As ações do Fleury (FLRY3) encerraram o pregão desta quarta-feira, 23 de setembro, a R$ 22,09, próximas da máxima de R$ 22,17 alcançada durante o dia e com valorização de aproximadamente 47% em 2026. O desempenho colocou a companhia de medicina diagnóstica entre os papéis que mais se distanciaram do avanço do mercado brasileiro no ano, mas também abriu uma discussão sobre quanto dessa alta decorreu de melhora efetiva nos resultados e quanto veio de uma disposição maior dos investidores em pagar por cada real de lucro futuro.
A diferença é relevante porque os números operacionais do Fleury avançaram, mas em ritmo consideravelmente inferior ao preço da ação. Segundo análise do BTG Pactual, a estimativa do banco para o Ebitda da companhia em 2026 aumentou apenas 2% desde o inÃcio do ano. Isso significa que, enquanto a expectativa de geração operacional sofreu uma revisão pequena, a cotação ganhou quase metade de seu valor, indicando que a expansão dos múltiplos teve peso determinante na valorização.
O balanço do segundo trimestre não mostra uma empresa estagnada. A receita lÃquida chegou a R$ 2,32 bilhões, alta de 14,4% sobre igual perÃodo de 2025, enquanto o Ebitda alcançou R$ 612,9 milhões, crescimento de 15,2%. O lucro lÃquido avançou ainda mais, 45,7%, para R$ 221,9 milhões. O ponto levantado pelo BTG é que esse desempenho, embora forte, não resultou até agora em revisões de estimativas na mesma proporção da valorização de FLRY3.
Lucro cresce 45,7%, mas expansão da ação supera fundamentos operacionais
A diferença entre preço e resultados aparece com clareza quando se compara o desempenho anual da ação com os indicadores do primeiro semestre. Entre janeiro e junho, a receita lÃquida do Fleury cresceu 12,4%, para R$ 4,54 bilhões. O Ebitda avançou 12,9%, atingindo R$ 1,22 bilhão, enquanto o lucro lÃquido aumentou 27,6%, para R$ 423,1 milhões.
As margens também melhoraram. A margem Ebitda passou de 26,7% para 26,9% no primeiro semestre, enquanto a margem lÃquida avançou de 8,2% para 9,3%. No segundo trimestre isoladamente, a margem lÃquida alcançou 9,6%, ante 7,5% um ano antes. O aumento do lucro, portanto, não ocorreu apenas por crescimento de receita, mas também refletiu maior eficiência na conversão do faturamento em resultado final.
A operação voltada diretamente ao consumidor continuou sendo a principal frente de expansão. A receita bruta do B2C chegou a aproximadamente R$ 1,77 bilhão no trimestre, alta de 15%, com crescimento orgânico de 11,6%. A marca Fleury avançou 12%, enquanto outras marcas do grupo em São Paulo registraram expansão de 27,7%. Em Minas Gerais, o crescimento chegou a 19,2%, e no Rio de Janeiro, a 8,9%.
No B2B, que reúne processamento de exames para hospitais e laboratórios, a receita bruta aumentou 12,2%, para R$ 545,1 milhões. O grupo atribuiu parte do desempenho à atividade hospitalar e ao aumento de demanda associado à circulação de influenza durante o perÃodo. Novos Elos, divisão que inclui áreas como infusão de medicamentos, ortopedia, oftalmologia, cirurgia ambulatorial e medicina reprodutiva, cresceu 15,9%, para R$ 201,8 milhões.
Os números mostram uma companhia com crescimento distribuÃdo entre diferentes frentes, mas ajudam também a dimensionar a discussão sobre valuation. Uma valorização próxima de 47% em menos de nove meses supera com larga margem o avanço da receita e do Ebitda e também fica acima do crescimento de 27,6% do lucro acumulado no semestre. É essa diferença que sustenta a leitura de que uma parcela importante da alta ocorreu pela elevação dos múltiplos atribuÃdos à empresa.
BTG identifica reprecificação também entre empresas globais de diagnóstico
A interpretação do BTG sobre a alta de FLRY3 mudou ao longo do ano. Inicialmente, o desempenho era associado em parte ao caráter defensivo do negócio: serviços de saúde tendem a apresentar demanda menos sensÃvel ao ciclo econômico, e o Fleury combina essa caracterÃstica com nÃvel de endividamento relativamente baixo.
Essa explicação tornou-se insuficiente quando as ações mantiveram desempenho superior mesmo após a melhora do apetite dos investidores por ativos de maior risco. O banco passou então a observar um fenômeno mais amplo, com empresas internacionais de diagnóstico também registrando expansão de múltiplos em 2026.
Entre os fatores associados a essa mudança estão o interesse crescente por medicina preventiva, diagnóstico precoce e tratamentos personalizados. Para o mercado, essas tendências podem ampliar estruturalmente a utilização de exames e serviços diagnósticos ao longo dos próximos anos, ainda que o ritmo e a intensidade dessa expansão variem entre mercados e empresas.
Isso não significa, contudo, que o Fleury tenha passado automaticamente a crescer em um patamar estruturalmente diferente. A avaliação apresentada pelo BTG é que a companhia continua registrando desempenho saudável, mas sem uma alteração proporcional nas expectativas de resultado. O banco manteve recomendação neutra para FLRY3, ao mesmo tempo em que reconheceu a ausência de um gatilho evidente que, isoladamente, obrigue uma correção da cotação no curto prazo.
Caixa cresce enquanto investimento total recua 34,6%
O fluxo de caixa adiciona outra dimensão ao balanço. No primeiro semestre, o fluxo de caixa operacional alcançou R$ 960,4 milhões, avanço de 18,7% sobre o mesmo intervalo de 2025. O fluxo de caixa livre da empresa chegou a R$ 975,2 milhões, aumento de 19,3%.
Ao mesmo tempo, o capex recuou 34,6%, de R$ 208,3 milhões para R$ 136,3 milhões. No segundo trimestre, os investimentos somaram R$ 75,7 milhões, queda de 46,5% na comparação anual. A redução, entretanto, não ocorreu de forma uniforme entre as diferentes modalidades de investimento.
Os desembolsos com tecnologia e digital caÃram 66,8% no semestre, para R$ 38,9 milhões. Em sentido oposto, os investimentos em novas unidades, ampliação de oferta e áreas técnicas cresceram 50,3%, chegando a R$ 75,9 milhões. A companhia, portanto, reduziu o capex total ao mesmo tempo em que direcionou uma parcela maior do orçamento para capacidade diretamente relacionada à operação.
Essa composição ajuda a qualificar a discussão sobre crescimento futuro. O Fleury não atravessa um ciclo de investimentos totais acelerados, mas também não interrompeu a expansão fÃsica e técnica. A capacidade de extrair crescimento desse volume de capital empregado será um dos pontos importantes para avaliar se os resultados conseguem acompanhar a reprecificação que ocorreu na Bolsa.
Compra do Femme acrescenta nova frente à estratégia de aquisições
As aquisições continuam sendo outro componente da expansão do grupo. Em 29 de maio, o Fleury concluiu a compra de 100% da GIP Medicina Diagnóstica, operadora do Femme Laboratório da Mulher. A empresa atua em serviços laboratoriais, medicina ambulatorial, diagnóstico, terapia e vacinação, com foco em saúde feminina.
A operação havia sido anunciada por um enterprise value de R$ 207,5 milhões, sujeito a ajustes. A GIP registrou receita bruta de R$ 286,6 milhões em 2024, o que coloca o valor empresarial anunciado em aproximadamente 0,72 vez aquela receita anual, antes dos efeitos de ajustes da transação e das sinergias esperadas. A aquisição adicionou 12 unidades de atendimento e ampliou a presença do Fleury em um segmento especializado do mercado paulista.
Desde 2017, o grupo concluiu 11 aquisições em medicina diagnóstica e outras seis em Novos Elos, além da combinação com o Grupo Pardini, anunciada em 2022. A trajetória ajuda a explicar por que fusões e aquisições continuam acompanhadas de perto por investidores, sobretudo diante da capacidade financeira ainda disponÃvel para novas operações.
O Fleury chegou a participar, em março, de discussões sobre uma potencial operação envolvendo Porto Seguro (PSSA3) e OncoclÃnicas (ONCO3), mas decidiu encerrar as tratativas em 13 de abril. Na ocasião, a companhia reiterou que continuaria avaliando oportunidades de mercado compatÃveis com seus planos de investimento e objetivos estratégicos. Não existe, porém, uma transação atualmente anunciada entre as três empresas.
DÃvida de R$ 2,42 bilhões permanece compatÃvel com geração operacional
A expansão via aquisições também precisa ser considerada em conjunto com o endividamento. Ao fim de junho, a dÃvida lÃquida do Fleury era de aproximadamente R$ 2,42 bilhões, frente a R$ 2,28 bilhões três meses antes. A relação entre dÃvida lÃquida e Ebitda permaneceu em 1,1 vez, distante do covenant de 3 vezes.
A companhia também encerrou o segundo trimestre com cerca de R$ 2,04 bilhões em caixa. Essa combinação reduz a pressão imediata sobre a estrutura financeira e mantém espaço para gestão do passivo e eventual execução de investimentos, embora o custo da dÃvida e novas aquisições continuem relevantes para a alocação de capital.
Em agosto, o Fleury concluiu sua 11ª emissão de debêntures, levantando R$ 1,825 bilhão em duas séries. Os recursos foram destinados ao pré-pagamento de saldos de quatro emissões anteriores, além de capital de giro e outros usos corporativos, incluindo alongamento do passivo. A operação teve, portanto, componente importante de refinanciamento, e não representa integralmente aumento lÃquido de recursos destinados à expansão.
Outro indicador acompanhado pela administração é o retorno sobre o capital investido. No segundo trimestre, o Fleury informou ROIC de 17,8%, com avanço de 380 pontos-base em relação ao segundo trimestre de 2023. A combinação de retorno maior, geração de caixa e alavancagem relativamente baixa ajuda a explicar parte do interesse do mercado, embora não elimine a discussão sobre o preço atualmente pago pelas ações.
Resultado do terceiro trimestre será novo teste para a valorização
A próxima divulgação de resultados passa a ganhar importância justamente porque o preço da ação correu à frente das revisões das estimativas. O Fleury tem a apresentação dos números do terceiro trimestre de 2026 prevista para 5 de novembro, seguida pela apresentação ao mercado. Crescimento orgânico, margens, integração das aquisições, geração de caixa e dÃvida lÃquida estarão entre os indicadores capazes de mostrar se os fundamentos começaram a acompanhar a reprecificação.
A companhia ainda tem um pagamento relevante aos acionistas programado. O conselho aprovou R$ 217,85 milhões em juros sobre capital próprio referentes a 2026, equivalentes a R$ 0,40073265756 por ação, com data-base em 11 de agosto e pagamento previsto para 2 de outubro. Em relação ao fechamento de R$ 22,09 desta quarta-feira, o valor bruto por ação corresponde a aproximadamente 1,8% da cotação, embora investidores que comprarem o papel agora não tenham direito a esse provento.
A distância entre o fechamento de R$ 15,00 registrado no último pregão de 2025 e os R$ 22,09 desta quarta-feira representa uma valorização de aproximadamente 47,3% em 2026. O número sintetiza a mudança ocorrida na percepção do mercado sobre o Fleury: os resultados melhoraram, as margens avançaram e o caixa cresceu, mas a ação se valorizou em velocidade substancialmente maior.
Por isso, o principal debate deixou de ser se a companhia apresentou melhora operacional e passou a ser quanto dessa melhora já está incorporada ao preço. Com a estimativa de Ebitda do BTG para 2026 revisada em apenas 2% desde o começo do ano, os próximos balanços terão de mostrar se a expansão de margens, a integração das aquisições e a geração de caixa conseguem reduzir a distância que se abriu entre o desempenho da empresa e o comportamento de FLRY3 na Bolsa.
Fontes:
Fleury – informações trimestrais e apresentação de resultados do segundo trimestre de 2026, com dados de receita, Ebitda, lucro lÃquido, margens, capex, geração de caixa, endividamento e retorno sobre o capital investido
Comissão de Valores Mobiliários – informações trimestrais do Fleury referentes ao perÃodo encerrado em 30 de junho de 2026
Fleury – comunicado ao mercado sobre a 11ª emissão de debêntures, no valor total de R$ 1,825 bilhão, e destinação dos recursos
Fleury – fato relevante sobre a conclusão da aquisição da GIP Medicina Diagnóstica, operadora do Femme Laboratório da Mulher
Fleury – fato relevante sobre o encerramento das tratativas envolvendo Porto Seguro e OncoclÃnicas
Fleury – informações de Relações com Investidores sobre juros sobre capital próprio aprovados em 2026 e calendário de pagamento
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