terça-feira, 3 de novembro de 2026
contato@gazetamercantil.com
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
Home Economia

Fiscalização de Fundos de Investimento: Haddad Quer BC no Comando após Fraude

por Álvaro Lima
19/01/2026 às 14h41
em Economia
Fiscalização De Fundos De Investimento: Haddad Quer Bc No Comando Após Fraude - Gazeta Mercantil

Governo Propõe Mudança Histórica na Fiscalização de Fundos de Investimento para o Banco Central

O cenário regulatório do mercado financeiro brasileiro está prestes a sofrer uma de suas alterações mais tectônicas das últimas décadas. Em um movimento que visa blindar o sistema contra riscos sistêmicos e fraudes complexas, o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, confirmou nesta segunda-feira (19) a intenção do governo federal de transferir a fiscalização de fundos de investimento da alçada da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para o Banco Central (BC).

A proposta, que amplia significativamente o perímetro regulatório da autoridade monetária, surge como resposta direta às vulnerabilidades expostas pela liquidação extrajudicial do Banco Master e pelas investigações da Polícia Federal na Operação Compliance Zero. Este dossiê analisa as implicações dessa mudança, o contexto da fraude que acendeu o alerta em Brasília e o impacto no mercado de capitais.

Leia também: Investimento Direto no País (IDP) em 2024: Menor Entrada em Maio, Mas Crescimento Acumulado.

O Novo Perímetro Regulatório: BC no Comando dos Fundos

A declaração de Fernando Haddad joga luz sobre uma discussão técnica que vinha ocorrendo nos bastidores da equipe econômica e da diretoria do Banco Central. A tese central é que a atual estrutura de fiscalização de fundos de investimento, hoje sob responsabilidade primária da CVM, criou zonas cinzentas que permitem a arbitragem regulatória — prática onde instituições utilizam brechas entre diferentes reguladores para alavancar operações de risco ou ocultar passivos.

Segundo o ministro, existe hoje uma intersecção perigosa entre a indústria de fundos e o sistema bancário tradicional. Tem muita coisa que deveria estar no âmbito do Banco Central e que está no âmbito da CVM, na minha opinião, equivocadamente”, afirmou Haddad. A proposta visa conceder ao BC o poder de polícia sobre os fundos, permitindo que a autarquia monitore a liquidez e a solvência desses veículos com a mesma lupa que utiliza para fiscalizar bancos comerciais e de investimento.

A mudança na fiscalização de fundos de investimento não é apenas uma troca de cadeiras burocrática; é uma alteração filosófica na regulação. Enquanto a CVM foca historicamente na conduta e na transparência das informações (proteção do investidor), o Banco Central possui um viés prudencial, focado na solidez e na prevenção de riscos que possam contaminar o sistema financeiro nacional.

O Estopim: Banco Master e a Operação Compliance Zero

Para entender a urgência dessa medida, é necessário dissecar o caso que serviu de catalisador: o colapso do Banco Master e as operações da Reag Investimentos. Na última semana, a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Compliance Zero, desmantelando um esquema sofisticado de fraudes contábeis e financeiras.

O modus operandi identificado pelas autoridades revelou como a fragilidade na fiscalização de fundos de investimento foi explorada. Segundo as investigações, o Banco Master utilizava fundos geridos pela Reag Investimentos para mascarar prejuízos e inflar artificialmente seus balanços. Esses fundos compravam ativos podres ou superavaliados do banco, limpando o balanço da instituição financeira enquanto o risco era transferido para os cotistas e, em última instância, para o sistema.

O Banco Central agiu com celeridade ao decretar a liquidação extrajudicial do Master na quinta-feira (15), um dia após a operação da PF. Contudo, o episódio deixou claro para a equipe econômica que o BC precisa ter acesso direto e poder de intervenção na fiscalização de fundos de investimento antes que a fraude bancária se consolide através do mercado de capitais.

A “Bancarização” dos Fundos e o Shadow Banking

O argumento técnico de Haddad baseia-se no fenômeno conhecido globalmente como Shadow Banking (sistema bancário sombra). No Brasil, muitos fundos de investimento deixaram de ser meros veículos de alocação de poupança para atuar como quase-bancos, concedendo crédito estruturado (via FIDCs, por exemplo) e assumindo riscos de liquidez semelhantes aos das instituições bancárias.

Quando a fiscalização de fundos de investimento está restrita à CVM, o Banco Central perde a visibilidade sobre uma parcela gigantesca do crédito nacional. Haddad destacou que essa dinâmica tem impacto até mesmo sobre a contabilidade pública e as estatísticas de crédito do país. Ao trazer a regulação para o BC, o governo pretende fechar o cerco contra operações que simulam a atividade bancária sem se submeterem às exigências de capital e compulsório que os bancos enfrentam.

Essa migração de competência alinharia o Brasil a práticas observadas em outras jurisdições após a crise financeira de 2008, onde os bancos centrais assumiram um papel macroprudencial mais assertivo sobre todos os agentes que movimentam crédito e liquidez, independentemente de serem bancos ou gestoras de recursos.

Gabriel Galípolo e a Articulação Política

A proposta de alteração na fiscalização de fundos de investimento conta com o aval e a participação ativa do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. A sintonia entre a Fazenda e a autoridade monetária é crucial para viabilizar a mudança legislativa necessária.

Segundo Haddad, as discussões envolvem também o Ministério da Gestão e Inovação e a Advocacia-Geral da União (AGU). O objetivo é desenhar um arcabouço jurídico robusto que evite contestações judiciais por parte das gestoras ou conflitos de competência com a própria CVM. A ideia é que a regulação prudencial (análise de risco e solvência) migre para o BC, enquanto a CVM manteria a regulação de conduta (relações com investidores e disclosure de informações).

Historicamente, o BC já havia sinalizado o desejo de ampliar seu perímetro. Reportagens anteriores do Grupo Estado indicavam que a autarquia via na PEC 65 — que trata da autonomia orçamentária do BC — uma janela de oportunidade para incluir a fiscalização de fundos de investimento sob seu guarda-chuva, consolidando a supervisão de todo o mercado de crédito e capitais sob uma lógica prudencial.

Impactos no Mercado de Capitais Brasileiro

A indústria de fundos de investimento no Brasil é uma das maiores do mundo, com trilhões de reais sob gestão. A transferência da fiscalização de fundos de investimento para o Banco Central deve gerar ondas de choque na Faria Lima e no Leblon.

1. Rigor Prudencial

Gestoras independentes, acostumadas com o modelo de supervisão da CVM, podem enfrentar um choque de cultura regulatória. O BC é conhecido por sua abordagem conservadora e exigente quanto a requerimentos de capital e liquidez. Fundos que operam com alta alavancagem ou ativos ilíquidos (como crédito privado high yield) podem passar por um escrutínio muito mais severo.

2. Custos de Observância

A adaptação às novas normas do BC certamente elevará os custos de conformidade (compliance) para as assets. A fiscalização de fundos de investimento pelo BC exigirá reportes mais frequentes, sistemas de controle de risco mais robustos e, possivelmente, a manutenção de patrimônio líquido mínimo mais elevado para as administradoras e gestoras.

3. Consolidação do Setor

O aumento da barreira regulatória pode acelerar a consolidação da indústria. Gestoras menores, incapazes de arcar com os custos da nova fiscalização de fundos de investimento, podem ser absorvidas por grandes conglomerados financeiros ou forçadas a encerrar atividades, reduzindo o número de players independentes no mercado.

CVM vs. Banco Central: O Dilema das Competências

A proposta levanta questões delicadas sobre o papel da Comissão de Valores Mobiliários. Esvaziar a competência da CVM sobre a fiscalização de fundos de investimento pode enfraquecer o órgão regulador do mercado de capitais justamente em um momento de expansão da bolsa e dos investimentos alternativos.

Críticos da medida argumentam que a CVM possui a expertise técnica específica para lidar com a dinâmica de mercado, que difere substancialmente da dinâmica bancária. Transformar fundos em “bancos regulados” poderia engessar a inovação financeira e reduzir a rentabilidade para os investidores.

Por outro lado, os defensores da medida, incluindo Haddad e Galípolo, sustentam que a segurança sistêmica deve prevalecer. O caso Banco Master provou que a separação estanque entre “banco” e “fundo” é, na prática, uma ficção contábil utilizada para fraudes. Uma fiscalização de fundos de investimento unificada sob a ótica prudencial do BC eliminaria os pontos cegos onde essas fraudes prosperam.

O Caminho Legislativo e a PEC 65

A implementação dessa mudança não será feita por decreto simples. Ela exige alterações na legislação que rege o Sistema Financeiro Nacional. A estratégia do governo parece ser acoplar essa reforma à tramitação da PEC 65 no Congresso Nacional.

A PEC 65, que visa dar autonomia financeira ao BC, transformando-o em empresa pública de natureza especial, é o veículo ideal para redefinir as atribuições da autarquia. Ao incluir a fiscalização de fundos de investimento no texto constitucional ou em leis complementares derivadas, o governo blinda a medida juridicamente.

O apoio político será fundamental. O setor financeiro possui forte lobby no Congresso e a reação das associações de classe (como a Anbima) será determinante para o desenho final da proposta. O governo terá que convencer os parlamentares de que a medida é essencial para evitar novos casos como o do Banco Master e proteger a poupança popular.

Um Novo Paradigma de Segurança

A proposta de Fernando Haddad para ampliar o poder do Banco Central sobre a fiscalização de fundos de investimento marca o fim da inocência regulatória no Brasil. O reconhecimento de que fundos podem ser vetores de risco sistêmico e instrumentos de fraude bancária exige uma resposta à altura.

Se concretizada, a medida transformará o Banco Central em um “super-regulador”, com poderes inéditos sobre toda a cadeia de valor financeiro. Para o investidor, isso pode significar maior segurança e menor risco de ver seu patrimônio virar pó em fraudes contábeis. Para o mercado, significa o fim da arbitragem regulatória e o início de uma era de supervisão prudencial estrita.

O caso Master/Reag foi o alerta doloroso de que o modelo atual exauriu sua capacidade de prevenção. A nova fiscalização de fundos de investimento pelo Banco Central é a tentativa do Estado de garantir que, no complexo xadrez financeiro do século XXI, o regulador não esteja sempre um passo atrás dos fraudadores. Resta saber se o mercado e o Congresso comprarão a tese de que mais poder ao BC é o remédio amargo necessário para a saúde do sistema.

LEIA MAIS

Ibaneis E Vorcaro - Gazeta Mercantil
Política

Gabriel Magno pede prisão de Ibaneis e aponta ligação com Vorcaro no caso BRB

Gabriel Magno pede prisão preventiva de Ibaneis Rocha e apuração sobre sua relação com Vorcaro no caso BRB e Banco Master. Ex-governador nega interferência.

Leia MaisDetails
Daniel Vorcaro - Gzt - Gazeta Mercantil
Economia

Ex-sócio contradiz Vorcaro e relata ordens sobre consignados no Banco Master

Ex-sócio Augusto Lima contradiz Daniel Vorcaro e afirma à PF que fundador do Banco Master comandava operações de crédito consignado e orientava executivos.

Leia MaisDetails
Daniel Vorcaro - Gazeta Mercantil
Política

Peritos federais dizem que laudo da defesa de Vorcaro não comprova adulteração de celular

Peritos federais afirmam que laudo da defesa de Daniel Vorcaro não comprova adulteração do celular apreendido pela PF. Entenda a disputa sobre as provas.

Leia MaisDetails
Brb Vende R$ 10 Bilhões Em Ativos Desde Crise Do Master E Btg Compra Mais Da Metade-Gazeta Mercantil
Economia

Vorcaro atribui crise do BRB (BSLI3) à operação da PF e cita saques de R$ 9 bilhões

Daniel Vorcaro atribui crise do BRB à investigação da PF e cita saques de R$ 9 bilhões. Banco estima necessidade de R$ 8,8 bilhões para recompor capital.

Leia MaisDetails
Caso Master-Brb: Veja A Íntegra Do Depoimento De Daniel Vorcaro À Pf
Política

Defesa de Vorcaro aponta alterações em 657 arquivos de celular e questiona provas da PF

Defesa de Daniel Vorcaro aponta alterações em 657 arquivos de celular apreendido pela PF e pede ao STF acesso aos dados originais da investigação.

Leia MaisDetails

GAZETA MERCANTIL ENCERRADO

06:48:57
IBOV

IBOVESPA

B3
Consultando... buscando última cotação
$

DÓLAR

USD/BRL
Consultando... buscando última cotação
€

EURO

EUR/BRL
Consultando... buscando última cotação
₿

BITCOIN

BRL
Consultando... buscando última cotação
Gazeta Mercantil · dados de mercado
Sênior Sistemas Sênior Sistemas Sênior Sistemas
PUBLICIDADE

Veja Também

Admin Ajax 2025 12 11T094346.625 (1)
Economia

Nota fiscal do Simples Nacional mudou: veja 4 passos para emitir NFS-e no novo sistema

Leia MaisDetails
Telemarketing - Gazeta Mercantil
Economia

SAC terá atendimento humano obrigatório a partir de hoje; veja as novas regras

Leia MaisDetails
Bitcoin (Btc) E Criptomoedas (Imagem: Canva Pro)
Criptomoedas

Binance registra saída de US$ 4,72 bilhões após ataque hacker de US$ 6,3 bilhões

Leia MaisDetails
Embraer (Embj3) Salta Quase 8% E Lidera Ibovespa Com Expectativa De Novos Contratos-Gazeta Mercantil
Empresas

Embraer (EMBJ3) fecha acordo para até seis aviões KC-390 à Grécia; contrato inicial soma € 590 milhões

Leia MaisDetails
Ouro Hoje - Gzt - Gazeta Mercantil
Mercados

Ouro sobe quase 2% com queda do petróleo e fecha a US$ 3.969,60

Leia MaisDetails

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco
Gazeta Mercantil Logo White

contato@gazetamercantil.com

Gazeta Mercantil — marca jornalística fundada em 1920, com continuidade editorial contemporânea no ambiente digital por meio do domínio oficial gazetamercantil.com.

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

Veja Também:

Nota fiscal do Simples Nacional mudou: veja 4 passos para emitir NFS-e no novo sistema

SAC terá atendimento humano obrigatório a partir de hoje; veja as novas regras

Binance registra saída de US$ 4,72 bilhões após ataque hacker de US$ 6,3 bilhões

Embraer (EMBJ3) fecha acordo para até seis aviões KC-390 à Grécia; contrato inicial soma € 590 milhões

Ouro sobe quase 2% com queda do petróleo e fecha a US$ 3.969,60

Hackers atacam supermercados na Europa e elevam temperatura de freezers a 50°C

  • Anuncie Conosco
  • Política de Correções
  • Política Editorial
  • Política de Privacidade
  • Termos de Uso
  • Sobre a Gazeta Mercantil
  • Expediente
  • Política de Conflitos de Interesse

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

Últimas notícias da Gazeta Mercantil