As maiores companhias de petróleo do mundo atravessaram o segundo trimestre de 2026 com uma combinação de preços elevados do barril, restrições logísticas no Oriente Médio e margens mais fortes em partes da cadeia de refino. O resultado foi uma forte expansão de lucros e métricas ajustadas de rentabilidade que, somadas entre oito grandes grupos, ficaram próximas de US$ 90 bilhões entre abril e junho.
A cifra exige uma ressalva contábil. As empresas não divulgam exatamente a mesma medida de lucro: algumas destacam lucro líquido atribuído aos acionistas, outras utilizam lucro ajustado, resultado pelo custo de reposição ou métricas não-GAAP. Por isso, o total funciona como ordem de grandeza para medir a geração de resultados do setor, e não como uma soma homogênea de lucros líquidos comparáveis. Os próprios balanços das companhias apresentam diferenças relevantes na definição das métricas utilizadas.
Considerando aproximadamente US$ 90 bilhões distribuídos pelos 91 dias do segundo trimestre, o valor equivale a cerca de US$ 687 mil por minuto. Arredondada, a conta ajuda a explicar por que os resultados passaram a ocupar também o debate político nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump criticou ExxonMobil e Chevron por terem ganhado “dinheiro demais” e cobrou redução dos preços ao consumidor.
Guerra no Irã mudou o mercado global de petróleo
O choque começou no fim de fevereiro. A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, a EIA, registrou que os preços do petróleo e dos derivados avançaram fortemente depois das ações militares de 28 de fevereiro no Oriente Médio e da interrupção de grande parte do tráfego pelo Estreito de Ormuz. O Brent, que havia começado 2026 perto de US$ 61 por barril, encerrou o primeiro trimestre em US$ 118.
A redução da navegação elevou custos de transporte, ampliou o prêmio de risco e retirou volumes do mercado. A EIA informou que o Brent ultrapassou US$ 100 em 12 de março e que os estoques globais sofreram forte redução no segundo trimestre.
Em agosto, o órgão americano ainda estimava que as restrições de trânsito por Ormuz manteriam os preços elevados. A projeção passou a apontar Brent médio ao redor de US$ 85 no terceiro trimestre, com normalização gradual à medida que a produção represada no Oriente Médio voltasse ao mercado. Para 2027, a previsão é de preço médio de US$ 69 por barril.
Esse ambiente alterou rapidamente a economia das grandes produtoras. Empresas com produção própria capturaram preços de realização maiores, enquanto grupos integrados também se beneficiaram de oportunidades em refino, comercialização, gás natural e trading.
ExxonMobil e Chevron puxam salto nos Estados Unidos
A ExxonMobil (XOM) informou lucro de US$ 14,5 bilhões no segundo trimestre de 2026, ante US$ 4,2 bilhões no trimestre imediatamente anterior. O lucro ajustado chegou a US$ 14,7 bilhões, enquanto o fluxo de caixa das operações alcançou US$ 23,6 bilhões. A companhia distribuiu US$ 9,4 bilhões aos acionistas entre dividendos e recompras de ações.
Na comparação anual, a diferença também foi expressiva. No segundo trimestre de 2025, a ExxonMobil havia registrado US$ 7,1 bilhões de lucro. Em um ano, portanto, o resultado mais do que dobrou. A companhia atribuiu o desempenho tanto ao ambiente de mercado quanto à execução operacional e à estrutura de seu portfólio.
A Chevron (CVX) apresentou lucro de cerca de US$ 12,1 bilhões no trimestre. O resultado colocou as duas maiores petroleiras americanas em um patamar combinado superior a US$ 26 bilhões em três meses e aumentou a pressão política sobre o setor diante da elevação dos preços dos combustíveis.
Trump reagiu publicamente aos números. Em declaração a jornalistas na Casa Branca, o presidente afirmou que Chevron e ExxonMobil haviam ganhado “dinheiro demais” e defendeu preços menores no varejo. A cobrança ocorreu em um momento em que a guerra com o Irã seguia como um dos principais fatores de sustentação das cotações internacionais.
A crítica expõe uma tensão da política energética americana. De um lado, a Casa Branca mantém uma agenda de expansão da produção doméstica e fortalecimento da indústria de petróleo e gás. De outro, combustíveis caros pressionam consumidores e podem alimentar a inflação, criando desgaste econômico e político.
Aramco mantém liderança entre as gigantes
A Saudi Aramco (2222) informou lucro líquido ajustado de US$ 33,4 bilhões no segundo trimestre e fluxo de caixa operacional de US$ 25,4 bilhões. O conselho declarou ainda dividendo-base de US$ 21,9 bilhões referente ao período.
Mesmo enfrentando instabilidade regional, a companhia destacou a utilização do oleoduto Leste-Oeste para preservar fluxos e reduzir a dependência operacional da rota marítima de Ormuz.
Na Europa, o movimento também foi amplo. A Shell (SHEL) reportou lucro ajustado de US$ 9,8 bilhões e mais de US$ 21 bilhões de fluxo de caixa operacional. A administração citou desempenho operacional forte, utilização elevada das refinarias e capacidade de capturar valor em trading e otimização de gás natural liquefeito durante o período de disrupção.
A BP (BP) registrou lucro pelo custo de reposição subjacente de US$ 5,7 bilhões, US$ 2,5 bilhões acima do primeiro trimestre. A TotalEnergies (TTE) informou lucro líquido ajustado de US$ 6 bilhões e geração de caixa de US$ 9,8 bilhões. A Equinor (EQNR) apresentou lucro líquido de US$ 4,84 bilhões, com lucro ajustado de US$ 3,22 bilhões.
A italiana Eni (E) também acelerou. O lucro líquido ajustado mais do que dobrou e chegou a € 2,3 bilhões. A companhia atribuiu o desempenho à expansão de volumes, disciplina de custos e ambiente mais favorável de preços, especialmente na exploração e produção.
Por que os US$ 90 bilhões não formam uma conta simples
A soma dos números divulgados pelas oito companhias se aproxima de US$ 90 bilhões, mas não deve ser interpretada como um único indicador contábil. As empresas utilizam padrões e indicadores ajustados distintos. Algumas medidas excluem itens extraordinários, efeitos de estoque ou variações contábeis que permanecem no lucro líquido reportado.
Na Shell, por exemplo, o destaque operacional foi o lucro ajustado de US$ 9,8 bilhões. Na BP, a métrica mais acompanhada pela companhia é o lucro pelo custo de reposição subjacente, que procura retirar determinados efeitos contábeis da análise operacional. A TotalEnergies também especifica que seu lucro líquido ajustado exclui itens especiais, efeitos de avaliação de estoques e determinadas mudanças de valor justo.
A leitura mais sólida, portanto, é que as oito gigantes produziram, em conjunto, uma massa de resultados próxima de US$ 90 bilhões em suas principais métricas de lucro durante o trimestre. Transformar esse montante em valor por minuto é uma ilustração econômica, não uma medida oficial divulgada pelas companhias.
Petrobras também captura petróleo mais caro e recordes operacionais
No Brasil, a Petrobras (PETR4) apresentou lucro líquido de R$ 52,4 bilhões, equivalente a US$ 10,4 bilhões, no segundo trimestre. O resultado foi 97% superior ao mesmo período de 2025. O EBITDA ajustado alcançou R$ 93,8 bilhões e o fluxo de caixa operacional chegou a R$ 61,8 bilhões.
A companhia atribuiu a melhora a uma combinação de preços mais altos do Brent e recordes operacionais. A produção própria de óleo no Brasil atingiu 2,7 milhões de barris por dia, crescimento de 15% em relação ao segundo trimestre do ano anterior. A produção total de óleo e gás natural chegou a 3,34 milhões de barris de óleo equivalente por dia.
O refino também contribuiu. O fator de utilização das refinarias alcançou 101,2% no trimestre, e a produção de derivados somou 1,918 milhão de barris por dia. A Petrobras informou recordes na produção de diesel S10 e querosene de aviação, enquanto as exportações de petróleo se aproximaram de 1 milhão de barris por dia.
Com a geração de caixa fortalecida, o conselho aprovou R$ 17,4 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio referentes ao período. A estatal investiu R$ 26,7 bilhões no trimestre, dos quais 82% foram destinados ao segmento de exploração e produção.
Lucros elevados convivem com risco de reversão
A expansão dos resultados não significa que o nível atual de rentabilidade seja permanente. A própria EIA projeta queda gradual do Brent à medida que o fluxo pelo Estreito de Ormuz se normalize e a produção interrompida no Oriente Médio retorne. Para 2027, a agência prevê preço médio de US$ 69 por barril.
Isso cria um cenário assimétrico para as petroleiras. Enquanto a restrição de oferta persiste, produtores e refinadores com capacidade disponível capturam preços e margens mais elevados. Quando o petróleo recua, parte desse ganho tende a desaparecer, principalmente nos negócios mais sensíveis à cotação da commodity.
O segundo trimestre de 2026, portanto, entrou para a indústria como um período excepcional de geração de caixa. A guerra no Irã elevou o risco geopolítico e reprecificou a energia global. As grandes petroleiras transformaram esse ambiente em resultados bilionários, enquanto governos enfrentam o efeito oposto: combustíveis mais caros, pressão sobre a inflação e cobrança política crescente para que o ganho corporativo não seja acompanhado por um aumento permanente do custo de energia para consumidores e empresas.
Fontes:
ExxonMobil — Resultados do segundo trimestre de 2026
https://investor.exxonmobil.com/company-information/press-releases/detail/1208/exxonmobil-announces-second-quarter-2026-results
Saudi Aramco — Resultados do segundo trimestre e primeiro semestre de 2026
https://www.aramco.com/en/news-media/news/2026/aramco-announces-second-quarter-and-half-year-2026-results
Shell — Resultados do segundo trimestre de 2026
https://www.shell.com/investors/results-and-reporting/quarterly-results.html
BP — Resultados do segundo trimestre de 2026
https://www.bp.com/press-and-publications/press-releases/second-quarter-2026-results
TotalEnergies — Resultados do segundo trimestre e primeiro semestre de 2026
https://totalenergies.com/newsroom/second-quarter-and-first-half-2026-results/
Equinor — Resultados do segundo trimestre de 2026
https://www.equinor.com/news/equinor-second-quarter-2026-results
Eni — Resultados do segundo trimestre e primeiro semestre de 2026
https://www.eni.com/en-IT/media/press-release/2026/07/eni-results-second-quarter-half-year-2026.html
Petrobras — Resultado do segundo trimestre de 2026
https://agencia.petrobras.com.br/w/negocio/petrobras-lucra-r-52-4-bilhões-no-segundo-trimestre-de-2026
U.S. Energy Information Administration — Mercado de petróleo após as interrupções no Estreito de Ormuz
https://www.eia.gov/todayinenergy/detail.php?id=67424
U.S. Energy Information Administration — Short-Term Energy Outlook
https://www.eia.gov/outlooks/steo/
Casa Branca — Operações militares dos Estados Unidos no Irã em 28 de fevereiro de 2026
https://www.whitehouse.gov/videos/president-donald-j-trump-on-the-united-states-military-major-combat-operations-in-iran/







