O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a cobrar nesta quarta-feira (16) explicações do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, sobre recursos negociados com o ex-controlador do Banco Master Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, produção baseada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A declaração ocorreu durante entrevista ao podcast Desce a Letra Show, no momento em que documentos de uma investigação sobre o financiamento do longa já foram parcialmente tornados públicos.
Ao mencionar o caso, Lula afirmou que Flávio deveria explicar o destino de cerca de R$ 130 milhões atribuídos às negociações com Vorcaro. O número citado pelo presidente está próximo, mas não coincide exatamente com os valores descritos nos documentos da investigação. Relatório da Polícia Federal aponta que Flávio teria solicitado R$ 131 milhões a Vorcaro para a produção do filme e que R$ 60 milhões teriam sido efetivamente pagos. Outros documentos e reportagens sobre o caso mencionam uma negociação de até R$ 134 milhões e repasses que alcançaram ao menos R$ 63,7 milhões.
A diferença entre os valores decorre, segundo os documentos divulgados, de estágios distintos das negociações e dos montantes efetivamente transferidos. A cifra de aproximadamente R$ 130 milhões, portanto, não corresponde necessariamente ao valor já desembolsado. Essa distinção é relevante porque a investigação procura reconstruir não apenas o financiamento do filme, mas também a origem, a movimentação e a destinação dos recursos.
Investigação separa valor negociado de dinheiro efetivamente repassado
Os relatórios da Polícia Federal tornados públicos descrevem mensagens trocadas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro e indicam que o senador atuou nas tratativas para levantar recursos para “Dark Horse”. De acordo com a PF, o pedido chegaria a R$ 131 milhões, dos quais R$ 60 milhões teriam sido pagos. A documentação também menciona a participação de outros intermediários na cobrança e na operacionalização dos pagamentos.
A investigação passou a ganhar maior visibilidade depois que o sigilo de parte dos documentos foi retirado no âmbito do Supremo Tribunal Federal. O material inclui registros utilizados para examinar a relação financeira entre o empresário e pessoas ligadas à produção do filme.
Em setembro, o STF também homologou acordo de colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, empresário apontado como operador financeiro ligado a Vorcaro. Segundo informações sobre o conteúdo da investigação, parte das operações realizadas por ele teve como destino um fundo nos Estados Unidos associado ao financiamento de “Dark Horse”.
A colaboração acrescenta uma nova camada à apuração porque permite aos investigadores confrontar mensagens, transferências e relatos de participantes da movimentação financeira. A homologação do acordo não significa, por si só, que todas as afirmações feitas pelo colaborador tenham sido comprovadas. As informações prestadas passam a integrar formalmente a investigação e precisam ser confrontadas com outros elementos de prova.
Filme está no centro de apuração financeira
“Dark Horse” é uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro e foi produzido com participação de empresas e estruturas financeiras nos Estados Unidos. O projeto passou a ser investigado no contexto mais amplo das apurações relacionadas ao Banco Master depois que vieram a público documentos sobre a participação de Vorcaro no financiamento da produção.
Um dos pontos examinados pela Polícia Federal é o caminho percorrido pelos recursos até chegar ao projeto cinematográfico. A apuração também alcança a participação de Eduardo Bolsonaro e do deputado federal Mário Frias (PL-SP), ligado à produção do filme. Segundo documentos divulgados anteriormente, Eduardo aparece associado à gestão de recursos destinados ao projeto, enquanto Frias figura entre os envolvidos na produção e também foi relacionado a recursos de emendas destinados a uma entidade ligada ao longa.
A existência de recursos privados destinados à produção, por si só, não caracteriza irregularidade. O objeto da investigação é verificar a origem dos valores, sua movimentação, a eventual mistura com recursos de outra natureza e a regularidade das operações realizadas pelas empresas e pessoas envolvidas.
Essa diferença é particularmente importante diante das acusações políticas feitas durante a campanha. Até o momento, a investigação representa uma apuração de possíveis irregularidades e não uma conclusão judicial de responsabilidade criminal de Flávio Bolsonaro ou dos demais citados.
Flávio diz que investigação deve ser divulgada
Flávio Bolsonaro tem afirmado que os recursos destinados ao filme eram privados e que a prestação de contas da produção já foi apresentada. Em manifestações anteriores, o senador também defendeu a divulgação dos documentos da investigação, argumentando que a abertura do material permitiria verificar sua versão sobre o caso.
Em agosto, antes da divulgação de parte dos documentos, Flávio afirmou que estava disposto a tornar públicos os contratos relacionados ao financiamento do longa, embora tenha ressaltado que a estrutura contratual envolvia entidades e fundos registrados nos Estados Unidos.
A posição do senador contrasta com a cobrança feita nesta quarta-feira por Lula. Ao tratar do assunto no podcast, o presidente associou o financiamento do filme às relações de Vorcaro com integrantes da família Bolsonaro e utilizou o caso como argumento político contra o adversário na disputa presidencial.
A fala de Lula deve ser compreendida como declaração de campanha e não como conclusão sobre a investigação. O presidente também fez outras críticas à família Bolsonaro durante a entrevista e relacionou o episódio do filme à crise envolvendo o Banco Master e à disputa política em torno do Supremo Tribunal Federal.
TSE já validou as candidaturas de Lula e Flávio
O episódio ocorre a menos de três semanas do primeiro turno das eleições de 2026. O Tribunal Superior Eleitoral informou em 11 de setembro que havia validado 12 candidaturas à Presidência, incluindo as chapas de Lula e Geraldo Alckmin, pelo PT, e de Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar, pelo PL. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.
A investigação sobre o financiamento de “Dark Horse” passou, assim, a coexistir diretamente com a campanha eleitoral. Flávio é candidato oficialmente registrado à Presidência, enquanto Lula disputa a reeleição. O caso ganhou espaço no debate entre os dois grupos políticos justamente quando a documentação produzida pela Polícia Federal passou a ser disponibilizada de maneira mais ampla.
A utilização eleitoral de uma investigação em andamento, contudo, não altera seu estágio jurídico. A PF ainda trabalha na apuração dos fatos e das responsabilidades individuais, e eventuais conclusões dependerão do conjunto de provas reunido no procedimento.
Valores revelados mostram escala diferente entre pedido e repasses
Os números disponíveis permitem dimensionar a diferença entre o valor solicitado e aquilo que aparece como efetivamente pago nos documentos. Considerando os R$ 131 milhões mencionados pela PF como valor pedido e os R$ 60 milhões apontados como pagos, o desembolso identificado corresponde a cerca de 46% da quantia negociada.
Quando se considera a cifra de R$ 134 milhões citada em outros documentos e reportagens, os R$ 63,7 milhões registrados como repasses representam aproximadamente 47,5% desse total. A diferença mostra que as cifras atribuídas ao caso não significam necessariamente que R$ 130 milhões tenham sido transferidos para o filme.
A apuração também identificou movimentações internacionais. Parte dos recursos teria sido encaminhada para um fundo nos Estados Unidos utilizado no financiamento da produção. Investigadores procuram determinar as etapas dessa movimentação e se os valores mantiveram destinação compatível com a finalidade declarada.
O exame dessas operações também ganhou importância depois da homologação da colaboração de Freixo Júnior. Como operador relacionado a Vorcaro, ele pode fornecer elementos para esclarecer como determinadas quantias foram obtidas, transferidas e utilizadas. As informações, porém, dependem de confirmação por documentos e outros elementos independentes.
Próximos passos dependem da conclusão das diligências
A investigação deverá avançar sobre a origem dos recursos, os contratos associados ao filme, as empresas envolvidas, a movimentação internacional e a eventual utilização de dinheiro de origem ilícita ou de recursos públicos. Também deverá estabelecer, de maneira individualizada, quais pessoas participaram de cada etapa e com que finalidade.
A documentação já divulgada indica que Flávio Bolsonaro manteve interlocução direta com Vorcaro sobre o financiamento da produção. A PF também investiga a participação de Eduardo Bolsonaro e de outros integrantes da estrutura do filme.
Nenhuma dessas linhas investigativas equivale, por si só, a uma condenação. A responsabilidade penal somente poderá ser estabelecida ao final do devido processo legal, caso o Ministério Público formule acusações e elas sejam recebidas e posteriormente julgadas.
O confronto entre os valores também deverá continuar. Enquanto Lula utilizou nesta quarta-feira a referência de R$ 130 milhões, os documentos disponíveis indicam diferenças entre o montante pedido, o valor máximo negociado e as quantias efetivamente transferidas. A apuração desses números será fundamental para estabelecer quanto foi de fato destinado à produção de “Dark Horse” e qual foi o percurso financeiro percorrido pelos recursos.
No plano político, o financiamento do longa passou de uma questão relacionada à produção cinematográfica para um dos temas explorados na disputa presidencial de 2026. A evolução do caso dependerá agora dos resultados das diligências da Polícia Federal, dos elementos apresentados pelos investigados e dos próximos atos das autoridades responsáveis pela investigação.
Fontes:
Polícia Federal – relatórios do inquérito sobre o financiamento de “Dark Horse”, incluindo mensagens e valores solicitados e pagos
Supremo Tribunal Federal – decisões relativas à investigação sobre o financiamento do filme e à divulgação de documentos
Tribunal Superior Eleitoral – registros das candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro nas Eleições 2026
Agência Brasil – informações sobre os relatórios da Polícia Federal e as negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro







