O caso “Dark Horse”, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, voltou ao centro das investigações e aumentou a pressão sobre a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro a 24 dias do primeiro turno. Em menos de 24 horas, a apuração apareceu como argumento de Flávio Dino para evitar uma ruptura no comando da Polícia Federal e ganhou novo impulso com a homologação da colaboração premiada do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, apontado como responsável por sete transferências que somaram US$ 12,3 milhões para uma estrutura financeira nos Estados Unidos.
O avanço preocupa aliados de Flávio porque aproxima duas frentes investigativas que podem produzir novos elementos durante a campanha. Uma acompanha o dinheiro privado atribuído a Daniel Vorcaro e destinado ao financiamento do filme. Outra investiga emendas parlamentares enviadas a entidades relacionadas a pessoas ligadas à produtora Go Up Entertainment e busca esclarecer se recursos públicos tiveram destinação diferente daquela oficialmente informada.
Flávio admite ter procurado Vorcaro para captar recursos para o projeto, mas nega qualquer irregularidade ou contrapartida. Afirma ainda que não administrava as verbas e que a prestação de contas cabe aos responsáveis pela produção. Até agora, não existe acusação formal que atribua ao candidato crime relacionado ao financiamento de “Dark Horse”.
O risco para sua campanha está justamente no que ainda pode emergir das investigações.
Dino usa Dark Horse para justificar continuidade das investigações
O caso ganhou nova dimensão quando Flávio Dino citou expressamente a investigação ao analisar o pedido apresentado por Andrei Rodrigues depois de seu afastamento da direção-geral da Polícia Federal.
A decisão foi proferida nos autos da PET 16.669/DF, processo já sob relatoria de Dino que apura possível irregularidade na destinação de R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil. A entidade possui vínculos com a empresária Karina da Gama, também relacionada à estrutura empresarial da Go Up Entertainment.
A Polícia Federal obteve autorização para acessar materiais apreendidos em investigação conduzida em São Paulo envolvendo empresas ligadas à produtora. O objetivo é verificar se recursos públicos destinados às entidades investigadas foram aplicados nas finalidades declaradas ou se houve algum desvio que possa estabelecer conexão financeira com a produção do filme.
Quando André Mendonça afastou Andrei e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, a continuidade dessas diligências passou a ser questionada.
Dino utilizou esse risco para determinar o retorno dos dois aos cargos. Ao fundamentar sua decisão, sustentou que uma interrupção no funcionamento da direção da PF poderia comprometer investigações já em andamento, entre elas a relacionada ao “Dark Horse”.
Horas depois, Edson Fachin suspendeu as decisões conflitantes de Mendonça e Dino. Como a ordem de afastamento também perdeu eficácia, Andrei permaneceu no comando da Polícia Federal enquanto a Presidência do STF passou a reavaliar a situação.
O efeito mais importante para o caso, porém, foi tornar explícito dentro do Supremo que a investigação do filme possui diligências em curso e poderia ser afetada por mudanças na estrutura da PF.
Delação detalha US$ 12,3 milhões enviados aos Estados Unidos
No mesmo período, André Mendonça homologou a colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, acrescentando uma nova fonte de informações à investigação sobre os recursos privados destinados ao projeto.
Freixo relatou ter realizado sete transferências para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, que somaram US$ 12,3 milhões.
Segundo sua versão, os pagamentos foram realizados a pedido de Daniel Vorcaro. O colaborador afirmou, contudo, que não sabia inicialmente que o dinheiro seria utilizado para despesas relacionadas ao filme.
O fundo norte-americano aparece como peça importante na reconstrução da rota financeira. A investigação poderá agora confrontar o relato de Freixo com registros bancários, mensagens, contratos e outras informações obtidas pelos investigadores.
A homologação não significa que Mendonça tenha confirmado a veracidade das declarações. Em acordos de colaboração, o conteúdo apresentado precisa ser posteriormente corroborado por provas independentes.
O valor, contudo, dá nova escala à apuração. Sete transferências somando US$ 12,3 milhões representam uma operação financeira suficientemente relevante para exigir respostas sobre origem, destinação e justificativa econômica dos recursos.
Flávio procurou Vorcaro para financiar o projeto
A ligação entre o candidato e o financiamento não depende apenas do relato do colaborador.
Flávio já reconheceu publicamente que procurou Daniel Vorcaro em busca de recursos para “Dark Horse”. O contato ocorreu durante a captação de financiamento para a produção sobre Jair Bolsonaro.
A investigação procura agora esclarecer o que aconteceu depois desse pedido.
Entre as questões ainda abertas estão a origem exata dos valores mobilizados por Vorcaro, o motivo pelo qual o ex-controlador do Banco Master decidiu disponibilizar recursos em montante tão elevado, o percurso do dinheiro após as transferências para o exterior e se houve alguma contrapartida ligada ao financiamento.
Flávio sustenta que a negociação foi estritamente privada e comercial.
A diferença entre essas duas posições será definida pela produção de provas, e não apenas pelas declarações dos envolvidos.
PF acompanha rotas distintas de recursos
As investigações relacionadas a “Dark Horse” não formam um único fluxo financeiro.
Uma frente segue o dinheiro privado ligado a Vorcaro e às transferências para o Havengate. Outra examina recursos públicos provenientes de emendas parlamentares.
No núcleo privado, investigadores buscam reconstruir o caminho do dinheiro desde as operações atribuídas ao grupo de Vorcaro até sua utilização final. Também estão sob análise hipóteses sobre eventual destinação de parte dos valores para despesas diferentes das oficialmente apresentadas para o projeto.
No núcleo das emendas, o foco está na destinação de recursos públicos para entidades relacionadas a pessoas ligadas à produtora.
A existência de relações pessoais ou empresariais entre beneficiários das emendas e integrantes da produção não demonstra, sozinha, que o dinheiro público tenha financiado o filme. É precisamente essa eventual conexão que a investigação procura estabelecer ou afastar.
A relevância política surge porque os dois caminhos convergem em torno de um projeto cuja captação financeira contou diretamente com a participação de Flávio.
Delação pode abrir novas diligências antes do primeiro turno
A principal consequência da colaboração de Freixo poderá aparecer agora.
A partir das informações apresentadas pelo empresário, investigadores podem requisitar documentos, realizar cruzamentos de dados, confrontar versões e buscar informações financeiras no exterior.
Cada transferência informada pelo colaborador oferece um ponto concreto de verificação: data, valor, origem, destino e eventual comunicação relacionada à operação.
Se os registros confirmarem o relato, a investigação poderá avançar sobre quem determinou os pagamentos e para quais despesas o dinheiro foi posteriormente utilizado. Se houver divergências relevantes, a credibilidade da própria colaboração poderá ser questionada.
Esse processo de checagem ocorre durante a campanha presidencial.
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, qualquer nova diligência, documento ou depoimento relacionado ao financiamento pode ganhar repercussão imediata.
Caso muda de posição dentro da estratégia eleitoral de Flávio
Até recentemente, Flávio vinha explorando politicamente a crise entre ministros do Supremo e as revelações relacionadas ao Banco Master, principalmente para atacar Alexandre de Moraes e associá-lo ao governo Lula.
O avanço do caso “Dark Horse” muda parcialmente essa equação.
O candidato passa a conviver com uma investigação que também alcança uma operação financeira que ele ajudou a iniciar ao procurar Vorcaro em busca de recursos.
Isso não significa que as apurações necessariamente produzirão provas contra Flávio. Significa que o caso passou a ter potencial para obrigá-lo a responder sobre financiamento, valores e relacionamentos empresariais exatamente no período mais sensível da campanha.
Seus aliados já demonstram preocupação com a possibilidade de surgirem novas revelações antes da votação.
O próprio candidato vem falando publicamente sobre o risco de sofrer medidas que considera politicamente motivadas, utilizando inclusive a expressão “terceira facada” para descrever uma possível ofensiva contra sua candidatura. Até agora, não apresentou prova de que exista uma operação institucional organizada com esse objetivo.
Homologação por Mendonça adiciona uma contradição à crise do STF
O avanço da colaboração premiada também produz um efeito lateral importante.
André Mendonça vem sendo acusado por críticos de atuar de maneira favorável ao campo político de Flávio Bolsonaro, especialmente depois do afastamento da direção da PF e dos conflitos com Alexandre de Moraes.
Ao homologar uma delação que acrescenta informações potencialmente negativas para Flávio, porém, o próprio ministro permitiu o avanço de uma linha investigativa capaz de produzir desgaste para o candidato.
Isso não encerra os questionamentos sobre outras decisões de Mendonça, mas dificulta uma leitura segundo a qual todos os seus atos teriam como objetivo bloquear as investigações relacionadas ao candidato do PL.
No caso específico de “Dark Horse”, a homologação mantém aberto o caminho para que as informações de Freixo sejam verificadas.
Próximos passos estão no rastro do dinheiro
A fase mais importante da investigação começa justamente depois das declarações do colaborador.
O valor de US$ 12,3 milhões precisa ser rastreado desde sua origem até o destino final. Os investigadores também deverão confrontar as operações financeiras com comunicações entre Vorcaro, Freixo, integrantes da produção e outros personagens envolvidos na captação.
Na frente das emendas, permanece a necessidade de estabelecer se houve alguma ligação financeira entre os recursos públicos investigados e a produção cinematográfica.
A resposta a essas perguntas definirá se “Dark Horse” continuará sendo apenas um problema político para Flávio ou se poderá evoluir para uma questão jurídica diretamente relacionada ao candidato.
Até agora, o senador reconhece apenas a busca por financiamento privado e rejeita qualquer irregularidade.
A 24 dias do primeiro turno, entretanto, a investigação entrou em uma fase na qual novos fatos podem surgir independentemente da estratégia eleitoral. O risco para Flávio Bolsonaro não está no que já foi comprovado, mas no que a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República ainda podem encontrar ao reconstruir o caminho dos milhões destinados ao projeto.
Fontes:
Supremo Tribunal Federal – decisão proferida por Flávio Dino após requerimento incidental apresentado nos autos da PET 16.669/DF
Supremo Tribunal Federal – PET 16.662 e registros relacionados às medidas sobre a direção e a inteligência da Polícia Federal
Supremo Tribunal Federal – procedimentos relacionados às investigações do Banco Master e à atuação de André Mendonça como relator
Procuradoria-Geral da República – acordo de colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior homologado pelo Supremo Tribunal Federal
Polícia Federal – investigações relacionadas às movimentações financeiras e às possíveis rotas de recursos vinculadas ao projeto “Dark Horse”
Tribunal Superior Eleitoral – calendário oficial das Eleições Gerais de 2026 e primeiro turno marcado para 4 de outubro






