa demonstrar que conseguirá normalizar sua cadeia de abastecimento, recuperar o volume perdido e transformar as medidas de redução de custos em melhora sustentável dos resultados.
A cautela aumentou depois que a própria Natura divulgou, em caráter excepcional, uma prévia do segundo trimestre. A empresa estima receita líquida consolidada entre R$ 5,1 bilhões e R$ 5,2 bilhões, o que representa queda anual de 9% a 10%. O ponto médio do intervalo, de R$ 5,15 bilhões, coincide com a projeção adotada pelo Citi.
As informações antecipadas são preliminares, não auditadas e ainda podem sofrer ajustes durante o fechamento contábil. Mesmo assim, a decisão de divulgar os números antes do balanço completo mostrou que a deterioração da receita havia assumido dimensão relevante para os investidores.
Falhas no SAP provocam escassez de produtos e atingem vendas
A pressão sobre o segundo trimestre ficou concentrada principalmente no Brasil. A Natura informou que enfrentou escassez severa de produtos durante a estabilização de um novo sistema de planejamento integrado, a atualização do SAP e a transferência de volumes após o fechamento da fábrica de Interlagos, em São Paulo.
Os problemas na cadeia de abastecimento reduziram a disponibilidade de itens para consultoras, lojas, franquias e canais digitais. Em uma operação de venda direta, na qual lançamentos, ciclos comerciais e disponibilidade de estoque têm peso relevante sobre a produtividade da rede, rupturas prolongadas podem provocar perda imediata de receita.
A falta de produtos coincidiu com um ambiente de consumo mais fraco. Segundo a companhia, houve queda importante do volume no canal de venda por relações, com redução anual da atividade e da produtividade das consultoras. A recuperação observada em relação ao primeiro trimestre não foi suficiente para compensar a retração na comparação com 2025.
A empresa também implementou novas políticas de preços e regras comerciais para integrar melhor os diferentes canais de venda. A mudança é considerada necessária para sustentar a expansão futura dos negócios diretos ao consumidor, mas provocou desaceleração de curto prazo no comércio eletrônico.
Outro impacto veio da transição de todos os contratos de franquia para um modelo baseado nas vendas realizadas ao consumidor final. Durante a adaptação, as lojas reduziram temporariamente seus estoques, o que diminuiu as vendas da Natura para os franqueados.
O trimestre ainda concentrou um descasamento tributário relacionado a mudanças no regime de substituição tributária do ICMS em São Paulo. Embora temporário, o efeito adicionou pressão a um período já marcado por menor volume, escassez de produtos e ajustes comerciais.
Desempenho contrasta com sinais positivos do primeiro trimestre
A prévia do segundo trimestre alterou parte da leitura construída após os resultados de janeiro a março. No primeiro trimestre, a Natura havia registrado receita líquida de R$ 4,7 bilhões, Ebitda de R$ 346 milhões e margem Ebitda de 7,3%.
Naquele período, a companhia também havia informado ganho de participação de mercado no Brasil, crescimento das vendas ao consumidor final e aumento sequencial da atividade no canal de venda direta. As vendas digitais avançaram 23,6% em relação ao ano anterior, enquanto a receita do varejo cresceu 14,3%.
O contraste mostra que parte da deterioração registrada entre abril e junho não decorreu apenas do consumo mais fraco. As dificuldades de execução na cadeia de abastecimento atingiram uma operação que, poucos meses antes, ainda apresentava evolução em canais considerados estratégicos.
A região Hispânica, por outro lado, permaneceu como contraponto. A Natura afirmou que todos os mercados da região registraram crescimento anual em moeda constante no segundo trimestre. Mesmo assim, o avanço não teve força suficiente para compensar a queda da operação brasileira.
No primeiro trimestre, a marca Natura havia crescido 7% em moeda constante na região Hispânica. A manutenção de uma trajetória positiva nesses mercados pode reduzir parte da dependência do Brasil, mas a operação doméstica continua sendo decisiva para a receita, a rentabilidade e a geração de caixa do grupo.
Citi projeta queda de 10% na receita da Natura Brasil
O Citi estima que a receita da Natura Brasil tenha recuado 10% no segundo trimestre, depois de uma queda de 3% nos três primeiros meses do ano. A revisão indica uma deterioração mais intensa do principal negócio da companhia.
Para a Avon, o banco projeta retração de 15% na receita, em linha com o desempenho observado no primeiro trimestre. O relançamento da marca no Brasil e no México começou em março, mas ainda representa uma parcela limitada do volume consolidado.
Na região Hispânica, a expectativa é de melhora sequencial, favorecida pela redução das despesas com desligamentos e pelos ganhos de eficiência obtidos com a reorganização da força de trabalho. O Citi considera positivo o fato de a receita da unidade aparentemente ter retornado ao crescimento após uma queda de 1% em moeda constante no início do ano.
O desempenho regional, contudo, não elimina o problema central. O banco acompanha principalmente a trajetória da receita depois da normalização dos sistemas e da cadeia logística. A dificuldade está em separar quanto da queda foi provocado por falhas temporárias e quanto reflete uma desaceleração mais persistente da demanda.
Essa distinção é relevante para a avaliação das ações. Problemas pontuais de execução podem ser revertidos com normalização de estoques, ajuste de sistemas e recuperação da produtividade. Uma demanda estruturalmente mais fraca, por outro lado, exigiria novas iniciativas comerciais e poderia manter as margens pressionadas por mais tempo.
Margem melhora frente ao primeiro trimestre, mas cai em um ano
Apesar da retração da receita, a Natura espera aumento trimestral da margem Ebitda reportada. A companhia atribui a melhora à redução das despesas com rescisões e à captura de eficiências do novo modelo operacional.
O avanço sequencial compensa apenas parcialmente a desalavancagem provocada pela queda das vendas. Com menos receita, custos fixos e despesas passam a representar uma parcela maior do faturamento, reduzindo a margem mesmo quando a empresa consegue cortar determinados gastos.
O Citi projeta margem Ebitda de 14,7% para a Natura Brasil no segundo trimestre. O percentual representa melhora de aproximadamente 100 pontos-base em relação aos três primeiros meses de 2026, mas queda de cerca de 500 pontos-base na comparação anual.
No consolidado, o banco estima margem Ebitda de 10,8%. O resultado significaria avanço de 350 pontos-base frente ao primeiro trimestre, mas recuo de 320 pontos-base em relação ao mesmo período de 2025.
A combinação indica que as medidas de eficiência começaram a produzir efeitos, mas ainda não compensam a perda de escala. Para os investidores, o teste será verificar se a Natura conseguirá preservar a estrutura de custos mais enxuta quando a receita voltar a crescer.
A administração informou que está reconfigurando a cadeia de abastecimento, com mudanças em ativos produtivos, fornecedores, fluxos de materiais e sistemas. A empresa também ajustou os incentivos da força de vendas e passou a concentrar a comunicação em ofertas regionalizadas e categorias de maior giro.
Natura acelera marketplaces, loja digital e abertura de franquias
Entre as medidas anunciadas para recuperar as vendas estão a expansão para novos marketplaces e a aceleração da plataforma Minha Loja, usada pelas consultoras para comercializar produtos em ambiente digital.
A companhia também pretende retomar um ritmo mais acelerado de abertura de lojas. As novas franquias já serão inauguradas sob o modelo contratual baseado nas vendas ao consumidor final, reduzindo a necessidade de novas transições posteriores.
A recuperação desses canais será acompanhada com atenção porque o segundo trimestre mostrou que a integração comercial ainda envolve riscos de execução. A harmonização de preços entre venda direta, lojas, franquias e comércio eletrônico pode reduzir conflitos, mas exige equilíbrio para não prejudicar a competitividade de nenhum canal.
O desempenho das consultoras também será decisivo. A Natura reconheceu que a escassez de produtos e o cenário macroeconômico reduziram a atividade e a produtividade da rede. A normalização dos estoques precisa, portanto, ser acompanhada de uma recuperação do engajamento e do volume vendido.
Quanto maior o tempo necessário para recompor a atividade, mais lenta poderá ser a retomada da receita. Esse risco está no centro da avaliação mais cautelosa do Citi.
Banco reduz projeções de receita e Ebitda até 2027
O efeito da revisão não ficou restrito ao segundo trimestre. O Citi reduziu em aproximadamente 3% suas estimativas de receita líquida consolidada da Natura para 2026 e 2027.
As projeções de margem Ebitda foram cortadas em 140 pontos-base para 2026 e em 150 pontos-base para 2027. Com isso, as estimativas de Ebitda caíram 13% e 12%, respectivamente.
Os ajustes mostram que o banco considera a possibilidade de uma recuperação mais demorada. Mesmo que as falhas do SAP e as rupturas de estoque sejam resolvidas, a empresa ainda terá de recompor vendas, produtividade e participação nos canais afetados.
A menor geração operacional também amplia a sensibilidade da companhia às despesas financeiras. O Citi reduziu em 18% sua projeção de lucro líquido para 2027, de R$ 1,6 bilhão para R$ 1,3 bilhão.
O banco calcula que a ação esteja sendo negociada a aproximadamente 8,5 vezes o lucro estimado para 2027. O múltiplo não é considerado excessivamente elevado, mas a baixa visibilidade sobre os resultados limita a disposição dos analistas de atribuir uma avaliação maior.
O elevado custo de aluguel das ações pode restringir movimentos mais agressivos de investidores que apostam na queda dos papéis. Esse fator técnico, porém, não elimina os riscos operacionais nem substitui a necessidade de melhora dos fundamentos.
Advent amplia peso nas discussões sobre estratégia e governança
A análise do Citi também incorpora a entrada da Advent International no capital da Natura. Em março, a gestora assumiu o compromisso de adquirir uma participação minoritária entre 8% e 10%, por meio da compra de ações em circulação, considerando preço médio de referência de R$ 9,75.
Em julho, a Natura informou que o fundo Lotus, ligado à Advent, havia alcançado participação direta equivalente a 6,6% do capital social. A gestora também mantinha exposição econômica adicional de 1,4% por meio de derivativos com liquidação financeira.
Ao atingir os percentuais previstos no acordo, a Advent poderá indicar dois integrantes adicionais para o conselho de administração e participar de comitês de assessoramento. A presença da gestora aumenta a expectativa por maior disciplina operacional e financeira.
A entrada ocorre em meio a uma renovação da governança. Os fundadores Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos deixaram o conselho de administração para integrar um conselho consultivo, enquanto Alessandro Carlucci foi indicado para a presidência do colegiado.
Para o mercado, a questão é saber se a nova configuração acelerará decisões capazes de recuperar as vendas, ampliar a eficiência e elevar o retorno sobre o capital. O Citi monitora especialmente as implicações estratégicas da Advent após o encerramento do período de interrupções operacionais.
Balanço de agosto mostrará extensão do dano operacional
O balanço de 10 de agosto deverá detalhar os efeitos das falhas no SAP, da transferência de produção de Interlagos e da escassez de produtos sobre estoques, capital de giro, vendas e margens.
Os investidores também buscarão informações sobre o ritmo de normalização do abastecimento, a recuperação das consultoras, o comportamento do comércio eletrônico e os primeiros resultados do novo modelo de franquias.
A margem Ebitda será outro ponto central. Uma melhora expressiva em relação ao primeiro trimestre mostraria que os cortes de despesas e a reorganização operacional avançaram. A comparação anual, entretanto, deverá continuar pressionada pela queda da receita e pela menor diluição de custos.
A companhia entrou em período de silêncio em 12 de julho e deverá apresentar dados completos apenas com a divulgação oficial. Até lá, as estimativas do Citi reforçam uma leitura de cautela: o preço das ações pode oferecer algum potencial de valorização, mas a recuperação dependerá de execução consistente e de maior previsibilidade sobre a receita.
O resultado de agosto será, portanto, o primeiro teste completo da capacidade da Natura de transformar medidas emergenciais de abastecimento e reorganização comercial em retomada efetiva das vendas. Sem essa confirmação, a ação tende a continuar negociada sob o peso das revisões de lucro e da incerteza sobre o tempo necessário para recompor a operação brasileira.










