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Segundo teste nuclear da Coreia do Norte em 2009 rompeu negociações e levou ONU a endurecer sanções

Explosão subterrânea de 25 de maio foi detectada pela rede internacional antes do anúncio de Pyongyang, teve rendimento estimado pelos EUA em cerca de 2 quilotons e abriu nova fase de confronto sobre o programa nuclear norte-coreano

por Eduardo Toscano
02/08/2026 às 19h45
em Mundo
Teste Nuclear Norte-Coreano De 2009-Gazeta Mercantil

O segundo teste nuclear realizado pela Coreia do Norte, em 25 de maio de 2009, marcou uma mudança decisiva na crise atômica da península coreana. A explosão subterrânea ocorreu às 9h54 no horário local nas proximidades do campo de testes de Punggye-ri, no nordeste do país, e foi detectada pela rede internacional de monitoramento antes mesmo de Pyongyang confirmar publicamente o ensaio. Menos de três semanas depois, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou por unanimidade a Resolução 1874, ampliando o embargo de armas, autorizando inspeções de cargas suspeitas e endurecendo restrições financeiras vinculadas aos programas nuclear e de mísseis.

O episódio não foi apenas uma repetição do primeiro teste norte-coreano, realizado em outubro de 2006. Em 2009, a Coreia do Norte já havia abandonado as negociações de seis partes, expulsado inspetores internacionais e anunciado a reativação de atividades nucleares em Yongbyon. O teste, portanto, funcionou como demonstração de que o regime de Kim Jong-il estava disposto a transformar a capacidade nuclear em instrumento permanente de segurança e barganha diplomática, mesmo sob o risco de isolamento econômico maior.

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A sequência que levou à explosão começou semanas antes. Em 5 de abril de 2009, Pyongyang lançou o foguete Unha-2, oficialmente apresentado como veículo para colocar em órbita o satélite Kwangmyongsong-2. Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul interpretaram a operação como um teste de tecnologia aplicável a mísseis balísticos de longo alcance. O Conselho de Segurança condenou o lançamento em declaração presidencial.

Em 14 de abril, a Coreia do Norte anunciou que deixaria as conversações de seis partes, processo que desde 2003 reunia o país com Coreia do Sul, Estados Unidos, China, Japão e Rússia. Pyongyang também determinou a saída de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica e de especialistas americanos envolvidos no processo de desativação de Yongbyon. Segundo registros posteriores do Departamento de Estado dos Estados Unidos, o governo norte-coreano comunicou ainda a intenção de reverter medidas de desativação adotadas nos anos anteriores.

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Detecção internacional antecedeu anúncio de Pyongyang

A dimensão técnica do teste de 2009 também mostrou o avanço da capacidade internacional de monitorar explosões clandestinas. A rede sísmica do Sistema Internacional de Monitoramento, vinculada à Comissão Preparatória da Organização do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares, registrou o evento às 00h54min43s em GMT, equivalentes a 9h54 no horário local.

O primeiro cálculo automático de horário, localização e magnitude foi distribuído aos Estados participantes às 2h24 em GMT. Na avaliação inicial, 23 estações sísmicas primárias e 16 auxiliares haviam detectado o evento. Dias depois, com a consolidação dos dados, a CTBTO informou que 61 estações — 31 primárias e 30 auxiliares — haviam registrado sinais associados à explosão. A magnitude calculada pela organização foi de 4,52, acima dos 4,1 atribuídos ao teste norte-coreano de 2006.

Essa diferença é relevante porque magnitude sísmica e potência explosiva não são medidas equivalentes. O rendimento de uma explosão nuclear subterrânea depende, entre outros fatores, da geologia do local, da profundidade e do acoplamento da energia ao solo. Em avaliação oficial publicada posteriormente, o governo dos Estados Unidos estimou que o teste de 2009 teve rendimento de aproximadamente 2 quilotons de TNT e classificou o resultado como mais bem-sucedido que o ensaio de 2006, considerado uma falha parcial por Washington.

A própria CTBTO adotou cautela nos primeiros comunicados. Os dados sísmicos permitiam identificar características compatíveis com uma explosão e localizar o evento com precisão crescente, mas a confirmação independente de sua natureza nuclear dependia de outras evidências, como detecção de radionuclídeos liberados na atmosfera. A organização destacou que o sistema havia conseguido localizar o evento dentro dos parâmetros necessários para uma eventual inspeção no local caso o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares estivesse em vigor.

Sanções da ONU mudaram de escala após o segundo teste

A resposta diplomática culminou em 12 de junho de 2009. Os 15 integrantes do Conselho de Segurança aprovaram a Resolução 1874 sem votos contrários ou abstenções. O texto condenou o teste nos termos mais fortes, exigiu que a Coreia do Norte não realizasse novos ensaios nucleares nem lançamentos com tecnologia de mísseis balísticos e reiterou a obrigação de abandonar armas nucleares e programas associados.

A resolução ampliou substancialmente o regime estabelecido em 2006. Entre as medidas, passou a prever inspeções de cargas destinadas à Coreia do Norte ou originadas no país quando houvesse razões razoáveis para suspeitar de itens proibidos. Também autorizou apreensão e descarte dessas cargas, reforçou o embargo de armas e ampliou mecanismos de bloqueio de ativos e restrição a serviços financeiros capazes de contribuir para programas de proliferação.

Na prática, a Resolução 1874 deslocou parte do regime de sanções do campo estritamente comercial para o controle logístico e financeiro. Navios, portos, bancos, seguradoras, operadores de comércio exterior e intermediários passaram a ocupar posição central na fiscalização. O objetivo era reduzir a capacidade de Pyongyang de financiar, importar componentes ou exportar material militar associado a seus programas estratégicos.

A resolução também criou um Painel de Especialistas para apoiar o comitê de sanções e acompanhar a implementação das medidas. Esse mecanismo tornou-se peça importante da fiscalização internacional sobre a Coreia do Norte durante quase 15 anos. O mandato do painel foi renovado sucessivamente até 30 de abril de 2024, quando terminou após o Conselho de Segurança não conseguir aprovar nova prorrogação.

Brasil incorporou Resolução 1874 ao ordenamento interno

Para o Brasil, o episódio teve consequência jurídica concreta. Em 11 de agosto de 2009, o governo brasileiro promulgou o Decreto nº 6.935, determinando a execução, no território nacional, das disposições da Resolução 1874. O texto reproduziu obrigações de controle relacionadas a armas, materiais sensíveis, inspeção de cargas e medidas financeiras.

A incorporação mostra que o alcance das sanções ultrapassava os países diretamente envolvidos na segurança do Nordeste Asiático. Como membro das Nações Unidas, o Brasil passou a ter dever de aplicar as determinações do Conselho de Segurança adotadas sob o Capítulo VII da Carta da ONU. Empresas de comércio exterior, instituições financeiras, autoridades aduaneiras e órgãos de fiscalização poderiam ser afetados caso surgissem operações relacionadas a pessoas, entidades ou cargas enquadradas pelas sanções.

O episódio também colocou Brasília diante de uma tensão diplomática recorrente: o país tradicionalmente defende o desarmamento nuclear e a solução negociada de controvérsias, ao mesmo tempo em que mantém relações diplomáticas com Estados submetidos a sanções multilaterais. No caso norte-coreano, a execução da resolução não dependia de alinhamento político com Washington ou Seul, mas de obrigação decorrente de decisão do Conselho de Segurança.

Teste expôs colapso da estratégia de desativação gradual

A importância histórica do teste de 2009 aparece com maior clareza quando se observa o que havia acontecido apenas dois anos antes. Em 2007, acordos no âmbito das conversações de seis partes haviam levado à desativação de instalações em Yongbyon e à volta de inspetores internacionais. A expectativa era combinar incentivos econômicos, normalização diplomática e etapas verificáveis de desarmamento.

Essa arquitetura perdeu sustentação em 2009. O lançamento de abril, a retirada das negociações, a expulsão dos inspetores e o teste de maio ocorreram em rápida sequência. A partir dali, a política nuclear norte-coreana deixaria cada vez menos espaço para uma interpretação de que o programa poderia ser integralmente desmontado mediante concessões graduais de curto prazo.

Nos anos seguintes, Pyongyang prosseguiu com novos testes nucleares em 2013, janeiro e setembro de 2016 e setembro de 2017. O desenvolvimento de mísseis balísticos também avançou. A trajetória posterior transformou o ensaio de 2009 em um ponto de transição: tecnicamente ainda era uma explosão de rendimento relativamente baixo, mas politicamente demonstrava que a Coreia do Norte estava preparada para absorver novas sanções em troca da consolidação de sua capacidade estratégica.

Impacto econômico veio sobretudo pelo isolamento financeiro

O efeito econômico mais duradouro não ocorreu por exposição direta de investidores à economia norte-coreana, mas pelo endurecimento do isolamento financeiro e comercial. A Resolução 1874 aumentou a pressão sobre bancos, operadores logísticos e empresas envolvidas em transações suspeitas, transformando o combate à proliferação em problema também de compliance internacional.

O segundo teste nuclear de 2009 consolidou uma mudança que se tornaria ainda mais evidente na década seguinte. O problema já não era apenas impedir que a Coreia do Norte adquirisse uma capacidade nuclear inicial, mas lidar com um Estado disposto a aperfeiçoar armas, testar sistemas de lançamento e suportar sucessivas rodadas de punições internacionais.

A explosão detectada em Punggye-ri naquela manhã de maio teve potência muito inferior à dos maiores arsenais nucleares existentes, mas seu efeito estratégico foi amplo. Ela encerrou na prática a fase de desativação iniciada em 2007, levou a ONU a construir uma estrutura mais sofisticada de sanções e mostrou que o regime norte-coreano havia incorporado a capacidade nuclear ao núcleo de sua política de segurança. O teste seguinte, quatro anos depois, confirmaria que 2009 não havia sido um episódio isolado, mas o início de uma nova etapa do programa nuclear de Pyongyang.

Fontes de apuração:

Comissão Preparatória da Organização do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBTO)

Conselho de Segurança das Nações Unidas — Resolução 1874

Departamento de Estado dos Estados Unidos — relatórios de cumprimento de acordos de controle de armas

Casa Branca — arquivos da Presidência Barack Obama

Presidência da República do Brasil — Decreto nº 6.935, de 11 de agosto de 2009

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