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Daniel Vorcaro confirma à PF encontros com Ibaneis sobre venda do Master ao BRB

por Carlos Menezes
30/01/2026 às 01h09
em Política
Daniel Vorcaro Confirma À Pf Encontros Com Ibaneis Sobre Venda Do Master Ao Brb - Gazeta Mercantil

Daniel Vorcaro confirma à PF reuniões com Ibaneis Rocha sobre venda de ativos do Banco Master ao BRB

O cenário político-financeiro de Brasília sofreu um novo abalo sísmico nesta quinta-feira (29), com a divulgação de detalhes cruciais sobre as investigações que envolvem a cúpula do poder no Distrito Federal e o sistema bancário nacional. Em depoimento prestado à Polícia Federal (PF), o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador e dono do Banco Master, confirmou ter mantido conversas diretas com o governador Ibaneis Rocha (MDB) a respeito da venda de ativos e do controle da instituição financeira ao Banco de Brasília (BRB). A confirmação dessas tratativas, que ocorreram inclusive em ambientes privados como as residências de ambos, lança nova luz sobre a Operação Compliance Zero e sobre a extensão das relações entre o setor privado e a gestão pública na capital federal.

O depoimento de Daniel Vorcaro, realizado originalmente em 30 de dezembro do ano passado, estava sob sigilo de justiça até esta quinta-feira. A barreira da confidencialidade foi derrubada por decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso. A abertura dos arquivos das oitivas permite agora que a sociedade e o mercado compreendam a profundidade das negociações que tentaram, sem sucesso, fundir as operações de um banco privado em crise de liquidez com uma instituição estatal robusta, sob a justificativa de conversas institucionais.

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Os Encontros “Institucionais” em Residências Oficiais e Privadas

Um dos pontos mais sensíveis revelados no depoimento de Daniel Vorcaro diz respeito ao local e à natureza dos encontros com o chefe do Executivo do Distrito Federal. Ao ser inquirido pela delegada Janaína Pereira Lima Palazzo, responsável pela condução do inquérito na PF, Daniel Vorcaro admitiu que esteve com Ibaneis Rocha “em poucas oportunidades” para discutir a transação. No entanto, o que chama a atenção dos investigadores é a informalidade dos locais escolhidos para tratar de um negócio bilionário envolvendo um banco público.

“Conversei em algumas poucas oportunidades. O governador já foi a minha casa uma vez e eu já fui na casa dele. Nos encontramos poucas vezes, para conversas institucionais”, declarou Daniel Vorcaro em seu depoimento. A caracterização de encontros domésticos como “conversas institucionais” é um ponto que a Polícia Federal busca explorar. No mundo corporativo e na administração pública, reuniões dessa magnitude — que envolvem a aquisição de ativos bancários e riscos financeiros elevados — geralmente ocorrem em gabinetes oficiais, com registros em ata e presença de técnicos. A pessoalidade descrita por Daniel Vorcaro sugere um nível de proximidade que pode ter influenciado a disposição do BRB em avançar com a proposta.

A defesa de Daniel Vorcaro sustenta que, sendo Ibaneis Rocha o governador e, portanto, representante do acionista controlador do BRB, o diálogo era natural e necessário. Contudo, a investigação apura se essa proximidade serviu para contornar barreiras de governança e compliance que, em tese, deveriam ter barrado a operação logo no início, dadas as fragilidades financeiras que o Banco Master já apresentava à época.

A Rede de Relacionamentos e o Trânsito nos Três Poderes

Durante a oitiva, a autoridade policial pressionou Daniel Vorcaro sobre a extensão de sua influência política. A delegada Janaína Palazzo questionou o banqueiro sobre sua relação com outros políticos e se esse trânsito livre pelos corredores de Brasília foi utilizado para facilitar o negócio. Daniel Vorcaro, mantendo uma postura defensiva, optou por não citar nomes específicos, mas não negou ter acesso privilegiado.

“Tenho amigos de todos os poderes. Não consigo nominar individualmente quem frequentava a minha casa”, afirmou Daniel Vorcaro. Essa declaração reforça a imagem de um executivo com forte networking na capital, capaz de transitar entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Entretanto, Daniel Vorcaro foi enfático ao tentar desvincular essas amizades da operação fracassada com o BRB. “Não vejo qual a relação com o caso. As relações políticas não tiveram a ver com esse caso do BRB”, ressaltou o empresário.

A estratégia de Daniel Vorcaro é clara: isolar a negociação com o BRB como um evento estritamente técnico e comercial, blindando seus aliados políticos de possíveis acusações de tráfico de influência ou advocacia administrativa. No entanto, a Polícia Federal trabalha com a hipótese de que a “ajuda política” foi um componente essencial para que o BRB, um banco estatal, assumisse riscos desproporcionais ao tentar socorrer o Banco Master.

Operação Compliance Zero: O Cerco se Fecha

O depoimento de Daniel Vorcaro insere-se no contexto da Operação Compliance Zero, uma investigação robusta da Polícia Federal que apura irregularidades financeiras e gestão temerária. A tese central dos investigadores é que o Banco de Brasília realizou operações consideradas atípicas e irregulares com o Master. O objetivo dessas transações seria dar fôlego financeiro e liquidez à instituição de Daniel Vorcaro, que enfrentava dificuldades de solvência, enquanto o Banco Central ainda analisava a proposta formal de aquisição.

A cronologia dos fatos é essencial para entender a responsabilidade de Daniel Vorcaro. O BRB chegou a formalizar uma oferta vinculante em março deste ano. Durante o período de análise regulatória — o chamado crivo do regulador —, suspeita-se que recursos tenham sido injetados ou ativos trocados para manter o Banco Master operante artificialmente. Se comprovado, isso indicaria que Daniel Vorcaro e a diretoria do BRB agiram para antecipar os efeitos de uma fusão que sequer havia sido aprovada, colocando em risco o patrimônio público do Distrito Federal.

O veto final do Banco Central ao negócio foi o estopim para a crise. A autoridade monetária, ao negar a aquisição, sinalizou que os números não fechavam ou que os riscos de contágio para o BRB eram inaceitáveis. O depoimento de Ailton de Aquino Santos, diretor de Fiscalização do BC, também liberado por Toffoli, é outra peça que deve corroborar a visão de que a operação defendida por Daniel Vorcaro não possuía sustentação técnica prudencial.

O Papel do Judiciário e a Decisão de Toffoli

A entrada do Supremo Tribunal Federal no caso, através do ministro Dias Toffoli, eleva o patamar jurídico da questão. Ao derrubar o sigilo das oitivas, Toffoli atende a um pedido do próprio Banco Central e sinaliza transparência. O magistrado permitiu que o BC tivesse acesso integral ao que foi dito por Daniel Vorcaro e outros investigados, fortalecendo a capacidade administrativa da autarquia de punir irregularidades, independentemente do desfecho criminal.

A presença de um juiz auxiliar do gabinete de Toffoli e de um membro do Ministério Público durante os depoimentos de Daniel Vorcaro demonstra a gravidade institucional do caso. Não se trata apenas de uma fraude bancária comum, mas de um esquema que tangencia a cúpula do poder político de um ente federativo. Para Daniel Vorcaro, ter seus argumentos expostos publicamente agora significa enfrentar não apenas o tribunal da justiça, mas também o tribunal da opinião pública e do mercado financeiro.

A Governança do BRB em Xeque

As revelações de Daniel Vorcaro colocam uma pressão imensa sobre a governança do Banco de Brasília. Se o controlador do banco alvo (Master) frequentava a casa do governador (controlador do BRB) para tratar de negócios, onde estavam os comitês de risco e compliance do banco estatal? A narrativa de Daniel Vorcaro sugere que as decisões estratégicas eram tomadas em ambientes informais e depois “descidas” para a estrutura técnica validar.

O mercado financeiro reage com extrema cautela a esse tipo de ingerência. A confirmação de que Daniel Vorcaro discutia a venda diretamente com Ibaneis Rocha pode afetar a percepção de risco do BRB, encarecendo suas captações e gerando desconfiança entre investidores minoritários. A distinção entre o interesse público e o interesse privado parece ter sido borrada nas conversas que Daniel Vorcaro classifica como “institucionais”.

O Futuro de Daniel Vorcaro e do Inquérito

Com o sigilo levantado, a defesa de Daniel Vorcaro terá que lidar com as contradições e as evidências que emergem dos autos. A admissão dos encontros é um passo arriscado. Embora não seja crime encontrar-se com um governador, o contexto de uma operação financeira sob suspeita de fraude torna esses encontros a “arma fumegante” (smoking gun) que a Polícia Federal procurava para estabelecer o nexo causal entre a política e o dinheiro.

Daniel Vorcaro segue afirmando que o negócio era técnico e que as relações políticas não influenciaram. No entanto, a Operação Compliance Zero indica que a técnica foi, muitas vezes, suplantada pela necessidade urgente de liquidez. O inquérito deve agora avançar para o cruzamento de dados: as datas dos encontros na casa de Ibaneis coincidem com as datas das libertações de recursos ou compras de carteiras pelo BRB? Se a resposta for positiva, a situação de Daniel Vorcaro se complica significativamente.

Além disso, a recusa de Daniel Vorcaro em nomear outros políticos pode ser interpretada de duas formas: lealdade aos seus pares ou uma estratégia para evitar a expansão da investigação para outras esferas de poder, o que poderia atrair ainda mais holofotes e rigor punitivo.

Impactos no Sistema Financeiro

O caso protagonizado por Daniel Vorcaro serve como um alerta severo para o sistema bancário médio brasileiro. A tentativa de venda para um banco estatal como saída para crises de liquidez é um modelo que o Banco Central demonstrou não tolerar quando há indícios de irregularidades. A figura de Daniel Vorcaro, antes vista como a de um banqueiro arrojado e bem relacionado, agora simboliza os riscos da falta de transparência corporativa.

O Banco Central, munido das informações do depoimento de Daniel Vorcaro, poderá endurecer as regras para operações de fusão e aquisição (M&A) envolvendo bancos públicos e privados, exigindo quarentenas e protocolos de comunicação mais rígidos para evitar que reuniões em residências decidam o destino de bilhões de reais em ativos.

As Implicações da “Institucionalidade” Privada

A confirmação de Daniel Vorcaro sobre as conversas com Ibaneis Rocha é o fato político e econômico mais relevante da semana. Ao tentar normalizar encontros domésticos como “institucionais”, Daniel Vorcaro expôs a fragilidade das barreiras que deveriam separar o público do privado.

Para a Polícia Federal, o depoimento de Daniel Vorcaro é uma peça fundamental no quebra-cabeça da Operação Compliance Zero. Ele confirma o acesso, a oportunidade e o motivo. Resta agora aos investigadores fechar o ciclo probatório sobre a materialidade das fraudes financeiras que teriam sido discutidas nesses encontros.

O mercado aguarda os próximos passos. A possível responsabilização de Daniel Vorcaro e de agentes públicos envolvidos enviará uma mensagem clara sobre os limites da atuação de banqueiros e políticos na gestão de instituições financeiras estatais. Enquanto isso, a defesa de Daniel Vorcaro continuará a batalha para provar que, apesar da informalidade dos locais, as intenções eram legítimas e visavam o fortalecimento do sistema — uma tese que, diante das evidências acumuladas, encontra cada vez menos eco na realidade dos fatos.

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