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Flávio Bolsonaro negou ter pedido dinheiro a Vorcaro antes de áudio revelar cobrança por filme

Senador disse que era “mentira” ter solicitado recursos ao dono do Banco Master; horas depois, admitiu contato com o banqueiro e afirmou que buscava patrocínio privado para produção sobre Jair Bolsonaro

por Júlia Campos
13/05/2026 às 22h16
em Política
Flávio Bolsonaro Negou Ter Pedido Dinheiro A Vorcaro Antes De Áudio Revelar Cobrança Por Filme -Gazeta Mercantil

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, negou na manhã desta quarta-feira (13), em Brasília, ter pedido dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, produção sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A negativa ocorreu antes da divulgação de um áudio pelo portal The Intercept Brasil no qual o próprio parlamentar aparece cobrando uma posição de Vorcaro sobre parcelas atrasadas do projeto. Após o vazamento das mensagens e da gravação, Flávio mudou o tom, admitiu ter mantido contato com o banqueiro e afirmou que buscava apenas patrocínio privado para um filme privado, sem dinheiro público, Lei Rouanet ou vantagem indevida.

A contradição entre a negativa inicial e a admissão posterior tornou-se o ponto central da crise política aberta pela revelação. Ao ser questionado por jornalistas mais cedo sobre a possibilidade de ter pedido recursos a Vorcaro, Flávio Bolsonaro reagiu de forma enfática. “É mentira, de onde você tirou isso? É mentira, pelo amor de Deus”, disse o senador, segundo relato do G1.

Leia também: Ex-sócio de Flávio Bolsonaro relata supostas orgias, Rolex de R$ 305 mil e lobby no STF.

Horas depois, com a publicação da reportagem do Intercept Brasil, vieram a público mensagens, documentos e um áudio atribuído ao parlamentar. Na gravação, enviada a Daniel Vorcaro em setembro do ano passado, Flávio fala sobre a situação financeira do filme, menciona parcelas pendentes e pede ao banqueiro uma posição sobre os pagamentos.

O caso envolve uma negociação que, segundo a reportagem, poderia chegar a R$ 134 milhões. Parte dos valores, cerca de R$ 61 milhões, teria sido paga entre fevereiro e maio de 2025 para a produção do filme Dark Horse, que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro. O dinheiro, de acordo com a apuração, teria sido transferido para um fundo nos Estados Unidos ligado a um aliado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio.

Leia também: Indulto a Bolsonaro: Tarcísio promete perdão imediato antes do julgamento no STF.

Negativa inicial ampliou desgaste político

A primeira reação de Flávio Bolsonaro ocorreu antes de o áudio vir a público. Ao deixar o Supremo Tribunal Federal (STF), o senador foi abordado por repórteres sobre o suposto pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro. A resposta foi direta: ele negou o pedido e classificou a informação como falsa.

A negativa, no entanto, passou a ser confrontada com o conteúdo revelado horas depois. No áudio divulgado, Flávio não apenas menciona o filme como também fala sobre a necessidade de resolver pagamentos atrasados. O senador diz ficar “sem graça” de cobrar Vorcaro, mas afirma que a produção estava em um momento decisivo e que havia “muita parcela pra trás”.

A sequência dos fatos produziu forte impacto político. Primeiro, o parlamentar negou ter pedido dinheiro. Depois, diante da gravação, passou a afirmar que o contato existiu, mas que se tratava de uma relação privada, vinculada a um patrocínio para uma produção privada sobre seu pai.

Em nota, Flávio Bolsonaro sustentou que é preciso separar “inocentes” de “bandidos”. Segundo ele, o episódio envolveu “um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”. O senador afirmou ainda que não houve dinheiro público nem uso da Lei Rouanet.

A defesa pública do parlamentar tenta delimitar o caso como uma negociação privada sem reflexo em sua atividade política. Ainda assim, a negativa inicial tornou a explicação mais sensível, porque o áudio divulgado indica que houve, de fato, cobrança por pagamentos relacionados ao projeto.

Áudio mostra cobrança por parcelas atrasadas

Na gravação atribuída a Flávio Bolsonaro, o senador se dirige a Daniel Vorcaro em tom pessoal e afirma entender que o banqueiro também enfrentava um “momento dificílimo”. A mensagem foi enviada em 8 de setembro, poucos dias depois de o Banco Central rejeitar a compra do Banco Master pelo BRB, segundo o relato do G1.

Flávio diz no áudio que a equipe do filme estava em uma fase decisiva e que os atrasos nos pagamentos geravam tensão. O senador afirma que ficava preocupado com um possível “efeito contrário” ao planejado para a produção.

O parlamentar também cita o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh, nomes envolvidos no projeto. Na mensagem, ele afirma que seria ruim “dar calote” em profissionais renomados do cinema americano e mundial. O senador ainda diz que, caso os compromissos não fossem honrados, a produção poderia perder contrato, ator, diretor e equipe.

O trecho mais sensível do áudio é o pedido para que Vorcaro dê uma posição sobre os pagamentos. Flávio afirma que havia contas a pagar naquele mês e no mês seguinte e que a reta final do filme não permitia “vacilar”.

A gravação contradiz a ideia inicial de que não teria havido qualquer pedido de dinheiro. Embora o senador diga que não recebeu valores pessoalmente e que não ofereceu contrapartidas, o áudio mostra cobrança direta a Vorcaro por recursos destinados à produção.

Senador nega vantagem indevida

Após a divulgação das mensagens, Flávio Bolsonaro divulgou nota e vídeo nas redes sociais para tentar conter a crise. O senador reconheceu ter mantido contato com Daniel Vorcaro, mas negou irregularidade.

Segundo Flávio, ele conheceu o banqueiro em dezembro de 2024, quando Jair Bolsonaro já não estava no governo e, de acordo com sua versão, ainda não havia acusações ou suspeitas públicas contra Vorcaro. O parlamentar disse que o contato foi retomado posteriormente porque o banqueiro teria atrasado parcelas de patrocínio necessárias à conclusão do filme.

“Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem”, afirmou o senador na manifestação.

Flávio também passou a defender a instalação de uma CPI do Banco Master. A estratégia busca reposicionar o episódio dentro de uma crise mais ampla envolvendo Vorcaro, o banco e seus vínculos políticos e empresariais.

A defesa, porém, não elimina o principal ponto de desgaste: a negativa inicial. A frase “É mentira, de onde você tirou isso?” passou a ser usada por adversários para sustentar que o senador só admitiu a relação depois que o áudio e as mensagens vieram a público.

Mensagens indicam relação frequente com Vorcaro

Além do áudio, a reportagem do Intercept Brasil revelou mensagens atribuídas a Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Segundo a apuração, os contatos se estenderam por meses e envolveram cobranças, tratativas e demonstrações de proximidade.

Em 22 de outubro, Flávio teria voltado a enviar mensagens ao banqueiro afirmando que a produção estava “no limite”. No mesmo dia, segundo o material revelado, o senador convidou Vorcaro para um jantar com Jim Caviezel, ator escalado para interpretar Jair Bolsonaro no filme. O banqueiro teria aceitado e sugerido que o encontro ocorresse em sua casa, proposta aceita pelo parlamentar.

Outro trecho divulgado mostra Flávio dizendo a Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”. No dia seguinte, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal, enquanto tentava embarcar no Aeroporto Internacional de Guarulhos.

O conteúdo sugere uma relação mais próxima do que a versão inicial apresentada pelo senador. A existência de mensagens de visualização única e ligações telefônicas, também mencionada na reportagem, amplia os questionamentos sobre a extensão das conversas e sobre o teor completo das tratativas.

A TV Globo informou ter confirmado com investigadores e pessoas com acesso às informações a existência do áudio e o conteúdo da reportagem.

Pagamentos teriam chegado a R$ 61 milhões

Segundo o Intercept Brasil, Daniel Vorcaro teria pago R$ 61 milhões para a produção de Dark Horse entre fevereiro e maio de 2025. O valor faria parte de uma negociação maior, que poderia chegar a R$ 134 milhões.

A reportagem afirma que os recursos teriam sido direcionados para um fundo nos Estados Unidos. O fundo seria ligado a um aliado de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio Bolsonaro.

O filme Dark Horse é uma produção internacional sobre Jair Bolsonaro. A obra teria atores e equipe estrangeiros e buscaria retratar a trajetória do ex-presidente, incluindo sua ascensão política e o atentado sofrido durante a campanha presidencial de 2018.

A dimensão financeira do projeto chamou atenção. Um patrocínio de R$ 134 milhões para uma produção política sobre um ex-presidente, negociado com um banqueiro que depois seria preso, cria um problema político relevante para Flávio Bolsonaro.

Do ponto de vista jurídico, até o momento não há informação pública de que o senador tenha sido formalmente acusado de crime por causa do episódio. Flávio nega irregularidades. Investigados e citados em apurações têm direito à defesa e à presunção de inocência.

Crise do Banco Master pesa sobre o caso

A repercussão do áudio também foi ampliada pela situação de Daniel Vorcaro. O banqueiro é dono do Banco Master, instituição que se tornou alvo de uma crise financeira e regulatória de grande impacto.

Poucos dias antes do áudio de setembro, o Banco Central havia rejeitado a compra do Master pelo BRB. A decisão agravou a pressão sobre Vorcaro e marcou uma virada no processo que levaria, posteriormente, ao avanço das investigações.

Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no dia seguinte a uma das últimas mensagens reveladas. A prisão ocorreu no início de uma investigação sobre supostas fraudes, corrupção de servidores públicos e uso de estruturas privadas para intimidar opositores, conforme relato do G1.

Esse contexto torna a relação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro politicamente sensível. Ainda que o senador sustente que a negociação era privada, o fato de ter cobrado pagamentos de um banqueiro em crise, às vésperas da prisão dele, coloca o episódio no centro da disputa política em Brasília.

O caso também pode ganhar novos desdobramentos caso avancem apurações sobre o Banco Master ou uma eventual delação premiada de Daniel Vorcaro. Qualquer detalhamento adicional sobre pagamentos, contratos e interlocutores políticos tende a aumentar a pressão sobre os envolvidos.

Pré-campanha de Flávio entra sob pressão

A revelação atinge Flávio Bolsonaro em um momento em que o senador tenta se apresentar como alternativa do bolsonarismo para a eleição presidencial. A pré-candidatura já nasce sob a influência direta das restrições enfrentadas por Jair Bolsonaro e da reorganização do campo político de direita.

Nesse cenário, a negativa inicial de Flávio pode ter efeito mais danoso do que a própria admissão posterior de contato com Vorcaro. O problema político não se limita à busca de patrocínio privado. A questão é que o senador negou publicamente ter pedido dinheiro antes de o áudio revelar que ele havia cobrado uma posição do banqueiro sobre parcelas do filme.

Adversários devem explorar essa sequência para questionar a credibilidade do parlamentar. Aliados, por outro lado, tendem a reforçar a tese de que não houve dinheiro público nem contrapartida e que a divulgação do caso busca atingir politicamente a família Bolsonaro.

A defesa de Flávio também tenta comparar o episódio a outras relações de Vorcaro com agentes políticos. Ao pedir uma CPI do Banco Master, o senador procura ampliar o foco da apuração e incluir outros vínculos do banqueiro.

Essa estratégia, no entanto, traz risco. Uma CPI poderia aprofundar a investigação sobre todas as relações de Vorcaro, inclusive as conversas e pagamentos ligados ao filme sobre Jair Bolsonaro.

Contradição entre fala pública e áudio deve seguir no centro do caso

A frase dita por Flávio Bolsonaro antes da divulgação do áudio deve permanecer como o eixo da controvérsia. Ao afirmar que era “mentira” ter pedido dinheiro a Daniel Vorcaro, o senador adotou uma posição que depois precisou ser ajustada diante da exposição das mensagens.

A versão atual de Flávio é que ele não pediu dinheiro para si, não recebeu valores e não ofereceu vantagens. O áudio, porém, mostra que ele cobrou o banqueiro por pagamentos destinados ao filme. Essa distinção será central para sua defesa pública.

O caso tem potencial para seguir produzindo efeitos políticos porque reúne quatro elementos de alta repercussão: a família Bolsonaro, um filme sobre o ex-presidente, um banqueiro preso e uma instituição financeira investigada. A situação também ocorre em meio à reorganização do tabuleiro eleitoral de 2026.

Para Flávio Bolsonaro, o desafio será explicar a diferença entre a negativa inicial e a admissão posterior. Para seus adversários, a sequência é vista como um indício de que o senador tentou negar o vínculo antes de saber que o áudio seria divulgado.

A crise sobre o financiamento de Dark Horse ainda depende de novos documentos, eventuais investigações e possíveis manifestações dos envolvidos. Mas a revelação já produziu um dano político imediato: antes de admitir que buscou patrocínio com Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro negou publicamente ter pedido dinheiro ao banqueiro.

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