A expansão acelerada do crédito consignado para trabalhadores do setor privado tornou-se um dos principais pontos de atenção no balanço do Inter&Co (NASDAQ: INTR). A carteira alcançou R$ 2,8 bilhões no segundo trimestre de 2026, quatro vezes os aproximadamente R$ 700 milhões registrados 12 meses antes, mas o crescimento veio acompanhado de aumento relevante dos atrasos.
Dados divulgados pelo próprio Inter mostram que o consignado privado acrescentou 53 pontos-base à variação anual da inadimplência acima de 90 dias da carteira expandida. Outros efeitos combinados acrescentaram 12 pontos-base. Isso significa que, considerando a decomposição apresentada pela instituição, o produto respondeu por aproximadamente 82% do avanço anual do indicador.
A situação chama atenção porque ocorre simultaneamente ao melhor resultado trimestral da história do banco digital. O Inter registrou lucro líquido recorde de R$ 421 milhões no segundo trimestre, avanço de 34% sobre os R$ 315 milhões registrados um ano antes, enquanto o retorno sobre o patrimônio, o ROE, chegou a 16,3%.
O contraste resume o principal dilema apresentado pelo balanço: o mesmo movimento de expansão do crédito que impulsiona receita e margem financeira também está elevando o custo de risco.
Carteira de consignado privado quadruplicou em um ano
O Inter transformou o consignado privado em uma das principais frentes de expansão de sua operação de crédito.
A carteira passou de cerca de R$ 700 milhões para R$ 2,8 bilhões em apenas 12 meses. Na apresentação de resultados, a administração classifica o produto como escalável, de baixo custo operacional e respaldado por garantias, além de afirmar que ainda existe espaço significativo para crescimento.
A expansão ocorreu dentro de uma carteira de crédito que cresceu 29% na comparação anual.
Esse crescimento, entretanto, alterou o perfil de risco da instituição.
A inadimplência superior a 90 dias atingiu 5,3% da carteira de crédito bruta no segundo trimestre, contra 5,1% três meses antes. Quando considerada a carteira expandida, que incorpora determinados títulos privados, o indicador passou de aproximadamente 4,4% no segundo trimestre de 2025 para 5% agora.
Os atrasos entre 15 e 90 dias também aumentaram e chegaram a 4,8%.
O custo de risco avançou para 5,9%, enquanto o índice de cobertura ficou em 134%. Excluído o consignado privado, o próprio Inter calcula um custo de risco de aproximadamente 5,5%, evidenciando o peso adicional da nova carteira.
Inter aponta problema operacional na inadimplência
A interpretação da administração para a deterioração é importante.
O banco afirma que a maior parte dos atrasos observados no consignado privado decorre de problemas operacionais associados a um produto ainda recente, e não necessariamente de deterioração da capacidade financeira dos tomadores.
Segundo a apresentação oficial, um dos principais problemas ocorre quando o trabalhador deixa o empregador ao qual o desconto do empréstimo estava associado e passa a trabalhar para outra empresa.
Nesse intervalo, o desconto automático pode ser interrompido até que o empréstimo seja novamente associado ao novo vínculo empregatício. O Inter afirma que o processo de reconectar o trabalhador ao novo empregador ainda não está totalmente otimizado e permanece como a principal causa das interrupções de pagamento registradas na carteira.
A legislação do Crédito do Trabalhador prevê justamente que, se ainda existir saldo devedor após o desligamento, a dívida poderá ser paga pelo trabalhador, renegociada com a instituição financeira ou cobrada no próximo vínculo de emprego.
O desenho operacional, portanto, cria uma particularidade: uma dívida originalmente estruturada para ter pagamento automático pode temporariamente deixar de ter desconto em folha quando ocorre mudança de emprego.
Governo admite que sistema ainda passa por amadurecimento
Documentos do Ministério do Trabalho e Emprego ajudam a explicar a complexidade operacional identificada pelo Inter.
O manual do programa estabelece que, mesmo em transferências entre empresas de um mesmo grupo econômico, a companhia que recebe o trabalhador somente deve começar a descontar o consignado depois que as informações do empréstimo estiverem disponíveis no Portal Emprega Brasil associadas ao novo CNPJ.
O próprio manual afirma que a regra foi adotada inicialmente para garantir segurança jurídica aos empregadores e registra que alterações operacionais poderão ser avaliadas conforme o amadurecimento da plataforma Crédito do Trabalhador.
Nas demissões, há outra camada de complexidade.
Desde junho de 2026, o programa passou a permitir a utilização de garantias vinculadas ao contrato. Entre elas estão até 10% do saldo do FGTS, até 100% da multa rescisória e parte das verbas rescisórias, dependendo das condições contratadas pelo trabalhador.
A nova estrutura tende a reduzir parte do risco econômico das instituições financeiras, mas não elimina os problemas de fluxo e registro que podem surgir entre o encerramento de um emprego e o início do próximo.
Consignado explicou a maior parte da piora anual
A apresentação de resultados do Inter torna possível medir o tamanho do efeito.
No segundo trimestre de 2025, a inadimplência acima de 90 dias considerada na ponte anual estava em aproximadamente 4,4%.
O consignado privado acrescentou 53 pontos-base ao indicador.
Todos os demais efeitos combinados acrescentaram outros 12 pontos-base.
O resultado levou a inadimplência para aproximadamente 5% na métrica utilizada nessa decomposição.
Assim, dos 65 pontos-base de deterioração demonstrados pelo banco, aproximadamente 81,5% vieram do consignado privado.
O número não significa que 82% de toda a inadimplência do Inter esteja concentrada no produto.
Significa que o consignado privado respondeu por aproximadamente 82% do aumento anual apresentado pelo banco nessa métrica específica de inadimplência.
A distinção é essencial para interpretar corretamente o balanço.
Banco reduz risco na concessão
Diante do comportamento da carteira, o Inter afirma ter adotado uma política mais seletiva.
Durante o segundo trimestre, a instituição passou a priorizar clientes considerados de melhor qualidade de crédito dentro do consignado privado. O objetivo é reduzir a entrada de novas operações com maior probabilidade de atraso enquanto os processos de cobrança e transferência entre empregadores são aperfeiçoados.
A instituição também informou que está reforçando a estrutura de cobrança.
Além disso, pretende introduzir um novo produto de seguro destinado à carteira ainda no terceiro trimestre. Segundo a administração, essas medidas devem contribuir para reduzir o custo de risco nos próximos meses.
O banco, entretanto, não sinalizou intenção de abandonar o segmento.
Ao contrário: na mensagem aos investidores, o CEO global João Vitor Menin classificou o consignado privado como uma oportunidade relevante de expansão e indicou que novos aprimoramentos ainda serão incorporados ao produto.
Produto aumenta risco, mas também eleva margem do Inter
Existe uma razão econômica para a disposição do banco em continuar crescendo nessa área.
O consignado privado foi um dos responsáveis pelo avanço da margem financeira no trimestre.
A chamada NIM 2.0, indicador utilizado pelo Inter para acompanhar sua margem financeira, atingiu 10,12%, superando pela primeira vez a marca de 10%. Um ano antes, estava em aproximadamente 9,07%.
Segundo o banco, o avanço foi impulsionado por três elementos principais: reajustes de preços, crescimento do consignado privado e maior receita de juros dos cartões de crédito.
Houve também um efeito positivo pontual relacionado ao hedge de IPCA.
O problema é que a expansão do consignado aumenta simultaneamente a necessidade de provisões.
Por isso, o Inter também acompanha a margem financeira ajustada pelo custo de risco, que ficou em 5,86% no trimestre. A própria instituição reconhece que a evolução dessa métrica é significativamente influenciada pelo crescimento do consignado privado e pelas provisões relacionadas à expansão do produto.
Cartão também pesa, mas por motivo diferente
O consignado não foi o único responsável pela deterioração dos indicadores de crédito.
A carteira de cartões remunerados por juros também cresceu.
O Inter afirma que essa expansão é consequência deliberada de sua estratégia de aumentar monetização, inclusive por meio de maior oferta de parcelamentos.
Segundo a instituição, a receita líquida de juros dessa carteira aumentou 64% em relação ao segundo trimestre de 2025. Ao mesmo tempo, o maior peso dessas operações contribuiu para o avanço da inadimplência e da formação de ativos classificados em estágio 3.
O banco também realizou uma mudança pontual em sua política de baixa de créditos de cartões durante o trimestre.
Essa alteração acrescentou aproximadamente 30 pontos-base ao indicador de inadimplência acima de 90 dias, mas, de acordo com o Inter, não produziu efeito sobre provisões nem sobre o custo de risco.
Lucro recorde reduz pressão imediata
Apesar da piora nos indicadores de crédito, o balanço apresentou melhora expressiva na rentabilidade.
O lucro líquido atingiu R$ 421 milhões, maior resultado trimestral já registrado pelo grupo. O ROE chegou a 16,3%, enquanto a receita líquida cresceu 31,7% em relação ao segundo trimestre do ano passado.
A instituição também informou ter ultrapassado R$ 100 bilhões em ativos e alcançado o que classifica como neutralidade de capital — situação em que o crescimento pode ser sustentado pela geração interna de lucros, sem necessidade recorrente de aportes adicionais.
No Banco Inter, o índice de Basileia terminou junho em 14,4%, ante 14% no trimestre anterior.
O índice de capital nível 1 passou de 12,1% para 12,7% no mesmo período. A holding ainda informou possuir aproximadamente R$ 2,3 bilhões de capital excedente fora do conglomerado prudencial do banco.
Consignado privado vira teste para expansão do crédito digital
Os próximos trimestres deverão mostrar se a deterioração observada é predominantemente operacional, como sustenta o Inter, ou se parte dela persistirá mesmo depois dos ajustes nos sistemas e nos mecanismos de cobrança.
Essa diferença é decisiva.
Se o problema estiver concentrado no processo de transferência entre vínculos empregatícios, a melhoria da integração entre bancos, empregadores, eSocial e Portal Emprega Brasil pode reduzir atrasos sem necessariamente exigir uma retração significativa da oferta de crédito.
Se a inadimplência permanecer elevada mesmo após esses ajustes, o desafio passa a ser econômico: preço do produto, seleção dos clientes, capacidade de pagamento e adequação das garantias.
O próprio programa governamental ainda está em evolução. As garantias envolvendo FGTS e verbas rescisórias ganharam novas funcionalidades operacionais em junho e julho de 2026, pouco antes do encerramento do segundo trimestre.
Para o Inter, o tamanho alcançado rapidamente pela carteira aumenta a importância dessa evolução.
Em apenas um ano, o consignado privado passou de R$ 700 milhões para R$ 2,8 bilhões e tornou-se responsável pela maior parcela da deterioração anual da inadimplência mostrada no balanço.
Ao mesmo tempo, ajuda a elevar a margem financeira e continua sendo tratado pela administração como um negócio economicamente atraente.
O desafio agora será provar que essas duas características podem coexistir: crescimento acelerado e risco controlado.









