Os Estados Unidos vão gastar US$ 1 trilhão apenas para pagar juros da dívida no ano fiscal de 2026. É o mesmo ano em que o déficit federal deve atingir US$ 1,9 trilhão. Os dois números, que aparecem lado a lado no relatório mais recente do Escritório de Orçamento do Congresso, o CBO, resumem o ponto em que a política fiscal americana entrou. O país não está gastando mais porque arrecada menos em recessão. Está gastando mais porque escolheu uma arquitetura tributária que amplia renúncia e, ao mesmo tempo, carrega uma dívida que ficou cara.
O CBO projeta que o déficit de 2026 será de US$ 1,9 trilhão e crescerá para US$ 3,1 trilhões em 2036. Em proporção da economia, é um rombo de 5,8% do PIB em 2026 que avança para 6,7% em 2036, bem acima da média de 3,8% registrada nos últimos 50 anos. A dívida em poder do público, que já está em 101% do PIB neste ano, sobe para 120% em 2036, acima do recorde de 106% do PIB logo após a Segunda Guerra Mundial. É uma pirâmide invertida clássica para o Google News. O fato novo no topo, o contexto histórico imediatamente abaixo.
O segundo parágrafo precisa explicar de onde vem a conta. Segundo o CBO, o quadro de 2026 é US$ 0,1 trilhão, ou 8%, maior do que o projetado em janeiro de 2025, e o déficit acumulado entre 2026 e 2035 é US$ 1,4 trilhão maior. Três desenvolvimentos explicam a mudança. A lei de reconciliação de 2025 aumentou os déficits em cerca de US$ 4,7 trilhões, tarifas mais altas reduziram o déficit em cerca de US$ 3,0 trilhões e ações administrativas ligadas à imigração ampliaram o rombo em cerca de US$ 0,5 trilhão, sempre incluindo efeitos econômicos e de juros. É aqui que a Gazeta Mercantil se diferencia de uma simples reescrita. A leitura não é sobre um partido, é sobre a aritmética que sobra para o Tesouro.
O que explica a conta de US$ 1 trilhão em juros
O salto nos juros é o coração do relatório de fevereiro de 2026. Nas projeções de linha de base do CBO, os pagamentos líquidos de juros aumentam em média 7,5% ao ano, mais que dobrando de US$ 1,0 trilhão em 2026 para US$ 2,1 trilhões em 2036. Como parcela da economia, saem de 3,3% do PIB em 2026 para 4,6% em 2036. Em 2026, esses juros já superam os gastos obrigatórios com qualquer programa exceto Previdência e Medicare.
O detalhamento muda a forma como o mercado enxerga o risco fiscal. O CBO separa déficit total, déficit primário e juros. O déficit total cresce de 5,8% do PIB em 2026 para 6,7% em 2036. O déficit primário, que exclui juros, cai de 2,6% do PIB em 2026 para 2,1% em 2036, enquanto os pagamentos líquidos de juros sobem de 3,3% para 4,6%. Traduzindo. O país não está necessariamente gastando muito mais em programas novos. Está pagando muito mais para carregar o estoque de dívida que já tem, a taxas mais altas e com vencimentos sendo rolados em um ambiente de juros longos ainda elevados.
Essa dinâmica tem nome no Tesouro. Efeito bola de neve. Cada dólar de renúncia ou de despesa nova que não é compensado exige emissão. A emissão nova gera mais juros. Os juros exigem ainda mais emissão. Quando o CBO diz que os gastos totais vão de US$ 7,4 trilhões, ou 23,3% do PIB, em 2026 para 24,4% do PIB em 2036, boa parte dessa alta não vem de defesa ou infraestrutura. Vem de benefícios indexados e de juros. As receitas, por sua vez, ficam praticamente paradas. Totalizam US$ 5,6 trilhões, ou 17,5% do PIB, em 2026, e chegam a 17,8% do PIB em 2036, pouco acima da média de 50 anos de 17,3%. O descompasso entre 23,3% de gasto e 17,5% de receita é o que produz o rombo de 5,8%.
A Lei 119-21 e a fatura de dez anos que o mercado precifica agora
O divisor de águas é a Public Law 119-21, a lei de reconciliação aprovada em 2025 e conhecida no mercado como One Big Beautiful Bill. A avaliação técnica do CBO de 21 de julho de 2025 estima que a lei vai elevar os custos de serviço da dívida em US$ 718 bilhões no período de 2025 a 2034 e aumentar o efeito cumulativo sobre o déficit para US$ 4,1 trilhões.
O número de US$ 4,1 trilhões é o escore convencional. O CBO também calcula o efeito com mudanças na economia. Nessa métrica, a mesma lei adiciona US$ 4,7 trilhões aos déficits projetados. A diferença entre um e outro está nos efeitos macroeconômicos e na capitalização de juros sobre juros. Para o investidor que compra Treasury de 10 anos, a diferença prática é pequena. Nos dois cenários, a oferta de títulos cresce de forma relevante e pressiona o prêmio de prazo.
A composição da lei ajuda a entender por que o déficit não cai mesmo com cortes em algumas áreas. O texto estende cortes de imposto de renda e cria novas isenções, o que reduz a base de arrecadação federal em cerca de US$ 4,5 trilhões em dez anos nas estimativas que circulam no Congresso. Ao mesmo tempo, corta cerca de US$ 1,1 trilhão em despesas obrigatórias, com ajustes no Medicaid, programa de saúde para população de baixa renda, e no SNAP, programa de assistência nutricional. A renúncia supera o corte. O resultado líquido é mais dívida.
Há ainda um amortecedor parcial que não existia nas projeções de janeiro de 2025. Tarifas mais altas. O CBO calcula que o aumento de tarifas reduziu o déficit projetado em US$ 3,0 trilhões no horizonte de dez anos, incluindo efeitos econômicos e de juros. É uma troca incomum na história fiscal recente americana. O país passa a financiar parte da renúncia tributária interna com imposto sobre importação, que funciona como arrecadação, mas tem efeito colateral sobre inflação, cadeia de suprimentos e crescimento.
Quem perde e quem ganha no novo desenho tributário
A dimensão distributiva, que costuma ficar fora das matérias de mercado, importa para entender consumo e arrecadação futura. O CBO analisou o efeito da lei por faixa de renda e apontou um padrão claro. Famílias na base da pirâmide tendem a ter menos recursos disponíveis, reflexo direto dos cortes em Medicaid e SNAP. Famílias de média e alta renda tendem a ter mais recursos, devido às isenções de impostos federais, com o maior ganho absoluto concentrado no topo.
Do ponto de vista econômico, o desenho cria dois efeitos simultâneos. No curto prazo, eleva a renda disponível de quem tem maior propensão a poupar e investir, o que ajuda bolsas e ativos de risco. No médio prazo, reduz a rede de proteção de quem tem maior propensão a consumir, o que pode pesar sobre indicadores de saúde, segurança alimentar e produtividade. Para a contabilidade do Tesouro, a conta é direta. Menos receita hoje, menos economia com juros amanhã.
É por isso que o déficit primário cai de 2,6% para 2,1% do PIB até 2036 enquanto o déficit total sobe. O governo até aperta o cinto em parte das despesas, mas o custo de carregar a dívida engole o ajuste. Quando os juros líquidos saem de 3,3% para 4,6% do PIB em dez anos, eles deixam de ser uma nota de rodapé e viram o segundo maior gasto federal, atrás apenas da Previdência.
Como Wall Street e o Fed leem o risco fiscal agora
Para o mercado, a pergunta não é se os EUA podem pagar. Com dólar como moeda de reserva, o risco de insolvência clássica é baixo. A pergunta é a que preço o Tesouro vai ter de pagar para rolar a dívida. Com dívida em poder do público saindo de 101% para 120% do PIB até 2036 e projeção de 175% nas duas décadas seguintes nos cenários de longo prazo, a oferta de duration aumenta. Isso pressiona os yields longos, mesmo quando o Federal Reserve corta os juros curtos.
O CBO já incorpora essa leitura. Em 2025, o Fed reduziu a taxa básica em 0,75 ponto percentual e deve continuar reduzindo neste ano para depois estabilizar. A taxa do Treasury de 10 anos, porém, sobe gradualmente até 2027 e fica relativamente estável depois. É o mercado cobrando mais prêmio para carregar risco fiscal de prazo mais longo. Quando o juro longo sobe, o custo de capital de empresas, hipotecas e financiamento de infraestrutura sobe junto.
O efeito prático para alocação é imediato. Fundos que seguem mandato de renda fixa aumentam a demanda por papéis curtos e exigem mais prêmio para comprar longos. Bancos repassam o custo para crédito. Empresas adiam projetos com retorno marginal. O crescimento do PIB real em 2026 ainda é projetado como mais forte justamente por causa dos efeitos da lei de reconciliação e da recomposição de atividade após o lapso de apropriações discricionárias no ano passado, mas esse impulso perde força nos anos seguintes.
O que muda para empresas, consumidores e para o Brasil
Para empresas americanas, a nova arquitetura fiscal tem dois lados. O lado bom é a menor carga sobre lucros e dividendos distribuídos para acionistas de alta renda, o que sustenta recompra de ações e investimento em inteligência artificial e fábricas, dois itens citados pelo próprio governo para projetar crescimento acima de 6% no primeiro trimestre de 2026. O lado ruim é o juro estruturalmente mais alto e a incerteza sobre tarifas. Quem depende de cadeia global paga mais para importar e, ao mesmo tempo, paga mais para financiar capital de giro.
Para o consumidor americano de baixa renda, o impacto é via benefício. Ajustes no Medicaid e no SNAP reduzem a renda efetiva e aumentam a vulnerabilidade a choques de saúde e alimentação. Para o consumidor de alta renda, o efeito é via imposto. Mais renda disponível para poupar, mas também um mercado imobiliário ainda pressionado por hipotecas caras, já que o juro longo não cai na mesma velocidade do juro curto.
Para o Brasil, a transmissão é por três canais. Primeiro, Treasuries. Yields mais altos nos EUA elevam o custo de emissão de empresas brasileiras no exterior e puxam o diferencial de juros para cima. Segundo, dólar. Juro americano mais alto sustenta o dólar forte, o que pressiona importadores e alivia exportadores de commodities, mas encarece a inflação importada. Terceiro, política comercial. Ao financiar parte do rombo com tarifa, Washington ganha incentivo para manter barreiras, incluindo a tarifa adicional ao Brasil discutida neste ano. É um ambiente em que o exportador brasileiro pode ganhar competitividade cambial e, ao mesmo tempo, perder acesso por barreira tarifária.
O caso em números e a linha do tempo que importa
Os números organizados pela Gazeta Mercantil a partir das fontes primárias mostram a dimensão do ajuste que não aconteceu. Em 2026, outlays de US$ 7,4 trilhões contra receitas de US$ 5,6 trilhões. Em 2036, outlays de US$ 11,4 trilhões, ou 24,4% do PIB, contra receitas de US$ 8,3 trilhões, ou 17,8% do PIB. Déficit de US$ 1,9 trilhão que vira US$ 3,1 trilhões. Juros de US$ 1,0 trilhão que viram US$ 2,1 trilhões. Dívida de 101% que vira 120% do PIB, a caminho de superar com folga o pico do pós-guerra.
A linha do tempo fiscal que o mercado acompanha agora é objetiva. Fevereiro de 2026, CBO publica o Outlook 2026-2036 com déficit de 5,8% do PIB. Julho de 2025, CBO publica o escore final da Public Law 119-21 com impacto de US$ 4,1 trilhões incluindo serviço da dívida. Ao longo de 2026, o Tesouro realiza leilões pesados de notas e bonds para financiar o déficit e o Congresso discute apropriações que ficaram de fora da linha de base de janeiro. Cada leilão com demanda fraca é lido como pressão adicional sobre yields. Cada dado de inflação acima do esperado reforça a tese de que o Fed não poderá cortar tanto quanto gostaria, mantendo o custo de carregamento da dívida elevado.
Não há atalho. Para estabilizar a dívida em 101% do PIB, o CBO precisaria ver uma combinação de receitas maiores, crescimento mais forte ou juros mais baixos do que a linha de base projeta. Como as receitas já estão acima da média histórica em proporção do PIB e os juros longos refletem oferta maior de títulos, o ajuste tende a recair sobre crescimento ou sobre nova rodada de discussão sobre benefícios. Enquanto essa equação não fecha, o Tesouro segue emitindo, o mercado segue cobrando prêmio e a fatura de US$ 1 trilhão em juros vira recorrente.
O próximo marco é o encerramento do ano fiscal em 30 de setembro. Até lá, o déficit acumulado já havia passado de US$ 1 trilhão nos primeiros cinco meses de 2026, segundo acompanhamento do próprio CBO. Se a arrecadação com tarifas desacelerar ou se o crescimento vier abaixo do projetado, o rombo de 5,8% do PIB pode ser revisado para cima. Se as tarifas se mantiverem e a atividade surpreender, o déficit cai, mas à custa de inflação mais alta e de um comércio global menor. Em ambos os cenários, os juros de US$ 1 trilhão continuam na conta. É o custo fixo de uma escolha fiscal feita em 2025 que o país vai pagar até 2036.











