Fernando Haddad (PT), candidato ao governo de São Paulo, apresentou nesta segunda-feira (10) um plano de segurança pública que combina o uso de inteligência artificial na prevenção e investigação de crimes com a criação de uma estrutura permanente para enfrentar financeiramente as organizações criminosas. Entre as principais propostas estão uma Agência Estadual Antifacção, a integração de câmeras de monitoramento com chamadas ao 190 e boletins de ocorrência, além da divulgação periódica de indicadores sobre a capacidade das forças policiais de esclarecer crimes.
Batizado de SP Que Protege, o programa organiza as propostas em três grandes frentes, voltadas ao policiamento e à proteção das ruas, ao atendimento de pessoas vulneráveis dentro de suas casas e ao enfrentamento das estruturas econômicas utilizadas por organizações criminosas. A estratégia procura combinar ações tradicionais de segurança, como policiamento ostensivo e investigação, com instrumentos de inteligência financeira, análise de dados e maior integração entre diferentes órgãos públicos.
Um dos principais eixos prevê a criação de uma estrutura permanente de inteligência dedicada às facções criminosas, reunindo forças policiais, Ministério Público, Receita Estadual e órgãos de fiscalização e controle. A intenção declarada é ampliar o alcance das investigações para além dos integrantes diretamente envolvidos nas atividades criminosas, buscando atingir patrimônio, empresas, fluxos financeiros e estruturas utilizadas para inserir recursos ilícitos na economia formal.
Na área de tecnologia, Haddad propõe que sistemas de inteligência artificial cruzem dados provenientes das câmeras de monitoramento, dos boletins de ocorrência e das ligações feitas ao 190. A ferramenta seria utilizada tanto para orientar o posicionamento das equipes policiais quanto para relacionar crimes aparentemente independentes, permitindo que sequências de roubos ou furtos com características semelhantes sejam analisadas como parte de uma mesma investigação.
O programa também prevê a adoção de câmeras corporais com gravação contínua durante o serviço policial, a criação de metas públicas para o esclarecimento de crimes e medidas específicas para mulheres, crianças e idosos. No interior do Estado, a proposta concentra esforços no combate a roubos de cargas e crimes contra propriedades rurais, enquanto o Porto de Santos receberia uma força-tarefa permanente destinada a enfrentar o tráfico transnacional e outras atividades relacionadas ao crime organizado.
Agência Antifacção mira patrimônio e estrutura financeira das organizações criminosas
A Agência Estadual Antifacção aparece como uma das principais novidades institucionais do programa apresentado por Haddad. A proposta prevê reunir, de forma permanente, diferentes órgãos com atribuições de investigação, inteligência, fiscalização e controle, estabelecendo uma estrutura de cooperação destinada especificamente a identificar e desarticular organizações criminosas que atuam no Estado.
Em vez de concentrar a atuação apenas na prisão dos integrantes dessas organizações, o plano pretende ampliar o foco sobre a estrutura econômica que permite a continuidade das atividades criminosas. Isso significa rastrear patrimônio, identificar movimentações financeiras suspeitas, localizar empresas utilizadas para ocultação de recursos e bloquear mecanismos empregados para transformar dinheiro de origem ilícita em ativos aparentemente regulares.
O programa também prevê que bens definitivamente confiscados das organizações criminosas possam receber destinação social, respeitados os procedimentos legais necessários para a perda patrimonial. A medida procura incorporar ao enfrentamento das facções uma lógica semelhante à adotada em grandes investigações financeiras, nas quais a retirada da capacidade econômica da organização é tratada como parte fundamental da repressão ao crime.
Uma das referências citadas pelo plano é a Operação Carbono Oculto, desencadeada em 2025 por órgãos como Receita Federal, Ministério Público e forças policiais para investigar uma estrutura suspeita de movimentar recursos ilícitos por meio de empresas e operações ligadas ao setor de combustíveis. O caso ganhou relevância justamente por demonstrar como organizações criminosas podem ultrapassar atividades ilegais mais visíveis e estabelecer conexões com negócios formalmente constituídos.
Ao utilizar esse modelo como referência, Haddad procura incorporar à política estadual de segurança uma atuação mais concentrada na inteligência financeira, área que depende de troca de informações entre diferentes instituições e, em determinados casos, de cooperação entre autoridades estaduais e federais.
Inteligência artificial seria incorporada ao 190 e ao planejamento policial
Outro pilar do SP Que Protege é a utilização de inteligência artificial para transformar o grande volume de dados produzido diariamente pelo sistema de segurança pública em informações que possam orientar patrulhamento e investigação.
De acordo com o programa, registros de ocorrência, imagens de câmeras de monitoramento e chamadas realizadas ao 190 poderiam ser analisados conjuntamente para identificar padrões de criminalidade. A partir dessas informações, seria possível produzir mapas de calor capazes de indicar regiões, horários e circunstâncias em que determinadas modalidades de crime apresentam maior concentração.
A proposta é que essas informações deixem de ter apenas uma função estatística e passem a orientar de forma mais dinâmica a distribuição das equipes policiais. Regiões que apresentassem concentração recorrente de roubos, por exemplo, poderiam receber reforço de patrulhamento nos períodos em que os dados apontassem maior incidência das ocorrências.
A integração também chegaria ao atendimento das chamadas de emergência. Quando uma ocorrência fosse comunicada ao 190, o sistema poderia cruzar automaticamente a localização informada pelo cidadão com dados disponíveis nas câmeras e na estrutura de inteligência, auxiliando na identificação do local e na definição da viatura em melhores condições de atender à ocorrência.
A mesma tecnologia seria empregada posteriormente no trabalho investigativo, permitindo relacionar boletins registrados em locais ou datas diferentes quando existissem elementos em comum. Dessa forma, uma sequência de roubos cometidos com características semelhantes poderia deixar de ser tratada apenas como uma série de casos isolados e passar a integrar uma investigação mais ampla sobre os possíveis autores.
Placar da Segurança pretende medir capacidade de esclarecer crimes
Haddad também propõe criar o chamado Placar da Segurança, mecanismo destinado a divulgar periodicamente indicadores sobre a capacidade das forças policiais de esclarecer crimes registrados em São Paulo. A proposta prevê a publicação trimestral de dados sobre roubos, furtos, homicídios e feminicídios, com informações divididas por região e acompanhadas de metas públicas.
O objetivo é acrescentar uma nova dimensão ao acompanhamento da política de segurança. Atualmente, grande parte do debate público se concentra no aumento ou na redução do número de ocorrências, mas esse indicador, isoladamente, não demonstra quantos crimes tiveram seus responsáveis identificados nem quantas investigações produziram elementos suficientes para permitir a responsabilização dos autores.
Ao incorporar índices de esclarecimento, a administração estadual passaria a ser cobrada não somente pela quantidade de crimes registrados, mas também pela capacidade investigativa das instituições responsáveis por solucioná-los. O modelo poderia permitir, por exemplo, a comparação entre regiões com números semelhantes de ocorrências, mas níveis muito diferentes de identificação dos responsáveis.
A divulgação trimestral também permitiria acompanhar a evolução desses indicadores ao longo do mandato e verificar se alterações na política de segurança, investimentos tecnológicos ou mudanças nas estruturas policiais estariam efetivamente produzindo resultados.
Roubo e furto de celular entram no foco da estratégia
O combate aos roubos e furtos de celulares aparece entre os problemas que Haddad pretende enfrentar por meio da combinação de análise de dados, patrulhamento direcionado e investigação integrada. A elevada circulação dos aparelhos e a existência de mercados de receptação tornam essa modalidade de crime especialmente adequada a estratégias baseadas na identificação de padrões.
São Paulo dispõe de uma extensa base de registros policiais que permite acompanhar a distribuição territorial dessas ocorrências, identificar horários de maior incidência e observar a repetição de determinados padrões. A proposta é utilizar tecnologia para transformar essas informações em instrumento operacional, permitindo que o policiamento seja direcionado para os locais e períodos em que o risco é maior.
O plano também procura ampliar o foco sobre a cadeia econômica que sustenta esse tipo de crime. A existência de compradores e redes de receptação cria demanda pelos produtos roubados e, consequentemente, mantém o incentivo financeiro para novas ocorrências, o que significa que o enfrentamento não depende apenas da prisão de quem realiza diretamente o furto ou o roubo.
Ao relacionar ocorrências semelhantes e rastrear o destino dos aparelhos, a estratégia pretende aumentar as possibilidades de alcançar grupos responsáveis por sucessivos crimes e também as estruturas utilizadas posteriormente para comercializar os produtos.
Mulheres, crianças e idosos terão mecanismos específicos de proteção
O segundo grande eixo do SP Que Protege concentra propostas direcionadas às pessoas consideradas mais vulneráveis a determinadas formas de violência, especialmente mulheres, crianças, adolescentes e idosos. Nesse segmento, o programa combina atendimento especializado com ferramentas destinadas a identificar situações em que existe risco de agravamento da violência.
Para as mulheres, Haddad propõe fortalecer a atuação das Delegacias de Defesa da Mulher e aprimorar os mecanismos utilizados para classificar e acompanhar os casos registrados. Uma plataforma apoiada por inteligência artificial seria utilizada para relacionar informações provenientes de diferentes áreas e identificar situações em que o histórico disponível indique maior possibilidade de escalada da violência.
A proposta parte da premissa de que episódios graves frequentemente são precedidos por denúncias, ameaças, medidas protetivas ou outros registros que, quando analisados de forma conjunta, podem indicar aumento do risco. O desafio para a implementação de um sistema dessa natureza estaria em transformar esses dados em instrumentos de prevenção sem substituir a avaliação profissional dos agentes responsáveis nem comprometer as garantias relacionadas à proteção de informações pessoais.
Para crianças e adolescentes vítimas de violência, o plano prevê atendimento especializado e realização de prova pericial em até 48 horas, buscando reduzir a demora na produção de elementos essenciais para a investigação. No caso dos idosos, a proposta é criar um canal específico de denúncia que permita não apenas registrar o episódio, mas acompanhar posteriormente as providências adotadas.
Interior terá estratégia voltada a corredores logísticos e crimes rurais
No interior paulista, o programa procura adaptar a política de segurança às características econômicas e geográficas das diferentes regiões do Estado. Uma das principais propostas é estruturar de forma permanente o patrulhamento dos corredores logísticos utilizados para o transporte de cargas, mercadorias e insumos.
Além do roubo de cargas, o plano cita crimes que atingem diretamente propriedades rurais, como furto de gado, máquinas agrícolas, defensivos e outros insumos. A estratégia prevê que a atuação policial não se limite aos responsáveis pela subtração dos produtos, mas alcance também as estruturas de receptação que viabilizam sua posterior comercialização.
A articulação com Estados vizinhos também aparece como parte da proposta, especialmente nas regiões próximas às divisas. A circulação entre diferentes territórios pode facilitar rotas de fuga, transporte de mercadorias roubadas e atuação de grupos que não permanecem restritos a uma única jurisdição, o que torna necessária a cooperação entre diferentes forças de segurança.
Esse desenho procura inserir a segurança rural dentro de uma estratégia mais ampla de proteção da atividade econômica, principalmente em áreas onde a produção agropecuária, o transporte rodoviário e os corredores de distribuição exercem papel relevante na economia regional.
Porto de Santos teria força-tarefa permanente contra tráfico transnacional
O Porto de Santos ocupa uma posição específica no programa por sua importância para o comércio exterior brasileiro e pelo risco de utilização da estrutura logística por organizações envolvidas em crimes de alcance internacional.
A proposta de Haddad é estabelecer uma força-tarefa permanente reunindo o governo paulista, a futura Agência Estadual Antifacção, Receita Federal, Polícia Federal, autoridade portuária e Marinha. Em vez de uma mobilização formada apenas em momentos de operações específicas, o plano prevê uma estrutura permanente de cooperação, com mandato e recursos destinados ao enfrentamento de organizações que utilizem o complexo portuário para movimentar produtos ilícitos.
A atuação conjunta seria direcionada principalmente ao tráfico transnacional e a crimes associados à utilização da infraestrutura portuária, atividade que exige integração porque envolve competências distribuídas entre diferentes esferas do poder público. Enquanto as forças estaduais possuem atribuições relacionadas à segurança pública dentro do território paulista, fiscalização aduaneira, controle de fronteiras e determinadas investigações criminais pertencem à esfera federal.
A criação de uma estrutura contínua de cooperação busca reduzir justamente os espaços existentes entre essas diferentes competências, permitindo que informações produzidas por um órgão sejam aproveitadas de forma mais rápida pelos demais.
Plano prevê valorização profissional das forças de segurança
O programa apresentado por Haddad também incorpora propostas relacionadas à carreira dos profissionais de segurança pública, partindo do entendimento de que investimentos em tecnologia e inteligência não produzem os resultados esperados quando não são acompanhados por políticas de formação, remuneração e progressão profissional.
Entre as medidas apresentadas está a criação de um plano de carreira estruturado, com valorização salarial e promoções baseadas em critérios profissionais. A proposta pretende inserir o desenvolvimento funcional dos policiais dentro de uma política mais ampla de melhoria do serviço prestado à população.
A administração também pretende relacionar a modernização tecnológica à formação dos agentes, uma vez que sistemas baseados em análise de dados e inteligência artificial exigem capacidade técnica para interpretação das informações produzidas. Nesse modelo, a tecnologia funcionaria como instrumento de apoio à decisão policial, e não como substituição do trabalho realizado pelos profissionais de segurança.
A forma concreta de implementação dessas mudanças, entretanto, dependeria de decisões orçamentárias e administrativas, além das regras específicas aplicáveis às carreiras estaduais.
Câmeras corporais voltariam a operar com gravação contínua
Outro ponto que deve ganhar relevância na disputa eleitoral é o modelo de utilização das câmeras corporais pelas forças policiais. Haddad defende que os equipamentos realizem gravação contínua durante o período em que os agentes estiverem em serviço nas ruas, sem depender exclusivamente de acionamento individual.
O debate sobre as câmeras ganhou força em São Paulo depois da implantação dos equipamentos em unidades da Polícia Militar e passou a envolver questões relacionadas à redução da letalidade, proteção dos agentes, transparência das abordagens e utilização das imagens em investigações.
Relatórios produzidos por órgãos públicos paulistas ao longo dos últimos anos apontaram mudanças relevantes nos indicadores de batalhões que adotaram os equipamentos, embora a efetividade da tecnologia também dependa das regras utilizadas para gravação, armazenamento e acesso ao material produzido.
Ao defender a gravação contínua, Haddad procura reduzir o risco de que justamente o momento mais relevante de determinada abordagem fique sem registro porque o equipamento não foi acionado. Ao mesmo tempo, as imagens podem funcionar como elemento de proteção para o próprio policial quando houver questionamentos posteriores sobre a forma como determinada ocorrência foi conduzida.
Segurança passa ao centro da disputa pelo governo de São Paulo
A apresentação do SP Que Protege formaliza a tentativa de Haddad de colocar a segurança pública entre os principais temas de sua campanha ao Palácio dos Bandeirantes, entrando diretamente em um campo que tradicionalmente ocupa posição relevante no discurso eleitoral de candidatos de centro-direita e direita em São Paulo.
O assunto já havia ocupado espaço no debate entre Haddad e o atual governador e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e deverá permanecer entre os principais pontos de confronto ao longo da campanha. Ao apresentar um programa que combina repressão financeira às facções, tecnologia, metas de investigação, proteção de grupos vulneráveis e valorização das forças policiais, o petista procura ampliar sua presença em uma área historicamente sensível para o eleitor paulista.
A implementação das propostas, caso Haddad seja eleito, dependeria de instrumentos diferentes conforme cada medida. Algumas iniciativas poderiam avançar por decisões administrativas do próprio governo, enquanto outras exigiriam previsão orçamentária, alterações na estrutura do Estado, regulamentação específica ou negociação com instituições que possuem autonomia funcional.
A criação da Agência Estadual Antifacção, por exemplo, exigiria uma definição precisa de suas atribuições para evitar conflitos ou sobreposição com competências já exercidas pelas polícias, Ministério Público e órgãos federais. A integração tecnológica também precisaria estabelecer regras claras sobre acesso a informações, proteção de dados, armazenamento de imagens e utilização dos elementos produzidos durante investigações.
Com o lançamento do programa, a discussão sobre segurança pública entra em uma nova etapa da campanha paulista. A partir de agora, o debate tende a se deslocar da apresentação individual de propostas para a comparação entre os modelos defendidos pelos candidatos, especialmente em temas como combate às facções, índices de criminalidade, capacidade de investigação, câmeras corporais, remuneração policial e uso de novas tecnologias.








