O investimento estrangeiro em ações brasileiras registrou saída líquida de US$ 2,794 bilhões em junho, segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta terça-feira, 28. O resultado amplia a retirada observada no mesmo mês de 2025, quando o saldo havia sido negativo em US$ 1,497 bilhão, e marca o segundo mês seguido de fluxo negativo na bolsa após o forte ingresso do início do ano.
De acordo com o Banco Central, o movimento de junho contrasta com o comportamento de outras modalidades da conta financeira. O investimento líquido em fundos de investimento no país ficou positivo em US$ 570 milhões, revertendo o saldo negativo de US$ 742 milhões de junho de 2025. Já o saldo de investimento estrangeiro em títulos de renda fixa negociados no mercado doméstico permaneceu no campo positivo, mas recuou para US$ 1,598 bilhão, ante US$ 4,560 bilhões no mesmo mês do ano anterior.
No acumulado de janeiro a junho de 2026, o quadro ainda é de ingresso líquido em ações. Segundo o Banco Central, o investimento em ações soma US$ 2,562 bilhões no semestre. O investimento em fundos acumula saída de US$ 1,736 bilhão, enquanto o saldo em títulos de renda fixa no mercado doméstico é positivo em US$ 5,510 bilhões.
Fluxo em ações registra segunda saída seguida na B3 e reduz saldo anual
Os números do Banco Central não refletem exatamente as negociações em pregão da B3, porque a metodologia do balanço de pagamentos considera a entrada e a saída efetiva de dólares contratados no mercado de câmbio, incluindo operações de câmbio relacionadas a investimentos. Ainda assim, a direção coincide com o que foi observado na bolsa.
Dados da B3 compilados por consultoria Elos Ayta mostram que os investidores estrangeiros retiraram R$ 7,785 bilhões no mercado secundário em junho, excluindo ofertas públicas iniciais e follow-ons. Foi o segundo mês consecutivo de saída, após a retirada recorde de R$ 14,91 bilhões em maio, a maior desde o início da série histórica iniciada em 2022. Quando se incluem IPOs e follow-ons, a saída líquida de junho foi de R$ 7,04 bilhões.
Apesar da desaceleração, o saldo anual permanece positivo em R$ 33,847 bilhões, segundo o levantamento, metade do recorde de R$ 69,070 bilhões registrado em 14 de abril. O montante é 26% superior ao observado no primeiro semestre de 2025. Somente em janeiro, o ingresso líquido havia sido de R$ 26,31 bilhões, superando todo o fluxo de 2025, que totalizou R$ 25,47 bilhões.
Fundos voltam ao positivo e renda fixa segura parte da carteira
A conta de investimentos em carteira no mercado doméstico somou, em maio, último dado detalhado divulgado no texto de estatísticas do setor externo, saídas líquidas de US$ 5,2 bilhões, com US$ 2,4 bilhões em ações e fundos e US$ 2,9 bilhões em títulos. Em 12 meses encerrados em maio, o ingresso líquido ainda era de US$ 20,8 bilhões.
O desempenho de junho mostra recomposição parcial. Conforme o Banco Central, a entrada líquida em fundos de US$ 570 milhões interrompe uma sequência de saídas, enquanto a entrada em títulos, embora menor que a de 2025, manteve o acumulado do ano no positivo.
A dinâmica reflete a diferença de sensibilidade entre ativos. Ações brasileiras são majoritariamente de valor, com peso elevado de commodities, bancos e empresas pagadoras de dividendos, enquanto títulos de renda fixa em reais se beneficiam do diferencial de juros. Em um ambiente de Selic ainda restritiva, o carrego em renda fixa continua atraindo parte do capital externo, mesmo com aversão a risco em ações.
Conta corrente tem déficit de US$ 2,33 bilhões e surpreende positivamente
O saldo negativo em transações correntes somou US$ 2,33 bilhões em junho, segundo o Banco Central. O resultado ficou abaixo da mediana esperada em pesquisa com especialistas, que apontava déficit de US$ 2,45 bilhões, e bem abaixo do rombo de US$ 5,177 bilhões registrado em junho de 2025. O déficit acumulado em 12 meses totaliza o equivalente a 2,46% do Produto Interno Bruto.
A melhora interanual decorre principalmente da balança comercial. De acordo com o Banco Central, o superávit comercial atingiu US$ 8,830 bilhões em junho, ante US$ 5,247 bilhões no mesmo mês de 2025, impulsionado por exportações de agropecuária e indústria extrativa.
Em sentido oposto, a conta de serviços registrou déficit de US$ 5,133 bilhões, ante déficit de US$ 4,386 bilhões em junho do ano anterior. O aumento está relacionado a despesas com telecomunicação, computação e informações, propriedade intelectual, transportes e viagens internacionais. A conta de renda primária apresentou déficit de US$ 6,466 bilhões, ante rombo de US$ 6,440 bilhões no mesmo período de 2024, pressionada por remessas de lucros e dividendos e pagamentos de juros.
IDP de US$ 9,07 bilhões supera projeção e financia rombo externo
O destaque do mês foi o investimento direto no país. Segundo o Banco Central, os ingressos líquidos somaram US$ 9,075 bilhões em junho, acima dos US$ 5,0 bilhões projetados em pesquisa e bem superior aos US$ 3,068 bilhões de junho de 2025.
A cifra foi suficiente para cobrir integralmente o déficit em transações correntes. Em maio, os ingressos já haviam sido de US$ 8,0 bilhões, com US$ 7,4 bilhões em participação no capital, dos quais US$ 3,0 bilhões em aporte direto e US$ 4,4 bilhões em lucros reinvestidos, além de US$ 0,6 bilhão em operações intercompanhia. O IDP acumulado em 12 meses até maio totalizou US$ 83,3 bilhões, equivalente a 3,38% do PIB, ante US$ 71,6 bilhões em maio de 2025.
O Banco Central revisou suas projeções no Relatório de Política Monetária divulgado em 25 de junho. De acordo com o documento, a estimativa para o déficit em transações correntes em 2026 passou de US$ 58 bilhões para US$ 56 bilhões, equivalente a 2,1% do PIB. A projeção para o fluxo líquido de entrada de IDP subiu de US$ 70 bilhões para US$ 75 bilhões, ou 2,8% do PIB. Nas contas da autarquia, a balança comercial deve ter superávit de US$ 78 bilhões neste ano, ante US$ 73 bilhões estimados em março, enquanto a despesa líquida com viagens foi estimada em US$ 15 bilhões.
Dívida externa bruta recua a US$ 405,6 bilhões com queda no curto prazo
O Banco Central estima que a dívida externa bruta atingiu US$ 405,683 bilhões em junho, ante US$ 407,626 bilhões em maio. A dívida externa de longo prazo somou US$ 293,795 bilhões, enquanto o estoque de curto prazo ficou em US$ 111,888 bilhões.
A estatística de dívida externa publicada pelo Banco Central, conforme nota explicativa da instituição, segue o padrão da sexta edição do Manual de Balanço de Pagamentos do Fundo Monetário Internacional e inclui, além da chamada dívida externa bruta tradicional, os estoques de operações intercompanhia e de títulos de dívida negociados no mercado doméstico detidos por não residentes.
O recuo mensal ocorre após meses de elevação. Em março, a dívida havia atingido US$ 394,1 bilhões, segundo séries históricas. A composição por setor institucional mostra predominância do setor privado. As reservas internacionais somaram US$ 371,1 bilhões em maio, com aumento de US$ 4,2 bilhões ante abril, impulsionado por retorno líquido em operações de linha com recompra e receitas de juros, o que amplia o colchão de liquidez para cobertura da dívida de curto prazo por vencimento residual.
Rotação para inteligência artificial e petróleo explica fuga da B3
A saída de estrangeiros da bolsa em maio e junho está ligada a uma rotação global de portfólios. Nos primeiros meses de 2026, o enfraquecimento do dólar, a expectativa de cortes de juros pelo Federal Reserve e valuations descontados atraíram recursos para emergentes, com o Brasil como um dos principais destinos.
A partir de meados de abril, o entusiasmo com empresas ligadas à inteligência artificial, após resultados fortes do primeiro trimestre nos Estados Unidos, promoveu migração de recursos para Estados Unidos, Coreia do Sul e Taiwan. No Brasil, o Ibovespa, com peso relevante em commodities, recuou 1,1% em junho, também afetado pela queda de cerca de 20% do petróleo no mês, após cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã aumentar a oferta.
No front doméstico, a sinalização mais dura do Comitê de Política Monetária, que indicou possibilidade de não cortar a taxa Selic no curto prazo, e incertezas fiscais relacionadas ao ciclo eleitoral de outubro reduziram o apetite por ativos de risco.
O movimento, segundo analistas, tem caráter tático, não estrutural. A avaliação predominante é de que o Brasil segue com múltiplo de preço sobre lucro projetado em torno de 8,4 vezes, um dos maiores descontos em relação a mercados desenvolvidos em anos, o que mantém espaço para retorno do capital estrangeiro caso haja normalização do petróleo e início do ciclo de afrouxamento monetário.
Riscos e próximos desdobramentos no radar do setor externo
A trajetória das contas externas segue sujeita a fatores externos e internos. Do lado externo, a indefinição sobre os termos de acordos no Oriente Médio, a volatilidade de preços de energia, fertilizantes e alimentos e a condução da política monetária nos Estados Unidos elevam a incerteza, conforme apontado no Relatório de Política Monetária.
Do lado interno, o Banco Central ressalta que a aceleração da atividade no primeiro trimestre, com consumo das famílias e formação bruta de capital fixo em alta, e o mercado de trabalho aquecido podem pressionar a conta de serviços e a renda primária por meio de viagens, fretes e remessas de lucros.
A próxima divulgação das estatísticas do setor externo, com os dados de julho, está prevista para o fim de agosto, quando também serão atualizadas as Tabelas Especiais com detalhamento por moeda e setor institucional da dívida externa. O mercado acompanhará ainda o fluxo cambial parcial de julho e a evolução do IDP, que tem se mostrado o principal financiador do déficit em conta corrente, equivalente a mais de 3% do PIB nos últimos 12 meses.










