WASHINGTON — O avanço da inteligência artificial está ampliando a preocupação dos trabalhadores americanos com o futuro do mercado de trabalho. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada nesta quarta-feira (10) mostra que 53% dos norte-americanos acreditam que a tecnologia pode deixar eles próprios ou alguém de suas famílias sem emprego nos próximos anos, refletindo uma crescente percepção de risco associada à automação.
O levantamento, realizado com 4.531 adultos em todo o país, indica que o receio em relação à inteligência artificial se tornou um fenômeno disseminado entre diferentes grupos sociais, políticos e educacionais. Os dados surgem em um momento de forte expansão dos investimentos corporativos em IA, impulsionados principalmente pelas gigantes de tecnologia dos Estados Unidos.
A pesquisa reforça um debate que ganha espaço nos mercados, nas empresas e nos governos: até que ponto a inteligência artificial será capaz de substituir atividades atualmente realizadas por profissionais humanos e quais serão os efeitos econômicos dessa transformação.
Segundo a Reuters/Ipsos, 37% dos entrevistados afirmaram não se preocupar com a possibilidade de perda de empregos relacionada à tecnologia, enquanto os demais disseram estar indecisos ou preferiram não responder.
A análise dos dados mostra que a preocupação ultrapassa setores tradicionalmente expostos à automação e alcança profissionais qualificados, trabalhadores de serviços e empregados de áreas administrativas.
Inteligência artificial deixa de ser tendência e passa a influenciar decisões corporativas
A inteligência artificial tornou-se um dos principais motores de transformação dos negócios globais desde o lançamento do ChatGPT, da OpenAI, em 2022.
A partir daquele momento, empresas de diversos setores passaram a acelerar investimentos em ferramentas capazes de automatizar tarefas, produzir conteúdo, analisar grandes volumes de dados e aumentar a produtividade operacional.
O movimento abriu uma nova corrida tecnológica envolvendo companhias como OpenAI, Anthropic, Microsoft, Google e Meta, ao mesmo tempo em que levantou questionamentos sobre os impactos da automação sobre o emprego.
Nos últimos meses, empresas americanas anunciaram programas de reorganização interna e redução de custos vinculados à adoção de sistemas baseados em inteligência artificial.
Entre os casos mais emblemáticos está o da Intuit, desenvolvedora de software que informou recentemente a redução de aproximadamente 17% de sua força de trabalho global enquanto ampliava investimentos em iniciativas relacionadas à IA.
Embora especialistas alertem que ainda é cedo para medir o efeito líquido da tecnologia sobre o emprego, episódios como esse alimentam a percepção de que algumas funções poderão ser significativamente transformadas.
Democratas demonstram maior preocupação que republicanos
A pesquisa identificou diferenças relevantes na forma como os grupos políticos enxergam os riscos associados à inteligência artificial.
Entre os eleitores democratas, 61% afirmaram estar preocupados com a possibilidade de a tecnologia afetar empregos dentro de suas famílias.
Entre os republicanos, o percentual ficou em 47%.
Analistas atribuem parte dessa diferença ao perfil educacional das bases eleitorais. O Partido Democrata reúne maior concentração de profissionais com ensino superior, enquanto os republicanos ampliaram sua presença entre trabalhadores da classe média e da classe trabalhadora nos últimos anos.
Apesar dessa diferença, o receio em relação à inteligência artificial aparece em praticamente todos os segmentos pesquisados.
A margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Profissionais qualificados usam mais IA e também demonstram receio
Um dos resultados mais relevantes da pesquisa envolve a relação entre escolaridade e uso da tecnologia.
Entre os entrevistados com diploma universitário, 50% afirmaram utilizar ferramentas de inteligência artificial regularmente.
Entre aqueles sem formação superior, o índice caiu para 34%.
Na média geral, 40% dos americanos disseram fazer uso frequente de recursos de IA.
O dado sugere que os profissionais mais próximos da tecnologia também são aqueles que melhor compreendem seu potencial de transformação do ambiente corporativo.
Para economistas e especialistas em mercado de trabalho, a nova geração de sistemas de inteligência artificial apresenta uma característica diferente das revoluções tecnológicas anteriores: sua capacidade de executar atividades cognitivas complexas.
Essa mudança amplia o alcance da automação para áreas tradicionalmente ocupadas por profissionais altamente qualificados.
Preocupação cresce desde 2023
A pesquisa Reuters/Ipsos mostra ainda que a preocupação com a inteligência artificial aumentou nos últimos três anos.
Segundo o levantamento, 73% dos entrevistados afirmam estar preocupados com o crescimento do uso da tecnologia.
Em pesquisa semelhante realizada em 2023, esse percentual era de 68%.
A evolução sugere que o avanço da inteligência artificial vem ampliando dúvidas sobre privacidade, segurança digital, desinformação, uso político da tecnologia e impactos sobre o emprego.
O tema passou a ocupar espaço permanente nas discussões regulatórias dos Estados Unidos, da União Europeia e de outros mercados desenvolvidos.
Além das questões econômicas, líderes políticos, especialistas e autoridades religiosas vêm alertando para os desafios éticos associados à rápida disseminação da tecnologia.
Mercado de trabalho segue resiliente, mas debate sobre automação ganha força
Apesar do avanço da preocupação com a inteligência artificial, os indicadores recentes da economia americana continuam apontando um mercado de trabalho relativamente robusto.
A geração de empregos permanece positiva e a taxa de desemprego segue próxima de níveis historicamente baixos.
Ainda assim, economistas avaliam que o processo de transformação tecnológica poderá alterar significativamente a demanda por determinadas habilidades profissionais ao longo dos próximos anos.
Para empresas, a inteligência artificial representa uma oportunidade de aumento de produtividade e redução de custos operacionais.
Para trabalhadores, o desafio será acompanhar a velocidade das mudanças e desenvolver competências capazes de complementar as novas ferramentas tecnológicas.
Na avaliação da Gazeta Mercantil, os resultados da pesquisa Reuters/Ipsos evidenciam que a inteligência artificial já deixou de ser apenas uma aposta do setor de tecnologia para se tornar uma questão econômica, corporativa e social de primeira grandeza. O tema deve permanecer no centro das decisões de empresas, investidores e formuladores de políticas públicas à medida que a automação avança sobre novas áreas da atividade econômica.









