A economia da Rússia entrou em uma fase de maior vulnerabilidade após mais de quatro anos de guerra contra a Ucrânia, segundo estudo divulgado pelos institutos Instituto Kiel para a Economia Mundial (IfW), da Alemanha, e Instituto de Estocolmo para Economias de Transição (SITE), da Suécia. De acordo com o levantamento, as reservas financeiras acumuladas por Moscou para enfrentar sanções e choques externos foram amplamente consumidas desde o início do conflito, enquanto o crescimento econômico desacelera e a dependência em relação à China se intensifica.
O relatório, publicado nesta semana, sustenta que a economia russa demonstrou capacidade de resistência acima das expectativas nos primeiros anos da guerra, mas afirma que os mecanismos que sustentaram essa resiliência começam a mostrar sinais de esgotamento.
Segundo os pesquisadores, o governo russo utilizou de forma significativa seus recursos soberanos para financiar gastos públicos, apoiar a indústria de defesa e compensar parte dos efeitos provocados pelas sanções impostas pelos países ocidentais desde 2022.
Agora, porém, o espaço fiscal estaria mais limitado, ao mesmo tempo em que surgem dificuldades estruturais relacionadas à mão de obra, tecnologia e capacidade produtiva.
Fundo soberano perde força e déficit avança
Um dos principais indicadores destacados pelo estudo é a redução dos ativos líquidos do fundo soberano russo.
De acordo com os dados apresentados, o volume de recursos disponíveis caiu de 6,5% do Produto Interno Bruto (PIB) no início da guerra para apenas 1,8% em abril deste ano.
A redução reflete o uso contínuo das reservas para sustentar despesas públicas em meio ao prolongamento do conflito.
O relatório aponta ainda que o déficit orçamentário acumulado no primeiro trimestre já ultrapassou a meta estabelecida pelo governo russo para todo o ano de 2026.
O aumento dos gastos militares e a desaceleração das receitas ligadas à exportação de energia contribuíram para pressionar as contas públicas.
A situação é acompanhada com atenção por investidores internacionais e analistas geopolíticos, uma vez que a capacidade financeira do Estado russo tem sido um dos pilares para sustentar o esforço de guerra desde a invasão em larga escala da Ucrânia.
Receitas de petróleo e gás perdem fôlego
Outro ponto de preocupação identificado pelos pesquisadores é a queda das receitas provenientes do petróleo e do gás natural, historicamente responsáveis por parcela relevante do orçamento federal russo.
Segundo o estudo, a arrecadação relacionada ao setor energético recuou 45% no primeiro trimestre em comparação com o mesmo período do ano anterior.
A redução decorre de uma combinação de fatores, incluindo sanções internacionais, mudanças nos fluxos comerciais globais e descontos oferecidos pela Rússia para manter suas exportações em mercados alternativos.
Embora a recente alta das cotações internacionais do petróleo, impulsionada pelas tensões no Oriente Médio, possa gerar algum alívio temporário, os pesquisadores consideram improvável que esse movimento seja suficiente para reverter as pressões estruturais enfrentadas pela economia russa.
A dependência das commodities energéticas continua sendo um dos principais desafios para Moscou, especialmente em um cenário de restrições comerciais e reconfiguração dos mercados globais de energia.
Escassez de mão de obra limita expansão econômica
Além das dificuldades fiscais, os especialistas afirmam que a Rússia enfrenta gargalos estruturais que dificultam uma retomada mais robusta da atividade econômica.
O relatório destaca que o principal obstáculo atual não é a disponibilidade de recursos financeiros, mas a escassez de trabalhadores qualificados, tecnologia e capacidade produtiva.
A mobilização militar prolongada, o envelhecimento populacional e a saída de profissionais qualificados do país desde o início da guerra reduziram a oferta de mão de obra em diversos setores da economia.
Ao mesmo tempo, as restrições impostas ao acesso a tecnologias ocidentais dificultam investimentos e ganhos de produtividade.
Segundo os autores do estudo, mesmo que o governo amplie os gastos públicos para estimular a atividade econômica, existe o risco de aumento das pressões inflacionárias devido às limitações da capacidade produtiva.
O mercado de trabalho russo opera atualmente próximo de níveis históricos de escassez, cenário que tende a elevar salários e custos para empresas.
China amplia influência sobre a economia russa
A crescente aproximação econômica entre Moscou e Pequim é apontada como uma das principais consequências do isolamento imposto pelas sanções ocidentais.
Segundo o levantamento, a China já responde por aproximadamente 35% do comércio exterior russo e se tornou a principal fornecedora de bens estratégicos para a economia do país.
O estudo indica que empresas chinesas passaram a desempenhar papel central no fornecimento de equipamentos, componentes eletrônicos e tecnologias que deixaram de chegar à Rússia por canais tradicionais após a adoção das sanções.
Os pesquisadores afirmam ainda que cerca de três quartos do crescimento das importações russas de componentes sujeitos a restrições internacionais desde 2022 tiveram origem na China.
Esse movimento fortaleceu os laços econômicos entre os dois países, mas também ampliou a influência de Pequim sobre Moscou.
Na avaliação dos autores, a Rússia tornou-se mais dependente do apoio comercial, tecnológico e financeiro chinês, enquanto a China preserva maior capacidade de negociação dentro da relação bilateral.
Ocidente avalia novas formas de ampliar pressão econômica
O estudo argumenta que a atual situação econômica da Rússia pode abrir espaço para novas iniciativas dos países ocidentais destinadas a aumentar os custos do esforço de guerra.
Entre as medidas sugeridas estão o fortalecimento das restrições contra a chamada “frota fantasma”, conjunto de embarcações utilizado para transportar petróleo russo e contornar limitações impostas pelos países que aderiram às sanções.
Os pesquisadores também defendem controles mais rígidos sobre exportações de componentes considerados estratégicos e maior fiscalização de empresas que possam atuar como intermediárias no fornecimento de produtos sujeitos a restrições.
Outra proposta apresentada envolve a criação de tarifas específicas sobre o comércio remanescente entre a União Europeia e a Rússia.
Segundo os dados do relatório, as trocas comerciais entre os dois lados movimentaram cerca de 57,2 bilhões de euros em 2025.
A sugestão prevê a cobrança de tarifas entre 30% e 50% sobre importações e exportações, com os recursos arrecadados destinados ao financiamento de programas de apoio à Ucrânia.
De acordo com as estimativas dos institutos, a medida poderia gerar entre 11 bilhões e 16 bilhões de euros anuais.
Guerra prolongada amplia incertezas sobre o futuro econômico russo
Mais de quatro anos após o início da invasão em larga escala da Ucrânia, a economia da Rússia continua operando sob forte influência do conflito.
Embora Moscou tenha conseguido evitar um colapso imediato após a imposição das sanções internacionais, o cenário descrito pelos pesquisadores sugere que os custos econômicos da guerra se acumulam de forma crescente.
A combinação entre redução das reservas financeiras, queda das receitas energéticas, escassez de mão de obra e aumento da dependência da China cria um ambiente mais complexo para a condução da política econômica russa.
Ao mesmo tempo, a continuidade dos combates e a ausência de perspectivas concretas para uma solução negociada mantêm elevadas as incertezas sobre a trajetória da segunda maior economia da Europa.
Com cerca de um quinto do território ucraniano sob controle russo e sem sinais imediatos de encerramento do conflito, a capacidade de Moscou de sustentar simultaneamente os custos militares e a estabilidade econômica deverá permanecer no centro das atenções dos mercados internacionais e dos formuladores de política econômica nos próximos anos.











