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Crédito rural: R$ 207,4 bilhões já estão em atraso, renegociação ou prorrogação

Operações problemáticas alcançam 23,5% da carteira nacional, enquanto atrasos acima de 90 dias crescem 20% em um mês e produtores enfrentam dificuldades para renegociar dívidas.

por Daniel Wicker
04/09/2026 às 14h14
em Agronegócio
Crédito Rural - Gazeta Mercantil

O volume de crédito rural em atraso, inadimplente, prorrogado ou renegociado atingiu R$ 207,4 bilhões em julho, o maior valor da série acompanhada desde agosto de 2020. O montante representa 23,5% dos R$ 881,6 bilhões que compõem a carteira de crédito rural do Sistema Financeiro Nacional e mostra uma deterioração mais rápida da qualidade dos financiamentos ao campo justamente no início da safra 2026/2027.

O dado não significa que R$ 207,4 bilhões estejam em calote. Mais da metade desse volume corresponde a contratos que foram renegociados, enquanto outra parcela reúne financiamentos prorrogados que continuam formalmente em dia. A mudança mais preocupante em julho ocorreu nas operações vencidas há mais de 90 dias, que passaram de R$ 38,1 bilhões para R$ 45,7 bilhões em apenas um mês, aumento de aproximadamente 20%.

A deterioração aparece também em outra medida acompanhada pelo Banco Central: a inadimplência no crédito rural concedido a pessoas físicas chegou a 8,8% em julho, novo recorde. O avanço ocorre enquanto o governo tenta colocar em funcionamento um novo programa de composição de dívidas criado pela Medida Provisória 1.376/2026, que oferece prazos de até dez anos e juros subsidiados para produtores atingidos por eventos climáticos extremos ou perda relevante de renda.

Carteira problemática cresceu cerca de R$ 10 bilhões em apenas um mês

A composição dos números mostra que o aumento do risco não decorre apenas de uma expansão geral do crédito.

Em junho, as quatro categorias consideradas problemáticas somavam aproximadamente R$ 197,4 bilhões: R$ 38,1 bilhões em operações vencidas há mais de 90 dias, R$ 21,2 bilhões com atrasos entre 15 e 90 dias, R$ 31,6 bilhões em contratos prorrogados e R$ 106,5 bilhões em operações renegociadas.

Em julho, esse conjunto passou para R$ 207,4 bilhões. O crescimento foi de aproximadamente R$ 10 bilhões em um único mês, ou 5,1%.

No mesmo intervalo, a parcela considerada adimplente recuou de R$ 682,7 bilhões para R$ 674,2 bilhões, redução de R$ 8,5 bilhões.

Os dois movimentos combinados revelam uma mudança importante na composição da carteira. Enquanto o saldo total de crédito rural cresceu apenas modestamente, recursos migraram da classificação de curso normal para categorias associadas a dificuldades financeiras, prorrogações ou renegociações.

As operações renegociadas continuam sendo a maior parte do problema. Os R$ 106,9 bilhões registrados em julho correspondem a cerca de 51,5% de toda a carteira classificada como problemática.

Os empréstimos vencidos há mais de 90 dias representam aproximadamente 22%. As prorrogações respondem por cerca de 15,5%, e os atrasos entre 15 e 90 dias, por outros 10,8%.

A composição é relevante porque diferencia dificuldades financeiras com graus distintos de gravidade. Uma operação renegociada não equivale necessariamente a inadimplência, mas indica que as condições originais de pagamento precisaram ser modificadas.

Atrasos acima de 90 dias concentram piora mais aguda

O avanço de R$ 7,6 bilhões nos contratos vencidos há mais de 90 dias explica a maior parte da deterioração registrada entre junho e julho.

Essas operações passaram de R$ 38,1 bilhões para R$ 45,7 bilhões, aumento de 19,9%.

Os atrasos entre 15 e 90 dias avançaram de R$ 21,2 bilhões para R$ 22,4 bilhões, crescimento de R$ 1,2 bilhão. As operações prorrogadas aumentaram R$ 600 milhões, para R$ 32,2 bilhões, enquanto as renegociadas cresceram aproximadamente R$ 400 milhões, para R$ 106,9 bilhões.

Isso significa que aproximadamente três quartos do aumento da carteira problemática no período vieram apenas da expansão das dívidas vencidas há mais de 90 dias.

A deterioração ocorre depois de safras marcadas por secas, enchentes e oscilações de preços de diferentes produtos agrícolas, fatores que afetaram a capacidade de pagamento de produtores em várias regiões do país.

Também coincide com juros elevados, custos financeiros maiores e a necessidade de contratação de novos recursos para financiar a safra 2026/2027.

Rio Grande do Sul tem R$ 44,9 bilhões de crédito sob pressão

A situação mais crítica aparece no Rio Grande do Sul.

O Estado acumulava R$ 44,9 bilhões em operações classificadas como problemáticas em julho, equivalentes a 41,6% de uma carteira total de aproximadamente R$ 108,8 bilhões.

O Rio Grande do Sul sozinho representa cerca de 21,6% dos R$ 207,4 bilhões de crédito rural problemático existentes no país, embora responda por uma parcela muito menor da carteira nacional total.

O saldo de financiamentos considerados normais no Estado caiu de quase R$ 74 bilhões em março para R$ 63,8 bilhões em julho, redução superior a R$ 10 bilhões em quatro meses.

Os empréstimos efetivamente em atraso também avançaram e chegaram a aproximadamente R$ 4,1 bilhões.

O quadro está associado à sucessão de eventos climáticos enfrentados pelos produtores gaúchos. Secas severas atingiram diferentes safras antes das enchentes de 2024, reduzindo produção, receita e capacidade de recomposição financeira de propriedades rurais.

A repetição das perdas fez com que uma parcela significativa das dívidas fosse prorrogada ou renegociada antes de chegar formalmente à inadimplência.

Dos R$ 44,9 bilhões classificados como problemáticos no Rio Grande do Sul, aproximadamente R$ 37,4 bilhões ainda estavam em dia porque os contratos haviam sido renegociados ou prorrogados.

Mato Grosso do Sul já tem mais crédito problemático que adimplente

Outro ponto de atenção está em Mato Grosso do Sul.

O Estado acumulava R$ 19,5 bilhões em empréstimos problemáticos, contra aproximadamente R$ 9,5 bilhões em operações classificadas como normais. Considerando a soma dessas duas parcelas, cerca de dois terços da carteira analisada estavam em alguma categoria de atraso, inadimplência, prorrogação ou renegociação.

O comportamento não é uniforme entre os principais Estados produtores.

Goiás reduziu o volume problemático para aproximadamente R$ 20 bilhões, enquanto Mato Grosso registrou queda para cerca de R$ 21,8 bilhões.

As diferenças mostram que a deterioração do crédito rural está relacionada não apenas ao cenário nacional de juros, mas também às condições específicas das safras, preços, clima e endividamento acumulado em cada região.

MP permite juros de 5% a 12% ao ano

O governo federal respondeu ao aumento do endividamento com a Medida Provisória 1.376, publicada em 15 de julho.

A norma autorizou novas linhas destinadas à composição de dívidas de produtores e cooperativas que tenham enfrentado perdas relevantes entre 2019 e 2025. O Conselho Monetário Nacional regulamentou as operações pela Resolução 5.330, de 23 de julho, posteriormente alterada pela Resolução 5.334.

Para produtores que tiveram perda de pelo menos 30% da renda bruta esperada em duas ou mais safras, as linhas podem ter prazo de até oito anos, com a primeira amortização de principal dois anos depois da contratação.

No Pronaf, os juros começam em 6% ao ano, com limite principal de R$ 400 mil. Para produtores enquadrados no Pronamp, a taxa é de 9% ao ano e o limite chega a R$ 2 milhões. Para as demais categorias, a linha pode alcançar R$ 4 milhões, com juros de 12% ao ano.

Há condições mais favoráveis para produtores que tenham sofrido perdas de pelo menos 40% em três ou mais safras entre 2019 e 2025 devido a eventos climáticos extremos.

Nesse grupo, agricultores familiares podem acessar recursos a partir de 5% ao ano. Produtores do Pronamp pagam a partir de 8%, e os demais, 11%. O prazo pode chegar a dez anos.

Fazenda autorizou contratação até 12 de novembro

Um dos passos necessários para colocar as linhas em funcionamento ocorreu em agosto.

A Portaria 2.423 do Ministério da Fazenda autorizou o pagamento da equalização das taxas de juros e estabeleceu que as operações subsidiadas podem ser contratadas até 12 de novembro de 2026.

A medida incluiu instituições como Banco do Brasil, Banrisul, Banco da Amazônia, BRB, Cresol, Sicoob, Sicredi e outras instituições habilitadas a operar os financiamentos.

A equalização significa que o Tesouro Nacional cobre parte da diferença entre o custo financeiro das instituições e a taxa cobrada do produtor, permitindo juros inferiores aos praticados normalmente pelo mercado.

A criação formal das linhas, entretanto, não encerrou as dificuldades.

Produtores vêm relatando exigências de entrada sobre o saldo devedor e de apresentação de garantias adicionais para realizar as novas operações. A regulamentação do CMN estabelece que a instituição financeira mantém a responsabilidade pelo risco de crédito e pode avaliar novamente as garantias na contratação.

Essa estrutura ajuda a explicar por que a existência de uma linha subsidiada não significa aprovação automática do refinanciamento.

Congresso tem menos de dez dias para deliberar sobre MP

A Medida Provisória 1.376 também entrou em uma etapa decisiva no Congresso.

A página oficial do Congresso Nacional apontava nesta sexta-feira (4) que a MP estava sob relatoria do deputado Paulo Pimenta e em regime de urgência desde 29 de agosto. O prazo de deliberação indicado vai até 12 de setembro, com possibilidade de prorrogação da vigência.

Entre as mudanças em discussão estão ampliação de prazos, alteração das datas de enquadramento e ajustes para produtores que não conseguiram concluir as renegociações antes do vencimento de parcelas.

O tema ganhou pressão adicional no Rio Grande do Sul. Em reunião realizada durante a Expointer, em Esteio, representantes de produtores, parlamentares e entidades do setor discutiram alterações destinadas a ampliar o alcance das linhas e evitar que novos contratos se tornem inadimplentes enquanto as renegociações não são concluídas.

A urgência aumentou porque o problema deixou de ser apenas o estoque acumulado de dívidas. A redução do volume de contratos em curso normal pode afetar a capacidade de produtores de financiar custeio, comprar insumos e implantar a nova safra.

Com R$ 207,4 bilhões já classificados em alguma forma de estresse financeiro e quase um quarto da carteira rural fora da condição normal, o resultado das renegociações nos próximos meses será determinante para saber se a deterioração ficará concentrada em contratos reestruturados ou avançará para níveis maiores de inadimplência.

Fontes:

Banco Central do Brasil – dados da carteira de crédito rural, inadimplência e regulamentação das linhas de composição de dívidas

Conselho Monetário Nacional – Resoluções 5.330 e 5.334 sobre renegociação e composição de dívidas rurais

Presidência da República – Medida Provisória 1.376 de 15 de julho de 2026

Ministério da Fazenda – Portaria 2.423 sobre equalização de juros e prazo de contratação das novas operações

Congresso Nacional – tramitação, prazo e situação legislativa da Medida Provisória 1.376

Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul – informações sobre endividamento e dificuldades de renegociação apresentadas durante a Expointer

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