Documentos de registro público consultados nos Estados Unidos revelam uma sequência coordenada de aberturas de empresas e associações que liga diretamente Eduardo Bolsonaro a uma rede de pessoas e estruturas montada logo após os atos de 8 de janeiro de 2023, em um período em que a Justiça brasileira começava a fechar o cerco sobre integrantes do governo anterior e seus aliados. As três estruturas foram criadas em um intervalo de 63 dias, todas na mesma residência, na cidade de Arlington, no Texas, e envolvem ainda um ex‑secretário de Cultura da gestão Bolsonaro com patrimônio declarado insuficiente para explicar o padrão de gastos e um influenciador investigado por participação na articulação golpista. A sequência coincide ainda com a permanência do ex‑presidente Jair Bolsonaro nos Estados Unidos, viagem que a Polícia Federal classifica como etapa de coordenação da trama que visava impedir a posse do presidente eleito.
A apuração mostra ainda que a única das três estruturas na qual Eduardo Bolsonaro aparece formalmente como sócio chegou a operar como financiadora informal, aplicando 140 mil dólares — equivalente a mais de R$ 800 mil na cotação da época — em empréstimo com garantia imobiliária, sem que os documentos indiquem a origem desse caixa. Hoje, a mesma rede de profissionais que administra o fundo que recebeu R$ 61 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, preso no âmbito da Operação Master, aparece como gestora também da estrutura patrimonial que comprou à vista uma mansão avaliada em até 789 mil dólares, na mesma região do Texas, e cujo representante formal é justamente aquele ex‑secretário. Os investigados têm direito à ampla defesa e até o momento não houve condenação judicial definitiva sobre qualquer dos pontos descritos nos registros e nos inquéritos em curso.
Sequência rápida de três estruturas no Texas coincide com exílio de Jair Bolsonaro
A primeira das três estruturas foi registrada em 13 de janeiro de 2023, cinco dias depois da invasão dos prédos dos Três Poderes em Brasília. Chamada Liber Group Brasil, tem endereço declarado na residência do influenciador Paulo Generoso, em Arlington. Menos de um mês depois, em 8 de fevereiro, é registrada no mesmo endereço a associação Instituto Liberdade. Por fim, em 18 de março, é aberta a Braz Global Holding, também na casa de Generoso.
Na época, Jair Bolsonaro permanecia nos Estados Unidos, onde havia chegado em 30 de dezembro de 2022 e onde permaneceria até o final de março daquele ano. Hospedado na Flórida, ele é alvo de inquérito da Polícia Federal no qual os investigadores apontam indícios de que a viagem serviu também para manter contato e coordenar de longe as articulações políticas e jurídicas do grupo que defendia a não posse do novo governo. Enquanto o pai permanecia no sul da Flórida, o círculo mais próximo de Eduardo Bolsonaro estruturava sua base operacional a cerca de 1,8 mil quilômetros de distância, no norte do Texas.
A Braz Global Holding é a única das três na qual o nome de Eduardo Bolsonaro aparece formalmente como integrante da sociedade. Seus sócios declarados são ele próprio, Paulo Generoso e André Porciúncula, capitão da reserva da Polícia Militar da Bahia e ex‑secretário nacional de Cultura do governo Bolsonaro. Em alguns dos registros, Porciúncula identifica‑se apenas como Andre Esteves, sem mencionar o sobrenome pelo qual é conhecido no Brasil.
Nas outras duas estruturas, Liber Group Brasil e Instituto Liberdade, nas quais Eduardo não figura como sócio, aparecem ainda nomes como o de Raquel Brugnera, ex‑servidora da Secretaria de Cultura apontada em investigações como uma das articuladoras do chamado Gabinete do Ódio, estrutura acusada de produzir e disseminar conteúdo de ataque sistemático a instituições e adversários políticos. Generoso, por sua vez, é fundador do Movimento República de Curitiba e foi citado pela Polícia Federal no inquérito que apura a articulação e o financiamento dos atos de 8 de janeiro.
Perfil de sócio levanta suspeita de uso de laranja em montagem empresarial
A presença de André Porciúncula como sócio e, em momentos posteriores, como representante formal de estruturas que movimentam valores elevados chama a atenção pelo contraste com sua situação patrimonial declarada no Brasil. Não há registro de fortuna, atividade empresarial lucrativa ou renda conhecida que justifique o salto de padrão de vida que ele apresenta desde que se mudou definitivamente para o Texas, em março de 2023 — precisamente o mês da criação da Braz Global.
Sua trajetória pública começou na Polícia Militar da Bahia, onde chegou a responder a processo por deserção antes de se transferir para a reserva. Chegou a Brasília em 2020 por indicação de Mário Frias, então secretário especial de Cultura, e tornou‑se uma das figuras centrais da chamada guerra cultural empreendida pelo governo federal. À frente da gestão da Lei Rouanet, assinou portaria que proibia o financiamento de projetos culturais que adotassem linguagem neutra de gênero, medida que virou alvo de apuração no Ministério Público Federal. Defendeu ainda a aplicação de recursos públicos em evento de defesa do porte de armas no qual, em suas próprias palavras, “a princesa é a arma de fogo”. Os episódios renderam representações contra ele e contra Frias na Procuradoria‑Geral da República e no Tribunal de Contas da União.
Em 2022, candidatou‑se a deputado federal pelo Partido Liberal na Bahia, recebeu cerca de 82 mil votos e não foi eleito. Em declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral em 2024, declarou possuir R$ 164 mil — metade desse valor correspondente a participação em uma empresa de segurança considerada inapta para funcionar pela Receita Federal. Sua campanha de 2022 foi custeada integralmente por recursos do fundo partidário, no valor de R$ 310 mil, sem doações de pessoas físicas registradas. Não há registro de herança relevante, negócio consolidado ou qualquer outra fonte que explique a capacidade de investimento que passou a demonstrar nos Estados Unidos. Lá também não consta emprego formal, atividade econômica registrada ou empresa operante regularmente em seu nome.
O quadro leva investigadores e analistas que acompanham o caso a levantar a hipótese, ainda não confirmada judicialmente, de que Porciúncula tenha atuado como laranja, emprestando seu nome e sua assinatura para permitir que Eduardo Bolsonaro mantivesse estruturas jurídicas, movimentasse recursos e se instalasse operacionalmente nos Estados Unidos sem aparecer em todos os vínculos formais. Em março de 2023, mês da mudança para o Texas, ele também abriu no Brasil uma empresa de consultoria de marketing cuja sede declarada é o próprio prédio da sede nacional do PL, em Brasília.
Empresa com nome de Eduardo atuou como financiadora sem origem clara de recursos
Quatro meses depois de sua criação, sem registro de licença para atuar como instituição financeira, sem funcionários declarados e sem histórico de atividade econômica, a Braz Global Holding celebrou contrato de empréstimo no valor de 140 mil dólares com uma empresa ligada a um construtor da cidade vizinha de Fort Worth. O valor foi aplicado na aquisição de três terrenos, dados em garantia da operação. O contrato previa juros de mora de 1,5% ao mês e uma cláusula que permitia aos credores exigir o pagamento integral do saldo devedor a qualquer momento, sem aviso prévio.
Os documentos públicos não trazem qualquer indicação da origem do dinheiro aplicado pela sociedade da qual Eduardo Bolsonaro era sócio. Também não há registro de que o próprio filho do ex‑presidente disponha de renda ou patrimônio compatível com esse volume de recursos. Ao se licenciar do mandato de deputado federal, abriu mão da remuneração do cargo e, em declarações públicas, afirmou viver nos Estados Unidos de renda passiva e de uma transferência de R$ 2 milhões feita por seu pai por meio de Pix.
O perfil do tomador dos recursos também levanta ressalvas. Ele se apresentava como Roderick Venture, “pioneiro em energia renovável”, mas seu nome legal é Roderick Ford. Registros comerciais e judiciais mostram que sua empresa de instalação de painéis solares detém classificação muito baixa em entidades de defesa do consumidor, que emissora de televisão no estado de Oklahoma produziu reportagem mostrando obras abandonadas por ele, e que há denúncias de que teria falsificado cartas de companhias elétricas para cobrar por sistemas que não funcionavam. Sua licença para atuar como construtor chegou a ser cassada em Fort Worth, e há registro de penhoras e de sentença judicial contra ele movida por compradores que alegam ter recebido imóveis inacabados.
Mesmo diante desse histórico, a operação foi encerrada sem prejuízo aparente para a Braz Global. Em 6 de fevereiro de 2024, Generoso assinou recibo de quitação integral dos 140 mil dólares. Pouco mais de dois meses depois, em 18 de abril, a empresa foi oficialmente extinta. No mesmo dia e com a mesma assinatura, também foi encerrada a Liber Group Brasil. As duas estruturas deixaram de existir simultaneamente, sem que houvesse justificativa pública nos registros disponíveis. Das três criadas no início de 2023, restou apenas o Instituto Liberdade, que hoje tem endereço declarado no escritório do advogado Paulo Calixto, em Dallas — profissional que atua como responsável pelos processos de imigração de Eduardo Bolsonaro.
Compra de mansão à vista expõe elo entre patrimônio e gestora que recebeu milhões de Vorcaro
A articulação que começou em 2023 ganhou novo capítulo público em 27 de fevereiro de 2026, quando uma estrutura chamada Mercury Legacy Trust adquiriu à vista, sem financiamento bancário, uma mansão de quatro quartos no condomínio Viridian, em Arlington. O valor de avaliação fiscal é de 726 mil dólares, mas corretores imobiliários da região estimam o valor de
mercado entre 750 mil e 789 mil dólares, podendo ser superior, já que o Texas não divulga publicamente o preço efetivo pago nas transações. Quem assina a escritura pela entidade fiduciária é André Porciúncula.
A Mercury Legacy Trust não aparece isolada. Os registros mostram que ela é sócia da Calixsan, gestora de recursos administrada justamente pelo advogado Paulo Calixto e pelo corretor Altieris Santana. É essa mesma dupla que administra o Havengate, fundo sediado em Dallas que, entre fevereiro e maio de 2025, recebeu cerca de R$ 61 milhões enviados do Brasil por Daniel Vorcaro. O banqueiro, hoje preso preventivamente em decorrência da Operação Master, justificou o envio
dos recursos como destinado ao financiamento do longa‑metragem “Dark Horse”, do qual Eduardo Bolsonaro e Mário Frias são produtores executivos, com poderes formalizados sobre orçamento e captação, conforme reportagem do Intercept Brasil. Em aditivo contratual, chegou‑se a qualificar o deputado licenciado como “financiador” da produção.
A Polícia Federal hoje investiga se parte desses mesmos recursos foi utilizada também para manter a vida pessoal e a atividade
política de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde ele se mudou definitivamente em março de 2025. A proximidade geográfica e jurídica reforça a linha de investigação: a distância rodoviária entre o antigo endereço da Braz Global Holding e a mansão comprada pela Mercury é de apenas 21 quilômetros. O fundo Havengate e a gestora Calixsan compartilham ainda o mesmo endereço comercial em Dallas. Além da Mercury, a Calixsan abriga ainda outras duas estruturas fiduciárias, Zuma Legacy Trust e Calixto Holdings Trust, que não aparecem nos cadastros estaduais consultados.
Versões mutantes e contradições fragilizam versão de titularidade dos bens
Quando questionado pela imprensa brasileira sobre a propriedade da mansão no Texas, Porciúncula deu versões diferentes e, em alguns pontos, incompatíveis entre si e com os documentos formais. Em primeiro momento, disse à Folha de S.Paulo que a identidade do dono “não é de interesse público”. Dias depois, em entrevista ao portal Metrópoles, assumiu ser ele o proprietário e explicou a compra por meio de estrutura fiduciária como forma de obter condições melhores de juros em eventual financiamento — embora a escritura pública indique transação quitada integralmente à vista, sem intervenção de instituição financeira.
Afirmou ainda residir na casa há cerca de três anos, o que, se verdadeiro, significaria que lá estaria desde o início de 2023. A data contradi não apenas o registro de mudança para os Estados Unidos em março daquele ano, mas também o fato de que em outubro de 2024 ele foi candidato a vereador em Salvador, condição que exige domicílio eleitoral na cidade baiana e obrigação de residência no país para fins de registro eleitoral.
Investigação da PF cruza dinheiro do Master com vida e atividade de Eduardo nos Estados Unidos
Para a Polícia Federal, o conjunto de estruturas, pessoas e movimentações financeiras forma um circuito que começa na articulação política posterior à derrota eleitoral de 2022, passa pela montagem de base operacional no Texas e hoje se entrelaça com o fluxo de recursos que saíram de Daniel Vorcaro rumo aos Estados Unidos sob a justificativa de produção cinematográfica. Os investigadores
trabalham com a hipótese de que parte desse dinheiro tenha sido desviada para cobrir despesas pessoais e também atividades de articulação política e de lobby contra o atual governo brasileiro, desenvolvidas por Eduardo Bolsonaro junto a autoridades e setores conservadores americanos.
Até o momento, nenhum dos envolvidos foi condenado definitivamente pelos fatos investigados, e todos mantêm o direito de apresentar defesa diante das instâncias judiciais competentes. Mas a sequência documentada de aberturas e extinções coordenadas de
empresas, a ausência de origem demonstrada para volumes relevantes de recursos e a sobreposição de nomes e endereços entre estruturas empresariais, estruturas fiduciárias e o fundo que recebeu milhões do banqueiro preso transformaram aquele pequeno circuito entre Arlington e Dallas em um dos eixos centrais da investigação que hoje pode definir não apenas a situação judicial do filho do ex‑presidente, mas também parte da própria dinâmica política brasileira, mesmo a milhares de quilômetros de distância de Brasília.