A privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), concluída pelo governo da Bahia em 2018 por R$ 15 milhões, transferiu para a iniciativa privada não apenas a rede de supermercados Cesta do Povo, mas também um ativo que ganharia uma dimensão financeira muito maior nos anos seguintes: o Credcesta. Enquanto o programa de crédito avançou no mercado privado, passou pela estrutura do Banco Máxima e posteriormente do Banco Master e ganhou alcance nacional, o Estado continuou pagando obrigações deixadas pela antiga companhia.
Entre 2019 e 2026, esses desembolsos chegaram a cerca de R$ 93 milhões, segundo registros do Portal Transparência Bahia. O valor corresponde a mais de seis vezes os R$ 15 milhões arrecadados com a privatização. Os pagamentos se referem ao passivo da Ebal e não podem ser atribuídos diretamente ao Credcesta, mas a comparação expõe uma característica central da operação: o ativo com maior potencial financeiro foi transferido ao setor privado, enquanto parte relevante das obrigações acumuladas pela antiga estatal permaneceu com o poder público.
A venda ocorreu durante o governo de Rui Costa (PT), depois de um processo de desestatização iniciado ainda na gestão de Jaques Wagner (PT-BA). Wagner, que governou o Estado entre 2007 e 2014, ocupava em 2018 a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia e participou da condução política do processo que resultou na alienação da companhia.
Ebal chegou a ser oferecida por R$ 81 milhões
A diferença entre o preço originalmente estabelecido para a empresa e o valor efetivamente pago pelo comprador ajuda a dimensionar a mudança ocorrida durante o processo de privatização. A Ebal chegou a ser oferecida ao mercado por um preço mínimo de R$ 81 milhões, mas as primeiras tentativas de venda terminaram sem interessados.
O governo tentou privatizar a companhia em janeiro de 2016. Nenhuma proposta foi apresentada. Uma segunda tentativa ocorreu em março de 2018, já durante o segundo mandato de Rui Costa, novamente com preço mínimo de R$ 81 milhões. Mais uma vez, o certame terminou sem comprador.
A operação foi então reformulada. Na terceira tentativa, além de uma redução expressiva do preço, o pacote ganhou um componente particularmente atraente: a exploração do Programa Credicesta, que depois passaria a ser chamado de Credcesta. O produto estava ligado ao funcionalismo estadual e permitia que servidores utilizassem uma parcela da remuneração para compras realizadas na rede Cesta do Povo.
Em 11 de abril de 2018, a NGV Empreendimentos e Participações arrematou o controle da Ebal por R$ 15 milhões. A operação compreendeu as ações da companhia, 49 lojas da Cesta do Povo, direitos relacionados à marca e o Credcesta. Na prática, o governo recebeu R$ 66 milhões a menos do que o preço mínimo adotado nas primeiras tentativas de venda.
Passivos continuaram com o Estado
A privatização encerrou a operação empresarial da Ebal sob controle estatal, mas não eliminou as obrigações financeiras acumuladas ao longo de décadas. Registros disponíveis no sistema de transparência da Bahia mostram que o governo continuou desembolsando recursos relacionados ao passivo da companhia depois da venda.
De 2019 a 2026, esses pagamentos somaram aproximadamente R$ 93 milhões. O montante supera amplamente o valor recebido no leilão e mostra que a saída do Estado da operação dos supermercados não significou o encerramento imediato dos custos associados à antiga empresa.
A comparação entre R$ 15 milhões e R$ 93 milhões, isoladamente, não é suficiente para calcular o resultado financeiro definitivo da privatização. Para isso, seria necessário considerar também os prejuízos que a Ebal poderia continuar gerando, despesas trabalhistas, tributárias e contratuais, além dos ativos que deixaram de exigir manutenção pública.
Ainda assim, o contraste é relevante. O Estado transferiu a companhia e o Credcesta para a iniciativa privada por R$ 15 milhões, mas continuou pagando obrigações da antiga estrutura por vários anos. Ao mesmo tempo, justamente o programa de crédito incluído no negócio passou a adquirir valor crescente fora do setor público.
Credcesta mudou de perfil após a venda
Antes da privatização, o Credicesta funcionava essencialmente como um instrumento de compra para funcionários públicos. O servidor adquiria produtos na rede Cesta do Povo e o pagamento era posteriormente relacionado à sua remuneração. O produto estava, portanto, integrado à própria lógica da rede estatal de supermercados.
Depois da venda, o modelo ganhou características muito diferentes. O programa passou a oferecer operações financeiras, inclusive saques em dinheiro, e avançou no segmento de crédito consignado. Como as parcelas eram descontadas diretamente na folha dos servidores, a operação tinha um nível de previsibilidade de pagamento muito superior ao encontrado em modalidades de crédito sem garantia salarial.
Em janeiro de 2019, servidores estaduais receberam novos cartões Credcesta. O próprio governo informou na ocasião que a ativação não era obrigatória e divulgou entre as funcionalidades a possibilidade de realizar saques. A transformação ampliou significativamente o potencial econômico de um produto que, até pouco tempo antes, estava ligado à compra de alimentos em supermercados públicos.
Direitos foram transferidos meses após o leilão
A estrutura societária do negócio também começou a mudar rapidamente. Em junho de 2018, menos de dois meses depois do leilão, a NGV transferiu os direitos de exploração comercial do Credcesta para a PKL One Participações.
É nesse momento que a trajetória do programa se aproxima do empresário baiano Augusto Lima, conhecido como Guga Lima, e posteriormente de Daniel Vorcaro. Ainda no segundo semestre de 2018, Lima iniciou negociações com o Banco Máxima, instituição então controlada por Vorcaro.
O Máxima passou a participar da estrutura financeira ligada ao Credcesta e, posteriormente, seria reorganizado e rebatizado como Banco Master. A entrada de uma instituição bancária permitiu ao produto alcançar uma escala que seria difícil de obter enquanto estivesse restrito ao antigo modelo da Cesta do Povo.
O programa deixou de ser essencialmente regional e começou a avançar para outros mercados. Nos anos seguintes, o Credcesta passou a estar presente em diferentes Estados e municípios, ampliando sua base de clientes e transformando uma operação originalmente baiana em um negócio de dimensão nacional.
Negócio passou a movimentar bilhões
A relevância financeira do Credcesta não se limitava aos juros pagos pelos tomadores dos empréstimos. As carteiras de crédito geradas a partir dessas operações podiam ser negociadas com bancos, fundos e outros investidores, permitindo antecipar receitas e gerar liquidez.
Dados atribuídos à escrituração contábil do Banco Master e enviados à CPI do Crime Organizado indicam que a instituição registrou R$ 1,6 bilhão em 2024 com a comercialização de carteiras relacionadas ao Credcesta. No mesmo ano, as receitas decorrentes dos juros dos empréstimos originais teriam alcançado R$ 709 milhões.
No período de 2022 a 2024, a venda dessas carteiras teria movimentado cerca de R$ 2,4 bilhões. As receitas vinculadas aos juros das operações, segundo os mesmos registros, ficaram em aproximadamente R$ 1,9 bilhão.
Esses números não significam que o Credcesta valesse bilhões de reais quando foi transferido junto com a Ebal em 2018. O negócio foi transformado, capitalizado e ampliado ao longo dos anos seguintes. A evolução, porém, ajuda a mostrar o potencial econômico adquirido por um ativo que havia saído do controle estadual dentro de uma privatização de R$ 15 milhões.
Juros levaram servidores à Justiça
O crescimento da operação foi acompanhado por uma sequência de disputas judiciais. A Associação dos Funcionários Públicos do Estado da Bahia passou a questionar contratos e descontos relacionados ao Credcesta, alegando que servidores teriam aderido a operações sem compreender plenamente a estrutura financeira do produto.
Uma das principais controvérsias estava na diferença entre o empréstimo consignado convencional e o funcionamento do cartão. Segundo a entidade, determinados pagamentos descontados em folha não necessariamente extinguiam a dívida, porque parte do saldo continuava sujeita à incidência de juros e encargos.
Em um contrato levado aos autos e citado no material que fundamenta esta reportagem, um saque de R$ 9.118,46 estava submetido a uma taxa nominal de 4,98% ao mês e a um custo efetivo total de 79,18% ao ano. O financiamento previa 68 parcelas de R$ 470,64 descontadas diretamente da remuneração do servidor.
As ações ainda não permitem concluir que todas as operações tenham sido irregulares. Em um dos processos, uma decisão favorável aos servidores em primeira instância foi anulada pelo Tribunal de Justiça da Bahia por questão processual, e o mérito da discussão voltou para nova análise.
Decreto de Rui Costa virou ponto de controvérsia
Outro episódio que ganhou relevância foi a edição do Decreto nº 21.041, em janeiro de 2022, ainda durante o governo Rui Costa. O ato alterou regras aplicáveis às consignações dos servidores estaduais e restringiu determinadas hipóteses de transferência das operações para outras instituições.
Em processo judicial, o próprio Banco Master argumentou que o Credcesta utilizava uma margem consignável específica e, por isso, não deveria seguir as mesmas regras de portabilidade aplicáveis aos empréstimos bancários tradicionais. Para representantes dos servidores, isso dificultava a transferência das dívidas para instituições que oferecessem condições eventualmente mais favoráveis.
O efeito da norma passou a fazer parte da controvérsia sobre a relação entre o poder público e a estrutura privada do Credcesta. A existência do decreto, entretanto, não permite afirmar, sem outras provas, que o ato tenha sido editado especificamente para beneficiar o Master ou seus controladores.
Caso chegou à Operação Compliance Zero
A história do Credcesta voltou ao centro das atenções em 2026, quando as investigações da Operação Compliance Zero avançaram sobre pessoas e empresas ligadas à trajetória do Banco Master.
Na nona fase da operação, realizada em junho, Jaques Wagner e Augusto Lima estiveram entre os alvos de medidas autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. A Polícia Federal apura suspeitas relacionadas a corrupção, lavagem de dinheiro e movimentações financeiras envolvendo empresários e agentes políticos.
As investigações estão em andamento e as suspeitas levantadas pela PF não equivalem a condenações. Wagner nega ter recebido qualquer vantagem relacionada ao Banco Master ou ao Credcesta e sustenta que a privatização da Ebal ocorreu antes da entrada do Banco Máxima na operação.
A defesa do senador afirmou que os esclarecimentos necessários já foram prestados e que as questões levantadas pela investigação estão sendo discutidas nos autos. A defesa de Augusto Lima também declarou anteriormente que o empresário atuou dentro da legislação e em conformidade com as normas do sistema financeiro.
Wagner diz que venda evitou prejuízos
Jaques Wagner também defende o mérito econômico da privatização. Em depoimento à CPMI do INSS, em fevereiro de 2026, afirmou que a Ebal se transformara em uma companhia deficitária e que, dependendo do ano, poderia gerar perdas de até R$ 80 milhões aos cofres estaduais.
Segundo Wagner, a falta de interessados nas primeiras tentativas de venda demonstrava a dificuldade de encontrar investidores dispostos a assumir uma rede de supermercados que havia perdido parte da função econômica para a qual fora criada.
A Ebal surgiu em 1980, durante o governo de Antônio Carlos Magalhães, em um período de inflação elevada. A rede chegou a ter centenas de lojas e foi utilizada como instrumento para oferecer alimentos a preços mais baixos. Décadas depois, com uma estrutura pesada e sucessivos resultados negativos, passou a ser vista pelo governo como uma empresa sem viabilidade econômica dentro do Estado.
R$ 15 milhões de um lado, R$ 93 milhões do outro
Oito anos depois do leilão, o resultado da operação apresenta duas trajetórias que caminharam em direções opostas. A Ebal saiu do controle estatal por R$ 15 milhões, mas continuou deixando obrigações que exigiram R$ 93 milhões em pagamentos públicos entre 2019 e 2026.
O Credcesta, incluído na mesma privatização, deixou de ser um benefício ligado às compras na Cesta do Povo e se transformou em uma operação de crédito nacional, integrada durante parte de sua trajetória à estrutura financeira que ajudou na expansão do Banco Master.
Não é possível afirmar que os R$ 93 milhões representem uma dívida causada pelo Credcesta, tampouco que a dimensão que o produto alcançaria anos depois pudesse ser integralmente prevista em 2018. Mas é possível afirmar que o Estado permaneceu com parte considerável dos custos da antiga empresa enquanto um de seus ativos mais promissores seguiu para o setor privado.
A composição desses R$ 93 milhões ainda é essencial para medir com precisão o resultado econômico da privatização. Saber quais obrigações foram pagas, quanto ainda resta pendente e quais custos deixaram de existir depois da venda é a próxima etapa necessária para estabelecer quanto a operação efetivamente custou — ou economizou — aos cofres da Bahia.
Outros lados
Jaques Wagner afirma que a venda da Ebal foi necessária diante dos prejuízos acumulados pela companhia e nega ter recebido vantagens relacionadas ao Banco Master ou ao Credcesta. Sua defesa sustenta que as questões ligadas à investigação estão sendo tratadas nos autos.
O governo da Bahia informou que a situação contratual do Credcesta permanece em análise pelas áreas responsáveis e destaca que a operação do programa está nas mãos da iniciativa privada desde 2018.
A defesa de Augusto Lima declarou anteriormente que o empresário sempre atuou dentro dos limites da legislação, com transparência e observância das normas aplicáveis ao sistema financeiro e à administração pública.
Segundo o material-base, Rui Costa, Daniel Vorcaro e a NGV Empreendimentos não apresentaram manifestação específica em resposta aos questionamentos encaminhados sobre todos os pontos abordados.
Fontes:
Portal Transparência Bahia
Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia
Tribunal de Contas do Estado da Bahia
Banco Central do Brasil
Polícia Federal
Supremo Tribunal Federal
Portal do Servidor do Estado da Bahia










