A investigação sobre as operações do Banco Master com o Banco de Brasília (BRB) encontrou uma diferença bilionária entre a dimensão financeira atribuída a duas associações de servidores da Bahia e o volume de créditos que apareceu relacionado a elas durante a montagem das carteiras posteriormente negociadas pelo banco. Em 2025, a Associação dos Servidores Técnico-Administrativos e Afins do Estado da Bahia (Asteba) e a Associação dos Servidores da Saúde Afins da Administração Direta do Estado da Bahia (Asseba) reuniam 103.287 autorizações de desconto em contracheques de servidores estaduais, com uma carteira estimada pela apuração em cerca de R$ 1 bilhão. No circuito financeiro investigado, entretanto, as duas entidades chegaram a ser apontadas como origem de operações vinculadas a uma carteira de R$ 6,7 bilhões, diferença que passou a ser examinada pelo Banco Central, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal.
A comparação revela uma distância aproximada de R$ 5,7 bilhões entre os dois valores. Uma carteira de R$ 1 bilhão corresponde a cerca de 15% de R$ 6,7 bilhões, enquanto o montante maior equivale a 6,7 vezes a estimativa baseada nos descontos das associações. Esses números, contudo, não podem ser tratados como duas fotografias diretamente equivalentes: os R$ 6,7 bilhões aparecem na documentação da investigação relacionados às aquisições de carteiras da Tirreno pelo Master e ao registro contábil dessas obrigações, enquanto o R$ 1 bilhão é uma estimativa construída a partir da escala das autorizações de desconto existentes nas duas entidades baianas.
O contraste tornou-se mais relevante após a abertura de milhares de documentos que estavam sob sigilo no Supremo Tribunal Federal. Em 10 de setembro, o ministro André Mendonça retirou o sigilo da Petição 15.556 e de procedimentos relacionados, a pedido da Presidência do STF. O tribunal informou no dia seguinte que colocou à disposição 25,3 gigabytes de material, distribuídos por cerca de 4 mil arquivos, incluindo peças do Inquérito 5.026, no qual são examinadas as operações do Banco Master, do BRB e de empresas e pessoas relacionadas ao caso.
Autorizações em folha mostram escala muito menor das associações
O documento utilizado para dimensionar a atuação das duas entidades é um ofício da Secretaria da Administração do Estado da Bahia, datado de 31 de julho de 2025 e incorporado ao conjunto documental do inquérito. A Asteba possuía 52.176 autorizações de desconto em contracheques, enquanto a Asseba registrava 51.111, totalizando 103.287. A partir desses dados, a apuração trabalhou com uma estimativa de aproximadamente R$ 1 bilhão para o conjunto das carteiras, mesmo utilizando uma hipótese ampla de avaliação financeira das autorizações existentes.
O dado tornou-se especialmente relevante porque, em comunicação encaminhada ao Banco Central em março de 2025, o Banco Master apresentou as duas associações dentro da explicação sobre a origem de créditos posteriormente negociados no circuito financeiro que envolvia a Tirreno. A fiscalização passou a confrontar essa versão com o perfil das entidades, a quantidade de autorizações existentes e os fluxos financeiros encontrados. Também chamou a atenção dos investigadores o fato de os registros de servidores baianos não oferecerem, à primeira vista, uma explicação suficiente para uma estrutura envolvendo bilhões de reais em supostos créditos consignados.
Outro ponto analisado foi a natureza dos descontos. As informações da administração estadual indicavam vínculos relacionados a mensalidades e serviços associativos, e não necessariamente a empréstimos consignados de valor compatível com os bilhões apresentados no circuito de cessões. Além disso, a investigação identificou CPFs de pessoas de diferentes estados entre os contratos examinados, circunstância considerada incompatível com uma explicação baseada exclusivamente em entidades voltadas a servidores públicos da Bahia.
Os questionamentos acabaram provocando uma mudança na explicação apresentada sobre a origem das carteiras. Depois das cobranças do Banco Central, a Tirreno passou a aparecer como originadora direta dos créditos adquiridos pelo Master. A documentação examinada pela fiscalização registra que a empresa teria cedido ao banco, entre janeiro e junho de 2025, uma carteira de R$ 6,7 bilhões, cuja formalização documental ocorreria posteriormente. O Master, por sua vez, negociou créditos ligados a essa estrutura com o BRB por R$ 12,2 bilhões, incluindo um prêmio de aproximadamente R$ 5,5 bilhões.
A fiscalização encontrou novas inconsistências nessa segunda explicação. Em amostra envolvendo 30 supostos tomadores, não foi possível estabelecer correspondência entre os contratos apresentados e os fluxos financeiros que deveriam comprovar a concessão dos créditos. O resultado da amostragem não permite concluir, por si só, que todos os contratos da carteira eram inexistentes, mas foi utilizado como um dos elementos que levaram as autoridades a aprofundar a investigação sobre a existência e o lastro dos ativos.
Operações de R$ 12,2 bilhões passaram a ser investigadas
O Banco Central confirmou posteriormente ter identificado inconsistências nas cessões de carteiras realizadas entre o Master e o BRB e afirmou que sua área de supervisão promoveu investigações que apontaram a insubsistência de ativos integrantes das operações. A autoridade monetária também informou ter encaminhado documentação ao Ministério Público Federal e adotado medidas prudenciais para impedir novas operações com impacto sobre a liquidez do BRB.
O circuito investigado não se resume, portanto, aos R$ 6,7 bilhões. Os documentos descrevem a aquisição, pelo Master, de carteiras atribuídas à Tirreno e a posterior cessão de créditos ao BRB por aproximadamente R$ 12,2 bilhões entre janeiro e maio de 2025. A Polícia Federal investiga a suspeita de que parte dessas operações tenha utilizado ativos sem lastro ou créditos cuja existência econômica não conseguiu ser comprovada, mas a apuração ainda precisa individualizar responsabilidades e determinar o papel desempenhado por cada pessoa e entidade envolvida.
Essa diferença entre os valores ajuda a entender por que a investigação exige cuidado contábil. Os R$ 6,7 bilhões não devem ser apresentados simplesmente como dinheiro movimentado pelas duas associações baianas, porque a documentação os relaciona à carteira cedida pela Tirreno ao Master e registrada contabilmente pelo banco. Da mesma forma, os R$ 12,2 bilhões correspondem às operações posteriores envolvendo o BRB e incluem a valorização atribuída aos ativos no processo de cessão. A pergunta investigativa é como créditos inicialmente relacionados às associações chegaram a sustentar uma estrutura dessa dimensão e se existia lastro econômico correspondente.
Augusto Lima aparece em documentos ligados às duas entidades
A investigação também examina a relação de Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master, com Asteba e Asseba. Documentos fiscais de período anterior ao caso Master já registravam Lima como procurador das duas associações perante instituições financeiras. Acórdãos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais reproduzem procurações apresentadas pelo Bradesco que lhe concediam poderes amplos para representar as entidades, assinar documentos, receber valores, consultar saldos e extratos e praticar outros atos perante instituições financeiras.
Esses registros se referem a fatos examinados em procedimentos fiscais de anos anteriores e, isoladamente, não demonstram participação de Lima nas operações investigadas em 2025. Eles são relevantes como antecedente documental da relação existente entre o empresário e as entidades. A Polícia Federal também identificou nos cadastros das associações informações que coincidem com dados relacionados a empresas de Lima, incluindo referências ligadas à Terra Firme da Bahia.
A defesa do empresário contesta a interpretação dada a esses elementos. Lima sustenta que não possuía poderes para movimentar as contas das associações no período relacionado às operações do Master e afirma que uma procuração que lhe havia sido concedida para tratativas com o Bradesco foi revogada em janeiro de 2020. Também nega participação em fraudes e argumenta que houve erro na associação das entidades baianas aos créditos posteriormente vendidos ao BRB.
Os documentos diferenciam ainda a condição de procurador da ocupação dos cargos estatutários nas associações. A presidência formal da Asteba é atribuída a Nanci Maria Prates Pereira, enquanto Maria Helena Santos Ferreira aparece como presidente da Asseba. Até o momento, não existe decisão judicial definitiva estabelecendo responsabilidade criminal das dirigentes ou de Lima pelos fatos investigados no caso Master.
Pagamentos do Master às associações chegaram a R$ 8,2 milhões
Outro elemento incorporado ao caso são pagamentos realizados pelo Banco Master às duas entidades entre 2022 e 2025. Declarações fiscais entregues pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado no Senado indicam que a Asteba recebeu aproximadamente R$ 5,95 milhões da instituição, enquanto a Asseba recebeu cerca de R$ 2,3 milhões, levando o total para aproximadamente R$ 8,2 milhões.
Na Asteba, os registros mostram aproximadamente R$ 1,33 milhão em 2023, R$ 2,99 milhões em 2024 e R$ 1,63 milhão em 2025. Para a Asseba, aparecem cerca de R$ 533 mil em 2022, R$ 1,2 milhão em 2024 e R$ 553 mil em 2025, sem registro equivalente para 2023 nos dados divulgados. As informações fiscais indicam que os valores de 2025 estavam relacionados a aplicações financeiras de renda fixa das associações no Master, enquanto a natureza de parte dos pagamentos dos anos anteriores não aparece detalhada da mesma forma.
Os R$ 8,2 milhões não constituem, isoladamente, evidência de participação das associações na suposta fabricação de créditos investigada pela Polícia Federal. A existência de relações financeiras entre as entidades e o banco comprova que havia operações entre eles, mas não determina automaticamente a natureza ou a legitimidade das carteiras de bilhões de reais posteriormente negociadas. É justamente essa ligação documental e financeira que os investigadores procuram reconstruir.
Investigação tenta estabelecer quem originou os créditos
A abertura dos documentos do STF ampliou a possibilidade de reconstruir a cronologia das operações e tornou mais clara a sucessão de versões apresentadas sobre a origem dos ativos. Primeiro, Asteba e Asseba apareceram relacionadas à explicação sobre os créditos. Depois dos questionamentos do Banco Central, a Tirreno passou a ocupar o centro da estrutura de originação, enquanto a fiscalização continuou apontando ausência de documentação e de fluxos financeiros compatíveis com o tamanho das carteiras.
O caso permanece em fase investigativa, e essa condição é essencial para interpretar os números. A diferença entre aproximadamente R$ 1 bilhão em carteira estimada das associações e uma operação de R$ 6,7 bilhões constitui um elemento objetivo de contraste que levou as autoridades a aprofundar as diligências, mas não resolve sozinha quem produziu os contratos, quem conhecia as eventuais inconsistências ou qual responsabilidade cabe a cada envolvido.
A questão central agora é estabelecer a cadeia completa de originação, aquisição e cessão dos créditos: quem criou cada contrato, qual operação financeira deu origem ao recebível, como o ativo chegou à Tirreno, por que o Master o adquiriu e em que bases ele foi posteriormente transferido ao BRB. A resposta a essas perguntas deverá determinar se os nomes das associações baianas refletiam uma relação econômica verdadeira com os créditos ou se foram utilizados em uma estrutura documental cuja dimensão não encontrava correspondência nos descontos efetivamente existentes entre servidores do Estado.
Fontes:
Supremo Tribunal Federal – Petição 15.556, Inquérito 5.026 e documentos públicos disponibilizados após o levantamento do sigilo em setembro de 2026
Banco Central do Brasil – informações da supervisão sobre inconsistências e insubsistência de ativos nas cessões de carteiras entre Banco Master e BRB
Secretaria da Administração do Estado da Bahia – Ofício SEAB/GAB nº 6091/2025 com dados das autorizações de desconto vinculadas à Asteba e à Asseba
Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – Acórdãos 1101-001.968 e 1301-007.867 com registros sobre procurações, contas bancárias e relações cadastrais das associações
Senado Federal – documentos da CPI do Crime Organizado sobre carteiras de crédito relacionadas ao Banco Master, Tirreno, Asteba e Asseba
Receita Federal – declarações fiscais utilizadas na CPI para identificação dos pagamentos realizados pelo Banco Master às associações










