Governo libera hoje R$ 4,6 bilhões retidos pelo saque-aniversário do FGTS
O governo federal iniciou nesta segunda-feira a liberação de R$ 4,6 bilhões que estavam retidos em contas vinculadas ao saque-aniversário do FGTS, medida que beneficia trabalhadores demitidos entre janeiro de 2020 e 23 de dezembro de 2025. A decisão representa um novo capítulo na tentativa do Executivo de mitigar distorções geradas pelo modelo de retirada criado em 2019 e que, ao longo dos últimos anos, se consolidou como uma das modalidades mais controversas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço.
A liberação dos recursos ocorre em meio a um esforço do Ministério do Trabalho e Emprego para corrigir situações em que trabalhadores ficaram impedidos de acessar valores do FGTS justamente no momento de maior vulnerabilidade econômica, após a perda do emprego. O desbloqueio atinge exclusivamente quem havia aderido ao saque-aniversário do FGTS e teve o contrato de trabalho suspenso ou rescindido dentro do período estabelecido.
Segundo dados oficiais, a liberação será realizada de forma escalonada até o dia 12 de fevereiro, contemplando nesta segunda fase 822.559 trabalhadores. Os valores correspondem aos saldos remanescentes que permaneceram bloqueados mesmo após a rescisão contratual, uma característica da modalidade que gerou críticas recorrentes de especialistas, sindicatos e integrantes do próprio governo.
Liberação ocorre após primeira etapa já ter movimentado bilhões
A atual rodada de desbloqueio dos recursos do saque-aniversário do FGTS é viabilizada pela mesma Medida Provisória que, em uma etapa anterior, autorizou o pagamento de R$ 3,8 bilhões. Na primeira fase, cerca de 14,1 milhões de trabalhadores foram beneficiados com a liberação de valores que estavam retidos, ampliando a circulação de recursos na economia em um momento de desaceleração do consumo.
Com a nova etapa, o montante total liberado pelo governo federal ultrapassa R$ 8 bilhões, reforçando o impacto fiscal e social da decisão. O Executivo avalia que a medida tem potencial de aliviar o orçamento doméstico de milhares de famílias, além de contribuir para a dinâmica econômica de curto prazo, especialmente em setores ligados ao consumo básico.
O Ministério do Trabalho ressalta que os pagamentos seguem critérios técnicos e não alteram a adesão do trabalhador ao saque-aniversário do FGTS, que permanece válida mesmo após a liberação dos valores retidos.
Críticas ao modelo do saque-aniversário do FGTS ganham força
Criado em 2019, o saque-aniversário do FGTS permite ao trabalhador retirar anualmente uma parcela do saldo da conta vinculada, no mês de seu aniversário. Em contrapartida, quem opta pela modalidade perde o direito de sacar o saldo integral em caso de demissão sem justa causa, mantendo apenas o acesso à multa rescisória.
Para o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, essa regra impõe uma penalização considerada injusta. Na avaliação do ministro, o saque-aniversário do FGTS distorce a finalidade original do fundo, que foi concebido como uma poupança compulsória destinada a proteger o trabalhador em situações de desemprego.
O ministro argumenta que, ao aderir à modalidade, muitos trabalhadores não compreendem plenamente as consequências da decisão, especialmente no que se refere à impossibilidade de acessar o saldo total em momentos críticos. Essa percepção levou o governo a adotar medidas emergenciais para liberar valores retidos, repetindo a iniciativa pelo segundo ano consecutivo.
Números revelam impacto estrutural do saque-aniversário do FGTS
Desde sua criação, o saque-aniversário do FGTS já movimentou aproximadamente R$ 197 bilhões. Desse total, apenas cerca de 40% foram efetivamente sacados pelos trabalhadores. Os 60% restantes acabaram direcionados a instituições financeiras, principalmente por meio de operações de antecipação de valores, nas quais o saldo futuro do FGTS é utilizado como garantia para empréstimos.
Atualmente, estima-se que 40,3 milhões de pessoas tenham aderido à modalidade. Deste contingente, aproximadamente 28,5 milhões possuem contratos ativos de antecipação, o que significa que grande parte do saldo do FGTS já está comprometida com operações de crédito.
Esse cenário limita o alcance da liberação anunciada, uma vez que apenas os valores não vinculados a empréstimos podem ser sacados. Trabalhadores que comprometeram integralmente o saldo do saque-aniversário do FGTS não têm recursos disponíveis para retirada nesta etapa.
Quem tem direito aos valores liberados
A liberação anunciada pelo governo contempla trabalhadores que aderiram ao saque-aniversário do FGTS entre 1º de janeiro de 2020 e 23 de dezembro de 2025 e que tiveram o contrato de trabalho suspenso ou encerrado por motivos específicos. Entre as situações abrangidas estão a demissão sem justa causa, a despedida indireta, os casos de culpa recíproca ou força maior, além da rescisão motivada por falência ou falecimento do empregador.
Também estão incluídas as extinções normais de contratos a termo, como os de trabalhadores temporários, e a suspensão total do trabalho avulso. O governo esclarece que não é necessário sair da modalidade de saque-aniversário do FGTS para ter acesso aos valores liberados nesta etapa.
No entanto, a regra permanece válida para demissões ocorridas após 23 de dezembro de 2025. Nesses casos, o trabalhador que estiver vinculado ao saque-aniversário continuará impedido de acessar o saldo integral, podendo retirar apenas a multa rescisória.
Crédito automático e canais de saque disponíveis
Os valores liberados do saque-aniversário do FGTS serão creditados automaticamente na conta bancária cadastrada no aplicativo oficial do FGTS. Para quem não possui conta informada, o saque poderá ser realizado por meio do Cartão Cidadão e senha, em casas lotéricas, terminais de autoatendimento da Caixa e unidades do Caixa Aqui.
A consulta sobre o direito ao saque e o valor disponível pode ser feita diretamente nas agências da Caixa Econômica Federal, por telefone ou pelo aplicativo do FGTS. O governo destaca que o processo foi estruturado para evitar filas e garantir maior agilidade no acesso aos recursos.
Efeitos econômicos da liberação do saque-aniversário do FGTS
Especialistas avaliam que a liberação dos recursos do saque-aniversário do FGTS tende a ter impacto moderado, porém relevante, sobre a economia no curto prazo. Embora os valores não sejam suficientes para provocar uma mudança estrutural no consumo, o reforço de renda pode aliviar dívidas, estimular gastos essenciais e melhorar a capacidade financeira das famílias beneficiadas.
Do ponto de vista fiscal, o governo sustenta que a medida não compromete o equilíbrio das contas públicas, uma vez que os recursos pertencem aos próprios trabalhadores e estavam apenas retidos nas contas vinculadas.
Debate sobre o futuro do saque-aniversário do FGTS segue aberto
A recorrência de liberações excepcionais reacende o debate sobre a continuidade do saque-aniversário do FGTS nos moldes atuais. Integrantes do governo e especialistas em mercado de trabalho defendem ajustes ou até mesmo a extinção da modalidade, argumentando que o modelo enfraquece a função social do fundo.
Por outro lado, defensores do saque-aniversário sustentam que a modalidade amplia a liberdade financeira do trabalhador e oferece uma alternativa de acesso a recursos em momentos específicos, desde que haja informação clara sobre suas implicações.
Enquanto o debate avança, a liberação dos R$ 4,6 bilhões marca mais um movimento do governo para reduzir os efeitos adversos do saque-aniversário do FGTS, mantendo o tema no centro da agenda econômica e trabalhista do país.







