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Governo Lula promete reverter veto da União Europeia à carne brasileira

Ministério da Agricultura diz ter recebido decisão com surpresa e afirma que exportações seguem normalmente até 3 de setembro; embaixador brasileiro terá reunião com autoridades sanitárias do bloco

por Gabriel Monteiro
12/05/2026 às 18h58
em Agronegócio
Governo Lula Promete Reverter Veto Da União Europeia À Carne Brasileira - Gazeta Mercantil

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira, 12 de maio, que recebeu “com surpresa” a decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal destinados ao consumo humano ao bloco a partir de 3 de setembro de 2026. Em nota, o Ministério da Agricultura e Pecuária informou que tomará “todas as medidas necessárias” para tentar reverter o veto, voltar à relação de fornecedores autorizados e preservar um fluxo comercial mantido há cerca de 40 anos com o mercado europeu.

A restrição foi aprovada no âmbito do Comitê Permanente para Plantas, Animais, Alimentos e Ração da Comissão Europeia. Na prática, a exclusão impede, a partir da data prevista, a entrada de animais vivos destinados à produção de alimentos e de produtos derivados, como carnes bovina e de aves, ovos, mel, produtos da aquicultura, tripas e outros itens de origem animal.

Leia também: Acordo Mercosul União Europeia entra em vigor e impulsiona exportações do Brasil.

A justificativa europeia está relacionada às regras do bloco contra o uso de antimicrobianos na produção animal. Segundo a Comissão Europeia, o Brasil não apresentou garantias consideradas suficientes de cumprimento das exigências sanitárias durante toda a vida dos animais destinados à exportação.

Apesar da decisão, o Ministério da Agricultura destacou que as exportações brasileiras seguem normalmente até 3 de setembro. O governo também informou que o embaixador Pedro Miguel da Costa e Silva, chefe da delegação do Brasil junto à União Europeia, terá reunião nesta quarta-feira, 13 de maio, com autoridades sanitárias do bloco para buscar explicações sobre a medida.

Leia também: Trump eleva tarifa sobre carros da União Europeia para 25% e amplia tensão comercial com Europa.

Brasil tenta evitar bloqueio a mercado de 40 anos

O governo brasileiro tratou a decisão como uma medida inesperada e sinalizou reação diplomática imediata. Na nota, o Ministério da Agricultura afirmou que o país buscará reverter a exclusão e garantir a continuidade das vendas ao mercado europeu.

“O governo do Brasil tomará prontamente todas as medidas necessárias para reverter essa decisão, voltar à lista de países autorizados, e garantir o fluxo de vendas desses produtos para o mercado europeu, para o qual exporta há 40 anos”, informou a pasta.

Leia também: Lula enfrenta Trump e promete usar a Lei da Reciprocidade Econômica: “Brasil não vai ser tratado como moleque”.

O comunicado também afirma que o Brasil possui “um sistema sanitário robusto e de qualidade internacional reconhecida” e ressalta que o país é o maior exportador mundial de proteínas de origem animal. O ministério ainda destacou a posição brasileira como principal fornecedor de produtos agrícolas ao mercado europeu.

A reação busca reduzir incertezas entre frigoríficos, produtores, exportadores e agentes da cadeia agropecuária. O mercado europeu é relevante não apenas pelo volume financeiro, mas também por exigir padrões sanitários elevados e remunerar produtos de maior valor agregado.

União Europeia cobra controle sobre antimicrobianos

A decisão da União Europeia faz parte de uma atualização da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal ao bloco. Para permanecer na relação, os fornecedores precisam demonstrar conformidade com regras sanitárias relacionadas ao uso de antimicrobianos na pecuária.

Segundo a porta-voz da Comissão Europeia para a Saúde, Eva Hrncirova, o Brasil deverá garantir o cumprimento das exigências europeias durante toda a vida útil dos animais. A preocupação do bloco envolve o uso de substâncias antimicrobianas para promover crescimento, aumentar produtividade ou tratar animais com ativos reservados a infecções humanas.

As normas europeias proíbem o uso de antimicrobianos como promotores de crescimento ou aumento de produção. Também vedam a utilização, em animais, de substâncias consideradas reservadas para tratamentos humanos. A política faz parte da estratégia do bloco para combater a resistência microbiana e reduzir o uso desnecessário de antibióticos.

A União Europeia afirma manter diálogo constante com autoridades brasileiras sobre o tema. A lista poderá ser atualizada novamente caso o Brasil apresente informações consideradas suficientes para comprovar conformidade com as regras sanitárias.

Exportações seguem até setembro

A decisão europeia não interrompe imediatamente as exportações brasileiras. O bloqueio passa a valer a partir de 3 de setembro de 2026. Até lá, segundo o Ministério da Agricultura, os embarques de produtos de origem animal seguem normalmente.

Esse intervalo abre uma janela de negociação para o governo brasileiro. A reunião do embaixador Pedro Miguel da Costa e Silva com autoridades sanitárias europeias será o primeiro movimento formal para entender os fundamentos da exclusão e buscar alternativas de reversão.

O governo deverá apresentar informações técnicas sobre controles sanitários, regras nacionais, fiscalização, rastreabilidade e uso de medicamentos veterinários na produção animal. Também poderá propor ajustes regulatórios ou mecanismos específicos para garantir que produtos destinados ao mercado europeu cumpram os padrões exigidos pelo bloco.

A pressão será maior sobre os setores de carne bovina e carne de frango, os mais expostos ao comércio com a União Europeia. Outros segmentos, como mel, ovos e produtos da aquicultura, também podem ser afetados caso a decisão não seja revertida.

Veto ocorre em momento sensível para o acordo Mercosul-UE

A exclusão do Brasil da lista sanitária ocorre em um momento politicamente delicado para as relações entre Mercosul e União Europeia. O episódio vem após a assinatura provisória do acordo de livre comércio entre os blocos, que ainda enfrenta resistência de setores agrícolas europeus, especialmente na França.

Agricultores europeus têm criticado o acordo sob o argumento de que produtores do Mercosul seguiriam padrões sanitários, ambientais e produtivos menos rígidos. A decisão da Comissão Europeia tende a reforçar o discurso de que produtos importados devem cumprir as mesmas exigências impostas aos produtores europeus.

O comissário europeu para Agricultura, Christophe Hansen, afirmou que agricultores do bloco seguem alguns dos padrões de saúde e controle de antimicrobianos mais rigorosos do mundo. Segundo ele, é legítimo que produtos importados sejam submetidos aos mesmos requisitos.

Embora o governo brasileiro trate o caso como uma questão sanitária a ser esclarecida, a coincidência com o debate sobre o acordo comercial amplia a sensibilidade política. O Brasil é o único país do Mercosul atualmente ausente da lista de exportadores autorizados de carne ao bloco europeu.

Medida aumenta pressão sobre rastreabilidade e fiscalização

O veto europeu reforça a pressão sobre a rastreabilidade da cadeia agropecuária brasileira. Para recuperar acesso ao mercado, o país deverá demonstrar que consegue controlar o uso de antimicrobianos desde a origem dos animais até o produto final exportado.

Esse tipo de exigência envolve produtores rurais, cooperativas, frigoríficos, laboratórios, certificadoras e autoridades sanitárias. Também exige documentação detalhada, sistemas de monitoramento e capacidade de comprovação perante importadores e reguladores estrangeiros.

Grandes frigoríficos exportadores tendem a ter maior estrutura para se adaptar a exigências adicionais. Pequenos e médios produtores, porém, podem enfrentar mais dificuldade para absorver custos de certificação, segregação de lotes, controle de medicamentos e rastreamento completo.

A decisão também pode pressionar o Ministério da Agricultura a acelerar ajustes regulatórios. Em abril, o governo já havia publicado medidas restringindo determinados antimicrobianos usados como melhoradores de desempenho animal, mas a União Europeia considerou que as garantias brasileiras ainda não eram suficientes.

Frigoríficos e exportadores acompanham negociação

O setor privado acompanhará de perto as conversas entre Brasília e Bruxelas. A União Europeia é um mercado relevante para carnes brasileiras, especialmente por comprar produtos de maior valor agregado e por funcionar como referência sanitária para outros destinos.

Caso o veto seja mantido, frigoríficos terão de redirecionar volumes para outros mercados ou reorganizar linhas de produção destinadas ao bloco europeu. Essa mudança pode pressionar margens, contratos e planejamento logístico.

Além do impacto financeiro direto, há risco reputacional. Barreiras sanitárias impostas pela União Europeia costumam repercutir em outros mercados, mesmo quando não geram bloqueios automáticos. Por isso, exportadores tendem a pressionar por uma solução técnica antes da entrada em vigor da restrição.

O governo, por sua vez, tentará evitar que a medida se transforme em um contencioso comercial mais amplo. A estratégia inicial será buscar esclarecimentos, apresentar garantias sanitárias e tentar recolocar o Brasil na lista de países autorizados.

Decisão coloca agronegócio brasileiro sob novo escrutínio

A reação do governo Lula mostra que o veto da União Europeia será tratado como prioridade diplomática e econômica. O bloqueio ameaça um mercado tradicional para o agronegócio brasileiro e ocorre em um momento de maior cobrança internacional por rastreabilidade, controle sanitário e equivalência regulatória.

A disputa também expõe um desafio estrutural do setor. O Brasil é líder global em proteínas de origem animal, mas enfrenta exigências cada vez mais rigorosas em mercados desenvolvidos. Competitividade de preço e escala de produção já não são suficientes para garantir acesso a compradores de maior valor agregado.

Até setembro, governo e setor privado terão de demonstrar que a cadeia exportadora cumpre as normas europeias sobre antimicrobianos. O resultado das negociações com Bruxelas indicará se o episódio será contido como uma divergência técnica ou se se tornará uma nova barreira comercial para carnes e produtos de origem animal do Brasil.

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