Os Estados Unidos vão gastar US$ 1 trilhão apenas para pagar juros líquidos da dívida no ano fiscal de 2026, quando o déficit federal deve atingir US$ 1,9 trilhão. Os dois números constam do relatório mais recente do Escritório de Orçamento do Congresso, o CBO, divulgado em fevereiro de 2026, e resumem a situação fiscal do país em Washington. O quadro não decorre de queda de arrecadação por recessão, mas de uma arquitetura tributária que ampliou renúncias e de um estoque de dívida que ficou mais caro para rolar.
A projeção de linha de base do CBO indica déficit de US$ 1,9 trilhão em 2026, equivalente a 5,8% do Produto Interno Bruto, com alta para US$ 3,1 trilhões em 2036, ou 6,7% do PIB. O patamar está acima da média de 3,8% registrada nos últimos 50 anos. A dívida em poder do público, que está em 101% do PIB em 2026, deve subir para 120% em 2036, acima do recorde de 106% do PIB registrado logo após a Segunda Guerra Mundial.
O CBO também detalha que os gastos totais vão de US$ 7,4 trilhões em 2026, ou 23,3% do PIB, para US$ 11,4 trilhões em 2036, ou 24,4% do PIB. As receitas somam US$ 5,6 trilhões em 2026, ou 17,5% do PIB, e avançam para US$ 8,3 trilhões em 2036, ou 17,8% do PIB, pouco acima da média de 50 anos de 17,3%. O descompasso entre gasto e receita explica o rombo de 5,8% do PIB neste ano.
Revisão de US$ 1,4 trilhão e os três fatores que mudaram a conta
O quadro de 2026 é US$ 0,1 trilhão, ou 8%, maior do que o projetado em janeiro de 2025. No acumulado entre 2026 e 2035, o déficit projetado é US$ 1,4 trilhão maior que a estimativa anterior. O CBO atribui a mudança a três desenvolvimentos com efeitos econômicos e de juros incluídos.
O primeiro é a lei de reconciliação de 2025, que aumentou os déficits em cerca de US$ 4,7 trilhões no horizonte de dez anos. O segundo é o aumento de tarifas, que reduziu o déficit em cerca de US$ 3,0 trilhões. O terceiro são ações administrativas ligadas à imigração, que ampliaram o rombo em cerca de US$ 0,5 trilhão.
A aritmética deixa de ser partidária e passa a ser de Tesouro. Cada dólar de renúncia ou de despesa nova não compensado exige emissão de títulos. A emissão nova gera mais juros, que exigem ainda mais emissão.
Juros dobram até 2036 e viram segundo maior gasto federal
O salto nos juros é o ponto central do Outlook 2026-2036. Nas projeções do CBO, os pagamentos líquidos de juros aumentam em média 7,5% ao ano, mais que dobrando de US$ 1,0 trilhão em 2026 para US$ 2,1 trilhões em 2036. Como parcela da economia, saem de 3,3% do PIB em 2026 para 4,6% do PIB em 2036.
Em 2026, esses juros já superam os gastos obrigatórios com qualquer programa exceto Previdência e Medicare. A separação feita pelo CBO entre déficit total, déficit primário e juros mostra a natureza do movimento.
O déficit total cresce de 5,8% do PIB em 2026 para 6,7% em 2036. O déficit primário, que exclui juros, cai de 2,6% do PIB em 2026 para 2,1% em 2036, enquanto os juros líquidos sobem de 3,3% para 4,6%. O país não está necessariamente criando programas novos em ritmo acelerado. Está pagando mais para carregar o estoque que já tem, com vencimentos rolados em ambiente de juros longos ainda elevados.
O Tesouro descreve a dinâmica como efeito bola de neve. Boa parte da alta de outlays de 23,3% do PIB em 2026 para 24,4% em 2036 não vem de defesa ou infraestrutura. Vem de benefícios indexados e de juros.
Public Law 119-21 adiciona US$ 4,1 trilhões e pressiona oferta de Treasuries
O divisor é a Public Law 119-21, a lei de reconciliação aprovada em 2025 e conhecida no mercado como One Big Beautiful Bill. A avaliação técnica do CBO de 21 de julho de 2025 estima que a lei vai elevar os custos de serviço da dívida em US$ 718 bilhões no período de 2025 a 2034 e aumentar o efeito cumulativo sobre o déficit para US$ 4,1 trilhões no escore convencional.
Quando são incluídos os efeitos macroeconômicos e a capitalização de juros sobre juros, o impacto da mesma lei sobe para US$ 4,7 trilhões em déficits adicionais. Para o investidor que compra Treasury de 10 anos, a diferença entre as duas métricas é secundária. Nos dois cenários, a oferta de títulos cresce de forma relevante e pressiona o prêmio de prazo.
A composição explica por que o déficit não cai mesmo com cortes em áreas específicas. O texto estende cortes de imposto de renda e cria novas isenções, o que reduz a base de arrecadação federal em cerca de US$ 4,5 trilhões em dez anos nas estimativas que circulam no Congresso.
Ao mesmo tempo, corta cerca de US$ 1,1 trilhão em despesas obrigatórias, com ajustes no Medicaid, programa de saúde para população de baixa renda, e no SNAP, programa de assistência nutricional. A renúncia supera o corte. O resultado líquido é mais dívida em poder do público.
Tarifas reduzem déficit em US$ 3,0 trilhões e criam financiamento atípico
O amortecedor parcial que não existia nas projeções de janeiro de 2025 são as tarifas mais altas. O CBO calcula que o aumento de tarifas reduziu o déficit projetado em US$ 3,0 trilhões no horizonte de dez anos, incluindo efeitos econômicos e de juros.
É uma troca incomum na história fiscal recente americana. O país passa a financiar parte da renúncia tributária interna com imposto sobre importação, que funciona como arrecadação, mas tem efeito colateral sobre inflação, cadeia de suprimentos e crescimento.
A troca ajuda a explicar por que o déficit de 2026, mesmo maior que o previsto em janeiro de 2025, não avançou ainda mais. Sem a receita de tarifas, o rombo projetado seria US$ 3,0 trilhões maior em dez anos.
CBO aponta perda na base e ganho no topo da pirâmide
A dimensão distributiva aparece na análise do CBO sobre a lei por faixa de renda. Famílias na base da pirâmide tendem a ter menos recursos disponíveis, reflexo direto dos cortes em Medicaid e SNAP.
Famílias de média e alta renda tendem a ter mais recursos, devido às isenções de impostos federais, com o maior ganho absoluto concentrado no topo. O desenho cria dois efeitos simultâneos para a economia.
No curto prazo, eleva a renda disponível de quem tem maior propensão a poupar e investir, o que sustenta bolsas e ativos de risco. No médio prazo, reduz a rede de proteção de quem tem maior propensão a consumir, o que pode pesar sobre indicadores de saúde, segurança alimentar e produtividade.
Para a contabilidade do Tesouro, a conta é direta. Menos receita hoje significa menos economia com juros amanhã. É por isso que o déficit primário cai de 2,6% para 2,1% do PIB até 2036 enquanto o déficit total sobe. O custo de carregar a dívida engole o ajuste em parte das despesas, quando os juros líquidos saem de 3,3% para 4,6% do PIB em dez anos e deixam de ser nota de rodapé para virar o segundo maior gasto federal, atrás apenas da Previdência.
Prêmio de prazo sobe mesmo com Fed cortando juro curto
Para o mercado, a pergunta não é se os EUA podem pagar. Com o dólar como moeda de reserva, o risco de insolvência clássica é baixo. A questão é a que preço o Tesouro vai rolar a dívida.
Com dívida em poder do público saindo de 101% para 120% do PIB até 2036 e projeção de 175% nas duas décadas seguintes nos cenários de longo prazo do CBO, a oferta de duration aumenta. Isso pressiona os yields longos, mesmo quando o Federal Reserve corta os juros curtos.
O CBO já incorpora essa leitura. Em 2025, o Fed reduziu a taxa básica em 0,75 ponto percentual e deve continuar reduzindo neste ano para depois estabilizar. A taxa do Treasury de 10 anos, porém, sobe gradualmente até 2027 e fica relativamente estável depois. O mercado cobra mais prêmio para carregar risco fiscal de prazo mais longo.
Quando o juro longo sobe, o custo de capital de empresas, hipotecas e financiamento de infraestrutura sobe junto. Fundos que seguem mandato de renda fixa aumentam a demanda por papéis curtos e exigem mais prêmio para comprar longos. Bancos repassam o custo para o crédito. Empresas adiam projetos com retorno marginal.
O crescimento do PIB real em 2026 ainda é projetado como mais forte justamente por causa dos efeitos da lei de reconciliação e da recomposição de atividade após o lapso de apropriações discricionárias no ano passado, mas esse impulso perde força nos anos seguintes, segundo o CBO.
Os três canais de transmissão para empresas, consumidores e Brasil
Para empresas americanas, a nova arquitetura fiscal tem dois lados. O lado favorável é a menor carga sobre lucros e dividendos distribuídos para acionistas de alta renda, o que sustenta recompra de ações e investimento em inteligência artificial e fábricas, dois itens citados pelo próprio governo para projetar crescimento acima de 6% no primeiro trimestre de 2026.
O lado desfavorável é o juro estruturalmente mais alto e a incerteza sobre tarifas. Quem depende de cadeia global paga mais para importar e, ao mesmo tempo, paga mais para financiar capital de giro.
Para o consumidor americano de baixa renda, o impacto é via benefício. Ajustes no Medicaid e no SNAP reduzem a renda efetiva e aumentam a vulnerabilidade a choques de saúde e alimentação. Para o consumidor de alta renda, o efeito é via imposto. Mais renda disponível para poupar, mas também um mercado imobiliário ainda pressionado por hipotecas caras, já que o juro longo não cai na mesma velocidade do juro curto.
Para o Brasil, a transmissão ocorre por três canais. Primeiro, Treasuries. Yields mais altos nos EUA elevam o custo de emissão de empresas brasileiras no exterior e puxam o diferencial de juros para cima. Segundo, dólar. Juro americano mais alto sustenta o dólar forte, o que pressiona importadores e alivia exportadores de commodities, mas encarece a inflação importada. Terceiro, política comercial. Ao financiar parte do rombo com tarifa, Washington ganha incentivo para manter barreiras, incluindo a tarifa adicional ao Brasil discutida neste ano. É um ambiente em que o exportador brasileiro pode ganhar competitividade cambial e, ao mesmo tempo, perder acesso por barreira tarifária.
Leilões do Tesouro, inflação e o marco de 30 de setembro
Os números organizados a partir das fontes primárias mostram a dimensão do ajuste que não aconteceu. Em 2026, outlays de US$ 7,4 trilhões contra receitas de US$ 5,6 trilhões. Em 2036, outlays de US$ 11,4 trilhões, ou 24,4% do PIB, contra receitas de US$ 8,3 trilhões, ou 17,8% do PIB. Déficit de US$ 1,9 trilhão que vira US$ 3,1 trilhões. Juros de US$ 1,0 trilhão que viram US$ 2,1 trilhões. Dívida de 101% que vira 120% do PIB, a caminho de superar com folga o pico do pós-guerra.
A linha do tempo fiscal que o mercado acompanha agora é objetiva. Fevereiro de 2026, CBO publica o Outlook 2026-2036 com déficit de 5,8% do PIB. Julho de 2025, CBO publica o escore final da Public Law 119-21 com impacto de US$ 4,1 trilhões incluindo serviço da dívida. Ao longo de 2026, o Tesouro realiza leilões pesados de notas e bonds para financiar o déficit e o Congresso discute apropriações que ficaram de fora da linha de base de janeiro.
Cada leilão com demanda fraca é lido como pressão adicional sobre yields. Cada dado de inflação acima do esperado reforça a tese de que o Fed não poderá cortar tanto quanto gostaria, mantendo o custo de carregamento da dívida elevado.
Não há atalho no horizonte de projeção. Para estabilizar a dívida em 101% do PIB, o CBO precisaria ver uma combinação de receitas maiores, crescimento mais forte ou juros mais baixos do que a linha de base projeta. Como as receitas já estão acima da média histórica em proporção do PIB e os juros longos refletem oferta maior de títulos, o ajuste tende a recair sobre crescimento ou sobre nova rodada de discussão sobre benefícios.
O próximo marco é o encerramento do ano fiscal em 30 de setembro. Até lá, o déficit acumulado já havia passado de US$ 1 trilhão nos primeiros cinco meses de 2026, segundo acompanhamento do próprio CBO. Se a arrecadação com tarifas desacelerar ou se o crescimento vier abaixo do projetado, o rombo de 5,8% do PIB pode ser revisado para cima. Se as tarifas se mantiverem e a atividade surpreender, o déficit cai, mas à custa de inflação mais alta e de um comércio global menor. Em ambos os cenários, os juros de US$ 1 trilhão continuam na conta. É o custo fixo de uma escolha fiscal feita em 2025 que o país vai pagar até 2036.










