O JPMorgan manteve o preço-alvo das ações preferenciais da Companhia Energética de Minas Gerais, a Cemig (CMIG4), em R$ 13 para o fim de 2027 e reiterou sua recomendação de venda para o papel. Em relatório divulgado nesta sexta-feira (18), o banco apontou que as incertezas relacionadas aos recebÃveis regulatórios e ao ambiente polÃtico de Minas Gerais ainda pesam mais nas estimativas do que a possibilidade de surpresas positivas nos resultados da companhia.
A avaliação ocorre depois de a Cemig apresentar crescimento operacional no segundo trimestre, mas registrar queda no lucro lÃquido. Entre abril e junho, a empresa apurou lucro de R$ 945,4 milhões, recuo de 20,4% sobre o mesmo perÃodo de 2025. Na direção oposta, o Ebitda ajustado alcançou cerca de R$ 2,47 bilhões, crescimento de 9,3%, enquanto a receita lÃquida avançou aproximadamente 3,4%, para R$ 11,5 bilhões.
O contraste entre os indicadores ajuda a explicar a cautela do banco. A operação apresentou expansão de receita e geração operacional, mas o resultado financeiro lÃquido passou de uma despesa de R$ 312,6 milhões no segundo trimestre de 2025 para R$ 795,9 milhões no mesmo perÃodo de 2026. A diferença de R$ 483,3 milhões representou uma deterioração superior a 150% nessa linha e contribuiu para limitar a conversão do avanço operacional em lucro lÃquido.
Eficiência operacional entra em fase de menor ganho incremental
Na avaliação do JPMorgan, parte relevante dos ganhos de eficiência que ajudaram a melhorar a estrutura da Cemig nos últimos anos já estaria incorporada à s premissas de desempenho. O banco trabalha com um cenário em que a companhia já opera com nÃvel elevado de eficiência, reduzindo o espaço para que novos programas de corte de custos produzam efeitos de magnitude semelhante aos observados anteriormente.
A avaliação precisa ser lida em conjunto com o plano de investimentos anunciado pela própria companhia. A Cemig aprovou um programa de R$ 44 bilhões para o perÃodo de 2026 a 2030, com forte concentração na distribuição. No Formulário de Referência de 2026, a empresa informa que R$ 29 bilhões do total previsto serão destinados ao segmento de distribuição.
Esse volume de capital torna a eficiência operacional especialmente relevante para a trajetória financeira da companhia. Investimentos ampliam a base de ativos e podem elevar a capacidade de geração de receita no longo prazo, mas também exigem financiamento e execução em escala. O relatório de análise da XP sobre o segundo trimestre, por exemplo, calculou alavancagem de 2,58 vezes e destacou que o programa de investimentos tende a pressionar a alavancagem no curto prazo.
No balanço do segundo trimestre, portanto, os números mostram duas dinâmicas simultâneas: o negócio operacional conseguiu ampliar o Ebitda, enquanto despesas financeiras mais elevadas reduziram a parcela desse desempenho que chegou ao lucro lÃquido. A receita maior também não foi suficiente para impedir uma retração de 20,4% do resultado final.
RecebÃveis regulatórios continuam sem catalisador de curto prazo
Outro ponto central para o JPMorgan é o potencial de recuperação de valores associados a questões regulatórias. O banco avalia que eventuais créditos ou compensações podem representar uma fonte de valorização para a companhia, mas considera limitado o potencial de materialização desses efeitos no curto prazo.
A ressalva está relacionada principalmente à s condições jurÃdicas necessárias para determinados ressarcimentos. Segundo a análise reportada, parte dos processos vinculados ao déficit hÃdrico dependeria de situações especÃficas nas futuras renovações de concessões, enquanto decisões judiciais restringiriam a dimensão de eventuais compensações.
A questão é relevante porque os negócios de geração da Cemig possuem exposição a contratos de concessão com diferentes horizontes. Ao mesmo tempo, a empresa vem estruturando investimentos para ampliar sua presença nos negócios de distribuição e geração em Minas Gerais. O planejamento estratégico divulgado pela companhia projeta investimentos de R$ 44 bilhões em cinco anos, o que faz com que o tratamento econômico de ativos e concessões tenha importância crescente para o retorno do capital empregado.
Na distribuição, a Cemig também está exposta a mecanismos regulatórios que afetam receitas e custos. O Formulário de Referência da Cemig Distribuição registra, entre outros riscos, a possibilidade de descasamentos de fluxo de caixa decorrentes da variação dos custos de compra de energia e da recuperação dos valores devidos por clientes. Em 2025, os recebÃveis em atraso da distribuidora somavam R$ 2,316 bilhões, ante R$ 1,698 bilhão em 2024.
Esse quadro ajuda a dimensionar por que o tema regulatório aparece entre os principais pontos acompanhados pelos analistas. Não se trata apenas de um potencial crédito extraordinário, mas de uma combinação de regras tarifárias, contratos de concessão, custos de energia, recebÃveis e decisões judiciais que podem alterar a trajetória de caixa dos negócios.
Eleições colocam privatização novamente no radar
O segundo fator citado pelo JPMorgan é o efeito das eleições estaduais de 2026 sobre a percepção em torno da Cemig. A empresa continua sob controle do Estado de Minas Gerais, e uma eventual alteração dessa estrutura poderia modificar a avaliação dos investidores sobre governança, alocação de capital, investimentos e valor dos ativos.
O banco, contudo, adotou cautela ao incorporar qualquer probabilidade adicional de privatização às suas estimativas. A instituição afirmou que pretende aguardar sinais mais concretos antes de atribuir valor a esse cenário.
A discussão institucional mudou de configuração ao longo de 2025. A Proposta de Emenda à Constituição 24/2023, apresentada originalmente pelo governo de Minas Gerais, pretendia retirar exigências constitucionais para a desestatização de empresas como Cemig, Gasmig e Copasa. Durante a tramitação, porém, o texto foi alterado e a Emenda à Constituição 117, promulgada em novembro de 2025, passou a tratar especificamente da Copasa, retirando a necessidade de referendo popular para sua privatização ou federalização. A Cemig deixou de integrar o alcance final da alteração.
A mudança é relevante para a leitura do risco polÃtico atribuÃdo à Cemig. A existência de uma discussão sobre desestatização não significa, por si só, que exista atualmente um processo de privatização da companhia em andamento. O histórico legislativo mostra justamente que a retirada da exigência de referendo para a Cemig não foi incorporada à norma constitucional aprovada em 2025.
Por isso, a estratégia adotada pelo JPMorgan é esperar evidências institucionais mais concretas antes de alterar suas premissas. O banco trata o tema como possibilidade capaz de afetar a percepção de valor, e não como evento já decidido.
Plano de investimentos aumenta importância da execução
A cautela do banco ocorre em uma companhia que mantém um ciclo de investimentos expressivo. O programa de R$ 44 bilhões até 2030 corresponde a uma média aproximada de R$ 8,8 bilhões por ano, considerando distribuição uniforme apenas como referência matemática. Do total, os R$ 29 bilhões destinados à distribuição representam cerca de 66% do programa.
A concentração dos recursos nesse segmento reforça a importância da execução regulatória e operacional da Cemig D. A companhia também terá de equilibrar expansão da infraestrutura, remuneração dos investimentos e estrutura de capital.
Os dados do segundo trimestre mostram que houve melhora no desempenho operacional. O Ebitda ajustado avançou 9,3%, enquanto custos e despesas cresceram cerca de 2,7%, segundo os números divulgados para o perÃodo. A diferença indica que a receita e o controle de gastos contribuÃram para ampliar a geração operacional, ainda que o resultado financeiro tenha absorvido parte relevante desse ganho.
A Cemig mantém calendário de divulgação de resultados ao longo do ano e prevê a publicação dos números do terceiro trimestre em novembro. A companhia também programou para novembro o Cemig Day, evento destinado à apresentação de informações estratégicas e operacionais aos investidores.
Esses próximos eventos deverão fornecer novos elementos para avaliar a evolução do plano de investimentos, da alavancagem e dos indicadores operacionais. Para o JPMorgan, entretanto, a mudança de percepção depende também de avanços nos temas regulatórios e de maior definição sobre o ambiente polÃtico envolvendo a estrutura de controle da empresa.
Até lá, a tese do banco permanece ancorada em uma combinação de crescimento operacional com menor espaço para ganhos adicionais de eficiência e incertezas sobre potenciais catalisadores extraordinários. O preço-alvo de R$ 13 para dezembro de 2027 foi mantido justamente sem incorporar, nas estimativas apresentadas, uma probabilidade maior de privatização ou uma recuperação regulatória de curto prazo.
Fontes:
Cemig – Formulário de Referência 2026, plano estratégico e informações sobre investimentos, riscos e estrutura financeira
Cemig – fato relevante sobre o plano de investimentos de R$ 44 bilhões para 2026-2030
Assembleia Legislativa de Minas Gerais – tramitação da PEC 24/2023 e Emenda à Constituição 117/2025
Cemig – Central de Resultados e divulgação de informações financeiras e operacionais de 2026








