Cuba apresentou nesta quinta-feira, 18 de junho de 2026, um pacote de 175 medidas econômicas que prevê ampliar a participação da iniciativa privada em áreas até agora submetidas a forte controle estatal. As propostas incluem a entrada de bancos privados no sistema financeiro, o desenvolvimento imobiliário por agentes não estatais, novos modelos de participação acionária em empresas públicas e a simplificação de regras para empreendedores.
O programa foi apresentado pelo primeiro-ministro Manuel Marrero a parlamentares cubanos e ainda depende de aprovação da Assembleia Nacional para entrar em vigor. O governo sustenta que as medidas preservam os princípios socialistas do país, embora parte das mudanças anunciadas introduza instrumentos associados a economias mais descentralizadas.
A iniciativa surge em meio ao agravamento da crise econômica da ilha, marcada por apagões, falta de combustíveis, inflação elevada, dificuldades no abastecimento de alimentos e medicamentos e deterioração dos serviços públicos. O governo também atribui parte dos problemas às sanções impostas pelos Estados Unidos e às limitações enfrentadas por Cuba para obter petróleo, crédito e divisas.
O pacote recebeu apoio do presidente Miguel Díaz-Canel, da direção do Partido Comunista e do ex-presidente Raúl Castro. O respaldo da cúpula política reduz a possibilidade de resistência institucional relevante, mas não elimina as dificuldades operacionais para implementar as mudanças.
Pacote pode produzir maior abertura desde 1959
Caso seja aprovado e aplicado integralmente, o programa poderá representar uma das alterações mais profundas no modelo econômico cubano desde a Revolução de 1959.
Cuba já havia autorizado, em etapas anteriores, a atuação de trabalhadores autônomos, cooperativas e pequenas e médias empresas privadas. O pacote apresentado nesta quinta-feira, porém, amplia o alcance dessa participação e inclui setores considerados estratégicos, como o sistema financeiro, o mercado imobiliário e a estrutura patrimonial de empresas estatais.
O governo evita classificar as medidas como uma transição para uma economia de mercado. A formulação oficial é de que o país busca atualizar seu modelo socialista, corrigir distorções internas e criar condições para elevar a produção nacional.
Na prática, as propostas podem alterar os mecanismos de propriedade, financiamento e gestão empresarial. O alcance efetivo das mudanças dependerá dos textos aprovados pela Assembleia Nacional, das regulamentações posteriores e do grau de autonomia que será concedido aos novos agentes privados.
Díaz-Canel pede medidas para destravar produção
O presidente Miguel Díaz-Canel defendeu a urgência das propostas e reconheceu a necessidade de reduzir obstáculos internos à atividade econômica.
“Precisamos liberar a produção, para aumentar a oferta e reduzir as restrições”, afirmou o presidente durante pronunciamento transmitido nesta quinta-feira.
A declaração representa uma admissão de que as limitações atuais não decorrem apenas das sanções externas. Embora o governo continue atribuindo aos Estados Unidos parte importante da crise, o discurso presidencial passou a incluir de forma mais direta a necessidade de enfrentar entraves administrativos e produtivos criados dentro do próprio sistema cubano.
A prioridade declarada é aumentar a oferta de bens e serviços. A escassez de produtos básicos, combinada à inflação e à perda de renda das famílias, ampliou a pressão sobre o governo e reduziu a capacidade do Estado de atender às necessidades da população.
Díaz-Canel tenta conciliar dois objetivos: preservar o controle político exercido pelo Partido Comunista e, ao mesmo tempo, conceder maior espaço econômico a empresas privadas, investidores e empreendedores.
Essa combinação exigirá regras claras sobre propriedade, contratação, crédito, formação de preços e participação do Estado. Também será necessário definir quais setores permanecerão exclusivamente públicos e em quais atividades haverá abertura para o capital privado.
Raúl Castro apoia propostas apresentadas por Marrero
O apoio de Raúl Castro adiciona peso político ao pacote. O ex-presidente e ex-primeiro-secretário do Partido Comunista teria enviado uma carta ao Politburo na quarta-feira, 17 de junho, classificando as propostas como benéficas e defendendo sua implementação rápida.
Mesmo afastado da administração cotidiana, Raúl Castro mantém influência sobre a estrutura partidária e sobre setores ligados à geração histórica da revolução. Seu respaldo pode ajudar o governo a conter resistências entre dirigentes contrários a uma abertura econômica mais ampla.
A posição também indica que a cúpula cubana considera a crise suficientemente grave para justificar medidas antes tratadas com cautela. Diversas propostas de modernização econômica foram discutidas nos últimos anos, mas enfrentaram atrasos, regulamentação restritiva ou aplicação parcial.
O apoio político não garante, por si só, resultados econômicos. A eficácia das medidas dependerá da capacidade de execução do Estado, da disponibilidade de recursos, da segurança jurídica e da confiança que as novas regras serão capazes de gerar entre investidores e empresários.
Bancos privados poderão entrar no sistema financeiro
A possível autorização para bancos privados operarem em Cuba está entre os pontos mais sensíveis do programa.
O sistema bancário cubano permaneceu durante décadas sob controle estatal. A entrada de instituições privadas poderá modificar a concessão de crédito, a captação de recursos, o financiamento de empresas e a intermediação de pagamentos.
Ainda não estão esclarecidos os requisitos de autorização, o modelo de supervisão ou a origem do capital das instituições que poderão atuar no país. Também não se sabe se a abertura abrangerá bancos estrangeiros, agentes privados cubanos ou estruturas formadas em parceria com o Estado.
O acesso ao crédito é uma das principais limitações enfrentadas por empreendedores e empresas privadas na ilha. Sem linhas regulares de financiamento, muitos negócios dependem de recursos próprios, remessas familiares ou operações informais.
A criação de novos canais financeiros poderá favorecer investimentos e ampliar a circulação de capital. O efeito dependerá, contudo, da estabilidade da moeda, das regras cambiais e da capacidade dos bancos de operar em uma economia sujeita a sanções internacionais.
Desenvolvimento imobiliário poderá receber capital privado
O pacote também prevê maior participação privada no desenvolvimento imobiliário. A medida poderá modificar a forma de construção, financiamento e administração de empreendimentos em um país no qual o Estado historicamente concentrou o controle sobre ativos relevantes e sobre o uso do solo.
Não foram divulgados detalhes sobre os tipos de projetos que poderão ser executados, as regras para aquisição ou cessão de terrenos e os limites de participação de investidores estrangeiros.
A abertura poderá atingir empreendimentos residenciais, comerciais ou turísticos. Cuba enfrenta problemas habitacionais acumulados, deterioração de imóveis e restrições de investimento público para manutenção e construção de novas unidades.
A entrada de capital privado poderá ampliar a capacidade de execução de projetos. Ao mesmo tempo, exigirá regulamentação sobre propriedade, preços, contratos, direitos dos moradores e acesso da população aos empreendimentos.
A dimensão da mudança dependerá de quanto controle o Estado manterá sobre terrenos, licenças, financiamento e definição dos projetos autorizados.
Empresas estatais poderão adotar modelos acionários
Outro eixo do programa envolve a transformação de empresas estatais em estruturas empresariais com ações ou participações acionárias.
A proposta abre caminho para modelos híbridos, nos quais o Estado poderá continuar como controlador, mas dividir a propriedade econômica ou a gestão com outros investidores. A medida também poderá criar novas formas de capitalização para companhias que hoje dependem diretamente do orçamento público.
Ainda não está definido se as participações poderão ser adquiridas por investidores cubanos, empresas estrangeiras, trabalhadores das próprias companhias ou fundos administrados pelo Estado.
A alteração poderá afetar a governança das empresas, os critérios de investimento, a prestação de contas e a distribuição dos resultados. Também exigirá mecanismos para avaliação dos ativos e definição do valor das participações.
O governo busca tornar as empresas mais eficientes e reduzir a dependência de transferências estatais. Muitas companhias públicas operam com baixa produtividade, limitações tecnológicas e dificuldades para obter insumos.
A adoção de modelos acionários, entretanto, não assegura automaticamente melhoria de desempenho. Os resultados dependerão da autonomia concedida à administração, da qualidade da gestão e da existência de regras que permitam encerrar ou reestruturar operações deficitárias.
Governo pretende reduzir burocracia sobre empresas privadas
O pacote prevê ainda a simplificação de procedimentos aplicáveis às empresas privadas e aos trabalhadores por conta própria.
Empreendedores cubanos enfrentam exigências administrativas, restrições para importação, dificuldades para acessar moeda estrangeira e limitações sobre os setores em que podem atuar. A demora na emissão de licenças e a instabilidade regulatória também dificultam a expansão dos negócios.
A redução da burocracia poderá favorecer empresas ligadas ao comércio, aos serviços, à alimentação, à construção e à produção de bens de consumo. O governo espera que esses agentes contribuam para elevar a oferta e diminuir parte das carências enfrentadas pela população.
A efetividade da medida dependerá da regulamentação. Mudanças formais poderão ter efeito limitado caso órgãos públicos continuem impondo autorizações sucessivas, controles de preços ou restrições para contratação e aquisição de insumos.
O governo também terá de definir como serão tributadas as empresas e quais obrigações trabalhistas, cambiais e contábeis serão exigidas.
Sanções dos Estados Unidos agravam restrições
A apresentação das reformas ocorre em um período de forte pressão externa. O governo cubano afirma que as sanções dos Estados Unidos limitam o acesso da ilha ao sistema financeiro internacional, afastam investidores e dificultam a importação de combustíveis e outros produtos essenciais.
As restrições também afetam o turismo, uma das principais fontes de divisas do país. A redução da entrada de visitantes e as dificuldades para realizar transações internacionais enfraqueceram a capacidade de Cuba de financiar importações.
O impacto da crise pode ser observado nos apagões prolongados, na falta de combustível, na escassez de medicamentos e nas dificuldades de abastecimento de água e alimentos.
A deterioração das condições de vida também contribuiu para o aumento da saída de cubanos do país. A emigração reduz a força de trabalho disponível e amplia a dependência de remessas enviadas por familiares residentes no exterior.
O governo apresenta a abertura parcial como uma resposta às limitações externas e às ineficiências internas. A estratégia busca gerar produção e investimento sem alterar o sistema político de partido único.
Assembleia Nacional será próxima etapa formal
As 175 medidas ainda precisam ser analisadas pela Assembleia Nacional. O ambiente político favorece a aprovação porque o Partido Comunista controla as principais instituições do país e as propostas apresentadas pelo Executivo tradicionalmente obtêm apoio parlamentar.
A votação, entretanto, será apenas a primeira etapa. As mudanças exigirão regulamentação, adaptação de órgãos públicos, definição de mecanismos de fiscalização e elaboração de normas específicas para cada setor.
A implementação também dependerá da capacidade de atrair capital em um país com infraestrutura deteriorada, baixa disponibilidade de divisas e dificuldades de acesso ao sistema financeiro internacional.
O governo terá ainda de administrar as tensões ideológicas produzidas pelas reformas. Setores mais conservadores poderão considerar que a entrada de bancos e investidores privados ameaça os fundamentos do modelo socialista.
A mensagem oficial é de que as propostas não representam uma ruptura, mas uma atualização destinada a proteger o próprio sistema. A liderança cubana procura demonstrar que a abertura econômica pode ser conduzida sem perda do controle político.
Execução determinará alcance real das reformas
O pacote apresentado por Manuel Marrero coloca Cuba diante de uma transição delicada. O país precisa elevar a produção, atrair investimento e ampliar a oferta de bens, mas pretende fazer isso sem abandonar a centralidade do Estado e do Partido Comunista.
O apoio de Díaz-Canel e Raúl Castro indica que as reformas ganharam prioridade política. Ainda assim, o resultado dependerá das regras aprovadas e da disposição do governo para conceder autonomia real aos agentes privados.
Até esta quinta-feira, não havia um calendário completo para a votação, a regulamentação e a entrada em vigor de todas as medidas.
A próxima etapa será a análise pela Assembleia Nacional. Depois disso, será necessário observar quais propostas serão efetivamente implementadas, quais setores serão abertos e em que condições bancos, investidores e empreendedores poderão atuar na economia cubana.










