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Dívida dos EUA supera US$ 40 trilhões pela primeira vez e déficit já passa o total de 2025

Marco ocorre após forte aceleração do endividamento em 2026; despesas federais somam cerca de US$ 6,28 trilhões no ano fiscal e custo com juros já alcança US$ 1,17 trilhão

por Eduardo Toscano
19/08/2026 às 20h50
em Mundo
Dívida Dos Eua Supera Us$ 40 Trilhões Pela Primeira Vez Na História

A dívida pública bruta dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões em agosto de 2026, de acordo com a base diária Debt to the Penny, mantida pelo Departamento do Tesouro. O avanço ocorre em um momento de forte pressão sobre as contas federais: nos dez primeiros meses do atual ano fiscal, o governo já acumulou um déficit superior ao registrado durante todo o exercício de 2025.

A marca de US$ 40 trilhões corresponde ao Total Public Debt Outstanding, indicador que reúne tanto a dívida em poder do público quanto os títulos mantidos por fundos e contas do próprio governo federal. O conceito é mais amplo do que a dívida detida pelo público e, por isso, não deve ser confundido com o volume de Treasuries efetivamente nas mãos de investidores privados, bancos, fundos, governos estrangeiros e do Federal Reserve.

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Os dados do Tesouro mostram a velocidade recente do movimento. No encerramento de 2025, a dívida federal totalizava cerca de US$ 37,64 trilhões. Em 14 de agosto de 2026, já estava em US$ 39,93 trilhões. Ao cruzar a barreira de US$ 40 trilhões dias depois, o estoque passou a acumular aumento de aproximadamente US$ 2,4 trilhões em menos de oito meses, ou pouco mais de 6% em relação ao fim do ano passado.

Déficit de 2026 já supera o resultado de todo o ano anterior

A evolução da dívida está diretamente ligada à diferença persistente entre o que o governo federal arrecada e o que desembolsa. Dados oficiais do Tesouro mostram que as receitas acumuladas no ano fiscal de 2026 chegaram a aproximadamente US$ 4,49 trilhões até julho, enquanto as despesas atingiram cerca de US$ 6,28 trilhões.

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A diferença entre os dois valores equivale a um déficit próximo de US$ 1,79 trilhão nos dez primeiros meses do exercício iniciado em outubro de 2025. O montante já supera, mesmo antes do fechamento de agosto e setembro, o déficit de aproximadamente US$ 1,78 trilhão registrado durante os 12 meses do ano fiscal de 2025.

Julho contribuiu de forma relevante para essa deterioração. O Monthly Treasury Statement registra déficit mensal de aproximadamente US$ 432 bilhões. As saídas ficaram próximas de US$ 766 bilhões, enquanto as receitas foram da ordem de US$ 334 bilhões. No mesmo mês de 2025, o déficit havia sido de cerca de US$ 291 bilhões.

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Isso representa uma piora superior a US$ 140 bilhões no saldo mensal em comparação com julho do ano anterior. A diferença não pode ser atribuída automaticamente a um único programa, mudança tributária ou decisão política, porque as contas mensais são afetadas por calendários de pagamentos e arrecadação, benefícios, juros, transferências e outras despesas federais. O dado consolidado, porém, evidencia que o ritmo de desembolsos continua acima da entrada de receitas.

Juros da dívida já consomem US$ 1,17 trilhão

O crescimento do estoque da dívida produz uma consequência adicional: quanto maior o volume de títulos em circulação e quanto mais elevadas as taxas exigidas pelo mercado, maior tende a ser a despesa necessária para remunerar os credores.

O próprio Tesouro informa que o custo de manutenção da dívida chegou a aproximadamente US$ 1,17 trilhão no ano fiscal de 2026 até julho. Esse montante correspondia a cerca de 19% das despesas federais contabilizadas no período, colocando os juros entre os componentes de maior peso do orçamento.

O efeito ocorre com defasagem. Nem toda a dívida americana é refinanciada imediatamente quando as taxas de mercado sobem. Os títulos possuem vencimentos distintos, que podem variar de poucas semanas a décadas. À medida que papéis antigos vencem e precisam ser substituídos por novas emissões, o custo médio do estoque tende a incorporar as condições vigentes no mercado.

Esse processo ajuda a explicar por que o debate fiscal americano não se limita ao tamanho nominal da dívida. O custo de carregamento passou a exercer pressão crescente sobre o orçamento, reduzindo o espaço disponível para outras despesas se receitas e demais condições permanecerem constantes.

O que significa uma dívida de US$ 40 trilhões

O número de US$ 40 trilhões representa o total de obrigações federais contabilizadas pelo Tesouro, mas não significa que esse montante precise ser pago de uma única vez. O governo americano refinancia continuamente sua dívida, emitindo novos títulos à medida que papéis vencem e utilizando o mercado de Treasuries para financiar déficits e administrar seu caixa.

A dívida é composta por instrumentos como Treasury bills, notes, bonds, títulos protegidos contra a inflação e papéis de taxa flutuante. O Tesouro também contabiliza obrigações mantidas por contas governamentais, incluindo fundos que investem seus excedentes em títulos federais.

Essa distinção é essencial para interpretar o marco. Parte da dívida está nas mãos do público e parte corresponde a posições internas do próprio governo. Ainda assim, ambas integram o cálculo oficial da dívida pública total divulgado diariamente pelo Bureau of the Fiscal Service.

O crescimento do estoque decorre principalmente da necessidade de financiamento quando o governo gasta mais do que arrecada. Déficits consecutivos exigem captação adicional, embora a variação diária da dívida também possa ser influenciada por operações de caixa e outros ajustes financeiros. O próprio Tesouro explica que os déficits aumentam a necessidade de novos empréstimos e, consequentemente, contribuem para a expansão da dívida.

Tesouro amplia atuação no mercado de títulos longos

A passagem dos US$ 40 trilhões ocorre no mesmo momento em que o Tesouro modifica sua atuação no mercado secundário de títulos públicos. Nesta quarta-feira, 19 de agosto, o órgão anunciou que aumentará o limite de suas operações de recompra destinadas a dar suporte de liquidez aos Treasuries nominais de longo prazo.

A partir de 9 de setembro, o tamanho máximo das operações nos segmentos de dez a 20 anos e de 20 a 30 anos passará de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação. A alteração ficará em vigor até 4 de novembro, quando está previsto o próximo anúncio trimestral de financiamento.

Essas recompras não devem ser interpretadas como uma redução permanente equivalente da dívida federal. O objetivo declarado pelo Tesouro é melhorar a liquidez de títulos já emitidos e facilitar o funcionamento do mercado secundário. Ao mesmo tempo, o governo continua realizando emissões para refinanciar vencimentos e atender às necessidades de caixa decorrentes do orçamento.

O tamanho e a liquidez do mercado de Treasuries são fundamentais para o financiamento americano. Os títulos servem de referência para taxas de juros em diversos mercados globais e são amplamente utilizados por instituições financeiras, fundos, bancos centrais e outros investidores.

Dívida cresceu cerca de US$ 2,4 trilhões desde o fim de 2025

A comparação com dezembro ajuda a dimensionar a velocidade do aumento. Partindo de aproximadamente US$ 37,64 trilhões ao fim de 2025 para pouco mais de US$ 40 trilhões em agosto, a expansão acumulada é próxima de US$ 2,4 trilhões.

Esse avanço não equivale exatamente ao déficit fiscal acumulado no mesmo intervalo. Dívida e déficit são conceitos relacionados, mas não idênticos. O déficit mede a diferença entre receitas e despesas durante determinado período. A dívida representa o estoque de obrigações acumuladas e também responde a necessidades de caixa, movimentações de contas e outras operações financeiras do Tesouro.

Ainda assim, a permanência de déficits elevados é o principal mecanismo estrutural de expansão do endividamento. Quando as receitas não são suficientes para financiar os gastos autorizados, o Tesouro precisa obter recursos adicionais por meio da emissão de títulos.

A situação de 2026 chama atenção porque o desequilíbrio acumulado até julho já ultrapassou o déficit de todo o exercício anterior. Mesmo com dois meses ainda restantes no calendário fiscal, o governo havia desembolsado aproximadamente US$ 1,79 trilhão a mais do que arrecadou.

Dois meses ainda restam no ano fiscal americano

O ano fiscal federal dos Estados Unidos termina em 30 de setembro. Isso significa que os números disponíveis até julho ainda não incorporam as receitas e despesas de agosto e setembro e, portanto, o resultado definitivo de 2026 poderá se afastar do déficit acumulado de cerca de US$ 1,79 trilhão.

O comportamento dos juros também continuará relevante. Com um estoque acima de US$ 40 trilhões, mesmo pequenas alterações no custo médio de financiamento podem produzir impactos expressivos quando aplicadas gradualmente a parcelas grandes da dívida refinanciada.

O Tesouro atualiza a base Debt to the Penny a cada dia útil e divulga mensalmente as receitas, despesas e o resultado fiscal no Monthly Treasury Statement. Os próximos relatórios mostrarão se o avanço do déficit observado até julho se mantém nos dois últimos meses do exercício e em que nível a dívida americana encerrará o ano fiscal de 2026.

Fontes

U.S. Department of the Treasury — Debt to the Penny — atualização diária

U.S. Department of the Treasury — Monthly Treasury Statement, julho de 2026

U.S. Department of the Treasury — Your Guide to America’s Finances: National Debt

U.S. Department of the Treasury — Treasury Announces Increased Sizes of Nominal Long-End Liquidity Support Buybacks Beginning September 9 — 19 de agosto de 2026

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