A Entre Investimentos e Participações realizou 14 transferências bancárias que somaram R$ 28,16 milhões para a ACX ITC Serviços de Tecnologia, empresa investigada pela Polícia Civil de São Paulo por suspeita de integrar uma estrutura de lavagem de dinheiro associada ao tráfico de drogas do Primeiro Comando da Capital, o PCC. Os pagamentos ocorreram entre agosto de 2024 e abril de 2025 e são analisados no âmbito da Operação Saturno, posteriormente encaminhada à Polícia Federal diante da conexão com outras apurações financeiras.
A relação entre a Entre Investimentos e a ACX ITC permanece sob investigação. Até o momento, as autoridades não concluíram que o dinheiro transferido tinha origem criminosa, que a Entre Investimentos participou de lavagem de capitais ou que seus responsáveis tinham conhecimento das suspeitas envolvendo a empresa destinatária.
O relatório da Polícia Civil atribui aproximadamente R$ 26 milhões à Entre Investimentos. A análise individual dos extratos bancários, porém, aponta 14 operações no valor acumulado de R$ 28.156.260. A diferença decorre da forma como o documento policial consolidou os pagamentos e da soma das transações identificadas no período.
A Entre Investimentos aparece como a maior pagadora da ACX ITC entre 1º de agosto de 2024 e 25 de abril de 2025. Os investigadores procuram esclarecer a justificativa econômica das operações, os serviços eventualmente contratados e o destino dado aos recursos depois que eles entraram nas contas da empresa de tecnologia.
Polícia rastreia R$ 918 milhões movimentados pela ACX ITC
Em relatório encaminhado à Justiça de São Paulo, o delegado Júlio Jesus Encarnação afirmou haver fortes indícios de que a ACX ITC tenha movimentado recursos provenientes do tráfico de drogas. Segundo o documento, a empresa registrou movimentação financeira de R$ 918.378.510.
O valor representa a soma dos créditos e débitos identificados nas contas analisadas e não deve ser interpretado como faturamento, patrimônio ou lucro da companhia. Movimentações bancárias podem contabilizar repetidamente recursos transferidos entre contas ou repassados a terceiros.
A dimensão financeira chamou a atenção dos investigadores porque a estrutura formal atribuída à ACX ITC seria incompatível com o volume movimentado. A polícia passou a verificar quem controlava efetivamente a empresa, quais atividades eram exercidas e quem se beneficiava das operações.
O proprietário registrado da ACX ITC declarou em depoimento que não comandava a empresa. Segundo o relato incorporado à investigação, ele teria sido abordado em um campo de futebol e aceitado ceder seus dados pessoais para figurar como titular da companhia em troca da promessa de receber R$ 5 mil.
O homem afirmou trabalhar com a venda de pipas e rabiolas por meio de rifas. A declaração reforçou a hipótese policial de que a empresa teria sido formalmente colocada em nome de um possível interposto, conhecido como laranja, para ocultar seus controladores e beneficiários reais.
Essa versão ainda precisa ser confrontada com documentos societários, registros de comunicação, movimentações financeiras e depoimentos de outros envolvidos. A existência de um titular sem capacidade econômica compatível é um indício usado em investigações de lavagem, mas não substitui a comprovação da origem criminosa do dinheiro.
Entre Investimentos foi principal fonte de recursos no período
O levantamento policial relaciona a Entre Investimentos como a maior remetente identificada nas contas da ACX ITC durante os nove meses analisados.
O relatório consolidou os pagamentos da Entre Investimentos em aproximadamente R$ 26 milhões. A soma das operações bancárias individualizadas elevou o total para R$ 28,16 milhões, com transferências que chegaram a superar R$ 5 milhões em um único mês.
A segunda maior pagadora foi a Supaluh Transportes e Serviços Empresariais, com R$ 11,7 milhões. Na sequência aparecem a Rinanileo Gestão e Consultoria, com R$ 9,3 milhões; a Alpha Capital, com R$ 3,4 milhões; e a JJV Intermediações e Cobranças, com R$ 2,8 milhões.
O fato de uma empresa realizar pagamentos para outra posteriormente investigada não comprova participação em crime. Para estabelecer eventual responsabilidade, as autoridades precisam identificar a natureza dos contratos, verificar se os serviços foram prestados e determinar se havia conhecimento ou intenção de ocultar recursos ilícitos.
Entre os documentos que podem esclarecer o fluxo estão notas fiscais, contratos, comprovantes de entrega, mensagens, registros contábeis e comunicações internas. Também deverá ser verificada a compatibilidade entre o objeto social da ACX ITC e os pagamentos recebidos.
A Polícia Civil procura saber se as transferências correspondiam a operações comerciais efetivas ou se foram usadas para criar aparência de legalidade para recursos posteriormente enviados a outras empresas e pessoas.
Grupo Entre afirma atuar dentro das normas
O Grupo Entre declarou que suas operações são realizadas em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro. A companhia afirmou ainda manter compromisso com integridade, transparência e cumprimento da legislação, além de se colocar à disposição das autoridades.
A manifestação, porém, não detalhou a natureza dos serviços que teriam justificado os pagamentos à ACX ITC nem informou quais contratos, produtos ou obrigações estavam relacionados aos R$ 28,16 milhões.
Esse esclarecimento será central para a investigação. Operações de grande valor entre empresas não são, por si mesmas, irregulares, mas precisam estar respaldadas por atividade econômica, documentação fiscal e finalidade compatível com o perfil das partes envolvidas.
A Entre Investimentos está registrada em nome do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior. O grupo atua em negócios relacionados a investimentos, crédito, tecnologia financeira e meios de pagamento.
A companhia e seus responsáveis têm direito à presunção de inocência e à ampla defesa. A ACX ITC e os demais investigados também podem apresentar documentos e explicações sobre as movimentações.
Não havia, até a divulgação do caso, informação sobre denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público especificamente contra a Entre Investimentos em razão desses repasses. A apuração está concentrada na reconstrução das operações e na identificação dos reais controladores da ACX ITC.
Caso chegou à Polícia Federal por cruzamento com outras apurações
A Polícia Civil enviou o material da Operação Saturno à Polícia Federal depois de identificar conexões com pessoas e empresas que aparecem em investigações de alcance nacional.
A federalização do material permite cruzar os extratos da ACX ITC com informações obtidas em outras operações, inclusive dados bancários, societários e fiscais relacionados ao Banco Master e a empresas que mantiveram negócios com o conglomerado.
O encaminhamento não significa que todos os envolvidos tenham praticado os mesmos atos ou participado de uma única organização. Em investigações financeiras, uma empresa pode aparecer em diferentes fluxos sem que todas as transações tenham a mesma origem ou finalidade.
A atribuição da Polícia Federal será verificar se há crimes sob competência federal, movimentações interestaduais ou internacionais, delitos contra o sistema financeiro e conexões com inquéritos já instaurados.
A Polícia Civil, por sua vez, apurou inicialmente a hipótese de lavagem de recursos provenientes do tráfico de drogas. A investigação busca identificar a rede de contas usada para receber, fracionar, transferir e reinserir valores no circuito formal.
O modelo é recorrente em esquemas de lavagem: companhias aparentemente regulares emitem documentos, recebem transferências e pulverizam o dinheiro entre diversas pessoas jurídicas. A comprovação penal, contudo, exige demonstrar que os envolvidos conheciam a origem ilícita e atuaram para ocultá-la ou dissimulá-la.
Entre Investimentos também aparece no financiamento de “Dark Horse”
A Entre Investimentos ganhou projeção nacional por sua participação no financiamento de “Dark Horse”, produção cinematográfica inspirada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Documentos e mensagens obtidos em outra frente de apuração apontam que recursos destinados ao projeto foram enviados pela Entre Investimentos para um fundo estabelecido nos Estados Unidos. O filme tornou-se objeto de questionamentos depois que vieram a público conversas envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Flávio Bolsonaro reconheceu ter participado de tratativas para viabilizar recursos privados para a produção e afirmou não haver ilegalidade no financiamento. Representantes do filme sustentam que os gastos foram documentados e que não houve utilização de dinheiro público.
O Grupo Entre afirma não possuir vínculo societário, de controle ou de governança com Daniel Vorcaro. A empresa sustenta que sua relação com os projetos foi de natureza comercial.
As transferências para a ACX ITC e os pagamentos relacionados a “Dark Horse” são fluxos distintos. A existência dos dois conjuntos de operações não comprova que o dinheiro enviado à empresa investigada tenha sido destinado ao filme ou que os recursos do projeto cinematográfico tenham passado pela ACX ITC.
A conexão relevante para as autoridades está na presença da Entre Investimentos em diferentes apurações financeiras. Caberá à Polícia Federal verificar se os episódios são independentes ou se compartilham fontes, operadores ou mecanismos de movimentação.
Investigação precisa identificar finalidade dos R$ 28 milhões
O principal ponto ainda sem resposta é a razão econômica dos 14 repasses. A Entre Investimentos poderá demonstrar a regularidade das operações mediante apresentação dos contratos, notas fiscais, comprovantes de prestação de serviços e registros contábeis correspondentes.
Caso os documentos sejam considerados compatíveis, a investigação ainda precisará verificar se os valores pagos foram mantidos pela ACX ITC ou rapidamente transferidos a terceiros.
A velocidade de circulação é um elemento relevante em análises de lavagem. Empresas usadas apenas como passagem costumam receber grandes quantias e repassá-las em curto prazo, sem acumular patrimônio, empregados ou atividade operacional proporcional.
Outro ponto é o preço dos serviços. Mesmo quando existe contrato formal, os investigadores podem avaliar se o valor cobrado é compatível com o mercado, se houve entrega efetiva e se os recursos seguiram para os prestadores declarados.
A apuração também poderá recorrer a informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, caso tenham sido produzidos relatórios de inteligência sobre transações consideradas atípicas.
Relatórios do Coaf não constituem prova de crime. Eles indicam operações que, por valor, frequência, partes envolvidas ou ausência de justificativa aparente, merecem análise pelas autoridades.
Caso reforça pressão sobre controles de prevenção à lavagem
O episódio amplia o debate sobre a capacidade de empresas financeiras, instituições de pagamento e grupos de investimento identificarem contrapartes de risco.
Procedimentos de prevenção à lavagem exigem conhecer os clientes e fornecedores, identificar beneficiários finais, monitorar operações fora do padrão e manter documentação capaz de demonstrar a finalidade dos pagamentos.
Esses controles são especialmente relevantes quando uma contraparte movimenta valores elevados sem estrutura operacional visível ou quando seu proprietário formal apresenta perfil econômico incompatível com a atividade.
A falha em identificar um risco não implica automaticamente participação no crime subjacente. A responsabilização depende das obrigações aplicáveis a cada empresa, do acesso às informações e da conduta de seus administradores diante dos sinais disponíveis.
Para o mercado, a investigação pode produzir efeitos reputacionais e contratuais antes mesmo de uma decisão judicial. Bancos, fundos, auditorias e parceiros tendem a revisar exposições quando uma companhia aparece em apurações de lavagem de dinheiro ou crime organizado.
Essa reação não substitui o devido processo legal. Os investigados mantêm o direito de apresentar sua versão, contestar as conclusões policiais e demonstrar a legitimidade das operações.
Operação Saturno avança para reconstruir beneficiários finais
Com o envio do material à Polícia Federal, a investigação entra em uma etapa de cruzamento mais amplo de dados. O objetivo será reconstruir o caminho do dinheiro antes de chegar à ACX ITC e depois de deixar suas contas.
A identificação dos beneficiários finais pode revelar se os R$ 918 milhões representam atividade empresarial verdadeira, intermediação de pagamentos ou circulação destinada a ocultar patrimônio.
No caso específico da Entre Investimentos, a apuração deverá esclarecer se os R$ 28,16 milhões foram pagos por serviços efetivamente prestados, se houve diligência sobre a contraparte e quem autorizou as transferências.
Também será necessário definir se a divergência entre o valor consolidado no relatório e a soma dos extratos decorre apenas de metodologia ou se há operações adicionais que precisam ser incorporadas formalmente ao inquérito.
Até que essas etapas sejam concluídas, não há base para afirmar que a Entre Investimentos integra o PCC ou que participou conscientemente de lavagem de dinheiro. O fato documentado é que a empresa foi a principal fonte de recursos da ACX ITC no período analisado e que a finalidade dos repasses está sob investigação.
O avanço do caso dependerá agora da obtenção de contratos, da análise das contas destinatárias e da eventual apresentação de denúncia pelo Ministério Público. Sem esses elementos, as movimentações permanecem como indícios financeiros que ainda precisam ser convertidos em prova sobre autoria, conhecimento e finalidade.








