A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) (CSNA3) iniciou uma nova etapa de sua gestão sob Fabio Schvartsman com uma tarefa financeira de grande dimensão: reduzir uma dÃvida lÃquida de R$ 42,1 bilhões sem comprometer os negócios que sustentam a geração de caixa do grupo. O executivo assumiu a presidência em 3 de setembro, enquanto Benjamin Steinbruch passou à presidência do Conselho de Administração, após mais de duas décadas à frente da operação.
O problema chega ao novo comando depois de uma melhora operacional no segundo trimestre, mas ainda com forte pressão financeira. Entre abril e junho, a CSN registrou Ebitda ajustado de R$ 2,77 bilhões, alta de 5% sobre o trimestre anterior e sobre o mesmo perÃodo de 2025, enquanto o prejuÃzo lÃquido foi de R$ 773,1 milhões. A companhia também gerou fluxo de caixa livre positivo de R$ 808,1 milhões no perÃodo, resultado que representou uma reversão em relação ao histórico recente.
A melhora operacional, porém, não impediu a deterioração do indicador de endividamento. A dÃvida lÃquida consolidada chegou a R$ 42,14 bilhões em 30 de junho, com alavancagem de 3,49 vezes a relação entre dÃvida lÃquida e Ebitda. No primeiro trimestre, a dÃvida lÃquida ajustada estava em torno de R$ 35,7 bilhões, segundo os dados divulgados na sequência do balanço, o que representa uma elevação de aproximadamente R$ 6,4 bilhões, ou 18%, em uma comparação trimestral.
A saÃda desenhada pela companhia passa por um programa de desinvestimentos com potencial de levantar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões. A estratégia inclui a venda integral da CSN Cimentos, a alienação de uma participação em ativos de infraestrutura e iniciativas relacionadas a outros negócios. A venda da unidade de cimento já chegou à etapa de propostas vinculantes e, em 10 de agosto, a CSN informou que estava analisando as ofertas recebidas.
Venda da CSN Cimentos concentra a maior parcela do plano
A CSN Cimentos se tornou o principal ativo em processo de alienação porque combina escala, geração de caixa e capacidade de produzir uma entrada relevante de recursos. No segundo trimestre, o segmento registrou Ebitda ajustado recorde de R$ 426,9 milhões, com margem de 30,8%. O desempenho coloca a unidade entre as operações mais rentáveis do grupo justamente no momento em que a holding busca reduzir o passivo financeiro.
A companhia confirmou em agosto o recebimento de propostas vinculantes para a venda de 100% da subsidiária, sem divulgar os nomes dos interessados nem os valores ofertados. Informações de mercado apontaram a participação da chinesa Huaxin, de um consórcio formado por Votorantim Cimentos e Cementir e da brasileira Polimix. A própria CSN mantém restrições à divulgação dos participantes em razão dos acordos de confidencialidade do processo.
A trajetória do ativo mostra, porém, que preço e prazo são determinantes. Em abril, quando o processo ainda estava em fase não vinculante, a CSN esclareceu à B3 que não havia divulgado um valor de referência isolado para a cimenteira e que os números publicados na imprensa correspondiam a estimativas de fontes de mercado. Naquele momento, a companhia informava que o projeto fazia parte de uma alienação estruturada destinada a equacionar sua estrutura de capital.
A diferença entre o valor estimado para o ativo e o montante necessário para reequilibrar o balanço explica por que a venda de cimento, sozinha, não resolve o problema financeiro. Tomando como referência a dÃvida lÃquida de R$ 42,14 bilhões, um ingresso de R$ 15 bilhões equivaleria a cerca de 35,6% do passivo lÃquido; R$ 18 bilhões representariam aproximadamente 42,7%. Esse cálculo é apenas uma fotografia estática, porque o saldo efetivamente reduzido dependerá de impostos, custos das transações, destinação dos recursos e evolução da dÃvida até o fechamento.
Há ainda uma segunda questão: a venda elimina uma operação que vinha apresentando crescimento operacional. No segundo trimestre, a CSN Cimentos ampliou seu Ebitda enquanto a margem superou 30%. Na prática, a companhia troca parte de uma capacidade recorrente de geração de caixa por uma entrada extraordinária de recursos, que terá de produzir uma redução de juros e endividamento suficiente para compensar a perda futura desse resultado.
DÃvida exige mais do que uma venda bilionária
A matemática do plano também ajuda a dimensionar o desafio de Schvartsman. Com uma dÃvida lÃquida de R$ 42,14 bilhões e alavancagem de 3,49 vezes, o Ebitda de referência para o indicador fica próximo de R$ 12,1 bilhões em uma conta reversa. Mantido esse resultado operacional e supondo, apenas para fins de comparação, que todo o valor obtido no programa de desinvestimentos fosse destinado à redução da dÃvida, um abatimento de R$ 15 bilhões levaria a relação para cerca de 2,25 vezes; com R$ 18 bilhões, para aproximadamente 2 vezes.
O exercÃcio não representa uma projeção da companhia. Ele mostra que, mesmo no cenário matemático mais simples, a venda dos ativos reduziria de forma relevante a alavancagem, mas não eliminaria o endividamento. Além disso, a relação dÃvida/Ebitda pode mudar por fatores como câmbio, preços do aço e do minério, custos operacionais, investimentos e novos movimentos de capital.
O comportamento do segundo trimestre ilustra essa sensibilidade. A dÃvida lÃquida aumentou apesar do fluxo de caixa livre positivo de R$ 808,1 milhões. Segundo os documentos da companhia, pesaram no perÃodo a amortização de contratos de pré-pagamento de minério, efeitos da variação cambial sobre a dÃvida em moeda estrangeira e um aporte de quase R$ 500 milhões na Transnordestina.
A CSN vinha trabalhando também na administração do perfil de vencimentos. Em abril, contratou um empréstimo-ponte de US$ 1,2 bilhão, com possibilidade de ampliação para US$ 1,4 bilhão, prazo de cinco anos e garantia envolvendo, entre outros ativos, a operação de cimentos. Em julho, a companhia anunciou ainda uma oferta de troca destinada a postergar por dois anos o vencimento de US$ 1,3 bilhão em Notes originalmente previsto para 2028.
Essas operações dão maior prazo para a companhia executar o programa de venda de ativos, mas não substituem a desalavancagem. O próprio movimento de financiamento revela que a CSN está administrando simultaneamente liquidez, vencimentos e venda de ativos.
Siderurgia continua exposta ao preço do aço
A outra frente da estratégia de Schvartsman está dentro da própria operação siderúrgica. A divisão continua sendo o negócio central que dá identidade à companhia, mas enfrenta pressão de custos, competição internacional e oscilações nos preços do aço.
No segundo trimestre, a siderurgia apresentou Ebitda ajustado de R$ 636,3 milhões e margem de 10,5%. O resultado foi favorecido pelo aumento de volumes e por melhora dos preços no mercado interno e externo, em parte após medidas de defesa comercial contra importações.
A polÃtica comercial brasileira, entretanto, não funciona como uma barreira uniforme contra produtos siderúrgicos chineses. O governo mantém medidas antidumping e outras ações especÃficas para diferentes produtos, enquanto novas investigações continuam sendo abertas. Em setembro, por exemplo, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços registrou a abertura de investigação sobre possÃveis práticas de dumping nas importações de cilindros de aço de alta pressão provenientes da China.
Isso significa que a melhora de margens da CSN dependerá tanto do ambiente de preços e volumes quanto da abrangência e efetividade das medidas aplicáveis aos produtos comercializados pela companhia. O desempenho não pode ser atribuÃdo exclusivamente ao comércio exterior.
Para o novo presidente, a siderurgia também impõe uma decisão de alocação de capital. O programa original de desinvestimentos foi apresentado com foco em reduzir a dÃvida e liberar espaço financeiro para os negócios considerados estratégicos. A mineração, por sua vez, permanece central à estratégia de expansão do grupo e não está no núcleo das vendas anunciadas para desalavancagem.
Troca de comando muda o foco sobre execução
Schvartsman assumiu oficialmente em 3 de setembro, enquanto Steinbruch passou ao comando do Conselho de Administração. A mudança encerra uma fase iniciada em 2002 na presidência executiva da CSN e desloca para a nova administração a responsabilidade pela execução de um plano que já estava aprovado antes da troca de comando.
Isso reduz o espaço para tratar a nova gestão apenas como uma promessa de mudança estratégica. As principais iniciativas financeiras já estavam em andamento antes da posse: a venda da CSN Cimentos avançou para propostas vinculantes, o processo de infraestrutura estava em estruturação e a companhia havia contratado mecanismos para alongar o perfil da dÃvida.
O teste para a administração passa, portanto, por transformar essas iniciativas em redução efetiva do endividamento. O valor final das operações, o cronograma de recebimento, a destinação dos recursos e a manutenção da geração operacional de caixa serão determinantes para a evolução das métricas financeiras.
A reação do mercado à s mudanças de comando incorporou parte dessa expectativa. Em setembro, o BTG Pactual passou a tratar CSNA3 como uma oportunidade tática, com preço-alvo de R$ 10, mas manteve recomendação oficial neutra, condicionando uma visão mais estrutural a avanços concretos em desalavancagem e geração de caixa. A XP também apontou, após o balanço do segundo trimestre, que a dÃvida ainda elevada e o fluxo de caixa pressionado mantinham a execução dos desinvestimentos como elemento central da tese sobre a companhia.
O próximo marco operacional já está definido no calendário corporativo: a CSN prevê divulgar os resultados do terceiro trimestre em 10 de novembro de 2026. Até lá, o mercado terá como principais indicadores o avanço das negociações dos ativos, o nÃvel de dÃvida, a geração de caixa e o comportamento das margens nos negócios que permanecerem no grupo.
Para a companhia, a questão central deixou de ser apenas quanto pode levantar com a venda de ativos. A execução terá de conciliar redução de dÃvida com preservação de geração de caixa, enquanto a siderurgia permanece sujeita ao ciclo do aço e o grupo mantém investimentos relevantes em mineração, logÃstica e infraestrutura. O desempenho dessa combinação determinará quanto da melhora operacional observada no segundo trimestre poderá efetivamente se transformar em uma estrutura de capital menos pressionada.
Fontes:
CSN Relações com Investidores – composição da diretoria, mudança de comando e nomeação de Fabio Schvartsman
CSN Relações com Investidores – resultados do segundo trimestre de 2026, dÃvida lÃquida, Ebitda, fluxo de caixa e desempenho dos segmentos
CSN – fato relevante sobre o recebimento de propostas vinculantes para a venda da CSN Cimentos
CSN – fato relevante sobre o empréstimo-ponte de US$ 1,2 bilhão e estrutura de garantias
CVM e B3 – comunicado da CSN sobre o processo de alienação de ativos e esclarecimentos sobre a CSN Cimentos
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – medidas de defesa comercial e investigações envolvendo produtos siderúrgicos
XP Investimentos – análise dos resultados da CSN no segundo trimestre de 2026 e evolução da dÃvida lÃquida
BTG Pactual – análise sobre CSN e efeitos esperados da troca de comando na desalavancagem
Santander Credit Research – análise do perfil de endividamento, vencimentos e plano de desinvestimentos da CSN








