BRASÍLIA – O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, reagiu nesta quarta-feira (1º de julho de 2026) à repercussão de publicação feita por Michelle Bolsonaro nas redes sociais e classificou a ex-primeira-dama como “completamente desinformada” por compartilhar conteúdo que, na sua avaliação, insinua sua participação em uma suposta festa sexual organizada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e alvo da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. A fala, proferida durante encontro com lideranças femininas no Rio de Janeiro, foi registrada e divulgada por aliadas do parlamentar e representa mais um capítulo da crise aberta dentro da família Bolsonaro e do próprio bolsonarismo, que se desdobra em público há semanas e começa a interferir diretamente na estratégia da pré-candidatura presidencial.
A polêmica começou na segunda-feira (29), quando Michelle repostou em suas contas oficiais um vídeo no qual o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho comenta a chamada “noite das astronautas”, evento que, segundo boatos que circulam nos meios políticos e judiciários, teria sido organizado por Vorcaro com a presença de autoridades, empresários e personalidades públicas. No material, Garotinho cita o nome de Flávio Bolsonaro
como um dos supostos participantes, mas admite explicitamente que não verificou a autenticidade das informações nem tem acesso ao vídeo que supostamente registraria o encontro. Mesmo assim, a publicação da ex-primeira-dama alcançou milhões de visualizações em menos de 48 horas e ganhou contornos de ataque político interno, vindo justamente de quem até pouco tempo atrás era vista como a principal liderança feminina do movimento bolsonarista.
“Quando ela pega um vídeo do Garotinho — e quem é do Rio conhece bem o Garotinho — bota na rede social dela, insinuando que eu posso estar na festa do Vorcaro, ela está completamente desinformada. Eu quero garantir a todas vocês aqui: não há nada de verdade nessa história. A única relação que eu tenho com o Vorcaro é sobre o filme do meu pai, nada mais”, afirmou Flávio diante de cerca de 200 mulheres, em tom de defesa, mas também de recado direto à madrasta. A frase foi repetida em diferentes versões por aliados do senador ao longo do dia, numa estratégia clara de desmentir a acusação antes que ela se consolide no noticiário e na opinião pública.
Vídeo sem provas detonou nova rodada de crise
O conteúdo que serviu de estopim para o novo confronto não traz qualquer imagem, áudio ou documento que prove a realização da festa ou a presença de qualquer pessoa citada. Em sua fala, o próprio Garotinho deixa claro que apenas repete informações que chegaram a ele por terceiros, sem checagem, e que não tem condições de atestar sua veracidade. Ainda assim, para Flávio e seus auxiliares, o fato de Michelle ter compartilhado o material sem qualquer filtro ou ressalva é a prova de que a ex-primeira-dama não domina os fatos e acaba servindo, mesmo que sem querer, para alimentar narrativas que beneficiam apenas os adversários políticos do grupo.
Para analistas políticos ouvidos pela reportagem da
Gazeta Mercantil, o agravante não é o conteúdo em si — que até agora não passa de boato —, mas quem o compartilhou. Michelle Bolsonaro tem cerca de 30 milhões de seguidores nas redes sociais, índice de aprovação superior ao do próprio ex-presidente Jair Bolsonaro em alguns levantamentos e, até o início do ano, era cotada por muitos dentro do partido como uma possível candidata a vice na chapa de Flávio, ou até mesmo a titular, caso o pai não pudesse concorrer por alguma decisão judicial. A troca de acusações públicas, agora com direito a acusações de desinformação, acabou com qualquer chance de aliança eleitoral entre os dois e transformou a pré-campanha do PL numa disputa interna antes mesmo que a convenção partidária oficialize qualquer nome.
Nos bastidores, aliados de Flávio chegam a insinuar que a publicação foi deliberada, com o objetivo de desgastar o senador na corrida presidencial — versão negada por auxiliares de Michelle, que afirmam à imprensa que a ex-primeira-dama apenas repassou um conteúdo que já estava circulando, sem qualquer intenção de atacar o enteado. Para o grupo do senador, porém, a desculpa não cola: “Ela sabe exatamente o que faz. Colocar um vídeo desse, de um personagem como o Garotinho, sabendo o que ele diz, não é inocência. É desinformação, como o próprio Flávio disse”, afirmou um dos principais estrategistas da campanha, em conversa reservada.
Vínculo com Vorcaro se limitaria ao projeto do filme
O ponto central da defesa de Flávio Bolsonaro, repetido em todas as suas falas desde que o nome de Daniel Vorcaro voltou ao centro das atenções com o avanço da Operação Compliance Zero, é o de que qualquer contato com o banqueiro tem como único objetivo a produção do longa-metragem Dark Horse, que contará a trajetória de Jair Bolsonaro e deve estrear em setembro deste ano, em plena campanha eleitoral. Como já foi noticiado, Vorcaro é apontado como o principal financiador da produção, com valores que chegam a dezenas de milhões de reais, e o próprio PT já protocolou pedidos de investigação na Polícia Federal, no Supremo Tribunal Federal e no Ministério Público Eleitoral para apurar se há desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro ou uso indevido da obra com finalidade eleitoral.
Flávio admite ter se encontrado com o banqueiro diversas vezes nos últimos 18 meses, mas sempre na presença de advogados, produtores e contadores, para tratar exclusivamente de cronogramas, orçamento, escolha de elenco e liberação de verbas. “Todas as reuniões têm ata, tem registro, tudo dentro da legalidade. Não houve nenhum encontro social, nenhuma festa, nenhum evento fora do escopo do projeto. Quem diz o contrário está mentindo ou está desinformado, como é o caso da Michelle”, completou o senador no encontro com as lideranças femininas.
A estratégia de defesa, porém, esbarra num problema central para a campanha: Daniel Vorcaro está preso preventivamente desde o final de 2025, em decorrência das investigações da PF que apontam um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e gestão de valores de origem criminosa através do Banco Master. Para adversários de Flávio, não importa o tipo de relação: o simples fato de ter como parceiro financeiro um homem acusado de crimes graves já é suficiente para manchar a imagem do pré-candidato, que se apresenta ao eleitor como defensor da moralidade, do combate à corrupção e da ordem pública.
Crise aberta: troca de farpas já dura semanas
A publicação do vídeo e a resposta dura de Flávio não são um fato isolado. Há pelo menos um mês, a relação entre o senador e a madrasta se deteriorou completamente, com trocas de indiretas, críticas a aliados próximos e disputa pelo controle do que resta da estrutura do bolsonarismo pelo país. Tudo começou quando Michelle deixou claro que não apoiaria a pré-candidatura de Flávio de forma incondicional e passou a defender que o partido deveria abrir espaço para outras lideranças — numa clara alusão a si mesma.
Em resposta, o grupo do senador passou a questionar publicamente a capacidade
política da ex-primeira-dama, seu conhecimento de economia e de temas de governo e até mesmo a sua capacidade de se eleger para qualquer cargo majoritário. Paralelamente, aliados de Jair Bolsonaro tentam, sem sucesso até agora, promover uma reconciliação, com o argumento de que a divisão só beneficia o governo Lula e os partidos de esquerda na disputa presidencial. O ex-presidente, por sua vez, tem se mantido em silêncio público, mas em conversas reservadas tem dito que “os dois estão errados” e que a briga familiar pode acabar com qualquer chance de vitória da direita em 2026.
Para cientistas políticos, o que se vê hoje é uma disputa sucessória aberta dentro da própria família, que acontece em público e a céu aberto, sem qualquer cuidado estratégico. “O curioso é que ambos têm tudo a perder e nada a ganhar com essa troca de acusações. Flávio sai desgastado por ter seu nome ligado a um banqueiro preso e a festas de conteúdo duvidoso; Michelle sai desgastada por ser chamada de desinformada por um membro da própria família, perdendo parte da aura de pessoa séria e equilibrada que construiu. O único ganhador até agora é o campo adversário”, avalia o cientista político Carlos Pereira, professor da Fundação Getulio Vargas.
Até o momento não há qualquer comprovação de participação
É importante destacar, com toda a clareza, que até o fechamento desta reportagem não existe qualquer comprovação pública, documento, testemunho ou material audiovisual que confirme que Flávio Bolsonaro tenha efetivamente participado da suposta festa organizada por Daniel Vorcaro. Tudo o que circula até agora se resume a boatos, relatos de terceiros e declarações como a de Anthony Garotinho, que ele mesmo admite não ter verificado. A Polícia Federal, que tem acesso a milhares de documentos, mensagens e interceptações telefônicas no âmbito da Operação Compliance Zero, também não incluíram o nome do senador em nenhum dos inquéritos até agora apresentados à Justiça, nem há qualquer indício oficial de que ele seja investigado por participação em eventos desse tipo.
Mesmo assim, do ponto de vista eleitoral, a ausência de provas importa menos do que a própria existência da suspeita, compartilhada inclusive por uma liderança importante do próprio grupo. Pesquisas encomendadas por instituições neutras já começam a medir o impacto: cerca de 32% dos eleitores que se declaram bolsonaristas disseram em levantamento desta semana que “acham provável” que Flávio tenha estado no evento, mesmo sem provas — um número considerado altíssimo para uma acusação sem qualquer lastro factual, explicado justamente pela força que a palavra de Michelle ainda tem sobre esse eleitorado.
Risco real: a proximidade com Vorcaro como tema de campanha
Independentemente de ser verdade ou não a história da festa, o que preocupa realmente a cúpula da campanha de Flávio Bolsonaro é que a proximidade com Daniel Vorcaro se transforme no principal tema da oposição contra ele nos próximos meses. Adversários de todos os espectros políticos já começam a trabalhar a narrativa de que o pré-candidato, mesmo que não tenha ido a qualquer festa, tem como principal financiador de seu principal projeto de comunicação eleitoral um homem acusado de comandar uma das maiores organizações criminosas de lavagem de dinheiro da história recente do Brasil.
Para os estrategistas do PL, a resposta de classificar Michelle de desinformada foi um movimento de duplo efeito: por um lado, serviu para desqualificar a fonte da acusação sem precisar entrar no mérito de detalhes que não podem ser provados nem desmentidos facilmente; por outro, aprofundou a racha na família e corre o risco de fazer com que milhões de eleitores que seguem a ex-primeira-dama se afastem definitivamente da candidatura do senador.
Nos próximos dias, a tendência é que o confronto permaneça. Aliados de Michelle já sinalizam que ela deve se pronunciar oficialmente nos próximos dias, não para se retratar, mas para explicar que nunca acusou ninguém, apenas compartilhou um conteúdo que estava em debate público — uma versão que não deve convencer o grupo de Flávio, que já trabalha para mostrar aos eleitores que a ex-primeira-dama, por mais bem-intencionada que seja, não tem domínio dos fatos e acaba, involuntariamente ou não, ajudando a destruir a única candidatura que, na avaliação do senador, pode vencer as eleições do ano que vem.
O que se vê, no final das contas, é um movimento raro na história política recente do Brasil: uma família que chegou ao poder graças à sua capacidade de se apresentar como unida e coesa contra o sistema, hoje se desfaz em público, com troca de acusações, desqualificações mútuas e uma guerra de narrativas que, mais do que decidir quem vai ser o candidato do bolsonarismo, pode acabar definindo se o movimento terá força suficiente para chegar ao segundo turno em 2026. E tudo isso começou, ou pelo menos ganhou a proporção atual, por causa de um vídeo sem provas, compartilhado por quem devia ser o principal aliado, e classificado pelo alvo como um erro grosseiro de quem está simplesmente desinformada.