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Consignado privado responde por 82% da alta da inadimplência do Inter no 2º trimestre

Carteira quadruplicou em 12 meses e respondeu por 53 pontos-base da deterioração anual; banco atribui maior parte dos atrasos a problemas operacionais.

por João Souza
09/08/2026 às 18h32
em Empresas
Consignado Privado Responde Por 82% Da Alta Da Inadimplência Do Inter No 2º Trimestre - Gazeta Mercantil - Empresas

A expansão acelerada do crédito consignado para trabalhadores do setor privado tornou-se um dos principais pontos de atenção no balanço do Inter&Co (NASDAQ: INTR). A carteira alcançou R$ 2,8 bilhões no segundo trimestre de 2026, quatro vezes os aproximadamente R$ 700 milhões registrados 12 meses antes, mas o crescimento veio acompanhado de aumento relevante dos atrasos.

Dados divulgados pelo próprio Inter mostram que o consignado privado acrescentou 53 pontos-base à variação anual da inadimplência acima de 90 dias da carteira expandida. Outros efeitos combinados acrescentaram 12 pontos-base. Isso significa que, considerando a decomposição apresentada pela instituição, o produto respondeu por aproximadamente 82% do avanço anual do indicador.

Leia também: Ibovespa encerra semestre com maior alta desde 2016 e rivaliza com Bitcoin em 2025.

A situação chama atenção porque ocorre simultaneamente ao melhor resultado trimestral da história do banco digital. O Inter registrou lucro líquido recorde de R$ 421 milhões no segundo trimestre, avanço de 34% sobre os R$ 315 milhões registrados um ano antes, enquanto o retorno sobre o patrimônio, o ROE, chegou a 16,3%.

O contraste resume o principal dilema apresentado pelo balanço: o mesmo movimento de expansão do crédito que impulsiona receita e margem financeira também está elevando o custo de risco.

Leia também: Como Funciona o Empréstimo Consignado? Saiba Tudo.

Carteira de consignado privado quadruplicou em um ano

O Inter transformou o consignado privado em uma das principais frentes de expansão de sua operação de crédito.

A carteira passou de cerca de R$ 700 milhões para R$ 2,8 bilhões em apenas 12 meses. Na apresentação de resultados, a administração classifica o produto como escalável, de baixo custo operacional e respaldado por garantias, além de afirmar que ainda existe espaço significativo para crescimento.

A expansão ocorreu dentro de uma carteira de crédito que cresceu 29% na comparação anual.

Esse crescimento, entretanto, alterou o perfil de risco da instituição.

A inadimplência superior a 90 dias atingiu 5,3% da carteira de crédito bruta no segundo trimestre, contra 5,1% três meses antes. Quando considerada a carteira expandida, que incorpora determinados títulos privados, o indicador passou de aproximadamente 4,4% no segundo trimestre de 2025 para 5% agora.

Os atrasos entre 15 e 90 dias também aumentaram e chegaram a 4,8%.

O custo de risco avançou para 5,9%, enquanto o índice de cobertura ficou em 134%. Excluído o consignado privado, o próprio Inter calcula um custo de risco de aproximadamente 5,5%, evidenciando o peso adicional da nova carteira.

Inter aponta problema operacional na inadimplência

A interpretação da administração para a deterioração é importante.

O banco afirma que a maior parte dos atrasos observados no consignado privado decorre de problemas operacionais associados a um produto ainda recente, e não necessariamente de deterioração da capacidade financeira dos tomadores.

Segundo a apresentação oficial, um dos principais problemas ocorre quando o trabalhador deixa o empregador ao qual o desconto do empréstimo estava associado e passa a trabalhar para outra empresa.

Nesse intervalo, o desconto automático pode ser interrompido até que o empréstimo seja novamente associado ao novo vínculo empregatício. O Inter afirma que o processo de reconectar o trabalhador ao novo empregador ainda não está totalmente otimizado e permanece como a principal causa das interrupções de pagamento registradas na carteira.

A legislação do Crédito do Trabalhador prevê justamente que, se ainda existir saldo devedor após o desligamento, a dívida poderá ser paga pelo trabalhador, renegociada com a instituição financeira ou cobrada no próximo vínculo de emprego.

O desenho operacional, portanto, cria uma particularidade: uma dívida originalmente estruturada para ter pagamento automático pode temporariamente deixar de ter desconto em folha quando ocorre mudança de emprego.

Leia também: Carro voador da Embraer começa a transportar passageiros em 2028, prevê companhia

Governo admite que sistema ainda passa por amadurecimento

Documentos do Ministério do Trabalho e Emprego ajudam a explicar a complexidade operacional identificada pelo Inter.

O manual do programa estabelece que, mesmo em transferências entre empresas de um mesmo grupo econômico, a companhia que recebe o trabalhador somente deve começar a descontar o consignado depois que as informações do empréstimo estiverem disponíveis no Portal Emprega Brasil associadas ao novo CNPJ.

O próprio manual afirma que a regra foi adotada inicialmente para garantir segurança jurídica aos empregadores e registra que alterações operacionais poderão ser avaliadas conforme o amadurecimento da plataforma Crédito do Trabalhador.

Nas demissões, há outra camada de complexidade.

Desde junho de 2026, o programa passou a permitir a utilização de garantias vinculadas ao contrato. Entre elas estão até 10% do saldo do FGTS, até 100% da multa rescisória e parte das verbas rescisórias, dependendo das condições contratadas pelo trabalhador.

A nova estrutura tende a reduzir parte do risco econômico das instituições financeiras, mas não elimina os problemas de fluxo e registro que podem surgir entre o encerramento de um emprego e o início do próximo.

Consignado explicou a maior parte da piora anual

A apresentação de resultados do Inter torna possível medir o tamanho do efeito.

No segundo trimestre de 2025, a inadimplência acima de 90 dias considerada na ponte anual estava em aproximadamente 4,4%.

O consignado privado acrescentou 53 pontos-base ao indicador.

Todos os demais efeitos combinados acrescentaram outros 12 pontos-base.

O resultado levou a inadimplência para aproximadamente 5% na métrica utilizada nessa decomposição.

Assim, dos 65 pontos-base de deterioração demonstrados pelo banco, aproximadamente 81,5% vieram do consignado privado.

O número não significa que 82% de toda a inadimplência do Inter esteja concentrada no produto.

Significa que o consignado privado respondeu por aproximadamente 82% do aumento anual apresentado pelo banco nessa métrica específica de inadimplência.

A distinção é essencial para interpretar corretamente o balanço.

Banco reduz risco na concessão

Diante do comportamento da carteira, o Inter afirma ter adotado uma política mais seletiva.

Durante o segundo trimestre, a instituição passou a priorizar clientes considerados de melhor qualidade de crédito dentro do consignado privado. O objetivo é reduzir a entrada de novas operações com maior probabilidade de atraso enquanto os processos de cobrança e transferência entre empregadores são aperfeiçoados.

A instituição também informou que está reforçando a estrutura de cobrança.

Além disso, pretende introduzir um novo produto de seguro destinado à carteira ainda no terceiro trimestre. Segundo a administração, essas medidas devem contribuir para reduzir o custo de risco nos próximos meses.

O banco, entretanto, não sinalizou intenção de abandonar o segmento.

Ao contrário: na mensagem aos investidores, o CEO global João Vitor Menin classificou o consignado privado como uma oportunidade relevante de expansão e indicou que novos aprimoramentos ainda serão incorporados ao produto.

Produto aumenta risco, mas também eleva margem do Inter

Existe uma razão econômica para a disposição do banco em continuar crescendo nessa área.

O consignado privado foi um dos responsáveis pelo avanço da margem financeira no trimestre.

A chamada NIM 2.0, indicador utilizado pelo Inter para acompanhar sua margem financeira, atingiu 10,12%, superando pela primeira vez a marca de 10%. Um ano antes, estava em aproximadamente 9,07%.

Segundo o banco, o avanço foi impulsionado por três elementos principais: reajustes de preços, crescimento do consignado privado e maior receita de juros dos cartões de crédito.

Houve também um efeito positivo pontual relacionado ao hedge de IPCA.

O problema é que a expansão do consignado aumenta simultaneamente a necessidade de provisões.

Por isso, o Inter também acompanha a margem financeira ajustada pelo custo de risco, que ficou em 5,86% no trimestre. A própria instituição reconhece que a evolução dessa métrica é significativamente influenciada pelo crescimento do consignado privado e pelas provisões relacionadas à expansão do produto.

Cartão também pesa, mas por motivo diferente

O consignado não foi o único responsável pela deterioração dos indicadores de crédito.

A carteira de cartões remunerados por juros também cresceu.

O Inter afirma que essa expansão é consequência deliberada de sua estratégia de aumentar monetização, inclusive por meio de maior oferta de parcelamentos.

Segundo a instituição, a receita líquida de juros dessa carteira aumentou 64% em relação ao segundo trimestre de 2025. Ao mesmo tempo, o maior peso dessas operações contribuiu para o avanço da inadimplência e da formação de ativos classificados em estágio 3.

O banco também realizou uma mudança pontual em sua política de baixa de créditos de cartões durante o trimestre.

Essa alteração acrescentou aproximadamente 30 pontos-base ao indicador de inadimplência acima de 90 dias, mas, de acordo com o Inter, não produziu efeito sobre provisões nem sobre o custo de risco.

Lucro recorde reduz pressão imediata

Apesar da piora nos indicadores de crédito, o balanço apresentou melhora expressiva na rentabilidade.

O lucro líquido atingiu R$ 421 milhões, maior resultado trimestral já registrado pelo grupo. O ROE chegou a 16,3%, enquanto a receita líquida cresceu 31,7% em relação ao segundo trimestre do ano passado.

A instituição também informou ter ultrapassado R$ 100 bilhões em ativos e alcançado o que classifica como neutralidade de capital — situação em que o crescimento pode ser sustentado pela geração interna de lucros, sem necessidade recorrente de aportes adicionais.

No Banco Inter, o índice de Basileia terminou junho em 14,4%, ante 14% no trimestre anterior.

O índice de capital nível 1 passou de 12,1% para 12,7% no mesmo período. A holding ainda informou possuir aproximadamente R$ 2,3 bilhões de capital excedente fora do conglomerado prudencial do banco.

Consignado privado vira teste para expansão do crédito digital

Os próximos trimestres deverão mostrar se a deterioração observada é predominantemente operacional, como sustenta o Inter, ou se parte dela persistirá mesmo depois dos ajustes nos sistemas e nos mecanismos de cobrança.

Essa diferença é decisiva.

Se o problema estiver concentrado no processo de transferência entre vínculos empregatícios, a melhoria da integração entre bancos, empregadores, eSocial e Portal Emprega Brasil pode reduzir atrasos sem necessariamente exigir uma retração significativa da oferta de crédito.

Se a inadimplência permanecer elevada mesmo após esses ajustes, o desafio passa a ser econômico: preço do produto, seleção dos clientes, capacidade de pagamento e adequação das garantias.

O próprio programa governamental ainda está em evolução. As garantias envolvendo FGTS e verbas rescisórias ganharam novas funcionalidades operacionais em junho e julho de 2026, pouco antes do encerramento do segundo trimestre.

Para o Inter, o tamanho alcançado rapidamente pela carteira aumenta a importância dessa evolução.

Em apenas um ano, o consignado privado passou de R$ 700 milhões para R$ 2,8 bilhões e tornou-se responsável pela maior parcela da deterioração anual da inadimplência mostrada no balanço.

Ao mesmo tempo, ajuda a elevar a margem financeira e continua sendo tratado pela administração como um negócio economicamente atraente.

O desafio agora será provar que essas duas características podem coexistir: crescimento acelerado e risco controlado.

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