A IG4 Capital entrou no centro de duas das maiores reestruturações financeiras do mercado brasileiro ao assumir o co-controle da Braskem (BRKM5) e apresentar uma proposta para adquirir dívidas da Raízen (RAIZ4), companhias que acumulam aproximadamente R$ 127 bilhões, ou US$ 25 bilhões, em obrigações financeiras. A ofensiva coloca a gestora diante de um desafio de escala inédita em sua trajetória e pode alterar a estrutura de controle de dois grupos estratégicos para a indústria, a energia e o agronegócio nacional.
Na Braskem (BRKM5), a IG4 concluiu a aquisição da participação anteriormente vinculada à Novonor e passou a compartilhar o controle da petroquímica com a Petrobras (PETR3; PETR4). A empresa precisa agora negociar com credores uma reorganização de seu passivo, após anos de prejuízos, elevada alavancagem, preços desfavoráveis no setor petroquímico e despesas associadas ao desastre ambiental provocado pela mineração de sal-gema em Maceió.
Na Raízen (RAIZ4), a operação ainda está em fase de negociação. A IG4 apresentou ofertas não vinculantes para comprar créditos detidos por bancos, fundos e outros investidores que participam da recuperação extrajudicial da companhia. O objetivo seria reunir dívida suficiente para, após a conversão de parte dos créditos em ações, alcançar participação superior a 50% e assumir o controle do grupo.
O acordo com os credores da Raízen não está garantido. A proposta dependerá das condições financeiras oferecidas pela IG4 e da disposição dos atuais detentores da dívida para vender suas posições. A gestora deverá avançar apenas se conseguir adquirir a maioria dos créditos que serão convertidos em capital.
Dívidas colocam gestora diante de desafio sem precedentes
As reestruturações de Braskem e Raízen representam um salto de escala para a IG4. A gestora construiu sua reputação ao adquirir empresas com problemas financeiros, negociar com credores e transformar dívida em participação societária.
A estratégia foi aplicada em companhias de saneamento, logística e infraestrutura, mas nunca havia envolvido simultaneamente duas empresas com passivos tão elevados, operações globais e importância sistêmica em suas respectivas cadeias produtivas.
A Braskem encerrou 2025 com dívida bruta próxima de US$ 9,4 bilhões, além de compromissos relacionados à subsidiária mexicana Braskem Idesa e ao passivo ambiental de Alagoas. A Raízen, por sua vez, colocou cerca de R$ 65 bilhões em créditos dentro de seu plano de recuperação extrajudicial.
Somadas, as obrigações das duas companhias superam R$ 120 bilhões. A dimensão dos números exige negociação com bancos brasileiros, investidores internacionais, detentores de títulos, fornecedores, acionistas e autoridades regulatórias.
A IG4 terá de preservar as operações das empresas enquanto tenta reduzir o peso financeiro dos passivos. O desafio envolve alongar vencimentos, diminuir despesas com juros, reforçar a liquidez e recuperar a capacidade de investimento.
Braskem precisa de acordo antes de vencimentos em julho
A situação mais imediata está na Braskem (BRKM5). A petroquímica busca obter apoio de pelo menos um terço dos credores para iniciar formalmente uma recuperação extrajudicial.
O plano discutido prevê alongamento dos vencimentos, redução temporária do pagamento de juros e períodos adicionais de carência. A proposta inicial não inclui conversão da dívida em ações nem aporte imediato de capital pelos acionistas.
Credores, porém, demonstram resistência a alguns pontos. Entre as preocupações estão o tratamento concedido às diferentes classes de dívida, as garantias oferecidas e a ausência de uma injeção de recursos pelos controladores.
A empresa enfrenta pagamentos relevantes previstos para julho, incluindo obrigações em moeda estrangeira. Sem uma adesão suficiente, a Braskem poderá considerar medidas judiciais destinadas a proteger o caixa e suspender temporariamente a cobrança dos débitos.
A recuperação extrajudicial depende de negociação direta com os credores e posterior homologação judicial. O mecanismo permite reestruturar determinadas classes de dívida sem interromper as atividades da companhia.
Para a IG4, obter apoio rapidamente será fundamental. Quanto maior a incerteza, maior o risco de fornecedores exigirem condições mais duras, clientes reduzirem exposição e instituições financeiras restringirem novas linhas.
Petrobras divide controle e assume papel operacional
A nova estrutura de governança da Braskem coloca IG4 e Petrobras (PETR3; PETR4) como co-controladoras.
A Petrobras possui 47% das ações ordinárias da petroquímica e cerca de 36% do capital total. A participação adquirida pela IG4 corresponde às ações anteriormente controladas pela Novonor e dadas em garantia a bancos credores.
Pelo desenho em discussão, a Petrobras deverá concentrar sua atuação nas questões industriais e operacionais, enquanto a IG4 liderará as negociações financeiras e a relação com os credores.
A estatal também passou a ter maior influência sobre o conselho de administração. A cooperação entre os novos controladores será decisiva porque a reestruturação exige consenso sobre capitalização, venda de ativos, investimentos e estratégia de longo prazo.
Para a Petrobras, a Braskem é um ativo relevante na cadeia petroquímica. A companhia fornece matérias-primas e mantém integração industrial com a empresa, além de possuir participação societária histórica.
A estatal, contudo, também precisa avaliar o risco de realizar aportes adicionais em uma companhia altamente endividada e com passivos ambientais expressivos. Qualquer decisão de capitalização poderá gerar questionamentos de investidores e órgãos de controle.
Desastre em Maceió continua pressionando a petroquímica
Além da dívida financeira, a Braskem enfrenta os efeitos do afundamento do solo em bairros de Maceió, associado à exploração de sal-gema realizada pela companhia.
O desastre levou à desocupação de milhares de imóveis, acordos com moradores, despesas de compensação e investimentos para estabilizar as minas. Os custos acumulados retiraram recursos do caixa em um período de margens reduzidas no mercado petroquímico.
A companhia também foi afetada por anos de excesso de oferta global de resinas e produtos químicos, especialmente após a expansão da capacidade produtiva na Ásia e nos Estados Unidos.
O aumento da competição pressionou preços e spreads petroquímicos, reduzindo a geração operacional de caixa. Ao mesmo tempo, os juros elevados encareceram o serviço da dívida.
Uma recuperação dos preços internacionais pode melhorar as perspectivas operacionais, mas não elimina a necessidade de reorganizar o passivo.
A IG4 terá de equilibrar os compromissos ambientais, a manutenção das fábricas e as demandas dos credores. Reduzir investimentos de forma excessiva poderia comprometer segurança, competitividade e capacidade produtiva.
Raízen conduz maior recuperação extrajudicial do país
Na Raízen (RAIZ4), a IG4 tenta entrar em uma reestruturação ainda maior em valor nominal.
A produtora de açúcar, etanol e energia apresentou um plano para reorganizar aproximadamente R$ 65 bilhões em créditos. A operação foi classificada como a maior recuperação extrajudicial já proposta no Brasil.
O plano prevê que parte relevante da dívida seja convertida em ações. Aproximadamente 45% dos créditos incluídos poderão ser transformados em cerca de 80% do capital da empresa, dependendo da execução final e das escolhas dos credores.
A Shell e a Cosan (CSAN3), atuais controladoras, sofreriam forte diluição. Os credores passariam a deter a maior parcela das ações, alterando profundamente a governança da companhia.
A IG4 pretende comprar créditos antes ou durante esse processo. Ao reunir mais de metade da dívida que será convertida em capital, a gestora poderia terminar a reestruturação como acionista controladora.
A proposta foi encaminhada a assessores dos credores, mas permanece não vinculante. Não existe, até o momento, garantia de que os bancos e investidores aceitarão vender suas posições.
Oferta depende do preço exigido pelos credores
A estratégia da IG4 na Raízen depende essencialmente do preço dos créditos.
Dívidas de empresas em recuperação são frequentemente negociadas com desconto em relação ao valor de face. O comprador assume o risco de receber menos, esperar vários anos ou converter os créditos em ações de uma companhia ainda fragilizada.
Os credores da Raízen aceitaram a possibilidade de conversão porque as alternativas disponíveis eram limitadas. Muitos, porém, podem não desejar permanecer como acionistas depois da reestruturação.
Esse cenário abre espaço para a IG4, especializada em assumir controle de empresas em dificuldades. A gestora pode oferecer liquidez imediata aos credores em troca de participação potencialmente majoritária.
O sucesso da proposta dependerá do desconto solicitado, das perspectivas de recuperação da Raízen e dos direitos atribuídos aos novos acionistas.
Se os credores considerarem que as ações poderão se valorizar depois da reorganização, poderão exigir preço maior. Se priorizarem a saída imediata, a IG4 terá maior poder de negociação.
Raízen acumulou dívida após ciclo de expansão
A crise da Raízen (RAIZ4) foi construída ao longo de um período de investimentos elevados, aquisições, expansão de capacidade e deterioração das condições financeiras.
A companhia atua na produção de açúcar, etanol, bioenergia e distribuição de combustíveis. O grupo também opera uma extensa rede de postos e possui presença internacional.
A expansão exigiu grandes volumes de capital. Ao mesmo tempo, juros elevados, custos agrícolas, oscilações nos preços das commodities e desempenho mais fraco de alguns ativos pressionaram o caixa.
A empresa iniciou um programa de venda de ativos para reduzir a alavancagem. Entre as transações estão operações internacionais e negócios considerados menos estratégicos.
A recuperação extrajudicial busca dar tempo para que a Raízen ajuste seu portfólio, reduza despesas e preserve as atividades operacionais. A conversão de dívida em ações diminui a obrigação financeira, mas dilui os atuais acionistas.
Para a IG4, o potencial está na qualidade dos ativos. A Raízen possui usinas, terras, infraestrutura logística, marcas, distribuição de combustíveis e capacidade relevante de produção de açúcar e etanol.
Gestora construiu modelo baseado em empresas problemáticas
A IG4 foi criada há cerca de dez anos por quatro especialistas em reestruturação financeira. A gestora administra aproximadamente US$ 4,8 bilhões entre capital e dívida e possui operações no Brasil, Chile e Peru.
Seu modelo consiste em adquirir controle ou controle compartilhado de empresas com ativos estratégicos, mas que enfrentam problemas de governança, dívida ou operação.
A companhia evita, em geral, negócios com poucos ativos físicos e baixa capacidade de recuperação. A preferência recai sobre infraestrutura, saneamento, logística, indústria e energia.
Um dos primeiros casos relevantes foi a CAB Ambiental, empresa de saneamento que entrou em recuperação judicial. A IG4 comprou créditos junto aos bancos, converteu dívida em capital e assumiu o controle.
A companhia foi reorganizada e passou a se chamar Iguá Saneamento. Posteriormente, atraiu investidores institucionais e ampliou sua presença em concessões de água e esgoto.
A experiência formou a base do modelo que agora será testado em escala muito maior na Braskem e, possivelmente, na Raízen.
Reestruturação da CLI consolidou histórico da IG4
Outro caso citado pela gestora é o da Corredor Logística e Infraestrutura, a CLI.
A IG4 adquiriu a empresa em dificuldades em 2020, em uma operação de aproximadamente US$ 240 milhões, incluindo dívidas. A companhia foi reorganizada e recebeu posteriormente investimento da Macquarie Asset Management.
Em junho, IG4 e Macquarie fecharam acordo para vender a CLI ao grupo AD Ports, de Abu Dhabi, em uma transação avaliada em US$ 835 milhões.
A operação reforçou a reputação da gestora em ativos de infraestrutura e demonstrou capacidade de recuperar valor em empresas endividadas.
Braskem e Raízen, porém, representam uma complexidade diferente. Ambas possuem milhares de funcionários, operações internacionais, grande número de credores e relevância para cadeias estratégicas.
A Braskem está exposta à indústria petroquímica global e a passivos ambientais. A Raízen depende de safras agrícolas, preços de combustíveis, açúcar, etanol e decisões regulatórias.
Estratégia pode transformar IG4 em gestora global
A entrada na Braskem também faz parte do plano de internacionalização da IG4.
A petroquímica possui operações no Brasil, México, Estados Unidos e Europa, além de clientes em dezenas de países. Assumir posição de controle exige capacidade de negociação com credores e autoridades em diferentes jurisdições.
A gestora mantém escritórios em São Paulo, Miami, Madri e Londres e avalia ativos problemáticos em outros mercados.
Entre as oportunidades analisadas estão dívidas de produtores de energia solar e ativos imobiliários na Espanha. A IG4 também demonstrou interesse em situações complexas de infraestrutura no Reino Unido.
A companhia captou recentemente US$ 400 milhões para seu terceiro fundo voltado à América Latina, levando o total arrecadado para a estratégia a US$ 1,2 bilhão.
O resultado das operações brasileiras poderá influenciar sua capacidade de captar novos recursos no exterior. Uma recuperação bem-sucedida da Braskem ou da Raízen colocaria a IG4 entre as gestoras de situações especiais mais relevantes de mercados emergentes.
Credores questionam capital e divisão de riscos
O ponto central das duas reestruturações é a divisão de riscos entre acionistas e credores.
Na Braskem, investidores em dívida questionam por que deveriam aceitar prazos maiores e pagamentos menores sem um aporte significativo dos controladores.
A ausência de capital novo pode fazer com que os credores assumam a maior parte do esforço financeiro, enquanto IG4 e Petrobras preservam suas participações.
Na Raízen, a conversão de dívida em ações transfere parte substancial do controle aos credores. A entrada da IG4 poderia oferecer uma saída, mas também concentraria o poder em um investidor especializado em reestruturações.
Os atuais acionistas poderão ser fortemente diluídos. Para os credores, a decisão envolve comparar o valor oferecido pela IG4 com o potencial de recuperação das ações no longo prazo.
A negociação deverá definir governança, direitos de voto, composição do conselho, prioridade no recebimento e condições para futuras vendas de participação.
Desafio pode redefinir Braskem, Raízen e a própria IG4
A IG4 chega aos dois casos com histórico de recuperação de empresas, mas enfrenta agora um teste de proporções inéditas.
Na Braskem (BRKM5), a gestora já assumiu responsabilidade direta pela governança e pela negociação com credores. A urgência está nos vencimentos próximos e na necessidade de preservar liquidez.
Na Raízen (RAIZ4), a operação ainda depende da adesão dos credores e da construção de uma oferta financeiramente atraente. A compra dos créditos pode transformar a gestora em controladora de uma das maiores empresas de açúcar, etanol e distribuição de combustíveis do mundo.
Para os acionistas, as reestruturações trazem risco elevado de diluição, volatilidade e mudanças profundas na estrutura de capital. Para os credores, oferecem a possibilidade de recuperar parte dos recursos, mas exigem concessões de prazo, valor ou participação societária.
O resultado também será decisivo para a reputação da IG4. Se conseguir reorganizar empresas com R$ 127 bilhões em dívidas combinadas, a gestora consolidará seu modelo e ampliará sua projeção internacional.
Se as negociações fracassarem, os casos poderão avançar para medidas judiciais mais severas, aumentar perdas para investidores e comprometer ativos estratégicos da economia brasileira.
A experiência acumulada em saneamento e logística fornece uma base, mas Braskem e Raízen colocam a IG4 em outro patamar. A gestora que construiu sua marca assumindo problemas terá agora de demonstrar que consegue resolver dois dos maiores do mercado brasileiro.









