Warren Buffett decidiu antecipar a distribuição de sua fortuna e encerrou um ciclo de quase duas décadas de doações anuais à Fundação Gates. O presidente do conselho da Berkshire Hathaway (BRK.A; BRK.B) anunciou que pretende destinar todas as ações que ainda possui no conglomerado a quatro fundações ligadas à família até 31 de dezembro de 2034.
A mudança foi formalizada em 14 de julho, quando a Berkshire informou que Buffett converteria 8 mil ações Classe A em 12 milhões de papéis Classe B. Desse total, 9 milhões serão entregues à Fundação Susan Thompson Buffett e 1 milhão a cada uma das fundações Sherwood, Howard G. Buffett e NoVo. A operação está avaliada em aproximadamente US$ 6 bilhões.
Pela primeira vez desde o início da parceria filantrópica, em 2006, a Fundação Gates ficou fora da doação anual. A instituição recebeu mais de US$ 47 bilhões em ações da Berkshire ao longo desse período e foi, durante anos, a principal beneficiária da política de doações do investidor.
Buffett, que completa 96 anos em 30 de agosto, deixou o comando executivo da Berkshire no fim de 2025. Greg Abel assumiu como presidente-executivo em janeiro de 2026, enquanto o investidor permaneceu como presidente do conselho, maior acionista individual e figura ativa nas decisões de alocação de capital.
A nova programação filantrópica marca outra etapa da transição. A sucessão deixou de se limitar à administração da Berkshire e passou a abranger o destino de uma das maiores fortunas privadas do mundo, estimada em cerca de US$ 147 bilhões por levantamentos publicados em julho.
Buffett coloca a sorte no centro de sua trajetória
Em entrevista à CNBC exibida em 15 de julho, Buffett voltou a atribuir parte de seu sucesso às circunstâncias que cercaram seu nascimento, sua família e sua formação. Disse considerar-se possivelmente uma das dez pessoas mais sortudas em uma população de 8 bilhões.
A declaração não foi apresentada como falsa modéstia. Buffett reconheceu que teve saúde, longevidade, acesso precoce ao mercado financeiro e a oportunidade de construir patrimônio em um país no qual sua habilidade para avaliar empresas foi amplamente recompensada.
Filho de Howard Buffett, corretor de valores e posteriormente integrante da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, ele teve contato com investimentos ainda na infância. Aos 11 anos, comprou suas primeiras ações, da Cities Service.
Na entrevista, afirmou que sua trajetória poderia ter sido diferente caso o pai exercesse outra profissão. O interesse pelos mercados encontrou desde cedo um ambiente familiar capaz de oferecer conhecimento, referências e acesso.
Esse raciocínio está ligado à expressão “loteria ovariana”, utilizada por Buffett para explicar que ninguém escolhe a família, o país, o gênero ou as condições econômicas em que nasce. O mérito individual existe, em sua visão, mas opera dentro de uma estrutura de oportunidades distribuídas de maneira desigual.
A mesma interpretação orienta sua política sucessória. Buffett afirma que pretende deixar recursos suficientes para que os filhos possam realizar seus projetos, mas não uma fortuna capaz de eliminar qualquer necessidade de esforço ou responsabilidade.
Seu plano continua sendo doar praticamente todo o patrimônio. Em vez de transferir o controle da riqueza de forma permanente aos herdeiros, ele confia aos três filhos a tarefa de destiná-la a projetos filantrópicos.
Família assume o centro da distribuição do patrimônio
A decisão anunciada em julho altera a arquitetura que Buffett havia desenvolvido em 2006. Naquele momento, o investidor escolheu a Fundação Gates como principal canal para transformar as ações da Berkshire em financiamento para programas de saúde, redução da pobreza e educação.
A instituição possuía escala global, estrutura administrativa e capacidade para movimentar bilhões de dólares. Buffett considerava mais eficiente aproveitar uma organização já estabelecida do que criar uma fundação com seu próprio nome e uma nova burocracia.
As fundações familiares também recebiam ações, mas em volumes menores. O desenho de 2026 inverte essa relação: os quatro organismos ligados à família passam a receber a totalidade das novas doações.
A Fundação Susan Thompson Buffett, criada em homenagem à primeira mulher do investidor, ficará com a maior parcela. As outras três são administradas por Susan, Howard e Peter Buffett, filhos do bilionário.
Buffett afirmou que o objetivo é ampliar anualmente os repasses às fundações dos filhos, com crescimento ainda maior para a Fundação Susan Thompson Buffett. O comunicado oficial não estabeleceu valores fixos para cada ano, mas determinou que todas as ações restantes deverão ser doadas até o fim de 2034.
O prazo representa uma mudança importante. Antes, a previsão era que os filhos distribuíssem o patrimônio em até dez anos depois da morte do pai. Agora, Buffett pretende concluir a transferência durante um período em que os três ainda possam acompanhar diretamente a aplicação dos recursos.
A idade dos herdeiros entrou no cálculo. Susan Buffett, a mais velha, terá 81 anos no fim de 2034. O investidor demonstrou preocupação não apenas com a própria mortalidade, mas com a capacidade dos filhos de conduzir a tarefa com saúde e autonomia.
Caso Epstein acompanha decisão sobre Fundação Gates
A retirada da Fundação Gates ocorreu em meio à repercussão de documentos e depoimentos relacionados aos contatos mantidos por Bill Gates com Jeffrey Epstein, financista condenado por crimes sexuais e morto em uma prisão de Nova York em 2019.
Gates manifestou arrependimento pelos encontros e afirmou não ter conhecimento dos crimes de Epstein. Ele não foi acusado criminalmente por causa dessa relação. A Fundação Gates também iniciou uma avaliação sobre seus contatos anteriores com Epstein e seus procedimentos para examinar futuros parceiros.
Buffett classificou a associação como “desagradável”, mas evitou apresentar o episódio como a única razão para interromper os repasses. Segundo ele, a decisão está ligada principalmente à idade dos filhos e à confiança de que estão preparados para administrar a distribuição de sua riqueza.
O investidor também afirmou não se arrepender dos recursos enviados à Fundação Gates. Considerou correta a decisão tomada em 2006 e reconheceu a contribuição da entidade para programas internacionais de saúde e desenvolvimento.
Buffett e Gates mantiveram uma relação pessoal próxima durante décadas. Jogaram bridge, participaram juntos da criação do Giving Pledge e atuaram em iniciativas destinadas a convencer outros bilionários a doar parte substancial de seus patrimônios.
A mudança, portanto, não apaga o legado dessa parceria. Ela transfere, porém, a autoridade sobre a próxima etapa da fortuna de Buffett para estruturas diretamente associadas a seus filhos.
A Fundação Gates agradeceu as contribuições e afirmou permanecer em posição financeira sólida. A instituição conta com o compromisso de Bill Gates de destinar 99% de sua riqueza à entidade, que planeja distribuir seus recursos e encerrar as atividades em 2045.
Por esse motivo, não é possível afirmar que a suspensão das doações de Buffett obrigará imediatamente a fundação a reduzir seus programas. A decisão altera uma fonte histórica de financiamento, mas ocorre em paralelo à promessa de novos aportes substanciais do fundador da Microsoft.
Doação não dilui acionistas da Berkshire
O anúncio possui implicações para o mercado, mas não provoca diluição econômica dos acionistas da Berkshire Hathaway.
Buffett não está emitindo novas ações. Ele converte papéis Classe A já existentes em ações Classe B e transfere a propriedade às fundações. A participação econômica total da companhia permanece a mesma.
A conversão segue a proporção prevista na estrutura de capital da Berkshire: cada ação Classe A pode ser transformada em 1.500 ações Classe B. Por isso, os 8 mil papéis convertidos deram origem a 12 milhões de ações Classe B.
A diferença mais relevante está no poder de voto. As ações Classe A possuem influência política muito superior à das ações Classe B. Quando Buffett converte e doa os papéis, sua participação econômica e seu peso nas votações diminuem.
Após a operação anunciada em julho, ele permaneceu com 188.290 ações Classe A e 1.162 papéis Classe B. A participação ainda representa aproximadamente 13% do valor econômico da Berkshire, segundo os cálculos divulgados após a doação.
As fundações normalmente vendem parte das ações recebidas para financiar seus projetos. Essas operações podem aumentar a oferta de papéis no mercado secundário, mas são diferentes de uma emissão que amplia o número total de participações econômicas.
A dimensão da Berkshire também reduz o efeito potencial. Avaliada em cerca de US$ 1,06 trilhão, a companhia possui liquidez e base de acionistas suficientes para absorver vendas programadas ao longo do tempo, embora operações maiores possam influenciar temporariamente preços e volumes.
O cronograma até 2034 oferece alguma previsibilidade. Investidores sabem que a posição de Buffett diminuirá gradualmente e que o controle econômico do fundador não será transferido em bloco a um único herdeiro ou comprador estratégico.
Greg Abel assume uma Berkshire menos dependente do fundador
A aceleração das doações coincide com o primeiro ano completo de Greg Abel como presidente-executivo.
A sucessão havia sido preparada durante anos. Abel comandou os negócios não relacionados a seguros e participou das principais decisões de investimento antes de assumir formalmente o cargo.
No relatório anual de 2025, publicado já sob sua liderança, Abel afirmou que Buffett continuava no escritório cinco dias por semana e disponível para discutir seguros, subsidiárias e aplicação de capital. A Berkshire procura, dessa forma, preservar a cultura criada pelo fundador sem manter indefinidamente a estrutura dependente de uma única pessoa.
A transição ganhou peso adicional porque Buffett sempre concentrou duas funções difíceis de separar: chefe executivo e principal alocador de capital. Durante seis décadas, ele decidiu sobre aquisições, investimentos em ações, recompras e utilização do caixa.
Abel precisa demonstrar que o conglomerado continuará tomando decisões disciplinadas sem a presença cotidiana do fundador no comando. Buffett permanece influente, mas já deixou claro que o novo presidente-executivo possui a palavra final sobre a administração.
A Berkshire iniciou essa fase com centenas de bilhões de dólares em liquidez, negócios em seguros, ferrovias, energia, indústria e varejo, além de uma carteira de ações de grande porte.
Para os acionistas, a principal questão não é apenas quem substituirá Buffett como selecionador de investimentos. O desafio está em manter um sistema descentralizado, controlar riscos e resistir à pressão para utilizar o caixa em negócios pouco atraentes.
Fortuna cresceu apesar de décadas de doações
A dimensão atual do patrimônio mostra a força do processo de capitalização construído por Buffett.
Mesmo depois de doar dezenas de bilhões de dólares em ações desde 2006, ele continuou entre as pessoas mais ricas do mundo. A valorização da Berkshire compensou parte relevante das ações transferidas às fundações.
O conglomerado não distribui dividendos regulares aos acionistas. Os lucros retidos são reinvestidos em subsidiárias, aquisições, títulos e ações de outras companhias.
Essa política permitiu que Buffett adiasse a realização de ganhos e mantivesse uma parcela crescente do patrimônio concentrada na Berkshire. O investidor ficou rico não pela retirada anual de dinheiro, mas pelo aumento do valor de sua participação.
A doação direta das ações também evita a necessidade de vender toda a posição antes de transferir os recursos. Pelas regras tributárias americanas, contribuições de ações valorizadas a organizações qualificadas podem receber tratamento diferente de uma venda seguida de doação, embora limites e condições variem conforme o tipo de fundação e a situação do doador.
O mecanismo preserva a continuidade da Berkshire e entrega às fundações ativos líquidos que podem ser vendidos conforme suas necessidades financeiras.
Buffett transforma sucessão em última decisão de capital
A mudança anunciada em julho reúne os dois temas que definiram a carreira de Buffett: alocação e tempo.
Ao antecipar as doações, ele não está apenas escolhendo beneficiários. Está decidindo quem administrará o resultado final de quase sete décadas de investimentos.
A Fundação Gates perde a condição de destinatária central, mas encerra a parceria depois de receber mais de US$ 47 bilhões. As fundações familiares ganham escala e assumem uma responsabilidade que até então estava dividida com uma das maiores organizações filantrópicas do mundo.
Os filhos passam a administrar um fluxo crescente de recursos, mas não recebem liberdade para transformar a fortuna em patrimônio familiar permanente. O mandato é distribuir.
Na Berkshire, a redução gradual da participação de Buffett amplia o peso institucional da sucessão. A empresa terá de sustentar sua cultura sem depender do poder acionário e da reputação do fundador.
A decisão também reforça uma mensagem repetida por Buffett: a riqueza não resultou apenas de inteligência, trabalho ou disciplina. Ela foi construída dentro de circunstâncias históricas e pessoais que poderiam ter sido diferentes.
Depois de passar a vida escolhendo onde investir, o maior acionista da Berkshire começou a definir, com data marcada, onde seu capital deixará de estar.








